A L E X
S E N S
O frรกgil toque dos mutilados RO M A N C E
V ENC EDOR DO P Rร M I O G OV ERNO DE M I NA S GER AIS DE LI TERATURA
A L E X
S E N S
O frรกgil toque dos mutilados
Agradecimentos
Sou profundamente grato à Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais pelo reconhecimento deste romance quando ele ainda tinha apenas um capítulo e venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2012 na categoria “Jovem Escritor”; sem o incentivo, não sei quando eu teria o estímulo necessário para terminá-lo. Assim, agradeço à comissão julgadora formada por Noemi Jaffe, Carlos Herculano e Marcia Tiburi, por enxergarem naquelas doze primeiras páginas o livro que aqui finalmente se apresenta como primeira parte de uma saga familiar. Marcia, querida, obrigado pela leitura generosa e pelas palavras carinhosas que deram um brilho a mais nesta edição. Jaime Prado Gouvêa, um dos primeiros leitores desse livro e cujos apontamentos sensatos ajudaram a lapidá-lo, obrigado pelo olhar generoso e apurado; suas palavras são indeléveis. Gostaria de agradecer imensamente a Marianna Teixeira Soares, minha agente, literária e secreta, por acreditar no meu trabalho e conseguir para ele essa ampla casa que é a Autêntica, além de me apresentar ao delicioso suco de caqui com água de coco que num certo outono tomamos em sua terra. Obrigado pela hospitalidade, pelo carinho, pela fé. Ao Grupo Editorial Autêntica e toda a equipe que trabalhou neste livro, obrigado pela competência. Rejane Dias, o seu SIM foi um dos maiores presentes da minha vida; obrigado 7
pela coragem de aceitar em sua casa um autor estreante com um “tijolo” debaixo do braço. Agradeço muito aos passarinhos que foram cantar nos ouvidos de Rejane, João Barile e Rogério Bettoni, vocês foram muito especiais e fundamentais em todo o processo. Mas é claro que eu não sei nada sobre isso. Gostaria de agradecer a minha melhor amiga Bárbara Petri, pela empolgação, pela luz, pelo sábio conhecimento que nos mantêm alinhados e com muita empatia pela Elisa. Obrigado Francine Ramos pela amizade, pelo incentivo, por acompanhar meu trabalho desde que Virginia Woolf nos apresentou há tantos anos. Obrigado Kátia Simone e Raimundo Neto pelas informações que lapidaram a psicologia dos personagens, pelas dicas de filmes e artigos, pela amizade e energia positiva. Muito obrigado a Juliana Gomes por me incentivar sempre e cochichar meu nome para a Marianna. Um agradecimento especial a minha amiga norueguesa Synnøve Fluge pelas aulinhas de norueguês, espero que você e sua belíssima família possam um dia ler estes agradecimentos e todo este romance em seu idioma tão mágico. Ainda preciso agradecer formalmente a nutricionista Ana Ceregatti, cujas informações sobre dieta vegetariana me ajudaram e continuarão me ajudando tanto nos próximos livros quanto em minha própria vida; e ao médico nefrologista Roberto Galvão, da Nefrolog, com o qual pude trocar ideias essenciais para desenvolver uma tensa parte deste livro. Por último, e mais importante, gostaria de agradecer a meus pais Anne Marie e Armando Mitsuo, aos quais dedico este livro: pelo amor, pelo incentivo, por enriquecerem minha vida com cultura e bom gosto, sobretudo por me deixarem trabalhar com as palavras e assim, sonhar cada vez mais, mais, mais e mais alto.
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Apresentação Marcia Tiburi
Magnólia trabalha com vinhos e gosta verdadeiramente de bebê-los. Herbert, com quem é casada, trabalha com literatura, tenta escrever um ensaio sobre Virginia Woolf, e gosta verdadeiramente de sua mulher. Orlando, irmão de Magnólia, viúvo de Sara, depois de ter sido radialista, tenta dedicar-se à pintura. Ele gosta imensamente de cerveja e tem um histórico de alcoolismo, como vários outros personagens dessa trama, em que cada um está em contato direto com um tipo de desespero, aquele que, vindo de dentro, ameaça arrebentar quem experimenta a vida apenas porque está, de algum modo, dentro dela. Sair apresentase a todo momento como uma possibilidade. Orlando vive com os filhos adolescentes na casa de praia, na qual recebe a visita da irmã e do cunhado. Não se viam há anos e, embora tudo seja desejo de aproximação e reencontro, um véu de beleza, de bons vinhos e de comidas saudáveis feitas por Orlando, encobre uma sorte de tensões familiares a todos nós. O mar é, para a ação que aqui se dá, um pano de fundo tão belo quanto trágico. O romance, desenhado com a meticulosidade da pena de Alex Sens, constrói-se nesse trânsito, sobre aquela espécie de dificuldade consigo que é vivida por cada pessoa quando ser e estar – diante de si mesmo e diante dos outros – não parecem nada simples. Quando a possibilidade de viver junto com os outros está a cada momento posta em xeque. 9
Podemos dizer que este O frágil toque dos mutilados se trata de um romance sobre uma espécie de desespero contido, aquele desespero que leva as pessoas a ações de heterodestruição e autodestruição bem concretas. A meditação se dá toda em torno dessa aparente simplicidade de um tempo em férias num lugar aprazível, em que cada um tenta encontrar um lugar para estar. Para estar junto com os outros, sem perder-se no todo. Para estar sozinho sem precisar sucumbir. E, assim situados, o que cada um espera é que possam, de algum modo, ser o que são. Que uns não aceitem os outros, que uns possam ser mais tolerantes do que outros, transparece como uma das ideias estruturadoras desta obra, arca onde segredos e silêncios são cuidadosamente guardados. O cerne, contudo, da história aqui perfeitamente narrada, é ocupado pela personagem Magnólia, mulher tão tensa quanto intensa, tão louca quanto ciente de sua loucura. Aquilo que no passado era o mero temperamento é, agora, diagnóstico médico. O que era a estética da existência torna-se um erro ao qual a personagem é condenada. Mas ela mesma sabe que não se trata de transtorno algum, assim como Orlando sabe que, no seu próprio caso, não se trata exatamente de alcoolismo. Assim como, do mesmo modo, a morte de Sara não foi exatamente uma morte. Antes, o que está em cena é o modo de ser próprio daqueles que, por todos os motivos do mundo, não cabem em si. É esse não caber em si, esse estar deslocado em um mundo mais do regrado, um mundo em que o ato de viver está mutilado, o que funda esse lindo, simples e complexo, assim como melancólico, e certamente, ao mesmo tempo, luminoso, livro de Alex Sens.
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Let everything happen to you Beauty and terror Just keep going No feeling is final. Rainer Maria Rilke
I am terrified by this dark thing That sleeps in me; All day I feel its soft, feathery turnings, its malignity. Sylvia Plath
I wish you could live in my brain for a week. It’s washed with the most violent waves of emotion. Virginia Woolf
Dia 28
Porque aquelas terríveis e perigosas arandelas em forma de tulipa eram voltadas para o teto, espalhando ali os tons acobreados que deveriam iluminar a varanda, os pingos de sangue podiam ser facilmente confundidos com as manchas tão comuns do deque de pinus autoclavado. Orlando ainda esfregava a cabeça e de vez em quando olhava preocupado para a própria mão em busca de um vestígio de sangue, encontrando sempre os mesmos dedos inchados e limpos. A cabeça doía exatamente naquela região onde os cabelos castanhos eram mais finos e convergiam numa clareira cuja única utilidade era a zombaria, envolvendo piadinhas sobre a chegada da aposentadoria, a compra de uma bengala, o pouso e decolagem de drosófilas insensíveis, ou o uso de um eficiente, embora secreto, spray para calvície – ele nunca entendera o que saía daquelas latas e como algo líquido poderia se transformar num espesso (ou nem tão espesso assim) tufo de cabelo. Ao contrário dele, Lourenço sangrava, ou parecia ter sangrado, porque o vermelho vazado do nariz se transformara num borrão. Osso e cartilagem ainda doíam, tanto que seus olhos permaneciam fechados, sua respiração pesada em uníssono com as fortes ondas que rolavam até a praia no início frio da madrugada. Na sala, a vitrola ainda estava ligada e pela porta aberta escapava o início de Bang Bang. A guitarra tocada em tremolo parecia vibrar as colunas da varanda, chegando à cabeça dolorida de Orlando e ao coração acelerado de Lourenço. Quando a voz de 13
Nancy Sinatra encheu a casa, Lourenço abriu os olhos. Ele havia se sentado de lado no primeiro dos três degraus que se abriam para o caminho de cascalho, de modo que foi impossível não perceber o sangue. A luz do abajur formava um reflexo alaranjado no chão desde a sala até a varanda, revelando os pontos escuros e opacos sobre a madeira. Ninguém sentiu o aroma metálico da tragédia porque a maior parte dela estava dentro da casa, coberta por um cardigã que nunca mais voltaria a ser branco. Ele pensou ver os pingos tremulando à vibração da música, mas era só o efeito da umidade dos seus cílios. Ainda estava chorando e não havia percebido. Ao seu lado, a cadeira chutada com fúria continuava caída; os pingos que seguiam pelos degraus eram menores e se misturavam ao cascalho como pequenos grãos de uma despedida triturada mais cedo. Bang bang, I hit the ground. Lourenço virou o rosto encharcado para as marcas dos pneus que desapareciam na elevação gramada. Seu nariz já não doía tanto. O problema estava no coração e na emoção estreita, apertada naquele silêncio inchado entre ele e Orlando, proibida de ser mais intensa do que a música. E também havia saudade. Tudo bem que não tinha se passado nem uma hora, mas o vazio que estava sentindo dizia alguma coisa. Orlando estava sentado desde a briga. Ele detestava a cadeira estilo Rietveld da qual não se desfazia por causa de Sara. Fora ela quem havia construído o móvel, separado os retângulos de carvalho, desenhado a estrutura, colocando uma ligeira curvatura no assento para que ficasse menos desconfortável, embora não tivesse feito o mesmo no espaldar, que mais lembrava uma tábua de passar roupas pintada de vermelho. Talvez o pior fosse o assento, mesmo encurvado, porque o problema estava naquela inclinação que tornava difícil para qualquer um levantar-se sem fazer esforço. Orlando achou que não se levantaria tão cedo, mas como não ouvia Nancy Sinatra havia mais de três anos, esqueceu-se de que o disco estava riscado, motivo pelo qual a agulha da vitrola o prendia quando a música chegava em sometimes I cry. Se ele não 14
fizesse um pouco de pressão sobre o cartucho, Nancy deixaria de chorar às vezes para chorar infinitamente, ou até que alguém mexesse na vitrola. Mas antes de levantar-se com muita dificuldade, ele sorriu. Foi um sorriso honesto e inesperado que ele mesmo não aprovaria, dada a circunstância, se houvesse um espelho por perto. Lembrou-se de quantas vezes ouvira Magnólia debochar da versão original de Bang Bang, dizendo que a voz modorrenta de Cher competia em termos de mau gosto com o ritmo cafona cigano de uma música transformada em arte por Nancy, uma de suas cantoras preferidas. Não foi nesta mesma noite que ela disse não ouvir mais música? E lá estava o antigo vinil de How Does That Grab You? empacado numa condição fatalmente humana, com a guitarra de Billy Strange latejando as últimas dores da casa e as primeiras daquele que seria um longo dia. Sometimes I cry... Sometimes I cry... Sometimes I cry... Lourenço se debateu na coluna de madeira porque a repetição o incomodava. Orlando parou de esfregar a cabeça e, tomando cuidado para não erguer-se de súbito, apoiou-se nos braços negros da cadeira. À medida que tinham consciência do presente e não do que acontecera havia menos de uma hora, os sons se tornavam nítidos e distintos. O mar parecia mais furioso, já era possível sentir a umidade fria chegando à prainha em frente à casa; o mensageiro dos ventos colocado muito alto na extremidade da varanda batia no capitel da última coluna e ainda não era mais irritante do que a gagueira de Nancy. Orlando passou por Lourenço com um olhar condolente, mas ele não o viu. Seus olhos ainda estavam nas marcas dos pneus e foi só quando Orlando abriu ainda mais a porta, que ele se voltou para a varanda, vendo-o caminhar até a vitrola e desligá-la. Agora o mar se impunha e os tubos de metal, que antes se chocavam contra a coluna, balançavam timidamente, como se o mecanismo que desligava a vitrola também tivesse desligado o vento. Orlando olhou em volta. A sala vazia e o cardigã vermelho encarnando uma poça de morte em frente à lareira. Antes de voltar para a varanda, ele viu a carta dobrada sobre o sofá. 15
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