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O desprezo - Como o sentimento de humilhação e falta de reconhecimento está alimentando o ressentime

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François Dubet

O DESPREZO

Como o sentimento de HUMILHAÇÃO e FALTA DE RECONHECIMENTO está alimentando o RESSENTIMENTO, o POPULISMO e a CRISE DAS DEMOCRACIAS.

François Dubet

O DESPREZO

Como o sentimento de HUMILHAÇÃO e FALTA DE RECONHECIMENTO está alimentando o RESSENTIMENTO, o POPULISMO e a CRISE DAS DEMOCRACIAS.

tradução e notas Flávia Falleiros

Coleção ESPÍRITO DO TEMPO

Copyright © Éditions du Seuil, 2025

Título original: Le mépris – Émotion collective, passion politique

Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial Arnaud Vin

editor responsável Eduardo Soares

preparação de texto Sonia Junqueira

revisão de texto Luiza Cordiviola

capa Diogo Droschi (Sobre imagem de Sashkin/ Adobe Stock.)

diagramação Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Dubet, François

O desprezo / François Dubet ; tradução e notas Flávia Falleiros. -- 1. ed. -- São Paulo, SP : Vestígio, 2026. -- (Espírito do tempo ; 11)

Título original: Le mépris

ISBN 978-65-6002-150-1

1. Ciência política 2. Democracia 3. Desigualdade social 4. DesprezoAspecto político - França 5. Ressentimento I. Título II. Série.

26-349580.0

CDD-302.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Relações do indivíduo na sociedade : Sociologia 302.5

Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

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Capítulo 3

Quedas simbólicas 49

Vocações rebaixadas 50

A crise do setor da saúde pública 57

A nação não é mais o que se pensava 59

O sentimento de ser um justo 62

Capítulo 4

Indivíduos desprezados 65

Da crítica normativa à experiência individual 66

A autonomia e as provas do indivíduo 69

“Querer é poder” 73

O desprezo contra os que desprezam 76

Mérito, culpabilidade e desprezo 79

Capítulo 5

Discriminados 85

Todos discriminados (ou quase) 87

Dos subúrbios comunistas aos guetos 90

Tolerância, reconhecimento ou “cultura de aeroporto”? 94

A concorrência do desprezo 98

Capítulo 6

Indignações e ressentimentos 103

“Temos que nos indignar!” 104

Ressentimentos 108

O estilo populista 111

Líder e culto do chefe 114

Capítulo 7

Raiva e fúria

Revisitando uma revolta

Os limites da democracia “de rotatórias” 125

Tumultos, ou a economia

moral da revolta 128

Conclusão

Pode o desprezo ser uma emoção democrática?

Os cidadãos são capazes

INTRODUÇÃO

O ESPÍRITO DA ÉPOCA

É O DESPREZO

multiforme e contraditório , o sentimento de desprezo vai além do desprezo de classe, tornando-se a energia emocional das forças e dos movimentos que ameaçam as democracias. Pois o desprezo, ou aquilo que se percebe como tal, está por toda parte. Ele apaga a crítica da exploração, que estava no cerne do pensamento e da ação das esquerdas, agora ameaçados pelos populismos. Não há sequer uma greve, uma mobilização, uma manifestação, uma sondagem de opinião que não denuncie o desprezo dos dirigentes e das elites. “Motoristas, eles estão mentindo! Cidadãos, vocês são desprezados!” – proclamava uma faixa do movimento dos Coletes Amarelos.1 O sentimento de desprezo se desenvolve entre aqueles e aquelas que são os mais dominados e os mais discriminados, porém não somente. Categorias profissionais inteiras são desprezadas: professores, trabalhadores da saúde, agricultores, como também o são as minorias, os moradores dos bairros

1 Forte movimento de reivindicação social que se estendeu por toda a França, durante meses, a partir de 2018. [N.T.]

populares e de territórios desfavorecidos. Os eleitores são desprezados, tanto quanto os “franceses da gema”,2 que veem ruir seu mundo, bem como os telespectadores que aderem às denúncias do “desprezo das elites”, do qual Cyril Hanouna, ele mesmo alguém que despreza, é o porta-voz.3

Cada um de nós pode se sentir desprezado quando a administração se revela impotente ou poderosa demais, complicada demais, lenta demais, invasora ou distante demais. Somos desprezados quando magoados por humoristas ou quando estes se autocensuram para não magoar ninguém. Evidentemente, os partidos políticos e os movimentos sociais mobilizam esses sentimentos de desprezo. Denunciam o desprezo aos cidadãos, ao mesmo tempo que desprezam seus adversários. O desprezo e as revoltas se aglutinam no ato de denunciar as elites: “cientistas”, “intelectuais”, “ricos”. Politicamente, o desprezo é maleável. Ele pode ser de direita ou de esquerda: tudo depende de suas vítimas, de seus autores e dos partidos que o mobilizam.

Os desprezados e os que desprezam

O sentimento de desprezo se insinua ainda mais porque se baseia em mecanismos sutis. Ele mantém à

2 No original, Français de souche, expressão que designa um suposto pertencimento cultural e etnicamente “puro” à nacionalidade francesa; é frequentemente empregada pelos conservadores e pela extrema direita. [N.T.]

3 Cyril Hanouna é um profissional de rádio e televisão francês, animador de programas de larga audiência. Seu comportamento tem sido considerado, no mínimo, polêmico, pois emprega sistematicamente, em suas falas, um tom agressivo que não raro se alinha a ideias reacionárias, racistas e xenófobas. [N.T.]

distância, sem insultar e sem odiar. Instala-se sem ser agressivo. Como não precisa ser justificado, manifesta-se por um gesto ou um olhar, ou até mesmo sob a forma de uma cortesia “polida demais para ser sincera”. A pessoa desprezada sabe que é desprezada, mesmo correndo sempre o risco de se sentir “paranoica” e perseguida, caso se exprima em voz alta. O desprezo é mais ativo que o desdém, que se limita a não ver. “O desdém é a borracha; o desprezo é o lápis”, diz, espirituosamente, Christian Vigouroux.4 O desdém nem sequer o enxerga; o desprezo, ao contrário, olha para você. Mas é preciso reconhecer que a diferença é mínima: sou desprezado quando alguém me vê demais ou me vê mal, mas também quando sou invisível. Quer se esteja do lado do desprezado ou daquele que despreza, muitas vezes de ambos ao mesmo tempo, o desprezo é um sentimento íntimo e inconfessável. É uma emoção que corrói. É insuportável sentir-se desprezado, pois quem é objeto de desprezo adere involuntariamente ao olhar daquele que o despreza; não fosse assim, bastaria desprezar o desprezo. O desprezo é pior que o ódio, porque ignora seu objeto, ao passo que o ódio o reconhece e lhe atribui com frequência um poder maior do que ele tem. Sua força é tão mais estranha quanto; nas sociedades democráticas, ele é um atentado ao princípio da dignidade igual entre as pessoas. Apesar das desigualdades sociais, ninguém deveria ser desprezado. “Eu te condeno”, declara o juiz; “Eu te ordeno”, diz o chefe, “mas não te desprezo”.

É preciso desenvolver mil estratégias, mil formas de cortesia, mil artimanhas para mascarar seu desprezo e para

4 Christian Vigouroux, La Société du dédain. Paris: Odile Jacob, 2022.

“acalmar o otário”.5 As feridas do desprezo nunca cicatrizam. Sem sequer mencionar os relatos dos trânsfugas de classe, que se tornaram um verdadeiro gênero literário, é possível citar Balzac, Céline, Flaubert, Maupassant, As palavras de Sartre e algumas centenas de romances, filmes e entrevistas. O desprezo é uma emoção profunda, violenta e perversa, porque se manifesta com discrição: um silêncio, um comentário sobre a roupa, sobre o sotaque, sobre os gostos, e assim por diante.

Alguém pode se sentir vítima de sexismo, de racismo, de desprezo de classe sem jamais ter sido agredido, como também pode ocorrer que alguém despreze sem querer. Graças às redes sociais e à Internet, o desprezo e as revoltas íntimas alcançam a esfera pública. Não é certeza que exista mais desprezo hoje do que ontem, mas é provável que o encontro entre o desejo de reconhecimento e as redes sociais tenha feito do desprezo umas das emoções mais banais e mais prontamente denunciadas.

O desprezo, porém, não é apenas íntimo. É também uma emoção coletiva e uma paixão política. Tanto o movimento dos Coletes Amarelos quanto os agricultores e os manifestantes contra a reforma da aposentadoria afirmam ser desprezados. O jornal Libération exibe a manchete “O desprezo” depois das eleições legislativas de julho de 2024. Os eleitores do Rassemblement National (RN) são “desprezados”, do mesmo modo que aqueles do

5 Dubet retoma parcialmente, aqui, o título de um estudo do sociólogo canadense Erving Goffman, “On cooling the mark out: some aspects of adaptation to failure”, publicado em 1952 (“Acalmando o otário: alguns aspectos da adaptação ao fracasso”). [N.T.]

Nouveau Front Populaire. 6 A palavra das mulheres e das pessoas LGBT é “desprezada”, como são “desprezados” os moradores dos bairros populares e os das regiões rurais. Essa primazia do desprezo é ainda mais surpreendente pelo fato de os dirigentes se esforçarem precisamente para não serem vistos como pessoas que desprezam. Seu modo de se comunicar é controlado, sua imagem é construída e controlada por profissionais que se esforçam para torná-los mais próximos das pessoas.

Contudo, não há um protesto que não denuncie o desprezo. Jovem, diplomado, rico, seguro de si, até mesmo arrogante, o presidente Macron simboliza essa civilização do desprezo.7 É sempre possível se consolar comparando os governantes franceses, relativamente civilizados, a Trump, Bolsonaro, Milei ou Orban, que fazem do insulto e da agressão um argumento político de rotina, em nome do desprezo de que seus eleitores seriam vítimas. Os veículos de mídia mais conservadores e mais agressivos na França, Valeurs actuelles e CNews, chegaram até mesmo a se especializar em denunciar o desprezo das elites conformistas, que gostam de dar lições sobre tudo. Ainda que os tiranos mais violentos sejam de direita, o desprezo

6 Rassemblement National: nome adotado em 2018 pela antiga Frente Nacional (Front National), de Jean-Marie Le Pen, de extrema direita, herdeiro do fascismo; pode ser traduzido como “Reagrupamento (ou Reunião) Nacional”. Já o Nouveau Front National (Nova Frente Popular) é uma coligação de partidos criada em 2024, por iniciativa de Jean-Luc Mélenchon, em oposição à extrema direita e aos aliados de Emmanuel Macron. [N.T.]

7 Ver, por exemplo, de Monique Pinçon-Charlot: Le Méprisant de la République. Paris: Éditions Textuel, 2023; e, de Danièle Sallenave: Jojo, le Gilet jaune. Gallimard, 2019.

é compartilhado por toda parte e por todos: basta notar quantos líderes da esquerda são acusados de desprezar os eleitores de extrema direita, que, segundo eles, são imbecilizados pela mídia, são “lamentáveis” ou simplesmente “não prestam”, segundo palavras que Hillary Clinton e Joe Biden deixaram escapar em suas declarações.

O desprezo se difunde para muito além das divisões que opõem classes sociais, gêneros e identidades culturais, porque ele é menos uma relação social que uma cadeia de emoções. Cada um, por sua vez, é vítima do desprezo, ou agente dele. Os que sofrem o desprezo desprezam outros, a fim de se outorgar um pouco de dignidade. Os políticos nos desprezam, mas são desprezados pelos eleitores. Os graduados desprezam os que não passam na seleção escolar, mas os professores são desprezados pelo ministério, pela mídia, pelos pais e pelos alunos. Os trabalhadores pouco qualificados são desprezados pelos patrões e pelas elites, mas não é raro que desprezem os estrangeiros e os mais pobres que eles, acusados, por sua vez, de desprezá-los por se aproveitarem do sistema. As mulheres e as minorias sexuais e raciais são desprezadas pelos homens brancos, que se sentem, também eles, desprezados, esquecendo seus diversos privilégios. É em nome desse desprezo que Donald Trump, um bilionário habituado a insultar seus adversários, mobiliza os homens contra as mulheres, os brancos contra os imigrantes e os sem diploma contra a elite intelectual. E ele não é o único.

O fato de ser desprezado não impede, portanto, que se despreze também, não somente aqueles que nos desprezam, e mais ainda outros que, supostamente, mereceriam um desprezo maior. O desprezo é uma rede relacional de

grande adaptabilidade. Cedo ou tarde, todo mundo é alvo potencial de desprezo, e as próprias maiorias se sentem desprezadas ou vítimas de racismo social. Sou desprezado quando ignoram minha cultura, mas também quando a representam e “se apropriam dela”. Sentimo-nos “insultados” por uma decisão que desaprovamos: o retorno de Mathias Vicherat8 à universidade Sciences Po seria, assim, “uma ofensa e uma marca de desprezo para com todas as vítimas de violências sexistas e sexuais.9 Nesse caso, como qualificar o desprezo com que os governantes trataram o documento com as reivindicações do movimento dos Coletes Amarelos, preparado a pedido para ser endereçado ao presidente, como se fazia há dois séculos e meio, dirigindo-se ao rei?

Por uma sociologia geral

O desprezo alimenta o ressentimento e divide uma sociedade na qual todos acabam desprezando e sendo desprezados. O desprezo corrói a democracia, e é difícil não pensar assim quando se vê o quanto os regimes autoritários e os demagogos reacendem incessantemente as mais tristes paixões.10 Porém, essa visão submetida a uma assepsia, opondo as más paixões aos interesses

8 Alto funcionário público francês e antigo diretor daquele prestigioso instituto de Ciências Políticas e Sociais, acusado, em 2023, de violência doméstica contra sua companheira. [N.T.]

9 De acordo com a União Estudantil de Ciências Políticas, jornal Libération, 14 de março de 2024.

10 François Dubet, O tempo das paixões tristes. São Paulo: Vestígio, 2020.

razoáveis, não é de todo convincente.11 Se parece óbvio que o sentimento de desprezo não é uma paixão virtuosa (como a fraternidade e o amor pela justiça), não se deve desprezar o desprezo – e, portanto, desprezar aquelas e aqueles que se sentem desprezados –, como nos incitaria uma leitura consagrada das teses nietzscheanas do ressentimento e da inveja.

A primazia do desprezo não se atenuará de um dia para o outro com uma troca de presidente ou de governo. Ele decorre das transformações profundas da estrutura social, dos regimes de desigualdade, das mutações culturais e até mesmo da definição da subjetividade dos indivíduos.

A sociologia do desprezo deve ser uma sociologia social, na medida em que o desprezo cristaliza o encontro das relações de dominação com as concepções culturais do que deveria ser um indivíduo. Ele é o revelador negativo do funcionamento de nossas sociedades. Sendo o desprezo uma das mais velhas emoções que existem, como caracterizar esse que nos invade nos dias de hoje? O desprezo de classe continua bem, mas, paradoxalmente, a explosão do sentimento de desprezo procede do longo esgotamento da sociedade industrial e das relações de classe que a constituíam. Diferentemente da classe operária de outrora, os novos proletários praticamente não são protegidos por um sentimento de orgulho e por uma identidade coletiva. Eles não são mais considerados como o coração pulsante da sociedade e de sua historicidade, de sua capacidade de agir por si mesma através do trabalho, dos conflitos de classe e da capacidade de agir para a mudança.

11 Michael Walzer, Raison et passion. Pour une critique du libéralisme. Belval: Éditions Circé, 2003. Trad. Camille Fort-Cantoni.

Hoje, sentem-se desprezados aqueles que têm a impressão de ver passar o trem da História, de estar fora das grandes cidades, dos setores dinâmicos, da inovação, das novas qualificações profissionais. Eles são desprezados porque foram excluídos das mudanças, porque “não estão mais sabendo de nada”, porque devem se sujeitar às novas tecnologias e à globalização do comércio, porque não se encontram mais no centro das mudanças, porque veem muito bem que a sociedade não é mais o Estado-nação a que se referiam.

Da mesma maneira, sentem-se desprezados os profissionais das instituições cuja autoridade declina sem que sua situação material ainda se degrade por isso. O professor do ensino fundamental da Terceira República não era mais bem pago, mas se beneficiava da autoridade da instituição escolar. Em certa medida, ele “encarnava” a República. Ora, essa forma de autoridade e de prestígio está em declínio. Os professores consideram-se então desprezados, não porque sejam realmente (as pesquisas indicam o contrário), mas porque se tornaram assalariados como quaisquer outros. Diversas profissões, especialmente as da área da saúde e as da assistência social, são arrastadas na mesma queda simbólica. As vocações profissionais que personificavam o progresso, a nação, o sacrifício e a emancipação são agora, simplesmente, ofícios considerados mais ou menos “qualificados”.

Feridas narcísicas

O reinado do desprezo não se explica somente pelas transformações da estrutura social e das instituições. Ele também é resultante da longa mutação das subjetividades.

Para ser mais sintético: quanto mais os indivíduos são livres, autônomos, responsáveis e singulares, quanto mais eles devem ser os autores da própria vida, mais eles se sentem ameaçados pela possibilidade de serem desprezados, caso fracassem. Quanto menos estão à altura de seus projetos, mais sua autoestima se degrada e mais eles se sentem desprezados. Aqui, o desprezo resulta menos da decomposição das antigas formas de integração social que da promoção do individualismo e das provações que o acompanham. É evidente que a Internet e as redes sociais aceleram esse processo, já que qualquer um pode ser tentado a se expor para existir mais intensamente, mesmo sendo ameaçado pelo olhar de todos.

Sou desprezado porque minha verdadeira identidade não é reconhecida. Diante da necessidade legítima de reconhecimento, corre-se o risco de cair em uma guerra silenciosa de identidades, na qual as majoritárias e dominantes também se sentem ameaçadas, porque deixam de ser a norma cultural, sexual ou religiosa. Quando não estão mais em evidência, sentem-se desprezadas por um “wokismo” amplamente imaginário, e esse desprezo faz com que os eleitores se inclinem para uma aliança entre um conservadorismo assumido e um liberalismo econômico desenfreado.

Na maioria das vezes, o desprezo corrói e denuncia, mas raramente age, não passa da indignação para a responsabilidade. Ataca-se então o “sistema”, e grande parte da mídia e dos intelectuais tornam-se porta-vozes desse desprezo. Ainda que ele não possa ser reduzido ao ressentimento nem à discriminação, está claro que ele é a emoção dos partidos de estilo populista, prontos a construir um “povo” definido, antes de mais nada, em oposição a seus

inimigos, em vez de elaborar reivindicações, programas negociáveis e uma saída para os conflitos.

O desprezo é o combustível dos demagogos e dos tiranos. Sua primazia pode levar ao pior, e isso já é o que se vê em muitos países. Quando se é objeto de desprezo, é preciso se vingar de quem despreza, mesmo que apoiando certas verdades alternativas em nome do “respeito” devido a cada um: por que a minha opinião sobre a física quântica e os citomegalovírus seria menos respeitável e, portanto, menos verdadeira que a dos cientistas?

Mas o desprezo também é uma emoção com capacidade de adaptação, podendo levar à ação, ao protesto e à crítica. Para retomar as palavras de Eric Hobsbawn, ele é, hoje, a energia dos “primitivos da revolta”.12 Como fazer dele uma força democrática? Isso obriga a compreender essa emoção sem considerá-la como a voz autêntica do povo ou de qualquer indivíduo revoltado. É preciso explicar como se forma e como funciona essa força, a fim de tentar conter seus efeitos devastadores.

12 Eric J. Hobsbawn, Rebeldes primitivos: estudo sobre as formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Trad. de Berilo Vargas.

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