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O conceito de historia

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O conceito de História Reinhart Koselleck Christian Meier Horst Günther Odilo Engels COLEÇÃO HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA


O conceito de Hist贸ria


Coleção

HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA Coordenação

Eliana de Freitas Dutra

Reinhart Koselleck Christian Meier Horst Günther Odilo Engels

O conceito de História

Tradução

René E. Gertz Revisão técnica

Sérgio da Mata


© 1975 Klett-Cotta - J.G Cotta’sche Buchhandlung Nachfolger GmbH, Stuttgart Copyright © 2013 Autêntica Editora

coordenadora da coleção história e historiografia

Capa

Eliana de Freitas Dutra Título original

Teco de Souza (Sobre imagem de Chaosdna)

Geschichte, Historie

diagramação

Tradução

Conrado Esteves

René E. Gertz

Revisão

Revisão técnica e de tradução

Dila Bragança de Mendonça

Sérgio da Mata

Editora responsável

Rejane Dias

Revisado conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde janeiro de 2009. Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

Autêntica Editora ltda. Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar . Funcionários 30140-071 . Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214 5700 Televendas: 0800 283 13 22 www.autenticaeditora.com.br

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) O conceito de História / Reinhart Koselleck...[et al.] ; tradução René E. Gertz. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2013. -- (Coleção História e Historiografia, 10) Outros autores: Christian Meier, Horst Günther, Odilo Engels Título original: Geschichte, historie. ISBN 978-85-8217-150-9 1. Conceitos 2. História - Filosofia 3. História - Teoria I. Koselleck, Reinhart. II. Meier, Christian. III. Günther, Horst. IV. Engels, Odilo. V. Série. 13-06383 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Filosofia 901

CDD-901


Nota do tradutor

René E. Gertz*

Este livro apresenta a tradução do verbete “Geschichte, Historie” da obra Geschichtliche Grundbegriffe: historisches Lexikon zur politischsozialen Sprache in Deutschland, editado por Otto Brunner, Werner Conze e Reinhart Koselleck, e publicado pela editora Klett-Cotta, de Stuttgart/Alemanha, em 1975 (volume 2, p. 593-717). Na reprodução dos nomes próprios da Antiguidade e da Idade Média, fez-se um aportuguesamento na medida em que se constatou que essa versão é corrente entre historiadores de fala portuguesa especializados no respectivo tema. Quando não foi possível encontrar referências a uma versão aportuguesada, os nomes foram mantidos na forma em que se encontram no original alemão. Nas referências bibliográficas, mantiveram-se os nomes dos autores e das obras na forma em que se encontram no original alemão, porque não foi possível realizar uma pesquisa para apresentar eventuais publicações com traduções para o português. O sistema alemão de referenciação bibliográfica é diferente do brasileiro, não citando, via de regra, as editoras que publicaram os respectivos textos, restringindo-se ao local de edição. Também não foi possível sanar essa lacuna. Duas pessoas foram fundamentais na realização desta tradução: Temístocles Américo Corrêa Cezar (UFRGS) e Sérgio da Mata (UFOP). O primeiro por ter insistido durante anos para que a tradução fosse feita; o segundo, por ter feito uma minuciosa e enriquecedora revisão. Se o texto na versão aqui apresentada possui algum mérito, ambos são corresponsáveis. Pelos erros, o tradutor, evidentemente, responde sozinho. René Gertz é doutor em Ciência Política pela Freie Universität Berlin (1980), onde também fez estágio de pós-doutorado (1995). Professor-titular na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professor-associado (aposentado) da UFRGS, é organizador e tradutor dos volumes A nova historiografia alemã (UFRGS, 1987), Max Weber & Karl Marx (Hucitec, 1997) e Historiografia alemã pós-muro: experiências e perspectivas (UPF/EDUNISC, 2007).

*


I

Introdução* Reinhart Koselleck

O fato de “História” ser um conceito histórico básico parece decorrer da própria palavra. Mas a expressão possui sua própria história, a qual somente ao final do século XVIII lhe permitiu ascender à condição de conceito mestre, político e social. Abrangendo tanto passado quanto futuro, “a História” se transformou num conceito regulador para toda a experiência já realizada e ainda a ser realizada. Desde então, a expressão ultrapassa em muito os limites de simples narrativa ou de ciência histórica. Por outro lado, a “Historie”, como conhecimento, narrativa e ciência, é um fenômeno antigo da cultura europeia. Não há dúvida de que a narração de histórias faz parte da sociabilidade dos homens. Mais: sem histórias não há memória, não há nada em comum, não há autodefinição de grupos sociais ou de unidades de ação políticas, os quais só conseguem se constituir em elementos agregadores através de memórias comuns. Esse tipo de “histórias” naturalmente não são conceitos básicos, mas se mantêm como narrativa daquilo que estava em jogo numa determinada história. Pode se tratar da história de uma batalha, de um ato jurídico, de uma viagem, ou de um milagre, do assassinato de um rei, ou de um amor. Sempre se narra de quem trata e de que trata a história. Até esse ponto, a expressão “uma história” não constitui qualquer conceito básico, no máximo aquilo que, *

Agradeço aos estudantes de dois seminários por comentários, ajudas e correções, em especial aos senhores Horst Günther, Jörg Fisch, Rolf Reichardt e Reinhard Stumpf.

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O conceito de História

como um somatório de uma narrativa, pode, ao seu final, ser subsumido num conceito. O fato de que a História se refira à “própria História” [Geschichte selber], e não a uma história de algo, constitui uma formulação da Era Moderna. Somente assim, pouco antes da Revolução Francesa, a antiga palavra usual se transformou num conceito central da linguagem política e social. Esse conceito de “História em si e para si” [Geschichte an und für sich] incorporou uma teia de significados, seguidos como trilhas neste texto: a História como acontecimento e sua narrativa, como destino e como informação a seu respeito, como providência e sinal a respeito, todo conhecimento da Historie como coletânea de exemplos para uma vida piedosa e justa, prudente e até sábia. Sem renegar todas elas, o moderno conceito de História articulou muitos dos sentidos antigos. Em contrapartida, a novidade está no fato de que o conjunto do emaranhado de relações político-sociais deste mundo, em todas as suas dimensões temporais, deva ser entendido como “História”. Em todos os sentidos em que antigamente se podia evocar justiça ou castigo, violência, poder, providência ou acaso, Deus ou o destino, se podia recorrer, desde o final do século XVIII, à História. Novos significados, que antes não se conseguiam resumir linguisticamente num conceito único foram agregados: a História como processo, como progresso, como evolução ou como necessidade. “História” se transforma num amplo conceito de movimento. De outro lado, se abre um novo espaço de significados: “História” como campo de atuação e como ação, como liberdade. A História torna-se planejável, produtível, factível. De “História” decorre também um conceito de ação. As duas variantes – o lado objetivo e o lado subjetivo –, que se excluem mutuamente, conferem ao conceito uma ambivalência que lhe é inerente desde então. Sua utilização como palavra de ordem, sua suscetibilidade à ideologia e sua capacidade de crítica da ideologia derivam desse fato. A configuração do novo conceito indica um processo de adensamento de um tipo de experiência pelo qual se passou no período da Revolução Francesa, criando novas expectativas. A expressão 38


Introdução

reflete a conscientização daquilo que era vivenciado como nova era, justamente naquilo que se considerava como único e diferente de tudo aquilo que houvera até então. O início da Neuzeit, do novo tempo, da Era Moderna, evidentemente, constitui um processo de longo prazo, e somente no seu final se encontra o reconhecimento do caráter processual desse período: isto é, a descoberta da “História como tal” [Geschichte überhaupt], como resultado do Iluminismo. Antes disso, existia uma multiplicidade de Histórias, que em geral apresentavam similitudes entre si ou que até se repetiam – histórias com alguns sujeitos que agiam ou eram objeto da ação, ou ainda (na narrativa) com objetos determináveis. Desde o século XVIII existe uma “História propriamente dita” [Geschichte schlechthin], que parecia ser seu próprio sujeito e seu próprio objeto, um sistema e um agregado (como se dizia na época). Espacialmente corresponde-lhe a História mundial [Weltgeschichte] única, e temporalmente o caráter único do progresso, o qual somente com a “História” foi guindado a conceito – isso antes que ambos os conceitos fossem se afastando um do outro, gradativamente, no decorrer do século XIX. Uma das características estruturais dessa nova História é que ela reduziu a um mesmo conceito a contemporaneidade de coisas não contemporâneas, ou a não contemporaneidade de coisas contemporâneas – aproximando-se também aqui ao progresso. Isso é válido não só no sentido evidente de que toda e qualquer narrativa traz o passado para o presente, eliminando, dessa forma, as diferenças temporais que tematiza. Muito além disso, a realidade da História moderna se compõe de uma multiplicidade de transcursos que, pelo calendário, são contemporâneos, mas que pela origem, pelo objetivo e pelas fases de desenvolvimento não são contemporâneos. Disso decorrem tensões, perspectivas de retardamento e de aceleração, distorções e uniformizações, que fazem parte da temática de nossa História mundial [Weltgeschichte]. A contemporaneidade do não contemporâneo já se delineia na Historie antiga, quando os helenos descobriram – a partir de sua perspectiva –, entre os bárbaros, formas de comportamento característico de estágios culturais que eles próprios já haviam percorrido. 39


O conceito de História

A tensão temporal foi reforçada pela expectativa da vivência cristã. Ela inclui a esperança em um futuro cuja promessa de salvação determina o próprio presente, enquanto um pagão ficaria preso ao passado pré-cristão. Desde a descoberta de que nossa Terra é uma esfera, a contemporaneidade do não-contemporâneo se transformou numa experiência de todos os povos que habitam este globo. Desde então, a História é temporalizada, em um sentido genuíno. O tempo passa a ser estratificado, não mais só como vivenciado ao natural, mas também como forma de realização e resultado da ação humana, da cultura humana e sobretudo da técnica humana. Somente a partir do momento em que aceleração e retardamento conseguem medir diferenças de experiências, cuja equalização se transforma em Leitmotiv de uma ação político-social, e só a partir do momento em que isso se vincula à expectativa de um futuro planejável, é que existe o conceito de História. “História” – como conceito-legitimador – vai muito além de sua aplicação científica. Ele conseguiu reunir as experiências e as esperanças da Era Moderna numa só palavra, a qual conseguiu se tornar, desde então, termo de discórdia e palavra de ordem em nossa linguagem político-social.

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