Filipe Vilicic
O clube dos
Como Ăcones rebeldes construĂram o maior fenĂ´meno da internet e se tornaram os principais influenciadores da juventude brasileira
Filipe Vilicic
O clube dos youtubers Como ícones rebeldes construíram o maior fenômeno da internet e se tornaram os principais influenciadores da juventude brasileira
ilustrações de
Fabiane Langona
Copyright © 2019 Filipe Vilicic Copyright © 2019 Editora Gutenberg
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
capa
Rejane Dias
Diogo Droschi (sobre imagem de Fabiane Langona)
preparação
Carol Christo
diagramação
Diogo Droschi
revisão
Samira Vilela
ilustrações
Fabiane Langona
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Vilicic, Filipe O clube dos youtubers : como ícones rebeldes construíram o maior fenômeno da internet e se tornaram os principais influenciadores da juventude brasileira / Filipe Vilicic – 1. ed. – Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2019. ISBN: 978-85-8235-601-2 1. Mídia social 2. YouTube (Recurso eletrônico) - Internet - Influência 3. Internet - Vídeos - Aspectos sociais 4. Biografia 5. Celebridades da Internet - Relatos I. Título. 19-27522 CDD-302.231 Índices para catálogo sistemático: 1. Mídia social : Comunicação : Youtubers : Relatos biográficos : 302.231 Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639
A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
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(antes do play) 7
Como fazer para ler este livro
PARTE 1 | TUTORIAL 15
A festa dos 120 youtubers
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E a festa dos 10 milhões de fãs
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A ressaca depois da festa
PARTE 2 | VIRALIZOU 71
A entrada é pelos fundos
101
De repente musas
122
A má influência (ao menos aos olhos dos pais)
161
A boa influência (ao menos aos olhos dos pais)
PARTE 3 | COMO SER UM… YOUTUBER 179
Dicas profissionais
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A galinha dos ovos de ouro
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A escola de youtubers
PARTE 4 | ÔNUS E BÔNUS 209
Amor e ódio
229
O peso
(antes do play) Como fazer para ler este livro
por este livro da forma como faz no YouTube. Dá para ir pra frente e pra trás. Também é possível escolher seu canal favorito, o youtuber de quem é fã (ou de quem seu filho é fã), e pular direto para ele. Assim irá conhecer a história daqueles que mais gosta (ou que seu filho gosta). Antes de cada capítulo – assim como naqueles descritivos dos vídeos que contam com vários canais ao mesmo tempo –, há uma lista dos youtubers que podem ser encontrados naquele trecho. No primeiro capítulo, já vai se deparar com uma festa em que estavam mais de 120 youtubers, incluindo os maiores dentre eles, como Whindersson Nunes e Júlio Cocielo. Os capítulos são divididos em quatro seções. Recomendo lê-las em sequência, mas também pode encará-las como aquelas marcações amarelas dos vídeos do YouTube. O primeiro trecho é um Tutorial, seu primeiro contato com o mundo das celebridades conectadas. Acha que sabe da vida dos youtubers porque os acompanha pela internet e pelas redes sociais? Talvez saiba apenas o que consegue ver pela tela do celular ou do computador. Quando digo que terá seu contato inicial com eles, quero dizer que saberá bem mais de como as coisas realmente funcionam. Como vivem os youtubers? Ganham fortunas? Como viralizaram? São amigos uns dos outros? Inimigos? Frequentam as festas mais badaladas? Usam drogas? Quais? Vida de youtuber é fácil? Tudo peneirado por histórias deliciosas que refletem a realidade do século XXI, a exemplo da espantosa ascensão de Whindersson VOCÊ PODE NAVEGAR
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Nunes, que foi de garoto pobre do Piauí a uma das maiores e mais ricas celebridades do país. A segunda seção, a Viralizou, é permeada por outra pergunta: quais são as consequências de viralizar na internet? Os criadores do Porta dos Fundos compartilham as dores, as angústias e a glória da saga que os levou a criar o que um dia foi o primeiro grande canal brasileiro. Para poderem fazer seu humor ácido, tiveram de encarar políticos, policiais e até agressões na rua. Um dos integrantes do Porta conta que acordou um belo dia com uma penca de policiais federais na entrada de seu apartamento, no estilo “sendo abordado por causa da Lava Jato”, como ele mesmo conta aqui neste livro. São muitos os efeitos de viralizar. Um youtuber, Cauê Moura, já teve de lidar com um provável terrorista muçulmano. Natalia Kreuser foi pega de surpresa por um fã na porta de seu prédio, ainda com suas compras nas mãos. Lully está cansada de receber nudes de caras desconhecidos. Um indígena estudou para a faculdade com a ajuda de canais como o Matemática Rio e o Física Total. Já a terceira seção, Como ser um... youtuber, vai ajudar, como o nome já diz, quem um dia quer ser como eles. Lá tem do sucesso da Galinha Pintadinha à história dos criadores do Pipocando, que eram desacreditados pelos próprios pais – hoje, um desses pais é quem serve o cafezinho na empresa do Bruno Bock e do Rolandinho. Há também um raio-x de como funciona a escola de celebridades do YouTube – sim, ela existe. Além disso, nessa parte da leitura, irá entender como o YouTube, assim como toda a internet e, em especial, as redes sociais, tem passado por uma transformação perigosa, deixando de ser anárquico, com elementos de revolta, como um dia já foi, para virar algo mais profissional, mas também mais (ou bastante) careta. Por fim, na parte Ônus e bônus, conhecerá a história por trás da câmera, em muitos detalhes, de um dos maiores (e mais polêmicos) youtubers. Quando já estava com quase dez anos de YouTube e sendo um dos pioneiros desses mares no Brasil, Felipe Neto enfrentou e venceu as diversas fases dessa nova profissão do século XXI. O descrédito inicial, na época em que lhe falavam que seria um fenômeno passageiro. Era então um garotão de seus 20 e poucos anos, achando-se rebelde quando 8
ficou famoso por xingar, descer o cacete, em fenômenos então amados por jovens como ele, de Justin Bieber e Crepúsculo a Fiuk, o filho galã do Fábio Junior. Transformou-se em empresário, humorista, ator de si mesmo e, passados quase dez anos, dono de um canal de YouTube com mais de 30 milhões de fãs, consagrando-se no ano de 2019 como o mais importante, comentado, amado e odiado youtuber brasileiro. Deu fama a seu irmão, sua ex-mulher, sua namorada, seus amigos. Transformou-se em magnata em uma mansão chamada Netoland, onde vive cercado por seguranças e câmeras. Também se elevou, de forma surpreendente para boa parte do público, a uma das vozes mais ativas e um dos líderes populares da oposição a Jair Bolsonaro, presidente de extrema direita do Brasil, conhecido por ideologia e visões de mundo homofóbicas, racistas, xenófobas, autoritaristas, bélicas e obscurantistas (anti-iluministas). Neste livro, não encontrará aquele youtuber que vê na tela do celular. Encontrará muito mais que isso. Não ficará no superficial, não se restringirá ao que todos já sabem. Você vai descobrir as histórias que ninguém sabe. Nem o Treta News. Antes de continuar a ler, proponho um exercício para esquecer muito do que pensa conhecer sobre a vida dos youtubers. Há aquele estereótipo, ao qual os pais adoram recorrer nos almoços de família: uma garotada que acordou um belo dia, pegou o celular, resolveu gravar um vídeo sobre alguma besteira (Minecraft? Piadas sobre comerciais da TV?), jogou na internet e… abracadabra, deu certo, ganhou uma multidão de fãs e uma fortuna de dar inveja em empresários gabaritados. Mas a real é que não é tão simples. Longe disso. Então sente-se, desligue o celular, coloque para tocar uma daquelas playlists de meditação do Spotify, desvincule-se dos youtubers que mais ama (ou tente esquecer o que acha que sabe sobre os youtubers amados por seus filhos), recorde que eles são humanos exatamente como você, e siga. E o que é ser um youtuber? Para quem entra no YouTube e vê aquela garotada falando – e, convenhamos, muitas vezes gritando – sobre coisas corriqueiras da vida, pode acreditar mesmo que a isso se resume a nova profissão do século XXI – que, aliás, parece atrair tudo quanto 9
é jovem. Se antes o sonho típico de um adolescente brasileiro era ser jogador de futebol ou atriz, hoje a meta passou a ser youtuber. A prova está nos números: mais da metade das celebridades mais admiradas pelos adolescentes brasileiros ganha a vida (e muitas vezes enriquece) postando vídeos no YouTube. O sonho não poderia ser mais atraente: tornar-se milionário falando “da vida”, de aventuras cotidianas, games, esportes, ou fazendo pegadinhas. Pode ser sobre qualquer coisa, qualquer paixão. Inclusive futebol. Alguns pais, aqueles nascidos em outras gerações, pré-internet, préFacebook, pré-WhatsApp, pré-Instagram, pré-Twitter, pré-YouTube, costumam repetir por aí que essas figuras lhe parecem “dispensáveis” e “inúteis”. Alguns dizem “decepcionantes”. Qual seria a contribuição de um garoto que enriquece jogando Minecraft? Ou de uma menina de cabelos coloridos (verde, amarelo, azul, tudo junto) que fala sobre as emoções de ser adolescente, sobre a angústia de se encarar espinhas ou sobre a primeira TPM? Ou de um cara que resolve reclamar de tudo em frente a uma câmera, com um taco na mão, batendo na mesa? E o que falar de um vídeo com dicas sobre qual é a melhor forma de avisar uma amiga que ela está fedendo? Ou dos tantos e tantos vídeos de slimes (Tá por fora disso? Dê um Google ou busque no YouTube)? Estaria esta geração perdida? Ou será que, na verdade, tudo se somaria para revolucionar a forma como vivemos neste mundo cada vez mais conectado – uma forma que muitos dos mais velhos estão com dificuldade de entender como é? Aviso aos pais leitores: esses jovens que vocês podem até desprezar são os maiores representantes dos seus filhos. São os “influenciadores digitais”, como chamam por aí. Por trás desse jargão pouco compreensível, uma verdade incontornável: eles moldam a cabeça dos seus filhos. Então, se você, leitor, é um desses filhos, sugiro indicar essa leitura também para o seu pai. Assim ele vai parar de te encher toda hora que você estiver vendo um novo vídeo do Canal Canalha – ou, pelo menos, saberá a real disso tudo. E se você, leitor, for um dos pais, garanto: esta leitura irá lhe ajudar, e muito, a entender a cabeça dos seus filhos. É bom saber quem são esses influenciadores digitais. Não, eles não tratam de inutilidades – ou ao menos não só disso. Não, eles não falam 10
só baboseiras. Para alguns dessa geração dos millennials, essa que gasta boa parte do tempo em frente às telas, os youtubers são seus melhores amigos, seus confidentes, seus guias espirituais, os críticos que lhe apresentam a cultura pop e, assim, formam a cultura dos jovens. Suas maiores referências de sucesso – tem quem fature acima de 8 milhões de dólares ao ano postando vídeos de “besteiras” no YouTube – e de vida. Caso você, caro leitor, seja um cinquentão, pode recordar de como sua mãe te enchia para sair de frente da TV. Se tiver ainda mais idade, talvez seus pais tenham sido do tipo que não permitiam que você fosse ao cinema para as matinês. Entretanto, quem sabe hoje, olhando para trás, você perceba como os programas de televisão – e os filmes, e o rádio – contribuíram para a sua formação. Quantos dos seus trejeitos, dos seus desejos, foram herdados de personagens de séries televisivas, ou de desenhos animados, ou de roqueiros? Se você é desses pais que têm reclamado tanto dos youtubers, convido-o a refletir: não é incoerente ter se tornado justamente o repressor que agora diz que o filho só vê inutilidades na TV do novo século, o YouTube? Aposto que nomes como Whindersson Nunes, Kéfera, Kibe, Felipe Neto, Cauê Moura, Marco Túlio (o Authentic Games), Júlio Cocielo e Maddu Magalhães (Não os conhece? Pergunte ao seu filho ou dê um Google) um dia serão lembrados por adultos do futuro como aqueles que lhes ajudaram a superar crises da vida, a escolher uma profissão, a batalhar por um sonho. Aposto, não. Tenho certeza. Para escrever este livro, ouvi relatos de como youtubers auxiliaram fãs a saírem do armário, a se assumirem gays. Ou de como serviram de apoio essencial para lidar com crises de depressão que poderiam levar ao suicídio. Há um leque de quase incontáveis histórias sobre como os youtubers foram inspiração, modelo, alento, em diversos momentos decisivos das vidas de seus fãs. Cito a comovente história do pai de um fã que, no leito de hospital de seu filho, enquanto este batalhava contra uma doença terminal, deu play no canal favorito da criança, o da Galinha Pintadinha, e assim ela conseguiu encarar, alegre, os percalços de enfrentar as dores do tratamento. Para os nerds (ou geeks), tornou-se usual se ver representado por youtubers como o pessoal do Jovem Nerd, ou o trio do Matando 11
Robô Gigante, ou em mulheres como a dupla Lully e Natalia Kreuser. Quando se veem neles, ganham força para encarar os valentões que os zoam na escola justamente por gostar de quadrinhos, ou de filmes ou de youtubers nerds. “Poxa, se esse nerdão aí passou por isso, deu a volta por cima e ficou famoso, eu posso fazer o mesmo!”, é o que passa pela cabeça de muitos fãs. No século XXI, a diversidade impera. E o YouTube representa o poder dos que antes eram vistos como “diferentes”. Ganham força os nerds, as feministas, os negros, os homossexuais. Quem era minoria para de se ver isolado ao encontrar seus iguais no YouTube, sejam youtubers que os represente, sejam fãs que tenham superado os mesmos problemas. Os nichos crescem. É o que tanto se chama de “empoderamento”. Esqueça-se do que pensa sobre youtubers. De como os julga. De como, caso seja um fã, coloca seus ídolos no pedestal. Ou de como, caso seja um senhor de idade cansado de ouvir jovens gritando na tela do tablet, não resiste a soltar um “nos meus velhos tempos tudo era melhor”. Abra a mente. Pois te convido a ver o que realmente existe por trás das câmeras, dos vídeos gritados, das narrativas de jogos, o que acontece quando se fecham as cortinas do espetáculo. Para este livro, entrevistei mais de uma centena de youtubers. Eles dão o sangue pelo sucesso e pela fama. Mas aqui você descobrirá ainda o que os ídolos modernos fazem quando clicam no stop. O que os levou a botar o rosto à mostra no YouTube? É fácil lidar com a celebridade repentina? Eles gostam mesmo de ser youtubers? Como acham namorados e namoradas em meio ao turbilhão da vida gravada 24 horas por dia? Realmente são milionários? Fazem mal ou bem para a cabeça das crianças? Afinal, como vivem os youtubers?
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