

Delep . Dorison Edição Integral
Delep . Dorison

1. Miss Bengalore
U Preâmbulo V
Publicado em 1945, A revolução dos bichos é uma das obras-primas de George Orwell e um dos maiores romances do século XX, talvez até o romance que melhor descreve, por meio de uma fábula animalesca – gênero de excelência da narrativa universal e atemporal –, a principal tragédia da época: o processo de confisco dos ideais democráticos por ditadores sanguinários. Não é apenas o retrato de Stálin que emerge do retrato do porco Napoleão; é também a dos que arquitetaram o período do Terror pós-Revolução Francesa e, por premonição, a dos derivados de movimentos independentistas em Cuba, na Líbia ou no Irã… Esta página não seria suficiente para elencar a lista desta triste contagem. Orwell conhecia bem de ditaduras. Ele as viu, combateu e compreendeu. O retrato que pintou é e permanecerá sempre surpreendentemente verdadeiro.
Mas o século XX não é apenas a história de uma série de fracassos nas buscas por liberdade e justiça. Na Índia, um homenzinho franzino – um “faquir seminu”, como Churchill o chamava – conseguiu o impossível: fez ruir um dos maiores impérios de seu tempo. Nos Estados Unidos, um pastor negro deu a vida para promover a igualdade entre negros e brancos. Na África do Sul, um condenado político, através do seu exemplo, consegue a “impossível” reconciliação entre negros e afrikaners e evita o banho de sangue considerado “inevitável”. Na Polônia, um pequeno eletricista consegue dobrar o poder. Na Sérvia, os jovens roqueiros do “Otpor” libertam o país de um ditador sanguinário…
É claro que são homens diferentes, países diferentes e situações diferentes, mas é impossível não enxergar o que une a todos: nenhuma dessas vitórias foi obtida com armas, apelos ao ódio, à raiva ou à vingança. Esses heróis estavam dispostos a morrer pela causa, não a matar.
George Orwell estava, portanto, certo. Mas ele não viu tudo
E é a quem nos mostrou que existe um caminho sinuoso, perigoso, incerto, mas muito real para um mundo melhor, que esta fábula espera prestar uma modesta homenagem.
o Xavier Dorison p

Há muito tempo, os Homens construíram um castelo que depois transformaram em fazenda.
Já não se sabe bem por quê, mas foram embora dali...
alguns dizem que simplesmente abandonaram o lugar, outros atribuem a partida repentina a uma batalHa na qual Homens com facas compridas teriam vindo degolar os que viviam na fazenda, e Havia ainda os que defendiam que a peste teria acabado com todos... pouco importa.

o fato é que não Havia mais Homens ali.
com o sumiço de seus donos, os animais ficaram felizes da vida. Imaginaram que se tornariam “cidadãos”, animais livres, e quando decidiram renomear o “castelo”, que antes fora sua prisão, como “república”, todos se alegraram.
mas conforme o tempo passava, crescia a sensação de que talvez a mudança não tivesse sido tão boa assim...
adelaide, galinha da república dos bicHos, confessou por livre e espontânea vontade aos cães devidamente nomeados por nosso caríssimo presidente sIlvIo ter escondido um ovo e tentado subtraí-lo da coleta.

a galinha adelaide é, portanto, declarada culpada de obstrução ao dever primário do cidadão animal: todos devem entregar o fruto de seu trabalHo ao celeiro central!
levando em consideração o grave delito, o tribunal e o presidente silvio condenaram a galinha adelaide ao pelourinHo. por favor, milicianos n.º 1 a 7, a postos!!
que nenHum animal aqui presente se esqueça neste triste momento de que a república e o presidente silvio apenas fazem JustIça ... que todos se lembrem de seu crIme!!
milícia, ao meu sinal...

a Justiça foi feita! voltem todos ao trabalHo.
deveremos nos lembrar deste dia para sempre, miss b. sim, como o dia da morte da adelaide...
como o último dos dias em que não fizemos nada.
urgH... vaaamos

...e estou me virando bem.
urgH
Já está...

esse seu bloco deve pesar bem uns dez quilos! precisa de aJuda, miss b?
teimosa feito uma mula!
Isso não é trabalHo para uma gata... seria melHor que cuidasse de seus filHotes!!
mas o macHo dela faleceu...
mas, olhando por esse ângulo, se fosse mesmo uma mula...
...num acidente de trabalho num andaime.
er... bem... é muito atencioso de sua parte, senhor quint. mas o senHor também tem muito trabalHo...
Isso não é tarefa pra gato! deu por Hoje?
daí ela não teve escolha, assumiu a tarefa dele.
...seria até bom para ela.
você! deixe os grãos passarem!

mas, n.º 2, desculpe, mas também preciso levar isto... estão esperando por mim no canteiro.
a noite Já vai cair! ou levam isso ao celeiro central logo...
...ou vou me oferecer para uma degustação de pernas preguiçosas!
então vão esperar um pouco mais!
“o celeiro vem antes do canteiro”!
boldor, pato, um dia de colheita de palha: três botões, próximo, quint, cabra, seis lenHas cortadas: quatro botões, próximo, leopold, carneiro, uma saca de sua lã: dois botões.
cléa ...
galinha! e um só botão por ovo não é suficiente, é roubo!
quer entrar com um processo?
se não, pode ir voltando para o galinheiro. próxImo!

o n.º 1 está espumando de raiva! tinHa prometido ao presidente silvio que colocaríamos quatro blocos de pedra Hoje! tem ideia do que pode acontecer se ele vier inspecionar o canteiro esta noite?!
b! ande logo!!
ele terminará o serviço para nós?
miss b, sabia que não suporto seu senso de Humor?
não, n.º 1, mas... estava muito pesado. sou uma gata, e os gatos precisam dorm...
mIss b , a não ser que queira descansar por um tempo... um bomtempo, o bloco precisa ser assentado até Hoje à noite.
lá em cima.
miss
está cansada, é?




aH, da última vez, precisei de uma semana para me recuperar!

e contei tudinho ao meu macHo... para ele se inspirar! comigo só durou alguns segundos, mas vou lembrar pelo resto da minha vida!!
você é incrível... aH, isso... que delícia isso, Isso,
e aí, gostou?
aH, sim
bom, são três cenouras.
próxima! até mais, meu doidinho!
sinto muito...
...não atendo gatas.


...e se eu gastar dois botões para comprar ração sendo que eu tinHa seis botões na minHa conta no celeiro central, com quantos eu fico?
você chegou!

a gente não aguentava mais esperar!
Hum... com poucos.
grunf... mãe!!
Hum... hum... crianças, é assim que cumprimentamos quando a mamãe chega em casa?
aH, desculpa...
muito boa tarde, mãe.
miss, este galpão poeirento, frio e descampado não é um bom lugar para os filHotes, se me permite dizer.
sim, sei disso, marguerite. mas é tudo o que me deram.
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