Copyright © 2014 Autêntica Editora Copyright das ilustrações © 2014 Rogério Borges Copyright da tradução © 2014 Dorothée de Bruchard Título original: Le chêne parlant Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. edição geral
Sonia Junqueira (T&S – Texto e Sistema Ltda.) revisão
Eduardo Soares projeto gráfico e diagramação
Christiane Costa
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Sand, George O carvalho falante / George Sand ; ilustrações Rogério Borges ; tradução Dorothée de Bruchard. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2014.
Título original: Le chêne parlant. ISBN 978-85-8217-327-5
1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Borges, Rogério. II. Título. 13-11418
CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantil 028.5 2. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5
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xistia antigamente, na floresta de Cernas, um grande e antigo carvalho que devia ter uns bons quinhentos anos. Os relâmpagos o feriram várias vezes, e ele tivera de criar uma cara nova, um tanto amassada, porém espessa e verdejante. Durante muito tempo, o carvalho teve má reputação. Os mais antigos da aldeia vizinha diziam que, quando eram jovens, ele falava e ameaçava quem quisesse descansar à sua sombra. Contavam que dois viajantes, buscando abrigo na árvore, tinham sido fulminados por um raio. Um deles morrera na hora; o outro se afastara a tempo e só ficara atordoado, tendo sido alertado por uma voz que gritava: – Saia daqui, depressa! A história era tão antiga que já não se acreditava mais nela; e, embora a árvore ainda fosse chamada de “carvalho falante”, os pastores se aproximavam dela sem grande receio. Mas depois da aventura de Emmi, mais do que nunca a árvore ficou com fama de encantada...
Emmi era um pobre guardador de porcos. Era órfão e muito infeliz, não só por morar mal, ser mal nutrido e mal vestido, mas também porque detestava os bichos de que tinha de cuidar, forçado pela miséria. Tinha medo deles, e os animais, mais perceptivos do que parecem, sabiam que ele não os controlava. Saía bem de manhãzinha, levando-os à floresta para comerem bolotas, que são os frutos do carvalho. No fim da tarde, trazia-os de volta à granja, e dava pena vê-lo, vestido de feios trapos, cabeça descoberta, cabelos arrepiados pelo vento, seu pobre rostinho pálido, magro, lívido, com jeito triste, assustado, sofrido, enxotando para adiante aquele rebanho de bichos berrantes, de olhar oblíquo, cabeça abaixada, sempre ameaçadora. Visto assim, correndo atrás deles nas charnecas sombrias, no vapor vermelho do primeiro crepúsculo, parecia um duendezinho dos pântanos perseguido por uma rajada. No entanto, o pobre porqueirinho seria bonito e simpático se fosse bem tratado, limpo,
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feliz como você, criança que lê esta história. Ele não sabia ler, não sabia nada: quando muito, sabia falar o suficiente para pedir o necessário – e, como era acanhado, nem sempre pedia. Azar dele se o esqueciam. Certa tarde, os suínos voltaram sozinhos para o estábulo, e o porqueiro não apareceu na hora do jantar. Só deram pela falta dele depois de comerem a sopa de rábano, e a granjeira mandou que um de seus garotos fosse chamá-lo. O garoto voltou dizendo que Emmi não estava no estábulo, nem no sótão, onde dormia sobre a palha. Acharam que tinha ido visitar a tia, que
morava na vizinhança, e foram se deitar sem pensar mais nele. Na manhã seguinte, foram à casa da tia e descobriram, surpresos, que Emmi não passara a noite com ela. Ele não aparecia na aldeia desde a véspera. Perguntaram nos arredores, ninguém o tinha visto. Procuraram, em vão, na floresta. Acharam que os lobos e os javalis o
tinham devorado. No entanto, não encontraram seu sacho, espécie de cajado de cabo curto usado pelos porqueiros, nem nenhum farrapo de roupa. Concluíram que havia deixado a região para viver como vagabundo, e o granjeiro disse que não era grande perda, o menino era um imprestável que não gostava de seus animais nem soubera fazer com que gostassem dele. Um novo porqueiro foi contratado para o resto do ano. Mas o sumiço de Emmi continuou assombrando os garotos da região: da última vez que o viram, estava indo para os lados do carvalho
falante, e era decerto por lá que lhe ocorrera uma desgraça. O novo porqueiro teve o maior cuidado de nunca levar seu rebanho até lá, e as outras crianças evitavam ir brincar para aqueles lados. Você me pergunta o que foi feito de Emmi. Calma, já vou contar. Da última vez em que fora à floresta com seus bichos, avistara, a alguma distância do carvalho grande, uma moita de favas em flor. A fava é essa linda papilionácea, trepadeira de cachos róseos que você deve conhecer. Os tubérculos são do tamanho de uma avelã, um tanto 9
amargos, embora doces. As crianças pobres são loucas por eles: é um alimento que não custa nada e que só os suínos, também loucos por eles, disputam com elas. Quando se fala nos antigos anacoretas, monges eremitas que se alimentavam de raízes, pode-se ter certeza de que a iguaria mais fina de sua dieta frugal era, nas nossas regiões centrais, o tubérculo dessa planta. Emmi sabia muito bem que as favas não deviam estar boas para comer, pois era ainda início do outono, mas queria marcar o lugar para escavar a terra quando o caule e a flor tivessem secado. Foi seguido por um porco novo, que começou a cavoucar e ameaçava destruir tudo, até que Emmi, impaciente ao ver o estrago inútil do bicho voraz, desferiu-lhe uma sacholada no focinho. O ferro do sacho fora recentemente afiado e cortou de leve o focinho do porco, que deu um grito de alerta. Você sabe como esses animais se apoiam entre si, e como seus urros por socorro põem todos eles furiosos com o inimigo comum. Além disso, estavam há tempos com raiva de Emmi, que nunca os brindava com carinho ou elogios. Reuniram-se, cada um berrando mais que o outro, e o cercaram para devorá-lo. O pobre menino fugiu; foram atrás. Esses bichos, você sabe, são tremendamente ágeis: Emmi mal teve tempo de chegar ao carvalho grande, escalar seu tronco áspero e se refugiar entre os galhos. O selvagem rebanho ficou lá embaixo urrando, ameaçando, tentando cavoucar para derrubar a árvore. Mas o carvalho falante possuía raízes formidáveis, que pouco se incomodavam com uma vara de porcos. Os atacantes, contudo, só renunciaram às suas tentativas após o pôr do sol.
Então, decidiram retornar à granja, e o pequeno Emmi, certo de que o devorariam se fosse com eles, resolveu nunca mais voltar para lá. Ele sabia que o carvalho tinha fama de ser uma árvore encantada, mas tinha muito a queixar-se dos vivos para se preocupar também com espíritos. Até então, só vivera de miséria e pancadas. Sua tia era muito dura com ele: obrigava-o a guardar porcos – ele, que sempre tivera horror a esses animais. O menino nascera assim, mas ela fazia disso um crime, e, quando o sobrinho ia visitá-la suplicando para voltar a viver com ela, era recebido com uma sova de vara verde. Ele tinha, portanto, muito medo da tia, e seu maior desejo era guardar ovelhas em alguma outra granja onde as pessoas não fossem tão más e sovinas. Num primeiro momento, depois que os porcos se foram, o menino sentiu apenas o prazer de ter se livrado dos berros selvagens e das ameaças e resolveu passar a noite onde estava. Ainda tinha pão na sua sacola de lona, pois enquanto estava sendo sitiado não sentira vontade de comer. Comeu a metade, reservando o resto para o café da manhã; depois disso, fosse o que Deus quisesse! Criança dorme em qualquer lugar. Emmi, contudo, não dormia. Era franzino, tinha febres frequentes e mais sonhava do que descansava a mente durante o sono. Ajeitou-se como pôde entre dois galhos mestres forrados de musgo e sentiu muita vontade de dormir, mas o vento que fazia mugir a folhagem e ranger os galhos o assustou. Tanto se pôs a pensar nos maus espíritos que imaginou ouvir uma voz aguda e zangada repetindo várias vezes: – Saia, saia daqui! 10
– Saia, Emmi, saia! – retrucou a voz, ainda mais suave. – Belo carvalho falante – Emmi retrucou também, num tom de súplica –, não me mande para os lobos. Você me salvou dos porcos, foi bonzinho comigo, continue assim. Sou um pobre menino infeliz, não posso nem quero lhe causar mal algum. Acolha-me esta noite: se quiser, irei embora pela manhã.
De início, trêmulo e com um nó na garganta, Emmi nem pensou em responder. Mas, à medida que o vento serenava, a voz do carvalho ia se abrandando e parecia cochichar, em tom maternal e envolvente: “Saia daqui, Emmi, saia!”. O menino criou coragem: – Carvalho, belo carvalho, não me expulse. Se eu descer, os lobos que correm na noite irão me comer.
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– Adeus e obrigado, meu bom carvalho –, disse, beijando-lhe a casca. – Nunca mais sentirei medo de você, e ainda vou voltar para lhe agradecer. Atravessou a charneca e ia se encaminhando para a choupana da tia quando escutou uma conversa atrás do muro da horta da granja: – E assim – dizia um dos garotos –, nosso porqueiro não voltou, não foi visto na casa da tia e abandonou a vara. É um desalmado, um preguiçoso, e eu bem que lhe daria uma bela surra de tamanco por me obrigar a conduzir os animais hoje, em seu lugar. – Qual é o problema de levar os porcos? – perguntou o outro garoto.
A voz não retrucou mais, e a lua prateou brandamente as folhas. Emmi concluiu que lhe fora permitido ficar, ou, então, que sonhara as palavras que pensava ter ouvido. Adormeceu – e, coisa estranha, não sonhou mais e dormiu a sono solto até o amanhecer. Então, desceu e sacudiu o orvalho que umedecia sua roupa. “Preciso voltar para a aldeia”, pensou. “Vou dizer à minha tia que os porcos quiseram me comer, que fui obrigado a dormir em cima de uma árvore, e ela vai deixar que eu procure outro trabalho.” Comeu o restante do pão. Antes de se pôr a caminho, quis agradecer ao carvalho que o protegera de dia e de noite: 12
– É uma vergonha, na minha idade – retrucou o primeiro. – Convém a um menino de dez anos, como o pequeno Emmi; mas, aos doze, temos o direito de guardar as vacas, ou pelo menos os terneiros. Os dois garotos foram interrompidos pelo pai. – Vamos logo, ao trabalho! Quanto ao infeliz daquele porqueiro, se os lobos o comeram, o azar é dele; mas se cruzar com ele vivo, encho-o de pancadas. Ele que vá se queixar para a tia, ela está decidida a mandá-lo dormir com os porcos, para ensiná-lo a se fazer de orgulhoso e delicado. Emmi, apavorado com tal ameaça, entendeu o recado. Escondeu-se numa meda de trigo, onde passou o dia. À noitinha, uma cabra que voltava para o estábulo e se demorava a lamber não sei que erva deixou que ele a ordenhasse. Depois de encher e ingerir duas, três vezes o conteúdo de sua gamela de madeira, tornou a se embrenhar nas gavelas até a noite. Quando escureceu de vez e estavam todos
deitados, esgueirou-se até seu sótão e pegou várias coisas que lhe pertenciam: alguns tostões que o granjeiro lhe pagara na véspera, que a tia ainda não tivera tempo de lhe tirar, uma pele de cabra e uma de ovelha, que usava no inverno, uma faca nova, um potinho de barro, umas roupas bastante rasgadas. Enfiou tudo na sacola, desceu para o pátio, pulou a barreira e se foi de mansinho, para não fazer barulho. Mas, ao passar perto do estábulo dos porcos, os malditos bichos o farejaram ou ouviram e se puseram a berrar furiosamente. Emmi, então, temendo que os granjeiros, acordados em seu primeiro sono, tentassem pegá-lo, saiu correndo e só parou diante do carvalho falante. – Estou de volta, meu amigo. Permita que eu passe mais uma noite entre seus galhos. Posso? O carvalho não respondeu. O tempo estava calmo, folha alguma se mexia. Emmi refletiu que quem cala consente. Carregado como estava, trepou habilmente até a forquilha grande onde passara a noite anterior e dormiu muitíssimo bem.
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