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O canibal de Nine Elms - Volume 1

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ROBERT BRYNDZA

O CANIBAL DE NINE ELMS tradução de

Marcelo Hauck


Copyright © 2021 by Raven Street Ltd.

Título original: Nine Elms: A Kate Marshall Thriller

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

Flavia Lago preparação de texto

Carol Christo revisão

Helô Beraldo capa

Alberto Bittencourt (sobre imagens de Shutterstock) diagramação

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bryndza, Robert O canibal de Nine Elms / Robert Bryndza ; tradução Marcelo Hauck. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2021. Título original: Nine Elms: A Kate Marshall Thriller ISBN 978-65-86553-64-2 1. Ficção policial e de mistério (Literatura inglesa) I. Título. 21-63377

CDD-823.0872

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura inglesa 823.0872 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

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Outono de 1995


CAPÍTULO 1

A

detetive Kate Marshall voltava de trem para casa quando o telefone tocou. Levou um tempo vasculhando as dobras do comprido casaco antes de encontrá-lo no bolso interno. Pegou o tijolão, puxou a antena e atendeu. Era seu superior, o inspetor-chefe Peter Conway. – Senhor. Alô. – Finalmente, ela atende! – ralhou, indo direto ao ponto. – Estou te ligando há um tempão. Para que ter um celular desses se não atende? – Desculpe. Fiquei no tribunal o dia todo para ver a sentença do Travis Jones. Ele pegou três anos, o que é mais do que eu... – Um passeador de cães achou o corpo de uma jovem desovado no Crystal Palace Park – informou, interrompendo-a. – Nua. Há marcas de mordida no corpo, um saco plástico amarrado na cabeça. – O Canibal de Nine Elms... – Operação Cicuta, na verdade. Você sabe que não gosto desse nome. Kate quis responder que aquele nome já tinha pegado e que seria usado para sempre, mas ele não era o tipo de chefe que encorajava provocações. A imprensa havia cunhado o apelido dois anos antes, quando Shelley Norris, de 17 anos, foi encontrada em um ferro-velho na área de Nine Elms, no sudoeste de Londres, perto do Tâmisa. Tecnicamente, o assassino só mordia as vítimas, mas isso não fora empecilho para que a imprensa inventasse um bom apelido de serial killer: o Canibal de Nine Elms. Nos dois anos seguintes, outras duas adolescentes foram sequestradas, ambas no início da noite, voltando da escola. Os corpos foram descobertos vários dias depois dos desaparecimentos, desovados em parques de Londres. Nada vende mais jornal que um canibal à solta. – Kate. Onde você está? 7


Estava escuro do lado de fora da janela do trem. Ela olhou para o painel eletrônico no vagão. – No trem. Quase em casa, senhor. – Pego você em frente à estação, no lugar de sempre. Ele desligou sem esperar pela resposta. *** Vinte minutos depois, Kate aguardava em uma pequena calçada entre a passarela subterrânea da estação e a movimentada rua South Circular, onde uma fileira de carros movimentava-se lentamente. Havia construções em grande parte da área ao redor da estação. Para Kate chegar até seu pequeno apartamento, passava por uma rua comprida e repleta de canteiros de obras vazios. Lugar no qual não se deve demorar depois que escurece. Os passageiros com quem saiu do trem tinham atravessado a South Circular e se dispersado pelas ruas escuras. Ela olhou para trás, a passarela subterrânea úmida e vazia estava banhada pelas sombras, e trocou a perna de apoio; entre os pés, uma sacolinha de compras para o jantar. Um pingo de água acertou o pescoço dela, depois outro, e começou a chover. Kate suspendeu a gola do casaco e, encurvando o corpo, se aproximou da luz ofuscante dos faróis no trânsito. Kate havia sido designada para a Operação Cicuta dezesseis meses antes, quando a contagem de corpos vitimados pelo Canibal de Nine Elms estava em dois. Tinha sido ótimo participar de um caso importante, particularmente porque a nomeação a levou a ser promovida à patente de detetive à paisana. Nos oito meses desde a descoberta do terceiro corpo – uma estudante de 17 anos chamada Carla Martin – o caso esfriou. A Operação Cicuta perdeu importância e Kate, com vários outros policiais subalternos, foram transferidos para o esquadrão antidrogas. Semicerrando os olhos, observou através da chuva a comprida fileira no trânsito. Faróis altos apareceram em uma curva fechada na estrada, mas não havia sirenes de polícia ao longe. Ela olhou para o relógio e saiu do clarão. Kate não via Peter havia dois meses. Logo depois de ser transferida, dormiu com ele. Peter raramente socializava com a equipe e, em uma rara noite de bebidas depois do trabalho, acabaram conversando e ela 8


achou a companhia e a inteligência dele estimulantes. Ficaram até tarde no pub, o restante da equipe já tinha ido para casa, e acabaram no apartamento dela. Na noite seguinte, Peter a convidou para ir à casa dele. O casinho com o chefe, não em uma, mas em duas ocasiões, era algo que a queimava por dentro de arrependimento. Foi um momento de loucura. Dois momentos, antes de ambos recuperarem o juízo. Kate tinha um forte senso moral. Era uma boa policial. Pego você em frente à estação, no lugar de sempre. Estava incomodada por Peter ter dito aquilo ao telefone. O chefe tinha lhe dado carona para o trabalho duas vezes e, em ambas, um colega dela, o detetive-inspetor Cameron Rose, que morava ali perto, também estava no carro. Ele teria dito no lugar de sempre para Cameron Rose? O frio começava a subir por trás do casaco comprido e a chuva infiltrava pelos buracos do “sapato bonito” que tinha colocado para ir ao tribunal. Kate ajustou a gola e encurvou-se dentro do casaco, voltando a atenção para a fileira no trânsito. Quase todos os motoristas eram homens, brancos, na faixa dos 35, 40 anos. A perfeita demografia de um serial killer. Uma van branca imunda passou por ela e o rosto do motorista estava distorcido pela água da chuva no para-brisa. A polícia acreditava que o Canibal de Nine Elms usava uma van para sequestrar as vítimas. Fibras de carpete de uma Citroën Dispatch branca 1994 – há mais de cem mil veículos desses registrados em Londres e nos arredores – tinham sido encontradas em duas das vítimas. Kate se perguntou se os policiais que tinham permanecido na Operação Cicuta continuavam trabalhando naquela lista de proprietários de Citroën Dispatch. E quem era a nova vítima? Nada tinha sido publicado nos jornais sobre o desaparecimento de alguém. O semáforo à frente ficou vermelho e um pequeno Ford azul parou na fileira de carros a alguns metros. O homem dentro dele era o típico executivo de Londres: sobrepeso, na faixa dos 55 anos, de terno risca de giz e óculos. Ele viu Kate, suspendeu as sobrancelhas sugestivamente e piscou os faróis. A detetive desviou o olhar. O Ford azul avançou devagar, fechando o espaço na fileira de carros até a janela do passageiro quase emparelhar com ela. O vidro desceu e o homem se inclinou. – Oi. Parece que está com frio. Eu esquento você... – Ele deu uns tapinhas no banco do passageiro e pôs para fora a língua fina e pontuda. 9


Kate ficou paralisada. Um pânico subiu por seu peito. Esqueceu que estava com o distintivo e que era policial. Isso tudo desapareceu de sua mente e o medo se apoderou dela. – Anda. Pula para dentro. Vamos deixar você quentinha – disse ele antes de dar tapinhas no banco do passageiro de novo, impaciente. Kate afastou-se do meio-fio. A passarela subterrânea atrás dela estava escura e vazia. Os outros veículos na fileira tinham motoristas homens e eles pareciam distraídos, encasulados em seus carros. O sinal à frente continuava vermelho. A chuva dedilhava preguiçosamente no teto dos veículos. O homem se inclinou ainda mais e abriu alguns centímetros da porta do passageiro. Kate deu outro passo para trás, mas se sentiu encurralada. E se ele saísse do carro e a empurrasse para dentro da passarela subterrânea? – Não estou brincando. Quanto é? – perguntou o homem. O sorriso dele tinha desaparecido e Kate viu que a calça do sujeito estava desabotoada. A cueca tinha uma cor desgastada e desbotada. Ele enganchou o dedo por baixo da cintura e expôs o pênis e um emaranhado de pelos púbicos agrisalhados. Kate continuava enraizada no lugar, desejando que o sinal abrisse. Uma sirene de polícia berrou de repente, rasgando o silêncio, e os carros e o arco da passarela subterrânea foram iluminados por uma luz azul intermitente. O homem se arrumou depressa, abotoou a calça e fechou a porta. Acionou as travas. O rosto reassumiu a expressão impassível. Kate vasculhou dentro da bolsa e pegou o distintivo. Aproximou-se do Ford azul e bateu o distintivo na janela do passageiro, nervosa por não ter feito isso antes. A viatura sem identificação de Peter, com a luz giratória azul no teto, se aproximava depressa pelo acostamento de grama, passando ao lado da fileira do trânsito. O sinal ficou verde. Um carro na frente da viatura arrancou e Peter entrou na vaga. O homem dentro do Ford estava em pânico, ajeitando o cabelo e a gravata. Kate o encarou, guardou seu distintivo na bolsa e seguiu na direção do carro de Peter.

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CAPÍTULO 2

fazer você esperar. Trânsito – disse Peter, abrindo um sorri– D esculpe sinho. Recolheu uma pilha de documentos do banco do passageiro

e os colocou atrás do banco dele. Era um homem bonito, de 30 e tantos anos, ombros largos, cabelo volumoso, escuro e ondulado, maçãs do rosto salientes e olhos castanho-claros. Estava com um terno preto e caro, feito sob medida. – Sem problema – disse ela, sentindo-se aliviada, colocando a bolsa e as compras no assoalho, relaxando no banco. Assim que Kate fechou a porta, Peter acelerou e ligou a sirene. O para-sol estava abaixado no lado do passageiro e ela capturou seu reflexo no espelho enquanto o suspendia. Não estava de maquiagem nem se vestia de maneira provocativa, sempre se achou um pouco comum. Não era delicada. Tinha traços fortes. O cabelo na altura do ombro estava amarrado para trás, enfiado por baixo da gola do comprido casaco de inverno, quase que por acaso. A única característica marcante no rosto eram os olhos peculiares, de um azul violeta surpreendente, com uma explosão de laranja inflamado que os inundava da pupila para fora, causada por heterocromia setorial, uma condição rara que deixa os olhos com duas cores. A outra característica menos permanente no rosto era um ferimento no lábio começando a cicatrizar, causado por um bêbado irado que resistiu à prisão alguns dias antes. Não teve medo de lidar com o bêbado e não ficou com vergonha quando ele a acertou. Fazia parte do trabalho. Por que se sentiu envergonhada ao ser assediada pelo executivo nojento? Era ele quem vestia a cueca cinza frouxa e tinha a virilidadezinha curta e grossa. – O que foi aquilo? Com o carro lá atrás? – perguntou Peter. – Ah, estava com uma luz de freio queimada – respondeu ela. Era mais fácil mentir. Sentia-se constrangida. Kate pôs um fim à lembrança 11


do homem no Ford azul. – Convocou a equipe toda para ir à cena do crime? – É claro – respondeu ele, dando uma olhada rápida para a detetive. – Depois que conversamos, recebi uma ligação do comissário assistente Anthony Asher. Ele falou que, se esse assassinato estiver ligado à Operação Cicuta, basta eu pedir que terei todos os recursos de que precisar à disposição. Ele acelerou em quarta marcha por uma rotatória e pegou a saída para o parque Crystal Palace. Peter Conway era um policial de carreira e Kate não tinha dúvida de que solucionar aquele caso resultaria na promoção dele a superintendente ou até superintendente-chefe. Peter tinha sido o policial mais jovem a ser promovido a inspetor-chefe na história da Polícia Metropolitana. As janelas estavam começando a embaçar e Peter ligou o ar quente. O arco de condensação no para-brisa ondulou-se e retrocedeu. Entre um grupo de casas coladas umas às outras, Kate vislumbrou o horizonte iluminado de Londres. Milhões de luzes alfinetavam o tecido negro do céu, simbolizando as casas e os escritórios de milhões de pessoas. Kate indagou qual delas pertencia ao Canibal de Nine Elms. “E se nunca o acharmos?”, pensou ela. “A polícia não encontrou Jack, o Estripador, e naquela época Londres era minúscula em comparação a hoje.” – Conseguiram mais alguma pista analisando o banco de dados das vans brancas? – perguntou ela. – Interrogamos mais seis homens, só que o DNA deles não era compatível com o do sujeito que procuramos. – Ele deixar o DNA nas vítimas não é descuido nem falta de controle. É uma espécie de marcação de território. Como um cachorro. – Você acha que ele quer que a gente o pegue? – Sim… Não… Possivelmente. – Ele está se comportando como se fosse invencível. – Ele acha que é invencível. Mas vai cometer um deslize. Eles sempre cometem – afirmou Kate. Viraram na entrada norte do Crystal Palace Park. Um carro de polícia aguardava ali e um policial acenou para que passassem. Percorreram uma comprida via de cascalho, geralmente reservada para pessoas a pé. Ela era margeada por grandes carvalhos cujas folhas que se soltavam e acertavam o para-brisa, emitindo um barulho molhado e obstruindo o 12


limpador. Ao longe, o enorme transmissor de rádio do Crystal Palace aparecia acima das árvores como uma Torre Eiffel magricela. Depois de uma descida, a via terminava em um pequeno estacionamento ao lado de um comprido e plano gramado que dava para uma área arborizada. Uma enorme fita de isolamento da polícia contornava todo o gramado. No centro dele, havia uma segunda fita, menor, ao redor de uma tenda da perícia forense que brilhava no escuro. Ao redor da segunda fita, estavam a van do patologista, quatro viaturas e um grande veículo de apoio da polícia. Onde o asfalto se encontrava com a grama, a fita do primeiro isolamento agitava-se à brisa. Eles foram recebidos por dois guardas: um homem de meia-idade com a barriga caindo sobre o cinto e um jovem alto e magro que parecia adolescente. Kate e Peter mostraram as identificações ao policial mais velho. Os olhos dele, contornados por pele solta, saltitavam entre os distintivos dela e de Peter e a faziam lembrar-se de um camaleão. Devolveu-as e foi suspender a fita da polícia, mas hesitou, olhando para a tenda brilhante. – Em toda a minha vida, nunca vi nada parecido com isso – alertou ele. – Você foi o primeiro a chegar ao local? – perguntou Peter, impaciente para que o sujeito suspendesse a fita, mas sem vontade de suspendê-la ele mesmo. – Fui. Agente Stanley Greshman, senhor. Esse é o agente Will Stokes – disse ele, gesticulando na direção do jovem policial, que, repentinamente, fez uma careta, virou o rosto e vomitou por cima da fita da polícia. – É o primeiro dia de trabalho dele – acrescentou, meneando a cabeça. Kate olhou com dó para o rapaz, que suspirou, vomitou novamente e ficou com fiapos de baba pendurados na boca. Peter pegou um lenço branco limpo do bolso interno e Kate achou que o ofereceria ao jovem policial, mas ele o levou ao nariz e à boca. – Quero que lacrem a cena deste crime. Ninguém fala uma palavra – ordenou Peter. – É claro, senhor. Ele agitou os dedos à fita da polícia. Stanley a suspendeu, os dois detetives se inclinaram e passaram por baixo. O gramado em declive levava à segunda fita da polícia, onde o detetive Cameron Rose e a detetive-inspetora Marsha Lewis aguardavam. Cameron, como Kate, 13


tinha 20 e poucos anos, e Marsha era mais velha que todos, uma mulher robusta na faixa dos 50 anos, com um elegante terninho e um comprido casaco, tudo preto. Seu cabelo grisalho era curto e ela tinha uma voz rouca de fumante. – Senhor – disseram os dois em uníssono. – O que está acontecendo, Marsha? – questionou Peter. – Todas as entradas e saídas do parque estão fechadas e já solicitei um pelotão à polícia local para que façam um pente-fino da região e um porta a porta. A patologista forense já está aí dentro, pronta para falar com a gente – disse Marsha. Cameron era muito alto, magro e destacava-se acima dos outros. Não tinha tido tempo para trocar de roupa e, de calça jeans, tênis e jaqueta de inverno verde, mais parecia um adolescente desleixado que um detetive. Kate se questionou por um momento o que ele estaria fazendo quando recebeu a ligação para ir à cena do crime. Deduziu que ele tinha chegado ao local com Marsha. – Quem é a patologista forense? – perguntou Peter. – Leodora Graves – respondeu Marsha. *** Estava quente dentro da tenda e a iluminação tinha um brilho quase doloroso. A patologista forense Leodora Graves, uma mulher baixinha, de pele escura e olhos verdes penetrantes, trabalhava com dois assistentes. Uma mulher nua estava caída de bruços numa depressão enlameada da grama. Um saco plástico transparente amarrado com força no pescoço cobria-lhe a cabeça. A pele pálida estava manchada de terra e sangue, e repleta de cortes e arranhões. A parte de trás das coxas e das nádegas tinha várias marcas de mordidas profundas. Kate parou ao lado do corpo, já suando por baixo do capuz e da máscara descartáveis. A chuva martelava o forro esticado da tenda, forçando Leodora a levantar a voz. – A vítima foi colocada nessa posição: deitada sobre o lado direito do corpo com o braço sob a cabeça. O braço esquerdo está perpendicular ao corpo e estendido para a frente. Há seis mordidas na lombar, nas nádegas e nas coxas. – Ela apontou para as mordidas mais profundas, de onde a carne havia sido removida com tamanha profundidade que a espinha da garota ficou exposta. Aproximou-se da cabeça da vítima e suspendeu-a 14


delicadamente; a corda fina amarrada com força no pescoço cortava a carne agora inchada. – Reparem que o nó é bem específico. – O nó punho de macaco – disse Cameron, falando pela primeira vez. Parecia abalado. Embora as máscaras descartáveis ocultassem o rosto dos colegas de equipe, Kate conseguia ler a expressão alarmada nos olhos deles. – Isso mesmo – confirmou Leodora, segurando o nó com a mão enluvada. Ele era incomum por causa da série de voltas cruzadas, parecia uma bolinha de lã, quase impossível de ser reproduzido por uma máquina. – É ele, o Canibal de Nine Elms – afirmou Kate. As palavras saíram-lhe da boca antes que pudesse contê-las. – Preciso fazer mais análises na autópsia para chegar a essa conclusão, mas... sim – concordou Leodora. A chuva engrossou, intensificando o trovejante dedilhar no teto da tenda. Ela soltou a cabeça da jovem, colocando-a delicadamente de volta no braço. – Existem vestígios de estupro. Há fluidos corporais e ela foi torturada. Além disso, cortaram a garota com um objeto afiado e a queimaram. Dá para ver as queimaduras nos braços e nas coxas. Parece que foram feitas com o isqueiro de um carro. – Ou de uma van Citröen Dispatch branca – disse Kate. Peter encarou-a com a cara fechada. Não gostava de se sentir em desvantagem na argumentação. – Causa da morte? – perguntou ele. – Preciso fazer a autópsia, mas, extraoficialmente, nesse estágio, diria que asfixia com o saco plástico. Há sinais de hemorragia petequial no rosto e no pescoço. – Obrigado, Leodora. Fico aguardando ansioso o resultado da autópsia. Espero que a gente consiga identificar depressa essa pobre jovem. Leodora acenou para seus assistentes com a cabeça e eles buscaram uma maca portátil com um reluzente saco preto para o corpo. Colocaram-na ao lado do cadáver e viraram delicadamente a jovem para cima dela. A frente do corpo nu tinha pequenas marcas circulares e arranhões. Era impossível identificar a aparência da garota – o rosto era grotesco e distorcido sob o plástico. Tinha grandes olhos azuis-claros, opacos e paralisados pela morte. A expressão nos olhos fez Kate estremecer. Era desprovida de esperança, como se seu último pensamento tivesse ficado paralisado no olhar. Sabia que ia morrer. 15


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