VENcEDORA DO PRêMIO PULITzER
AMY ELLIS NUTT
O BRILHO DAS SOMBRAS A história real de um homem que voltou do coma com talento para a arte (e o que a ciência tem feito para entender o cérebro humano)
AMY ELLIS NUTT
O BRILHO DAS SOMBRAS A história real de um homem que voltou do coma com talento para a arte (e o que a ciência tem feito para entender o cérebro humano)
Tradução: Nilza
Laíz
Copyright © 2011 Amy Ellis Nutt Copyright © 2011 Free Press, a division of Simon & Schuster, Inc. Copyright © 2014 Editora Gutenberg Título original: Shadows Bright as Glass Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora. GERENTE EDITORIAL
REVISÃO
Alessandra J. Gelman Ruiz EDITOR ASSISTENTE
Eduardo Soares Malvina Tomáz
Denis Araki
CAPA
ASSISTENTE EDITORIAL
Felipe Castilho
Diogo Droschi (Sobre foto de Liam King)
PREPARAÇÃO DE TEXTO
DIAGRAMAÇÃO
Christiane Morais
Otacílio Nunes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Nutt, Amy Ellis O brilho das sombras : A história real de um homem que voltou do coma com talento para a arte (e o que a ciência tem feito para entender o cérebro humano) / Amy Ellis Nutt ; tradução Nilza Laíz. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2014. Título original: Shadows Bright as Glass ISBN 978-85-8235-126-0 1. Sarkin, Jon, 1953 - Biografia 2. Acidente vascular cerebral - Pacientes - Estados Unidos - Biografia 3. Artistas - Estados Unidos - Biografia 4. Habilidades cognitivas 5. Neurociências 6. Personalidade - Mudança 7. Sarkin, Jon, 1953 - Psicologia 8. Sarkin, Jon, 1953 - Saúde I. Título. 14-00107
CDD-920.71
Índices para catálogo sistemático: 1. Sarkin, Jon : Biografia 920.71
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Quando tivermos conseguido pesar o sol na balança, medido os degraus da lua e desenhado o mapa dos sete céus, estrela por estrela, ainda restaremos nós. Quem pode calcular a órbita da própria alma? Oscar Wilde
Para a maioria de nós, há somente o inesperado Momento, o momento dentro e fora do tempo, O acesso de distração, perdido num dardo de luz solar, O irrelevado tomilho selvagem, ou o relâmpago de inverno, Ou a cascata, ou a música tão profundamente ouvida Que aos ouvidos se furtou, mas vós sois a música Enquanto a música perdura. T. S. Eliot
AG R A DE CIM E N T O S
E
ste livro foi um trabalho de amor a duas pessoas: Jon e Kim. Não consigo agradecer a elas o suficiente por seu tempo, sua honestidade e sua coragem. E aos seus três filhos, Curtis, Robin e Caroline, obrigada por sua tolerância. Meus agradecimentos também à mãe de Jon, Elaine Zheutlin, e a seu marido, Bill; à irmã de Jon, Jane Sarkin, e a seu marido, Martin O’Connor; e ao falecido Richard Sarkin. À minha superagente, Wendy Strothman, e à minha supereditora, minha heroína, Emily Loose, também estendo meus humildes agradecimentos. À minha mãe e ao meu pai, Grace e Dave Nutt; a minhas irmãs, Eva Nies, Cora Chemidlin e Kate Barry, ao meu irmão, Ty, a meus cunhados, Rob Nies, David Chemidlin e Pat Barry; à minha cunhada Jane Nutt e aos meus doze fantásticos sobrinhos: Brendan, Evan e Cullen Nutt; Rachel, Maddie e Jordan Nies; Conor, Blair, Grant e Reid Chemidlin; e, por último, mas certamente não menos importantes, Bridget e Patrick Barry: amo vocês todos mais do que a minha vida. À minha ex-editora, amiga íntima e escritora extraordinária, Rosemary Parrillo, e ao meu atual editor, o “Senhor Poesia”, David Tucker, obrigada pela sabedoria, pela orientação, pela paciência e pelo apoio de todos vocês. Ao colunista Mark Di Ionno, que me contratou no jornal The Star-Ledger, há tantos anos; e à ex-editora Deborah Jerome, que foi uma das primeiras a apoiar o meu trabalho; vocês dois me ajudaram a me tornar a escritora que sou hoje. A Sandy Padwe, minha mentora e colega do curso de pós-graduação da Escola de Jornalismo da Columbia University: você é, e sempre será, a melhor. E aos meus extraordinários professores de lá, em especial Sam Freedman e a incomparável Judith Crist.
Este livro certamente nunca teria sido escrito sem meu ex-editor do The Star-Ledger, Jim Willse, que me iniciou na carreira nesse jornal, em 1997, e viu o potencial da história de Jon Sarkin, ao concordar em publicar a reportagem sobre ele em “O artista acidental”, em 2008. Chefe, só “muito obrigada” nunca será suficiente. Nem também para os meus amigos, colegas e ex-colegas de trabalho no Ledger, Liza Irizarry, Deborah Jerome, Susan Olds e Susan Pavkovic. Ao atual editor do The Star-Ledger, Kevin Whitmer, que me deu a oportunidade de continuar fazendo o que mais amo na vida, o jornalismo, minha mais sincera gratidão. E aos meus amigos queridos, o amor de vocês me deu sustentação durante essa exaustiva jornada: Robin Gaby Fisher, a escritora que eu sempre quis ser (e Buster, Boomer e Sophie), os brilhantes Linda Kost e Wylie Willson (e Justin, Kodie e Zena); à decidida Eileen Marr e, em especial, à doutora Jane (Maxwell) McInerny, a quem não tenho palavras para expressar minha admiração, pela força de caráter e pelo enorme senso de humor (e a Emma, Rudy e Ralphie). A Ray Parrillo, incomparável redator de esporte do Philadelphia Inquirer, obrigada pelas refeições no The Office, e por suas ideias sobre esportes. Por fim, à minha primeira heroína literária, minha professora de inglês do nono ano, a falecida Janet B. Kollmar: professora, espero ter deixado você orgulhosa.
S UM Á R IO
Prólogo
O brilho das sombras....................................................................................... 13 Capítulo 1
Fino como linha.............................................................................................. 17 Capítulo 2
Mil babuínos estridentes.................................................................................21 Capítulo 3
Lançando os dados..........................................................................................25 Capítulo 4
Seis xícaras de fluido e tecido..........................................................................32 Capítulo 5
Construindo uma vida....................................................................................37 Capítulo 6
Código azul.....................................................................................................46 Capítulo 7
O cérebro mecânico........................................................................................52 Capítulo 8
As duas metades...............................................................................................61 Capítulo 9
Perdoe-me........................................................................................................72 Capítulo 10
Peças de um quebra-cabeça............................................................................ 81 Capítulo 11
À deriva............................................................................................................88 Capítulo 12
Uma casa mal-assombrada..............................................................................94 Capítulo 13
O fantasma e o picador de gelo.....................................................................104 Capítulo 14
A dupla consciência....................................................................................... 113 Capítulo 15
O artista acidental.........................................................................................120 Capítulo 16
Aja com espontaneidade............................................................................... 123 Capítulo 17
Atravessando o imaginável............................................................................ 131
Capítulo 18
Art Boy........................................................................................................... 135
Capítulo 19
O talento interior..........................................................................................139
Capítulo 20
“Visão cega”..................................................................................................146
Capítulo 21
Ver para crer................................................................................................. 151
Capítulo 22
Razão e emoção...........................................................................................156
Capítulo 23
O instinto da imaginação.............................................................................163
Capítulo 24
Fantasmas do presente..................................................................................166
Capítulo 25
O eu expandido............................................................................................ 170
Capítulo 26
Lampejos disparados.................................................................................... 178
Capítulo 27
Trabalhando no escuro.................................................................................183
Capítulo 28
As coisas falam por si ...................................................................................188
Capítulo 29
O presente de Richard..................................................................................195
Capítulo 30
O infinito em julgamento........................................................................... 204
Capítulo 31
O cérebro eloquente.....................................................................................208
Capítulo 32
Encontro com Tommy..........................................................................216
Capítulo 33
Grandes amigos............................................................................................ 219
Capítulo 34
Sem fronteiras...............................................................................................223
Capítulo 35
Palavras falhas e obstinadas..........................................................................226
Referências...........................................................................................
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P R ÓL OG O
O brilho das sombras Quando foi que ouvimos a voz da união? Do ser impessoal, do que perambula, Do pai, do ancestral, o companheiro barbado, O todo das sombras humanas, brilhantes como o vidro. Wallace Stevens (“Things of August”)
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área de North Shore, na costa norte de Boston, represa águas revoltas em uma agonizante geografia: Ilha da Angústia, Angra do Aleijado, o coral das Aflições de Norman. Jon Sarkin sente-se confortável nesse cenário modelado pela perda. Por séculos a fio, mulheres e crianças esperaram nessas penínsulas por maridos, filhos e pais que nunca retornaram para seus lares. Bem ali, na Baía Half-Moon, observado pelos fantasmas de Gloucester, o rio Annisquam desemboca no Atlântico. Nesse vilarejo colonial pesqueiro, a luz do sol ainda possui o sabor salgado do mar e as velhas casas conservam as placas inscritas com os nomes dos moradores de Gloucester mortos há muito tempo: coronel Joseph Foster, veterano da Revolução, que levou clandestinamente mercadorias a Massachusetts durante o bloqueio britânico dos portos da Nova Inglaterra; Harvey Coffin Mackay, cuja pequena embarcação foi atingida por um raio e afundou a caminho da Inglaterra em 1830; e o pintor luminista1 Fritz Hugh Lane, que imortalizou essa tragédia marítima meses depois, em sua aquarela The Burning of the Packet Ship “Boston”. Durante séculos, os artistas foram atraídos para cá pela visão dos mastros dos navios entrelaçando-se no ancoradouro e pelos pôres do sol alaranjados se derretendo sobre as rochas. Winslow Homer visitou o local e pintou o seu Boys of the Rocks; Rudyard Kipling veio de férias e escreveu Do original em inglês Luminist. Luminismo é o nome dado à técnica pictórica desenvolvida na América (1825-1865) por John Singer Sargent, Mary Cassatt, William Merritt Chase e outros em sua maioria da Escola do Rio Hudson. O termo foi cunhado por John Baur em seu estudo de 1954 sobre a pintura norte-americana do século XIX, American Luminism, que descrevia uma característica especial no tratamento da luz, com pequenas modulações de tom. (N.T.)
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Captains Corageous, e quando Longfellow parou para dar uma espiada no local, produziu The Wreck of the Hesperus. Das intermitentes rajadas de vento, Um som veio da terra; Era o som do estouro das ondas, Sobre as duras rochas e a areia do mar. Cem anos depois de Longfellow, T. S. Eliot relembrou os verões de sua infância em Gloucester e escreveu sobre as rochas perigosas escondidas embaixo das ondas do porto, em seus Quatro quartetos. O mar também é a orla da terra [...] E onde sorteia após nossos despojos, a rede rasgada, O covo em pedaços, o remo estilhaçado E os utensílios de estrangeiros mortos.2 A arte não atraiu Sarkin para cá, mas o salvou. Quando chegou pela primeira vez, há 30 anos, ele era um quiroprático jovem e ambicioso concentrado em construir uma carreira. Isso foi antes de seu futuro lhe escapulir das mãos, antes de um minúsculo vaso bem lá no fundo de seu cérebro, inexplicavelmente, mover-se um quarto de milímetro e tão depressa quanto o bater de asas de uma borboleta, ocasionando uma onda de acontecimentos que transformaram seu corpo e sua alma. Uma simples e cruel artimanha da natureza, um derrame catastrófico, e um homem sensato e tranquilo transformou-se num artista com uma necessidade feroz de criar. Por cerca de duas décadas ele se trancou em seu estúdio pintando e desenhando sem premeditação ou expectativa, sem um plano ou um quadro na cabeça, produzindo uma tempestade de arte que, vagarosamente, foi crescendo em complexidade e qualidade. Contudo, sempre havia uma pergunta: Quem era ele? Como havia chegado a este lugar? Ele era um daqueles raros indivíduos que sabia que seu cérebro o havia traído. Sem mencionar as próprias angústias. Como se jogado, varrido para alguma praia desconhecida, ele se questionava: quem, e o que, ele era? Como uma alma recomeça? Traduzido para o português por Ivan Junqueira, no livro: Poesias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. (N.T.)
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Quase dois mil anos atrás, Plutarco fez a mesma pergunta e sentiu-se intrigado. Ele escreveu sobre um grande navio em que diligentes atenienses substituíram tábua por tábua enquanto ele se deteriorava até que nada mais restava do barco original. O que era ele então? Seria o mesmo navio?, ponderou Plutarco. Ou havia se tornado algo totalmente novo? O corpo de Sarkin estava enfraquecido, seu cérebro, desarticulado. Partes dele estavam faltando e outras haviam mudado de modo irreconhecível. Ele sabia disso, sentia profundamente essa transformação e, no entanto, não conseguia explicar como nem por que, nem para si mesmo. Para compreender verdadeiramente o que havia acontecido, ele teria de ser tanto sujeito quanto objeto, ator e plateia. Ele era, de certa forma, seu próprio experimento filosófico: quantas partes de si poderiam ser removidas e substituídas e, ainda assim, ele continuar a ser o mesmo homem? Essa era uma questão sobre a qual os povos da antiguidade refletiam, e que hoje neurocientistas tentam resolver ao procurar as origens da consciência. Sarkin, no entanto, era um participante involuntário. Desalojado de si mesmo, não tinha escolha a não ser encontrar um caminho de volta para si mesmo. Era o mais raro dos homens arruinados: compreendia perfeitamente, dolorosamente, de uma maneira como poucos indivíduos são capazes, que, quando a rocha de sua identidade ruíra, ela libertara sua alma desconhecida. *** O paciente piscou, totalmente desperto, enquanto o cirurgião cortou e abriu a camada exterior do cérebro do homem e começou a procurar pelo tumor. “Logo você estará de volta ao seu pavilhão”, disse uma das enfermeiras na sala de cirurgia de Cardiff, na Enfermaria Real de Gales. “Obrigado, eu me sinto bem”, respondeu o homem, seu couro cabeludo adormecido pela ação da anestesia local. O ano era 1938 e o cirurgião de 41 anos, Lambert Rogers, não dispunha de ressonância magnética, nem mesmo de um microscópio para localizar o tumor cerebral de seu paciente, contando apenas com seus dedos para explorar a região. Após cortar a “pele” transparente da dura-máter, camada externa e mais forte que envolve o cérebro, Rogers mergulhou a mão nas dobras úmidas e macias da massa cinzenta do homem e começou a exploração. Passou-se meia hora. Depois, uma hora. O cirurgião fez uma busca minuciosa na massa gelatinosa de cerca de um quilo e meio, como um cego que vagarosamente atravessa um pântano. 15
Oh, meu Deus, há ainda mais dois pacientes para serem atendidos, pensou Wilfred Abse, o residente que auxiliava Rogers. Abse era um psiquiatra de 23 anos, em treinamento, impaciente para terminar seu longo dia de trabalho. Ele também sabia que o tempo estava se esgotando para aquele paciente na mesa de cirurgia. Abse nunca havia visto o cérebro de um ser vivo antes, mas, enquanto ele observava Rogers cutucar e remexer, cada incursão fracassada parecia mutilar mais ainda o tecido cerebral do pobre homem. Depois de quase duas horas de cirurgia, sua pressão arterial despencou e ele perdeu a consciência. Se Rogers não encontrasse o tumor logo, ele teria de costurar e fechar o cérebro do paciente. Ele continuou pressionando, a luz de um pequeno holofote preso à sua testa iluminava a massa lodosa rosa e cinza dentro do crânio do paciente. O que aconteceu a seguir Abse nunca esqueceu e frequentemente contava à sua família, como se ainda continuasse impressionado, mesmo depois de passados tantos anos. O paciente, que tinha ficado sem reação por algum tempo, repentinamente gritou numa voz que parecia mais mecânica do que humana. “Você, deixe a minha alma em paz. Deixe... minha... alma... em paz.” Atônito, Rogers rapidamente retirou a mão. Era como se o espírito do homem tivesse vindo se defender. Dentro de segundos, o paciente acossado faleceu e um silêncio profundo e perturbador caiu sobre o ambiente. *** A alma de Sarkin também fora maltratada, seu cérebro exposto e desnudado quase até o âmago. Para encontrar um caminho de volta, para reescrever a história do seu eu, ele teria de tecer todos os fios velhos e novos. Nós somos, cada um de nós, uma história, um eu nascido de um bilhão de neurônios entrelaçados. Possibilidade líquida. Em mares tão frágeis, como uma simples alma consegue flutuar?
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