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O boxeador polonês

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Do autor de Tarântula

Eduardo Halfon

O boxeador polonês

Nova edição com textos inéditos

O boxeador polonês

tradução

Silvia Massimini Felix

Copyright © 2019 Eduardo Halfon

Publicado mediante acordo com a Casanovas & Lynch Literary Agency.

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Contemporânea

Título original: El boxeador polaco

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial Rejane Dias

editora responsável Rafaela Lamas revisão Ariadne Martins

adaptação de capa Diogo Droschi (sobre fotografia do arquivo pessoal do autor) diagramação Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Halfon, Eduardo

O boxeador polonês / Eduardo Halfon ; tradução Silvia Massimini Felix. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Contemporânea, 2026.

Título original: El boxeador polaco.

ISBN 978-65-5928-705-5

1. Ficção guatemalteca I. Título.

26-356062.0 CDD-G863

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura guatemalteca G863

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

Belo Horizonte

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Belo Horizonte . MG

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São Paulo

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Passei a máquina de escrever para o outro quarto, onde posso me ver no espelho enquanto escrevo.

Prefácio de estanho

Esta nova edição de O boxeador polonês, que marca o décimo aniversário da original, recupera o mesmo esquema que segui quando estava escrevendo as primeiras histórias de seu narrador, aquele outro Eduardo Halfon, que na época mal estava nascendo e que hoje ainda me acompanha; um esquema que, por decisões de caráter temporal ou editorial, tinha se dividido em dois. De repente, um projeto de escrita se viu transformado em dois livros: O boxeador polonês e A pirueta. Mas agora, dez anos depois, esse esquema ou projeto original volta a se unir, impondo-se com firmeza, e eu, como sempre, lhe obedeço. Ao menos por enquanto, para esta sua edição de estanho.* Quem sabe que imposições suas me esperam no futuro. E é que a passagem dos anos faz com a literatura o mesmo que faz conosco. Algumas histórias crescem e amadurecem com elegância, outras encolhem, outras se deformam, e ainda outras desaparecem por completo. A literatura só é literatura se a deixarmos morrer.

Eduardo Halfon Nebraska, 2018

* Em 2014, a Editora Rocco publicou este livro no Brasil sob o título O boxeador polaco. Esta nova edição, além da mudança no título, apresenta a versão expandida concebida por Eduardo Halfon e publicada originalmente em 2018, na Espanha, em comemoração aos dez anos da obra. Assim, reúne contos inéditos e uma nova tradução, assinada por Silvia Massimini Felix. (N. E.)

Cartões-postais

A ilha nua. Foi isso que Milan escreveu como título no primeiro cartão-postal que recebi. Dois golfinhos acrobatas saltavam na frente, convidando-me a visitá-los em algum parque aquático da Flórida. Milan havia preenchido o verso branco do imenso cartão-postal (do tamanho de um sulfite dobrado ao meio) com minúsculas letras de forma, tão ínfimas e aglutinadas que o texto inteiro parecia redigido por uma mão infantil. Experiente, mas infantil.

O cantor cigano Šaban Bajramović nasceu na cidade iugoslava de Niš, em 1936. Aos dezoito anos, por desertar do exército de Tito, as autoridades comunistas o enviaram a Goli Otok, que significa a ilha nua: uma rocha gigantesca e desolada na costa dálmata onde os prisioneiros morriam desidratados pelo sol e pelo esquecimento. Šaban Bajramović havia desertado do exército iugoslavo por causa de uma mulher. Suportou um ano em Goli Otok (“Estou escrevendo uma carta e chorando/ Estou morrendo na prisão/ Os anos passam voando/ E não estão me libertando”). Ali, sobre aquela rocha, aprendeu a escrever. Os outros prisioneiros o chamavam de Pantera Negra. Os outros prisioneiros lhe talharam o rosto e por pouco não o estriparam: uma grande cicatriz corre do seu peito até o púbis. Quando finalmente o libertaram, em 1964, gravou suas primeiras canções e com o dinheiro comprou um terno branco e um Mercedes branco,

os quais perdeu numa partida de dados naquela mesma noite (“Quando tive dinheiro, entreguei tudo a todos/ E agora não tenho dinheiro/ Não tenho amigos/ Por isso suplico ao pequeno caracol que me venda sua casinha”). A música de Šaban Bajramović não é de Šaban Bajramović. Ele jamais a protegeu nem registrou. Ninguém sabe onde vive nem por onde anda. De repente aparece em algum festival de música cigana em Sarajevo ou nos cafés ciganos de Budapeste. De repente desaparece de novo. Assim vive, meu querido Eduardito, um dos melhores cantores ciganos que já existiram. Como se ainda fosse uma pantera negra. Como se ainda fosse o único habitante daquela inóspita ilha nua. Errando sozinho por aí, sabe-se lá onde. Sem laços nem responsabilidades nem limites de nenhum tipo. Sem limites.

Preguei o cartão-postal na parede do meu estúdio, golfinhos para fora, exatamente entre uma fotografia de um suposto e já envelhecido Thomas Pynchon caminhando com seu filho pelas ruas de Nova York e o único croqui de um orgasmo de Lía que não estava no seu caderno cor de amêndoa: um croqui do possível trajeto de algum rio sul-americano, com os afluentes principais e secundários, desenhado numa fria tarde chuvosa depois de termos feito amor (com plácido desconforto, claro) metidos na banheira.

Sua principal mania, havia me advertido Milan em algum momento, eram os cartões-postais. Ele gostava de enviar cartões-postais. Não de recebê-los. De fato, jamais quis me dar seu próprio endereço. Não tenho, disse em tom de brincadeira ou, pensando bem, talvez tenha dito

a sério. Disse: Vivo no lungo drom, que em cigano significa o longo caminho, sem rumo fixo e sem retorno. Disse: Viajo numa caravana de um só. Disse: Pelo caminho, para meus amigos, vou deixando patrin, que em cigano significa folhas, mas que também significa sinais no caminho, como um tronco partido de certa maneira ou um feixe de gravetos amarrados com um lenço azulclaro ou um osso de cabra espetado na terra. Disse: Os cartões-postais são meu patrin.

Lía comentou que muito tempo atrás tinha visto um filme em que caravanas de ciganos se comunicavam entre si deixando esse tipo de marcadores nas estradas, marcadores que eram interpretados como bruxarias e necromancias pelos habitantes de um povoadinho anacrônico da Espanha. Numa noite, depois da morte repentina de uma menina espanhola que naquela tarde tinha ficado brincando perto de alguns marcadores ciganos, os habitantes do povoado se transformaram de repente numa turba enlouquecida e saíram com tochas e foices para esquartejar todos os ciganos que encontraram dormindo tranquilamente entre as árvores. Homens, mulheres e crianças. Lía não lembrava se esse era o final do filme, mas achava que sim.

O cartão-postal seguinte não dizia nada ou ao menos não dizia nada por escrito. Sei que era dele pela letra minúscula com que estavam escritos meu nome e meu endereço e também porque quem mais, em sã consciência, ainda envia cartões-postais? Segundo o carimbo, Milan o enviara de Washington, D.C. Era uma reprodução de um quadro de Chagall, ou talvez um fragmento desse

quadro. Primeiro pensei que o quadro de Chagall não tinha nada a ver com Milan, depois pensei que talvez tivesse e passei vários dias tentando decifrá-lo, encontrar na imagem algum significado que me remetesse à vida do pianista sérvio. Só muito tempo depois, porém, e talvez já tarde demais, é que eu entenderia aquilo que Milan, sem me dizer nada, havia dito.

*

Recebi um cartão-postal de uma montanha de cor bege-clara cheia de pequeníssimos pontinhos negros que supus esquiadores ou talvez enormes coníferas, de Denver, Colorado. Milan escreveu: Era uma vez um rei que era dono do abecedário cigano. E como naquele tempo não existiam estantes para guardar os abecedários, o rei embrulhou o abecedário cigano em folhas de alface e adormeceu junto a um manso riacho. Pouco depois apareceu um asno, bebeu um pouco da água do riacho e comeu as folhas de alface. Por isso nós, ciganos, não temos abecedário. *

Recebi um cartão-postal de uma baía noturna e iluminada de Boston. Milan escreveu: Nós, ciganos, Eduardito, possuímos três grandes talentos. Fazer música. Contar histórias. E o terceiro é um segredo.

*

Boneca, intitulou na sua liliputiana letra de forma o cartão-postal seguinte, novamente enorme e enviado do

Distrito Federal mexicano. Na frente havia uma colagem de mariachis e bandeiras tricolor e praias de areia branca e, bem no centro, como se sustentasse tudo ou emanasse tudo da sua aura dourada, uma retumbante Virgem de Guadalupe. Milan escreveu: Seu nome verdadeiro era Bronisława Wajs, embora todos a conhecessem pelo seu nome cigano, Papusza, que significa boneca. Como a maioria dos ciganos poloneses do início do século, Papusza pertencia a uma família de nômades. Uma família de harpistas nômades. Quando completou quinze anos, Papusza se casou, claro, com outro harpista nômade. E, nas suas viagens posteriores, de alguma maneira, talvez enquanto a caravana se detinha em povoados por alguns dias ou talvez enquanto todos se entrincheiravam numa aldeia até que passasse o inverno, Papusza aprendeu a ler e escrever. Ainda hoje, velho, três de cada quatro mulheres ciganas são analfabetas. Ela escreveu longas baladas que simplesmente chamava de “Canções da cabeça de Papusza”. No verão de 1949, por pura casualidade, o poeta polonês Jerzy Ficowski a ouviu cantar e imediatamente começou a copiar, transcrever e traduzir algumas das suas canções, que publicou numa revista chamada Problemy. Papusza teve de comparecer diante da autoridade máxima dos ciganos na Polônia, que, depois de breves deliberações, a julgou mahrine, ou contaminada, por ter colaborado com gadje, ou não ciganos. Sua punição foi a expulsão irreversível da caravana. Ao sair, alguns meses depois, de um hospital psiquiátrico, Papusza (“Ninguém me compreende/ Só a floresta e o rio/ Daquilo de que falo/ Tudo, tudo passou/ Tudo passou com aquilo/ E aqueles anos de juventude”) viveu o resto da vida na mais absoluta solidão e no mais absoluto

silêncio. Como uma maravilhosa boneca de merda que, esquecida e esfarrapada, termina apodrecendo numa gaveta do sótão. Não te parece incrível, Eduardito, que os ciganos sempre acabem cumprindo seus apelidos, como se fossem ordens providenciais ou mandatos divinos? Qual será meu apelido, velho? Qual será meu mandato divino? Papusza morreu em 1987.

Delicadamente, com a precisão de um acupunturista, preguei o cartão-postal na parede do meu estúdio.

Eu tinha feito várias tentativas de localizar Milan. Algumas ligações. Alguns e-mails. Mas sempre, claro, de maneira frouxa: sem realmente desejar localizá-lo. Queria falar com ele e lhe perguntar coisas, mas também queria respeitar seu desejo de se manter inalcançável, ilocalizável, meio perdido, peregrinando sem raízes nem vínculos. Ele havia adotado, na medida do possível, uma vida de nômade, mas nômade moderno, nômade metafórico, nômade postal, nômade ululando por um mundo onde já está proibido ser um verdadeiro nômade.

Recebi um cartão-postal de um entardecer purpúreo em algum deserto do Arizona. Milan escreveu: Há muitos séculos, um cigano viajava com toda a sua família dentro de uma carroça, uma carroça velha puxada por um rocim magro e muito fraco. Quanto mais filhos o cigano e sua esposa tinham, mais difícil ficava para o pobre rocim, e toda a carroça se balançava de um lado

para outro, e xícaras e panelas se chocavam, e de vez em quando algum dos filhos do cigano saía voando descalço para fora. E assim os ciganos foram se dispersando pelo planeta inteiro. Por toda a Europa e a Índia e o Oriente Médio e a África e a América do Norte e a América do Sul e a Austrália e a Nova Zelândia. Milhões e milhões de ciganos, Eduardito, todos filhos caídos de uma única e avariada carroça.

Recebi um cartão-postal de Nova York intitulado Yusef. Era uma fotografia (perfeita, segundo Lía) em preto e branco de quatro jazzistas parados diante da fachada do Minton’s Playhouse, o famoso clube de jazz dos anos 50: Teddy Hill, Roy Eldridge, Howard McGhee e, claro, como o chamava sua esposa, Melodious Thunk, mas um Melodious Thunk simbólico, se é que existem símbolos, um Melodious Thunk metafórico, se é que as metáforas são algo mais do que formiguinhas furiosamente enfiadas entre os dedos dos pés. Milan escreveu: Chamavam-no Yusef. Ninguém sabe se esse era realmente seu nome nem de que país provinha. Contam os anciãos que ouvir o acordeão de Yusef era como ouvir o doce canto de uma sereia. Contam os anciãos que ouvir o acordeão de Yusef era como ouvir os gritos de Jesus crucificado. Contam os anciãos que Yusef conseguiu sobreviver quatro anos no campo de extermínio nazista de Chełmno, às margens do rio Ner, tocando todas as noites nas festas dos oficiais alemães. Contam os anciãos que Yusef, durante as noites, tocava uma peça para cada cigano morto naquele dia nas câmaras de gás. Contam os anciãos que Yusef,

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