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O auto da maga Josefa

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Ilustrações

Vito Quintans


Copyright © 2021 Paola Siviero

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora.

editora responsável

capa

Flavia Lago

Vito Quintans

editora assistente

edição de arte

Natália Chagas Máximo

Diogo Droschi

revisão

diagramação

Bárbara Prince

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil Siviero, Paola O auto da maga Josefa / Paola Siviero ; ilustrações Vito Quintans – 1. ed. – São Paulo : Gutenberg, 2021.

ISBN 978-65-86553-63-5

1. Cultura nordestina 2. Ficção brasileira 3. Lit. Fantástica Brasil, Nordeste I. Título II. Série. 21-62882 CDD-B869.3 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

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Para a maior e melhor mulher que cruzou minha estrada. Você, da mesma forma que Josefa, sempre esteve à frente do seu tempo. E, como Toninho, semeou bondade por onde passou. Obrigada pela estante lotada da qual sempre pude retirar o livro que bem entendesse. Recentemente abri um deles e ri ao ler na sua letra bonita: Favor devolver. Ah, como teria sido maravilhoso ver meu livro entre os que você guardava com tanto carinho! A vida é breve, mas as palavras são para sempre. E aqui, eternizada no papel, tem um pouquinho de Vó Teca em cada personagem. Esse é para você, vó.


Nota da autora PRÓLOGO

1 O DIA DA CAÇA

9 15 23

2 FORRÓ, SANGUE E CACHAÇA

43

4 O MISTÉRIO DO AÇUDE ORÓS

83

3 A MALDIÇÃO DA CASA GRANDE 63 5 CÉU EM CHAMAS

6 A LUZ QUE ME ALUMIA 7 CORAÇÃO DE PEDRA

8 O OLHAR DA ESCURIDÃO 9 LUAS PASSADAS

1 0 O REPENTE DO INFERNO Agradecimentos

99 117 141 165 179 199 217


Nota da autora

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro Tu vens chegando pra brincar no meu quintal No teu cavalo peito nu cabelo ao vento E o sol quarando nossas roupas no varal. Alceu Valença, “Anunciação”

O auto da maga Josefa nasceu de uma provocação. Em março de 2015, num grupo de autores, nós divagávamos sobre o fato de nos inspirarmos muito na literatura fantástica estrangeira para escrever o gênero por aqui. Uma influência tão forte que parecia nos impedir até mesmo de dar nomes brasileiros aos personagens em uma história com magia e criaturas imaginárias. Em dado momento, um colega tentou traçar uma linha, um limite do que seria palatável aos leitores: “Acho que não dá pra escrever uma história no Nordeste com Michael e Elizabeth. Nem Toninho com espada e escudo, nem uma maga Josefa”. Essa afirmação acendeu em mim uma vontade de provar o contrário. Afinal, na literatura, qualquer coisa é possível. Escrevi então, sem nenhuma grande pretensão, um microconto de um parágrafo em que Toninho e Josefa enfrentavam trolls do agreste. Era para ser uma brincadeira, 9


apenas uma resposta meio debochada. Mas em 2017, lá estava eu, começando a busca por uma editora com o original d’O auto da maga Josefa nas mãos. Quando me perguntam de onde veio a inspiração para escrever a história, acabo contando sobre essa discussão e confessando que os principais elementos me foram dados de bandeja. E essa é uma pergunta bastante frequente, dado que nasci em Belo Horizonte e cresci em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Por isso mesmo, durante o processo de escrita, enquanto as palavras guiavam Toninho e Josefa por pequenas cidades do agreste e do sertão, não eram as criaturas malignas caçadas por eles que me assombravam. Não, era o medo constante de errar. (E já que é para ser sincera, esse medo continua presente e duvido muito que exista alguma poção que consiga fazê-lo sumir um dia.) Escrever esse livro foi uma das experiências mais incríveis que já vivi, mas também uma das mais desafiadoras. Afinal, eu estava criando uma fantasia ambientada no Brasil, mas em uma região e em uma época que não são meus por vivência. Havia, sim, muitas lacunas de conhecimento e tentei remediá-las da melhor forma possível: com pesquisa, entrevistas, além de diversas leituras e revisões de pessoas de diferentes estados do Nordeste. A cada melhoria apontada por um leitor atento e solícito, a história e narrativa pareciam estar sendo lapidadas, tomando uma forma cada vez mais gentil. Durante o processo de edição para chegar a essa versão, discutimos, por exemplo, a oralidade nos diálogos, muitas vezes subvertendo regras em favor da naturalidade. Falamos também sobre termos e expressões mais apropriados, guiados sempre pela vontade de entregar uma obra que 10


transmitisse o respeito e a seriedade com que esse processo foi feito. E, mesmo depois de tanto cuidado e carinho, me sinto compelida a falar sobre dois pontos relacionados à representação do Nordeste neste livro: o tempo em que a história se passa e sua localização. Aqui, tudo acontece no início da década de 1960. Portanto, as condições representadas são aquelas de uma realidade muito diferente, de uma época em que se discutiam planos para aumentar o acesso a algo tão básico quanto a energia elétrica. Há uma cena em que Toninho entra em uma casa e se surpreende ao ver uma televisão. Me lembro de ouvir meu pai, que é do interior de São Paulo, contar que na copa de 1970 ele e os amigos iam todos na casa do único conhecido que tinha um televisor apropriado para poder assistir à primeira transmissão em cores no Brasil. Por relatos assim, além de pesquisa, me pareceu apropriado demonstrar essa surpresa. E, no geral, isso se reflete na ausência de tecnologia, nas estradas de terra, nas construções muitas vezes bastante simples. Se Toninho e Josefa estivessem caçando criaturas malignas hoje em dia, sem dúvidas receberiam missões por áudios desnecessariamente longos de WhatsApp, aceitariam Pix e tirariam par ou ímpar para ver quem ficaria no quarto da pousada com ar-condicionado. Estava prestes a dizer que Toninho talvez preferisse se locomover de moto, mas senti o olhar de Véia sobre mim, cheio de julgamento, e apaguei a sugestão antes de levar um coice. Além da questão do tempo, há também a da escolha dos locais: as cidades mencionadas no livro são reais. O processo de escolha de cada uma foi um tanto caótico, sem regras ou muito planejamento. Às vezes vagava por horas 11


pelo Google Maps procurando um local que parecesse apropriado, calculando distâncias e dias de viagem à velocidade de uma mula encantada e de um galho de cajueiro voador. Em outras, fazia buscas do tipo “aparições de lobisomem na Bahia” – e que surpresa agradável descobrir que Inhambupe tem um título de terra do lobisomem! À procura de um grande açude, descobri que o de Orós tinha sido inaugurado em 1961, mas que um terrível arrombamento tinha ocorrido um ano antes. Em alguns casos, a busca pelo local ideal foi guiada para servir à narrativa, em outros, acabou por moldá-la. Depois que batia o martelo, tentava retratar esses lugares usando fotos antigas e atuais, além de passeios virtuais muito agradáveis pelo Google Street View. Há capítulos em que cito pontos ou construções específicas, como a visão entre morros que se tem de Riacho das Almas a partir da estrada, o alto da Serra da Saúde na Vila de Samambaia, ou a igreja de Inhambupe. E em alguns, falo de maneira mais geral sobre a geografia ou o estilo das construções, às vezes sem descrever a cidade, como no caso da chácara fictícia de dona do Carmo em Estrela de Alagoas, ou a também inventada Fazenda de Caicó. Peço desculpas de antemão aos habitantes (humanos ou fantásticos) das cidades representadas pelas licenças poéticas ou eventuais deslizes. É verdade que a Pedra da Caveira é bem distante do centro de Araruna, mas acabei desconsiderando esse detalhe para permitir à pedra dançar. Em sua maioria, as cidades n’O auto da maga Josefa tem menos de trinta mil habitantes, sendo a maior delas Quixadá, “Cidade Rainha do Sertão Central”, com quase noventa mil pessoas e seus lindos monólitos que parecem fruto de magia ou de ação extraterrestre. São cidades localizadas 12


no agreste e no sertão, em diferentes estados, cujo bioma predominante é a caatinga e que às vezes sofrem com estações secas mais rigorosas. Esse é o cenário retratado, mas é importante frisar que essa é apenas uma entre incontáveis realidades existentes em cada estado do Nordeste. Grandes cidades litorâneas, praias paradisíacas, mangues e regiões de Floresta Amazônica também seriam excelentes ambientações para a literatura fantástica nacional. Por fim, torço para que O auto da maga Josefa possa te fazer rir e se emocionar. Minha jornada por essas páginas foi maravilhosa e espero que a sua também seja. Boa viagem. Paola Siviero

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PRÓLOGO Essa água dos meus óio Algum dia vai parar O bom filho volta à casa Por isto eu vou voltar Eu já vi ditado certo Pr’aprender tem que apanhar. João do Vale, “O bom filho à casa torna”

Havia um fantasma no quarto de Toninho. O garoto não conseguia vê-lo, já que não havia nascido com dons mediúnicos, mas desde pequeno aprendera a identificar os sinais. Apesar do bafo cálido que soprava pela janela aberta, um arrepio percorreu sua espinha. Toninho esquadrinhou o cômodo com a certeza desconcertante de que alguém o observava. Havia um fantasma no quarto de Toninho. Ele sabia disso, assim como sabia que as estrelas brilhavam, pálidas, no céu sem nuvens do lado de fora. Então fez o que qualquer criança de sete anos como ele faria: sentou-se no colchão fino de fibras, fez o sinal da cruz por força do hábito e atravessou o quarto até o armário na parede oposta. A lua estava cheia e banhava o ambiente; dava para ver as ripas entre o barro nas 15


paredes e os troncos compridos que sustentavam as telhas lá em cima. A sensação do chão de terra batida sob os pés descalços era reconfortante. Toninho estava em casa, ao contrário da alma penada que viera o assombrar. Abriu a porta do armário devagar para que ela não rangesse. De uma das prateleiras, pegou um crucifixo, um saquinho de chita cheio de sal grosso e um vidrinho com água benta. A água, passou na testa, em forma de cruz – pra lhe dar forças, ouvia a voz do pai repetidas vezes em sua mente. O sal, jogou aos pés, formando um círculo, para garantir proteção. Por fim, segurou a cruz à sua frente, com as duas mãos. Alma, escudo e espada. Iniciou o Pai-Nosso e o ar pareceu ficar espesso feito mingau frio. Era o espírito resistindo, querendo ficar. Seu pai havia explicado que o caminho para o além andava meio congestionado, por causa das mortes advindas da guerra no mundo. Todas as noites, depois do jantar, a família se ajuntava ao redor do rádio para ouvir as notícias. Na véspera, o locutor anunciara que Paris havia sido libertada e mainha ficara bastante feliz, prevendo que o fim da guerra não devia estar tão longe assim. De países distantes Toninho pouco entendia, mas a morte e os rituais de despacho eram parte de sua rotina tanto quanto farinha em suas refeições. – Ô, diacho, segue logo a tal da luz – Toninho ordenou, num sussurro, sem querer acordar os pais. O pai ou a mãe resolveriam o assunto em um minuto, pois eram os melhores caçadores de demônios de toda a Paraíba. Mas já haviam ensinado o filho a lidar com assombrações, a desfazer vodus e a espantar chupa-cabras. Era a primeira oportunidade que Toninho tinha para provar que conseguiria seguir os passos deles, e não a deixaria escapar. 16


Apertou o crucifixo nas mãos, respirou fundo e retomou a reza. A assombração resistia e o garoto, de alguma forma, sabia que o desencarnado tinha algo a dizer. Com um misto de temor e empolgação, Toninho se decidiu e parou o ritual. Levantou o colchonete e puxou dali de baixo um segredo: um tabuleiro ouija, daqueles para conversar com os mortos, que o garoto tinha adquirido – em troca de uma galinha preta, um fio de cabelo de viúva e uma pedra de sal de rocha – de uma necromante amiga da família. O pai não achava certo lançar mão daqueles artifícios para conversar com seres do além, costumava dizer que era invenção do sete-pele. Talvez por isso mesmo tivesse sido tão irresistível comprá-lo. Toninho pegou o copo que estava na mesinha de cabeceira e verteu goela adentro o resto d’água. Quando estava vazio, pousou-o de cabeça para baixo sobre o tabuleiro. – Que é que tu quer, encosto? – o garoto perguntou, com ambas as mãos sobre o copo. – Desembucha, que eu tô com pressa! O objeto começou a ser arrastado e ele não conseguiu conter um engasgo de surpresa; era a primeira vez que utilizava tal artefato mágico. Acompanhou com os olhos enquanto o copo se movia em direção a cada letra do tabuleiro. Repetia mentalmente as sílabas conforme eram formadas. Dona Branca com a faca na sala de estar. Toninho suspeitou de que se tratava da pista de um crime. E, como se o morto assassinado desse seu último suspiro revelador, o copo formou mais uma palavra: Juazeirinho. O vilarejo ficava a meio dia de viagem. Decidiu que iria até lá na mula encantada no dia seguinte, pela estrada de terra que o seu Getúlio tinha mandado abrir na região. 17


– Pode deixar que eu resolvo esse engodo, seu morto. – Então escondeu o tabuleiro de novo embaixo do colchão e retomou o ritual de mandar alma penada para o além. – “Pai nosso, que estais no céu…” O fantasma retirou-se, rudemente, antes mesmo do amém. Toninho sorriu para si mesmo, sentindo-se meio metido a besta; havia conseguido despachar o desencarnado e ainda por cima tinha nas mãos a informação para desvendar um crime. Estava se saindo um caçador melhor que a encomenda. Por um breve momento, perguntou-se para onde o espírito teria ido e se ele estava bem. Enfiou os outros materiais de trabalho de volta no armário e se virou para voltar a dormir. Então viu, projetada no solo, a sombra de uma criatura maligna iluminada pelo luar. – Ahhhh! – O grito quebrou o silêncio da noite e fez berrarem as cabras lá fora. – Cr’em Deus Pai! Seu pai chegou em segundos, correndo com os cabelos escuros desgrenhados, vestido apenas de calções e com a peixeira em punho, desembainhada. A pele morena estava pálida do susto, mas ainda assim ele parecia pronto para o combate. Mas Francisco estacou feito uma mula assim que avistou o ser apontado pelo filho. Só uma pessoa poderia ajudá-los. – Maria, acode aqui! A mãe surgiu sem demora. Um desavisado qualquer talvez achasse sua figura pouco ameaçadora: uma mulher negra de camisola comprida, corpulenta, o rosto franzido numa brabeza própria às chefes de família, cachos escondidos sob a touca e uma adaga em cada mão. Mas Toninho sabia que Maria era capaz colocar qualquer criatura para correr, sobrenatural ou não. 18


– Cadê? – ela indagou, vasculhando o quarto à procura do inimigo. – Demônio? Monstro de mangue? Gigante da chapada? – Pior, muito pior! – o marido respondeu, apontando para a janela. – Um barbeiro! A mulher fitou os dois e, sem soltar as adagas, apoiou os punhos na cintura e balançou a cabeça. – Todo esse escarcéu por causa da porcaria de um barbeiro? Cambada de homem frouxo! Maria arrancou o chinelo, dirigiu-se meio manca até a janela e acabou com o infelizinho numa tacada só. Toninho e Francisco finalmente soltaram o ar. A mulher caminhou até eles e apontou a chinela em suas fuças. – Por terem me acordado por causa disso – ela disse, enfática, virando a sola para mostrar o cadáver esmagado do inseto –, da próxima vez que uma mandinga der bode, cês dois vão mandar os demônios de volta pro quinto dos infernos sozinhos! – Mas Maria, tu é a melhor de exorcizar demôni… – Sem “mas Maria”! – ela repreendeu. Pai e filho calaram-se, amuados. Um sopro morno veio da janela e os três, em sincronia, se contorceram em um arrepio. – Passou um espírito aqui – Francisco concluiu. Toninho não conseguiu conter o sorriso. – Passou, painho, mas já mandei ele pro além. Maria pousou a mão no coração e deixou o queixo cair. Os olhos de Francisco ficaram rasos de lágrimas. – Oxe, meu filho tá virando caçador! – a mãe exclamou, arrochando o menino nos braços. – Tô vendo que não foi só a cara que tu puxou da tua mãe – Francisco disse, a voz embargada, dando-lhe 19


tapinhas no ombro. – Tua primeira missão, Toninho, e nem precisou de ajuda. O sorriso do menino se alargou e seu peito se inflou. Depois, lembrou-se do que cruzara sua mente logo após o ritual. – Tava aqui pensando – ele começou –, pra onde será que ele foi depois do despacho? Os pais arquearam as sobrancelhas. – Depende da vida que o cabra levou, meu filho – Maria respondeu. – Será... será que quando chega a hora a gente sabe? – Toninho perguntou, com a pulga atrás da orelha. – Como é que eu sei se vou pro céu no final? – Pois é claro que tu vai pro céu, que pergunta besta! – Chico, ele não é mais criança – Maria disse, pousando a mão sobre o ombro do marido. Depois, virou-se para o filho: – Toninho, tu vai saber. Todo mundo tem um bichinho na cabeça chamado consciência, que avisa se estamos fazendo o que é certo. Ouve o teu bichinho e vai ficar tudo bem. – Vou ouvir, mainha – ele prometeu. – Vou ouvir sempre. Maria sorriu. Francisco virou a peixeira na mão e estendeu o cabo de madeira ao filho. – Tome, meu filho. Se tu não é mais criança, precisa de uma boa arma. A boca de Toninho se abriu. Ele esticou o braço devagar e, quando seus dedos tocaram a arma, anjos cantaram e trovões ribombaram – ou pelo menos era assim que Toninho gostaria de se lembrar do momento. – Tu tem que cuidar muito bem dela – o pai explicou. – Manter afiada, polida, abençoada, envenenada e 20


enfeitiçada. Nunca se sabe qual criatura vai aparecer no dia seguinte. – Ela é linda. E pesada – o garoto disse ao balançar a peixeira de um lado para o outro. Francisco concordou com a cabeça e depois deu um suspiro sofrido. – Ah, meu filho, o peso da peixeira na mão nem se compara ao que um caçador carrega nos ombros. É o peso das mortes, da vida, do equilíbrio do mundo. – Os três se entreolharam. Toninho pensou no irmão, que deixara a casa meses antes para começar sua jornada. – Em breve, tu vai entender. O garoto fitou a imensidão lá fora: o terreiro árido, o poço d’água lá no meio, o pé de umburana com seus braços nus e a cerca de estacas. Mesmo sem enxergá-la, sabia que, além da propriedade, serpenteava a estrada. O galo cantou; o sol não tardava a nascer. E junto com ele, raiava em Toninho a vontade por grandes caçadas.

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