O NAU FRÁGIO DAS CIVILI ZAÇÕES
Amin Maalouf
Um olhar profundo sobre o nosso tempo para entender três feridas do mundo moderno: os CONFLITOS IDENTITÁRIOS, o ISLAMISMO RADICAL e o ULTRALIBERALISMO
O NAU FRÁGIO DAS CIVILI ZAÇÕES
Amin Maalouf
Um olhar profundo sobre o nosso tempo para entender três feridas do mundo moderno: os CONFLITOS IDENTITÁRIOS, o ISLAMISMO RADICAL
e o ULTRALIBERALISMO
tradução Arnaldo Bloch
Copyright © Editions Grasset & Fasquelle, 2019 Título original: Le naufrage des civilisations Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication 2019 Carlos Drummond de Andrade de l’Ambassade de France au Brésil, bénéficie du soutien du Ministère de l’Europe et des Affaires étrangères. Este livro, publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 2019 Carlos Drummond de Andrade da Embaixada da França no Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores. editor responsável
revisão
Arnaud Vin
Eduardo Soares Júlia Souza
editor assistente
Eduardo Soares
capa
preparação
Diogo Droschi (sobre imagem de Orla/Shutterstock)
Sonia Junqueira
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Maalouf, Amin O naufrágio das civilizações / Amin Maalouf ; [tradução de Arnaldo Bloch]. – 1. ed. – São Paulo : Vestígio, 2020. -- (Coleção espírito do tempo ; v. 2) Título original: Le naufrage des civilisations. ISBN 978-85-5412-678-0 1. Civilização moderna 2. Conflito cultural 3. Conflito internacional 4. Geopolítica - 1970 5. Globalização 6. Leste e oeste 7. Mudança social 8. Mudança sociocultural 9. Oriente Médio 10. Países árabes - Condições sociais 11. Política internacional 12. Relações internacionais 13. Relações internacionais - 1945 I. Título. II. Série. 20-38090
CDD-327.101
Índices para catálogo sistemático: 1. Geopolítica : Ciências Sociais : Política internacional 327.101 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br
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À minha mãe, a meu pai e aos sonhos frágeis que eles me transmitiram.
SUMÁRIO
Prólogo 9 Parte I – Um paraíso em chamas
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Parte II – Povos em perdição
67
Parte III – O ano da grande reviravolta
125
Parte IV – Um mundo em decomposição
181
Epílogo 239 Posfácio à edição brasileira
247
PRÓLOGO
O que reserva o futuro só os deuses conhecem, só eles são possuídores de todas as luzes. Os homens sábios, do futuro, só percebem o que é iminente. Por vezes, quando estão de todo mergulhados em seus estudos, seus sentidos se põem em vigília. Através deles, então, vem à tona o chamado secreto dos fatos que virão à luz, e eles o escutam com recolhimento... Konstantinos Kaváfis (1863-1933), Poemas
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nos braços de uma civilização que morria, e durante toda a minha existência tive a sensação de sobreviver, sem mérito nem culpa, a uma multiplicidade de coisas que, em torno de mim, ruíam – como esses personagens de filmes que percorrem ruas cujas paredes vão desmoronando, e mesmo assim saem ilesos, sacudindo a poeira das roupas, deixando para trás a cidade vertida numa montanha de escombros. Foi esse o meu triste privilégio, desde o primeiro suspiro. Mas é também, sem dúvida, uma característica de nossa época, se comparada às que nos precederam. Antigamente, os homens tinham a impressão de que eram criaturas efêmeras num mundo imutável; as pessoas viviam em terras que seus pais haviam habitado, trabalhavam como eles haviam trabalhado, cuidavam-se como eles foram cuidados, instruíam-se como eles se instruíram, rezavam da mesma maneira, deslocavam-se pelos mesmos meios. Meus quatro avós e todos os seus antepassados de nove gerações nasceram sob a mesma dinastia otomana. Como poderiam duvidar que esta fosse eterna? “De memória de rosa, jamais se viu morrer um jardineiro”, suspiravam os filósofos franceses das Luzes ao refletir sobre a ordem social e a monarquia de seu próprio país. Hoje, as rosas pensantes que somos NASCI COM BOA SAÚDE
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vivem cada vez mais, enquanto os jardineiros morrem. No espaço de uma vida, temos tempo suficiente para ver desaparecerem países, impérios, povos, línguas, civilizações. A humanidade se transmuta a nossos olhos. Jamais sua aventura foi tão promissora ou arriscada. Para o historiador, o espetáculo do mundo é fascinante. Falta ainda ele conseguir acomodar-se à angústia dos seus próximos e às suas próprias inquietações. Foi no universo do Levante que nasci. Mas hoje esse universo é a tal ponto ignorado que a maioria dos meus contemporâneos nem deve mais saber a que estou me referindo. É verdade que jamais houve uma nação que tivesse esse nome. Quando os livros falam do Levante, sua história é quase sempre imprecisa, e sua geografia, móvel. Em suma: um arquipélago de cidades mercantis, em geral costeiras (mas não sempre), indo da Alexandria a Beirute, Trípoli, Alepo ou Esmirna; de Bagdá a Mossul, Constantinopla ou Salônica; até Odessa, ou Sarajevo. Tal como eu o emprego, esse vocábulo obsoleto designa o conjunto de lugares nos quais as velhas culturas do Oriente mediterrâneo frequentaram outras culturas, mais jovens, do Ocidente. De sua intimidade deveria nascer, para todos os homens, um futuro diferente. Voltarei mais detidamente a esse encontro perdido, mas devo dizer uma palavra, desde já, para dar maior precisão a meu pensamento: se os cidadãos de diversas nações e os adeptos de religiões monoteístas tivessem continuado a viver juntos nessa região do mundo, e conseguido entender-se sobre seus destinos, a humanidade inteira teria diante de si – a inspirá-la e a iluminar seu caminho – um forte modelo de coexistência harmoniosa e de prosperidade. Foi o oposto, infelizmente, que se produziu: o ódio prevaleceu, e a incapacidade de viver lado a lado virou a regra. As luzes do Levante se apagaram. Em seguida, as trevas se espalharam pelo planeta. Do meu ponto de vista, isso não foi simplesmente uma coincidência. 12
O ideal levantino, tal qual os meus o vivenciaram, e tal qual eu sempre quis vivê-lo, exige de cada um assumir o conjunto de seus pertencimentos, e um pouco também o dos outros. Como todo ideal, nós o aspiramos sem jamais alcançá-lo por inteiro; mas a aspiração, em si, é salutar: indica o caminho a seguir, a via da razão, a via do porvir. Eu iria além, dizendo que é tal aspiração que marca, para uma sociedade humana, a passagem da barbárie à civilização. Durante toda a minha infância, observei a alegria e o orgulho de meus pais quando mencionavam amigos de outras religiões, ou de outros países. Era uma sutil entonação em sua voz, quase imperceptível. Mas uma mensagem se transmitia. Um modo de emprego, eu diria, hoje. Naquele tempo, a coisa me parecia ordinária, eu sequer pensava nela, e estava convencido de que era assim sob todo o firmamento. Foi só bem mais tarde que entendi a que ponto essa proximidade entre as diversas comunidades, que reinavam no universo de minha infância, era rara. E como era frágil... Muito cedo em minha vida eu a veria ofuscar-se, degradar-se e, enfim, dissipar-se, deixando em seu rastro nada além de sombras e nostalgia. Terei eu razão de dizer que as trevas baixaram sobre o mundo assim que as luzes do Levante se extinguiram? Não seria incongruente falar de trevas agora, quando assistimos, meus contemporâneos e eu, ao avanço tecnológico mais espetacular de todos os tempos; agora que temos, na ponta do dedo, todo o saber dos homens; que nossos semelhantes vivem cada vez mais tempo, e com mais saúde que no passado; agora que tantos países do antigo “terceiro mundo”, a começar pela China e pela Índia, saem, finalmente, do subdesenvolvimento? Mas é aí que se situa, justamente, o triste paradoxo deste século: pela primeira vez na História, temos os meios de livrar a espécie humana de todos os flagelos que a assaltam, para conduzi-la serenamente a uma era de liberdade, de imaculado progresso, de solidariedade 13
planetária e de opulência compartilhada; e eis-nos, apesar disso, lançados, em marcha acelerada, na via oposta. * Não sou desses que cultivam a crença de que “antes era melhor”. As descobertas científicas me fascinam, a libertação dos espíritos e dos corpos me encanta, e considero um privilégio viver numa época tão inventiva e tão desenfreada como a nossa. No entanto, observo, há alguns anos, desvios cada vez mais inquietantes que ameaçam aniquilar tudo aquilo que nossa espécie construiu até aqui. Tudo aquilo que, legitimamente, nos enche de orgulho; tudo o que nos acostumamos a chamar de “civilização”. Como chegamos a esse ponto? É a pergunta que me faço sempre que afronto as sinistras convulsões deste século. O que foi que andou para trás? De que viragens e contornos deveríamos ter fugido? Poderíamos tê-los evitado? E hoje, ainda é possível corrigir o leme? Se uso o vocabulário marítimo, é porque a imagem que me perturba, há alguns anos, é a de um naufrágio – um moderno cruzeiro, um navio cintilante, certo de si, dito insubmersível como o Titanic, carregado de uma multidão de passageiros de todos os países e de todas as classes, e que avança, garboso, rumo ao desastre. Precisarei acrescentar que não é na posição de simples espectador que observo sua trajetória? Estou a bordo, com todos os meus contemporâneos. Os que mais amo, e os que não amo tanto. Com tudo o que construí, ou creio ter construído. Sem dúvida, eu me esforçarei, ao longo deste livro, para manter o tom mais ponderado possível. Mas é com temor que vejo se aproximarem as montanhas de gelo que se perfilam diante de nós. E é com fervor que peço aos Céus, à minha maneira, que tenhamos sucesso em contorná-las. O naufrágio nada mais é, diga-se de passagem, que uma metáfora. Necessariamente subjetiva, forçosamente aproximativa. Seria possível descrever os sobressaltos do século por meio de várias outras 14
imagens. Mas é essa que me assombra. Não se passa um só dia, nos últimos tempos, sem que ela venha a meu espírito. É comum, demasiado comum, infelizmente, minha região natal surgir como o objeto de tais receios. Todos esses lugares cujos nomes antigos adoro pronunciar – Assíria, Nínive, Babilônia, Mesopotâmia, Emese, Palmira, Tripolitânia, Cirenaica, ou o Reino de Sabá – outrora chamado “A Arábia feliz”… Herdeiras das mais antigas civilizações, suas populações tentam escapar, amontoadas sobre jangadas, exatamente como num antigo naufrágio. Às vezes, é o aquecimento climático que está em causa. As gigantescas geleiras que não param de derreter; o Oceano Ártico que, durante o verão, volta a ser navegável, pela primeira vez em milênios; os enormes blocos que se soltam do Antártico; as nações insulares do Pacífico que tremem sob o risco de submergir... Será que elas irão testemunhar, nas próximas décadas, naufrágios apocalípticos? Outras vezes, a imagem é menos concreta, menos pungente do ponto de vista humano, e mais simbólica. Assim, quando contemplamos Washington, capital da maior potência mundial – da qual se espera o exemplo de uma democracia adulta e uma de autoridade quase paternal sobre o restante do planeta – não é a um naufrágio que ela se assemelha? Nenhum barco de imigrantes flutua sobre o Rio Potomac; mas, em certo sentido, é a cabine de comando do navio dos homens que está inundada, e é a humanidade inteira que se vê a pique. Em outras ocasiões, é da Europa que se trata. A meus olhos, seu sonho de união é um dos mais promissores de nosso tempo. O que foi feito dele? Como pudemos deixá-lo estragar-se a tal extremo? Quando a Grã-Bretanha decidiu deixar a União Europeia, os responsáveis pelo continente apressaram-se em minimizar o acontecimento e prometer iniciativas audaciosas entre os membros restantes para relançar o projeto. Espero, do fundo do coração, que tenham sucesso. Mas, enquanto espero, não posso censurar o murmúrio que em mim ecoa: “Que naufrágio!” 15
Longa é a lista de tudo o que, ainda ontem, era capaz de fazer sonharem os homens, de elevar seus espíritos, de mobilizar sua energia – e que hoje perdeu seus atrativos. Não me parece exagero associar essa “desmonetização” dos ideais – que não cessa de se expandir, e que afeta todos os sistemas, todas as doutrinas – a um naufrágio moral generalizado. Enquanto a utopia comunista desaparece nos abismos, o triunfo do capitalismo é acompanhado de um desencadeamento obsceno das desigualdades – o que, economicamente, talvez tenha sua razão de ser; mas no plano humano, no plano ético, e sem dúvida também no plano político, é, inegavelmente, um naufrágio. Esses poucos exemplos são claros? Não o suficiente, no meu modo de sentir. Eles explicam, sem dúvida, o título que escolhi para o livro, mas não permitem ainda captar o essencial. A saber: que uma engrenagem está em curso, que ninguém a iniciou voluntariamente; que em suas roldanas estamos todos encaixados, à força; e que ela ameaça destruir nossas civilizações. Ao evocar as turbulências que conduziram o mundo à beira desse desastre, serei muitas vezes levado a dizer “eu”, “meu” e “nós”. Preferiria não falar em primeira pessoa, sobretudo nas páginas de um livro que se preocupa com a aventura humana. Mas como poderia ter feito de outra forma, se fui, desde o começo de minha vida, testemunha próxima das perturbações que pretendo examinar? Se “meu” universo levantino foi o primeiro a afundar; se “minha” nação árabe foi aquela cuja obsessão suicida envolveu todo o planeta na máquina da destruição?
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I Um paraíso em chamas After the torchlight red on sweaty faces After the frosty silence in the gardens After the agony in stony places (…) He who was living is now dead We who were living are now dying With a little patience Depois do rubro facho em faces suadas Depois do frio silêncio nos jardins Depois da agonia em praças empedradas Ele que vivia agora é morto Nós que vivíamos, ora morremos Com alguma paciência T. S. Eliot (1888-1965), The Waste Land
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