“Esclarece o que podemos fazer para colocar nossos smartphones em seu devido lugar.”
ADAM GRANT | Autor de Pense de novo e Originais
Dra. Kaitlyn Regehr

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“Esclarece o que podemos fazer para colocar nossos smartphones em seu devido lugar.”
ADAM GRANT | Autor de Pense de novo e Originais


Como combater a dependência digital e proteger sua família no mundo online
Como combater a dependência digital e proteger sua família no mundo online
TRADUÇÃO
Elisa Nazarian
Copyright © Kaitlyn Regehr 2025 Publicado em acordo com Rachel Mills Literary Ltd.
Título original: Smartphone Nation
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial Arnaud Vin
edição e revisão de texto Eduardo Soares
diagramação Waldênia Alvarenga
capa
Diogo Droschi (sobre imagem AdobeStock)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Regehr, Kaitlyn
Nação smartphone : como combater a dependência digital e proteger sua família no mundo online / Kaitlyn Regehr ; tradução Elisa Nazarian. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2026.
Título original: Smartphone Nation
ISBN 978-65-6002-134-1
1. Algoritmos 2. Regulação 3. Vício em Internet 4. Vícios - Aspectos psicológicos 5. Saúde mental I. Título.
25-319532.0
Índices para catálogo sistemático:
CDD-362.29019
1. Vícios : Análises psicológicas : Problemas sociais 362.29019
Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
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Introdução
Capítulo 1
O supermercado digital
Capítulo 2
Reconhecendo nossas adicções
Capítulo 3
Como os algoritmos nos adoecem e como podemos nos recuperar
Capítulo 4
O paradoxo da segurança e por que tempo de tela não funciona
Capítulo 5
Nutrição digital: seu guia para um consumo saudável
Capítulo 6
Uma internet ética: regulação e o desfinanciamento do ódio, do dano e da desinformação
Conclusão
(Com recursos e números úteis no Brasil)
Agradecimentos
Glossário de termos
Notas
FILHA QUER UM GATO chamado Unicórnio de presente de aniversário. Eu resisti, tentei argumentar, mas os pedidos por Unicórnio persistiram. Persistiram até o dia em que minha filha, de 4 anos, entrou saltitando pela porta da frente com uma amiga. As duas falavam alto sobre seus tipos de picolé preferidos; sobre um desgosto compartilhado por escovar o cabelo; e então: “Sabe de uma coisa?”, perguntou minha filha, “eu vou ganhar um telefone no meu aniversário”.
De algum modo, na imaginação dela, o smartphone é um marcador de maturidade, uma criatura mítica diferente, a ser recebida quando ela atingir o marco de “menina grande” – aos 5 anos. E, naquele instante, o gato Unicórnio simplesmente se dissolveu. Depois disso, comecei a refletir sobre o meu próprio uso do telefone, especialmente na presença dos meus filhos. Perguntei-me se, graças à aparente flexibilidade do trabalho digital, eu não havia passado a responder “só rapidinho” a alguns e-mails a mais do que devia na frente deles. Pensei se não deveria trabalhar apenas no laptop na presença deles. Considerei se meu gosto por registrar momentos da vida deles – ou sharenting*– um conceito que ensino a meus alunos de pós-graduação – já não tinha deixado de ser saudável. Ou se, naqueles momentos cansados do fim do dia, quando rolo a tela para me acalmar,
* Compartilhamento habitual e excessivo, nas redes sociais, dos momentos vividos pelos filhos, seja em fotos, vídeos, ou por meio de informações, invadindo a sua privacidade. A palavra é uma junção de share (“compartilhar”) com parenting (“parentalidade”). [N.T.]
minha filha estaria observando. E, por minha vez, o que eu estava observando? Uma procissão eterna de coisas que eu deveria querer, deveria precisar e deveria ser. Qual é o saldo de todo esse consumo de telas? E como isso afeta o que eu compreendo, sei ou até mesmo penso?
A verdade é que, embora eu possa fazer escolhas diferentes sobre como uso meu telefone perto dos meus filhos – e este livro aborda exatamente esse ponto –, e embora minha filha não vá ganhar um telefone este ano, nem provavelmente durante boa parte da próxima década, ela já começou a ser arrastada pela marcha das tecnologias em constante mutação. E eu, como tantos outros pais, preciso começar a prepará-la. Preciso plantar as sementes de um engajamento crítico com as telas: o que é um consumo saudável e o que não é? E terei de começar a fazer escolhas sobre os tipos de telas que ela usa. Quando –se é que algum dia – dou um telefone a ela? Deve ser um smartphone ou um telefone “burro”? Devo permitir aplicativos? Quais aplicativos são bons? Quais são potencialmente prejudiciais? A comunicação offline dela será prejudicada? Como falarei com ela sobre padrões corporais irreais? Pornografia? Predadores? E mesmo antes de ela ter um smartphone, como lidarei com os impactos da internet no mundo offline que ela habita? Porque, afinal, o dano não fica restrito às telas; ele transborda para os pátios das escolas e para as ruas.
Existem coisas que me acordam à noite, coisas que tento resolver às três da manhã, quando disparo, descabelada e grogue, para digitar algumas ideias no meu celular, o próprio instrumento na raiz da minha preocupação. Preocupação não apenas com as minhas crianças. Não apenas com todas as crianças, mas com todos nós, humanos, enquanto ficamos em nosso silo de informação recebendo nossa dose diária de conteúdo personalizado, argumentos tendenciosos, coisas que nos fecham, coisas que nos limitam; ou simplesmente coisas que encontram a brecha e se intrometem em nossos pontos mais vulneráveis, fazendo com que nos sintamos ameaçados ou apenas um pouco diminuídos. Esta é a dieta digital à qual muitos de nós – eu diria, a maioria de nós – estão, agora, adictos.
Escrevi este livro não porque falte material sobre letramento digital, mas justamente porque há material demais.1 Como disse um
professor exasperado em um evento a que assisti recentemente, as pessoas estão muito preocupadas com esse tema e, ao mesmo tempo, completamente sobrecarregadas. “Elas não sabem por onde começar”. Grande parte das orientações diz que devemos conversar sobre essas questões, especialmente com as crianças, o que é difícil se você não tem o conhecimento ou o contexto necessários para sustentar essa conversa. Ou seja, é difícil ter diálogos abertos sobre tecnologia quando não se compreende essa tecnologia, nem o ambiente em que ela opera. Por isso, este é um livro de construção de conhecimento: para que você possa tomar decisões informadas sobre o seu próprio uso e sobre o uso daqueles que ama. O livro também oferece ferramentas para que você se capacite e torne seu uso mais seguro. Você aprenderá a “burlar” o algoritmo, ou a praticar a chamada “resistência algorítmica”;2 a mudar suas práticas de sharenting para proteger seus filhos, suas finanças e sua segurança física; a identificar desinformação; e a deixar de ser um usuário passivo para se tornar um participante ativo.
Para deixar claro: não sou psiquiatra. Não sou cientista do comportamento. Nem neurologista. Sou diretora do Programa de Humanidades Digitais da University College London, uma universidade frequentemente classificada entre as dez melhores do mundo. Meus colegas são cientistas da informação e estatísticos. Estudo os processos algorítmicos das redes sociais e seus impactos culturais, especialmente sobre os jovens.3 Acompanho de perto o setor de tecnologia. Minha pesquisa contribuiu para legislações e reformas de políticas públicas. Atuei como consultora no Online Safety Act*, aqui no Reino Unido, embora, reconheço, eu ache que ele ainda precise de melhorias. Trabalhei com a Polícia Metropolitana no combate à doutrinação online de jovens ao extremismo. Fiz parte da equipe de pesquisa4 que embasou a nova legislação sobre digital flashing, que agora torna ilegal que um adulto envie imagens de seus genitais a uma criança, algo que, de forma chocante, antes não era ilegal.5 Em âmbito internacional, mapeei os impactos do abuso digital sobre profissionais da saúde pública durante
* Lei de Segurança Online do Reino Unido, promulgada em outubro de 2023. [N.T.]
a pandemia.6 No Canadá, examinei os efeitos da exposição a evidências em vídeo sobre profissionais do sistema de justiça criminal;7 na Escócia, desenvolvi junto ao governo recursos de mentoria entre pares sobre ódio online e misoginia.8 Lancei materiais para escolas na Inglaterra sobre danos algorítmicos com a Associação de Líderes de Escolas e Faculdades do Reino Unido.9 Pesquisei o uso de redes sociais com centenas de adolescentes,10 e também sou uma mãe que quer resolver um problema. Um grande problema, definidor de uma geração.
Se você está lendo este livro porque se preocupa com o seu próprio uso de dispositivos, as perguntas que fiz acima também se aplicam a você. Como construir uma relação digital saudável? Como assumir o comando, de modo que você controle seus algoritmos, em vez de, por padrão, ser controlado por eles? E como tornar isso mais simples, como uma alimentação saudável? Mesmo que nem sempre façamos as melhores escolhas, em geral sabemos como fazê-las. Verde é bom; bege é menos bom; aquele doce de Halloween esquecido no fundo da gaveta da mesa porque você não teve tempo de almoçar é certamente ruim. Em termos de alimentação, no geral conhecemos o básico, ou ao menos sabemos o que deveríamos estar fazendo. E, quando não sabemos, sabemos onde buscar orientação. Uma rápida busca no Google retorna o “cinco por dia”* ou guias alimentares e pirâmides que indicam porções de laticínios e proteínas.
Mas, quando comecei a me preocupar com a dieta digital da minha família, isto é, com o que estávamos consumindo online, tive dificuldade em saber que tipo de orientação usar para “alimentar” meus filhos e também a mim mesma, uma adulta, por meio das telas. Historicamente, a maior parte das recomendações disponíveis se concentrava em controlar a dose de engajamento digital, ou o chamado “tempo de tela”, um conceito hoje frequentemente considerado ultrapassado (voltarei a isso mais adiante). De modo semelhante, no caso dos adultos, a maior parte das orientações sobre dieta digital,
* “Cinco por dia” refere-se a campanhas internacionais baseadas em recomendações de especialistas, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que orientam o consumo de pelo menos cinco porções de frutas e vegetais por dia, como forma de promover saúde e prevenir doenças. [N.T.]
assim como nas dietas alimentares tradicionais, sempre esteve ligada à restrição. E, da mesma forma que nas discussões contemporâneas sobre a qualidade dos alimentos que consumimos, é útil pensar o consumo digital nesses mesmos termos. Ou seja, embora algum uso de telas seja positivo, como uma chamada de vídeo com a avó, é a forma como o conteúdo nos é servido e sugerido, por meio de algoritmos, que pode tornar esse consumo pouco saudável e potencialmente prejudicial. Foi assim que comecei a desenvolver meu trabalho e a compilar pesquisas e reflexões de colegas, profissionais, acadêmicos e cientistas, criando algo que ajudasse a mim e à minha família a navegar pelo terreno digital. Passei a me ver como uma nutricionista digital.
⊲ Nutrição digital
Pouco tempo depois, eu estava no Parlamento britânico. Apresentava meu trabalho sobre a forma como os algoritmos do TikTok priorizam conteúdos nocivos para jovens e normalizam a desinformação. Em determinado momento, fiz uma pausa, olhei para os legisladores sentados à mesa e expliquei: “Isso é apenas um sintoma de um problema muito maior. Se vocês realmente querem preservar a saúde dos jovens, se querem agir de forma preventiva e não apenas reativa, precisam se preocupar com a saúde digital deles. Eles precisam de nutrição digital”. Diante disso, um parlamentar falou com firmeza e seriedade: “Nós queremos isso. Precisamos disso. Todos precisam”. Naquele instante, percebi que talvez fosse o momento de compartilhar minha receita familiar de nutrição digital. Historicamente, quando educadores falavam sobre o ambiente online, utilizavam o termo “letramento digital” ou, antes disso, “letramento midiático”. “Educação em letramento digital” refere-se ao ensino de habilidades técnicas e de pensamento crítico que permitem avaliar nossa relação com o espaço digital e com os conteúdos que consumimos nele. Mas existe uma lacuna nessa formação. Muitos de nós, os “mais velhos”, não crescemos com smartphones, tablets ou telas conectadas à internet e, portanto, não recebemos qualquer educação formal em letramento digital. E, no contexto familiar, em quase tudo
aquilo que envolve a criação dos filhos, contamos com experiências que nós mesmos vivemos e usamos esse repertório como referência.
As atividades deste livro foram concebidas para ajudar você a compreender, em profundidade, como esses processos podem funcionar para você e em você, de modo que possa desenvolver uma compreensão mais intuitiva deles. E, se você for mãe ou pai, poderá recorrer a esse conhecimento para orientar seus filhos de maneira mais eficaz. Muitos dos estudos de caso apresentados aqui envolvem crianças e adolescentes, que, como indicam as evidências, sentem de forma particularmente intensa os impactos de um estilo de vida mediado por telas. Basta lembrar, por exemplo, o relatório de 2023 do Comissariado para a Infância, que apontou que uma em cada quatro crianças entra em contato com pornografia antes dos 11 anos;11 ou a avaliação da Ofsted, segundo a qual jovens vêm utilizando pornografia como ferramenta educativa, o que pode moldar normas e criar atitudes pouco saudáveis em relação à agressão sexual.12 O consenso científico sobre a relação entre saúde mental e redes sociais ainda é ambíguo, mas, como afirma o relatório de Lord Darzi sobre o sistema de saúde britânico, é “altamente improvável que o aumento dramático das demandas em saúde mental seja totalmente desvinculado das redes sociais”.13
Ainda assim, embora muitos exemplos deste livro se concentrem em crianças e adolescentes, os conceitos aqui discutidos são universais e podem, e devem, ser aplicados a todos nós, em qualquer idade. Nós, adultos, também precisamos de limites. Precisamos encarar nossas próprias adicções. E, ao fazer isso, nos dispor a compreender os mecanismos técnicos desses dispositivos que tocamos, acariciamos e com os quais, por meio desses gestos, talvez até desenvolvamos sentimentos de apego. Para romper essas adicções, é necessário entender como esses aparelhos são projetados para nos manter presos e nos fisgar, mesmo que isso implique nos oferecer conteúdos que nos fazem mal, nos adoecem ou nos ensinam falsidades.
Um exemplo disso ocorreu em 6 de janeiro de 2021, quando uma multidão estimada em cerca de dez mil pessoas invadiu o Capitólio, em Washington.14 Não eram os menores de 16 anos a quem geralmente nos referimos ao falar de restrições ao uso das redes sociais. A esmagadora
maioria eram adultos. Adultos capazes de consentir. Adultos eleitores. Os acontecimentos em Washington foram amplamente atribuídos à atuação das redes sociais, não apenas pelo uso que o então presidente Trump fazia do Twitter, mas também pela forma como as plataformas permitiram a circulação direcionada de conteúdos que incitaram a raiva coletiva a ponto de levar pessoas a tentar derrubar as estruturas do próprio Estado.15
Ainda assim, este continua sendo um espaço amplamente não regulado. E, embora algumas novas regulamentações estejam começando a entrar em vigor,16 elas são frágeis e pouco eficazes quando comparadas às regras aplicadas a praticamente tudo o que consumimos. Quase tudo o que consumimos é regulado. Os alimentos que ingerimos, os medicamentos que tomamos, os carros que dirigimos precisam comprovar que são seguros antes de chegar ao mercado. No setor de tecnologia, isso é muito menos verdadeiro. Ou, mais precisamente, não existe em grau minimamente comparável ao de outras indústrias. Um dos motivos para a falta de proteção ao consumidor nesse campo é que, na realidade, nós não somos os consumidores das redes sociais. Nós somos o produto.17 Mais exatamente, nossas mentes e nossa atenção são o produto, vendidos aos anunciantes. São eles os verdadeiros consumidores. Manter nossa atenção, nos oferecer aquilo que mais prende o olhar, mesmo que isso signifique permitir que o dano, o ódio ou a desinformação prosperem.18 Esse é o modelo de negócios. Vou tratar disso, da chamada “economia da atenção”,19 que sustenta todo esse sistema, em detalhe no Capítulo 1.
Por ora, ainda que tudo isso soe um tanto distópico, quero deixar algo claro. Eu não sou nem anti-tecnologia nem pró-tecnologia. Sou pró-informação. Para que nós, como usuários – ou como produto –possamos nos munir das informações necessárias para permanecer saudáveis no ambiente digital.
Fico encorajada ao ver movimentos de base surgindo em minha própria comunidade e ao redor do mundo, questionando o poder das empresas de tecnologia e impulsionando, por meio de iniciativas locais, uma mudança cultural. Grupos como Smartphone Free Childhood [Infância Sem Smartphone] ou Wait Until the 8th
[Espere até os 8], nos Estados Unidos, Unplugged [Desplugado], no Canadá, No Es Momento [Não é Hora], no México, ou Heads Up Alliance [Aliança “Cabeça Erguida”, trocadilho entre alerta e tirar os olhos das telas], na Austrália. Esses grupos têm promovido webinars informativos e organizado encontros e palestras em que comunidades se reúnem em ginásios escolares para se “alfabetizar tecnologicamente”. Eles incentivaram sextas-feiras sem celular para famílias e nos convidaram a refletir de forma crítica sobre as estruturas corporativas que sustentam a mídia digital.20 Crianças, adolescentes, adultos, todos nós precisamos pensar com mais cuidado sobre os processos algorítmicos e sobre a necessidade de adotar uma postura crítica em relação ao nosso consumo de telas. Precisamos mitigar, moderar e, em alguns casos, efetivamente proibir certas formas de uso prejudicial. A moderação individual é um primeiro passo importante, assunto ao qual voltarei mais adiante. Esses movimentos marcaram um ponto de virada na conscientização pública.21 E agora ainda há muito trabalho a ser feito.
Em nível macro, a simples moderação do uso pode acabar livrando empresas de tecnologia e legisladores de sua responsabilidade. Como argumenta a escritora Nicole Aschoff, isso pode desviar nossa atenção da raiz do problema, que são as práticas antiéticas das grandes empresas de tecnologia.22 A moderação isolada também pode se tornar um atalho que exige pouco compromisso ou investimento tanto das corporações quanto do governo. Assim como nos debates sobre alimentos ultraprocessados, é mais fácil para as empresas enquadrar o problema como sendo nosso, isto é, nossa relação com o consumo, e não a qualidade do que está sendo consumido. E, em seguida, nos vender mais produtos que supostamente resolvem “nosso problema”. As empresas de tecnologia ficam felizes em nos vender soluções para “moderar” o uso de uma adicção que elas mesmas criaram. Um exemplo disso são escolas que compram softwares da Apple para restringir o uso de iPads da própria Apple, porque as crianças estão tão adictas que simplesmente não conseguem se desconectar.23
Em um nível mais micro, a moderação do uso do telefone não dá conta do uso de outros dispositivos conectados à internet, como
tablets e laptops. Pesquisas da Ofcom mostram que 67% das crianças de 3 a 4 anos usam um tablet para acessar a internet.24 Um estudo do Pew Research Center revelou que 89% dos pais de crianças entre 5 e 11 anos afirmam que seus filhos assistem a vídeos no YouTube,25 uma plataforma que muitos pais talvez não considerem uma rede social, mas que pode veicular conteúdos muito semelhantes. Por isso, a moderação do uso precisa ser acompanhada de educação progressiva,26 capaz de preparar você e seus filhos para diferentes estágios de uso digital, que inevitavelmente chegarão. Mesmo que um jovem não utilize redes sociais até os 15 anos, ele chegará aos 16.27 Como sociedade, temos a responsabilidade de combinar moderação com construção de conhecimento, para capacitar jovens e adultos a navegar por esse território.
Podemos desejar um mundo diferente. Nós, da geração X ou millennials mais velhos, lembramos com nostalgia dos nossos celulares Nokia e de sua suposta inocência. Como pais, nos preocupamos com nossos filhos. Queremos recriar os fins de semana e os verões da infância de antigamente. Verões em que as crianças saíam de bicicleta e só voltavam para casa quando os postes de luz se acendiam. Uma reportagem do Sunday Times de Londres, no verão de 2024, ao falar sobre smartphones, mencionava o desejo de criar um verão de infância como o retratado em Stand By Me [No Brasil, Conta Comigo],28 filme lançado há quarenta anos, em 1986, que por sua vez retrata uma infância vivida trinta anos antes, em 1959. Precisamos, sem dúvida, de mais limites em relação à tecnologia. Precisamos, sim, de mais tempo longe das telas e de mais brincadeiras independentes para as crianças, como defende de forma importante Jonathan Haidt.29 Ao mesmo tempo, temos uma responsabilidade coletiva de nos informar sobre o mundo digital, para compreender não apenas o que nossas crianças estão vivendo, mas também o que nós, adultos, estamos atravessando agora. Antes de nos perdermos em nostalgias por um tempo idealizado, em outro país, tal como retratado por um filme de Hollywood, precisamos entender as estruturas criadas para nos tornar adictos e as regras da economia da atenção sob as quais vivemos hoje. Precisamos também reconhecer nossa responsabilidade
como adultos. Nós mesmos fazemos parte dessa economia da atenção. E, muitas vezes, inserimos nossos filhos nela muito antes de eles terem o próprio dispositivo. Se quisermos preparar a nós mesmos e a eles para vidas mais saudáveis, precisamos compreender isso.
Se as conversas e iniciativas anteriores se concentraram no passo 1, a moderação ou a proibição de celulares,30 este livro se dedica aos próximos passos, os passos 2 e 3. O passo 2 é a informação. Quando a internet passou a ser operada por provedores comerciais, em meados dos anos 1990, e as famílias começaram a comprar seus primeiros computadores pessoais compartilhados, surgiu o conceito de shoulder surfing. A proposta era permitir que os pais acompanhassem de forma leve o uso da internet pelos filhos, olhando por cima de seus ombros. Enquanto os adultos se sentavam no sofá lendo o jornal, podiam lançar um olhar ocasional para a grande tela posicionada de forma central na sala de estar. Essa orientação evoluiu junto com a tecnologia, ainda que apenas um pouco. O shoulder surfing deu lugar ao controle de tempo de tela, que passou a limitar o número de horas diárias dedicadas a televisões, computadores, tablets e celulares.
O problema é que as orientações sobre tempo de tela consideram apenas a quantidade de conteúdo consumido, não a sua qualidade. Além disso, fazem muito pouco para levar em conta o uso feito por adultos.31 Existem diferentes tipos de telas e diferentes tipos de tempo de tela, e isso precisa ser reconhecido antes que se possam tomar decisões adequadas sobre o uso desses dispositivos. Atualmente, muitos especialistas dividem o tempo de tela em duas categorias. O tempo de tela ativo envolve atividades cognitivamente engajadas, realizadas com a tela. O tempo de tela passivo inclui a rolagem contínua e o olhar distraído.32 Assim como em um guia alimentar, essas categorias deveriam receber pesos diferentes dentro do uso total.33 Chamo isso de Pirâmide da Dieta Digital. No Capítulo 5, apresento essa pirâmide, que descreve diferentes formas de engajamento digital e como proporções distintas de cada uma podem favorecer um consumo mais saudável.
Com esse guia em mente, podemos fazer escolhas conscientes sobre o que queremos consumir e promover mudanças. Podemos aproveitar o que a internet tem de melhor, o acesso à informação, a construção de vínculos, a possibilidade de criar algo próprio, como um negócio ou uma formação, além do simples entretenimento ou do humor escancarado, ao mesmo tempo em que rejeitamos aquilo que é falso, nocivo ou prejudicial ao nosso bem-estar. E, se você for mãe ou pai, este livro ajudará a ampliar sua compreensão, para que essas ideias possam ser introduzidas no ambiente familiar desde cedo. O passo 3 é a regulação e o corte do financiamento do dano, do ódio e da desinformação. Trata-se de puxar o fio financeiro do dano online e regular a estrutura corporativa sobre a qual as redes sociais foram construídas. É uma conversa mais ampla sobre desafiar o modelo atual, no qual empresas de tecnologia são recompensadas por nos manter “fisgados”, isto é, por reter nossa atenção pelo maior tempo possível. Essa retenção de atenção, ou a chamada economia da atenção,34 e a obtenção de visualizações ou “impressões”, no jargão da indústria, são centrais para todo o modelo de negócios das redes sociais.35 Esses modelos algorítmicos permitem que conteúdos prejudiciais prosperem. Infelizmente, a desinformação pode ser mais atraente ou mais “impressionável” do que a verdade, e o ódio e o dano conseguem se conectar diretamente às nossas emoções e a nossos medos. Assim, os algoritmos criam condições férteis para que esse tipo de conteúdo floresça, mantendo-nos conectados por mais alguns instantes ou, melhor ainda, provocando uma reação.
Para muitos, isso pode parecer óbvio. Explicito esse ponto não porque eu seja a primeira a fazê-lo,36 mas porque acredito ser importante redirecionar parte da energia que se tem concentrado em exigir que as plataformas se tornem mais seguras, algo que elas de fato deveriam fazer, para um eixo ainda mais simples: o dinheiro. Ou, mais precisamente, as bases financeiras que sustentam esse sistema. Podemos tomar uma posição. Podemos exigir políticas públicas ousadas que enfrentem essas estruturas financeiras. Podemos deixar de enxergar esse problema como algo isolado e individual e passar a tratá-lo como uma questão coletiva, que pode ser resolvida em
conjunto. Também podemos ampliar nossa compreensão sobre como esses processos funcionam e nos afastar das árvores, ou, neste caso, do celular, para enxergar a floresta. Uma grande floresta chamativa, sedutora e adictiva, personalizada para você em um retângulo luminoso que cabe na palma da mão.37 A expectativa é que, com esse conhecimento coletivo, nós, enquanto sociedade, possamos adotar uma postura mais crítica e, a partir daí, pressionar por mudanças.
Muitos dos conceitos apresentados neste livro talvez não sejam imediatamente relevantes para minha filha de 4 anos, mas posso tomar decisões mais informadas sobre as telas e plataformas que ela frequenta e começar a introduzir noções de uso ativo e de qualidade, ajudando-a a desenvolver hábitos seguros para o futuro. O consumo de telas, assim como o consumo de alimentos, pode ser bom ou ruim. Às vezes, minha filha come sorvete, e tudo bem. O problema seria se isso fosse tudo o que eu lhe oferecesse. Ela também gosta de rosquinhas, mas sei que o ideal é que coma legumes. Da mesma forma, no mundo offline e no online, faço escolhas sobre conteúdos, jogos e atividades apropriados, assim como sobre a dosagem adequada de cada um.
Também posso fazer escolhas sobre o meu próprio uso de telas na presença dela e reservar momentos para me desconectar, a fim de me conectar no espaço offline. Esses momentos continuam sendo muito importantes para nós duas. Neles, posso decidir que o sorvete está liberado, mas talvez não a rosquinha. Posso tentar, mais uma vez, escovar o cabelo dela, sem sucesso. Podemos conversar sobre algo que ela viu em uma tela. E foi em um momento como esse que acabei concordando. Cedendo. E agora tenho um gato chamado Unicórnio.
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