Philippe Besson
Autor de Mentiras que contamos e Uma noite de verão

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Philippe Besson
Autor de Mentiras que contamos e Uma noite de verão

tradução
Julia da Rosa Simões
Copyright © 2001 Editions Julliard, Paris
Copyright © 2026 Editora Vestígio
Título original: En l’absence des hommes
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
Arnaud Vin
editor responsável
Schneider Carpeggiani
revisão
Cecília Castro
adaptação de capa original Diogo Droschi
fotografia de capa plainpicture/Martin Benner
diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Besson, Philippe
Na ausência dos homens / Philippe Besson ; tradução de Julia da Rosa Simões. -- São Paulo : Vestígio Editora, 2026.
Título original: En l'absence des hommes
ISBN 978-65-6002-142-6
1. Ficção francesa 2. LGBTQIA+ - Siglas I. Título.
26-331774.2
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura francesa 843
Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
CDD-843
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Livro um A oferenda dos corpos
11
Livro dois
separação dos corpos 89
Livro três De corpo e alma 137
Se eu vier a morrer, eis o que farás. Primeiro, terás e conservarás muita calma, manterás o sangue-frio e não sairás pelas ruas gritando o teu desespero; tua dor será calma e digna.
Rodolphe Wurtz Carta do front. Setembro de 1915.
Tenho dezesseis anos. Nasci com o século.
Sei que há a guerra, que soldados morrem nas linhas de frente dessa guerra, que civis morrem nas cidades e nos campos da França e de outros lugares, que a guerra, mais do que as destruições, mais do que a lama, mais do que o assobio das balas rasgando caixas torácicas, mais do que o rosto abatido daquelas que esperam, às vezes contra todas as probabilidades, uma carta que não chega, um retorno sempre adiado, mais do que o jogo político a que as nações se dedicam, a guerra é a morte simples, cruel, triste e anônima desses soldados e desses civis, cujos nomes um dia leremos no frontão dos monumentos, ao som de uma música fúnebre.
E, no entanto, não sei o que é a guerra. Moro em Paris. Sou aluno do Liceu Louis-le-Grand. Tenho dezesseis anos.
Dizem de mim: esse menino é magnífico. Olhem para ele: é realmente magnífico. Cabelos negros. Olhos verdes amendoados. Pele de menina. Eu digo: eles estão enganados, já não sou uma criança.
Tenho dezesseis anos e sei muito bem que ter dezesseis anos é um triunfo. Mais ainda, talvez, quando há guerra. Porque escapo da guerra e os outros garotos, aqueles apenas um pouco mais velhos do que eu, aqueles que zombavam de mim, esses não escapam, e estão ausentes. Assim, fico
quase sozinho, no evidente triunfo dos meus dezesseis anos, cercado de mulheres que cuidam de mim com um afeto excessivo e temeroso.
Amo este século que começa, que carrega minhas esperanças, que será o meu.
Mamãe repetiu sem parar, até o verão de 1914: nascer com o século é como um sinal que Deus nos envia, uma bênção, uma promessa de felicidade. Ela se orgulhava dessa coincidência milagrosa: meu nascimento e o do século XX.
Papai, por sua vez, falou em renovação. Creio que empregou um adjetivo: moderno. Eu não sabia que ele conhecia seu significado. É um homem do outro século, do passado. Ele é velho. Meus pais são velhos. Meu nascimento não estava planejado. Minha chegada foi um acaso. Eles transformaram aquilo que inicialmente se apresentava como uma maldição em um acontecimento importante e esperado.
Agradeço a esse acaso, a essa maldição.
É verão quando nos conhecemos. A primeira coisa que penso de você: ele é velho, tem trinta anos a mais do que eu. Não tenho nada a lhe dizer. O que um garoto de dezesseis anos poderia dizer a um homem de 45? E o inverso também é verdade. Não nos dizemos nada, aliás. Percebo que você me observa. Ignoro o que lhe inspiro: inveja, desejo, repulsa ou, mais provavelmente, indiferença?
Acho que você me olha como se olhasse para um pequeno animal. Sua atenção é atraída, mas não retida. Além disso, você é uma pessoa importante e eu não sou nada. Pessoas importantes não podem perder tempo olhando para jovens que não são nada.
Não nos falamos. Eu não sei puxar assunto. Não saberia o que lhe dizer. Não chego sequer a tentar. Nem por cortesia. Nem para fingir que sou bem-educado. Sei, no entanto, que poucas palavras bastariam. Bom dia, senhor. É uma honra. Estou muito feliz. Algo assim. Mas o jogo das boas maneiras não me interessa. Por preguiça, sem dúvida. Nada além disso. Não se trata de estratégia. Eu não sei agir com estratégia.
Mesmo assim, você continua a me olhar. Algumas vezes. De canto de olho. Dando a impressão de não estar realmente me olhando. Percorrendo a sala com os olhos e detendo-se apenas um instante em mim. Eu percebo sua manobra.
Não penso nada a respeito. Tenho dezesseis anos. Não penso nada de um homem trinta anos mais velho que eu.
Então, uma voz me sussurra: veja como nosso grande homem o observa. Deveria sentir-se lisonjeado, achar algo para dizer, para fazer, não ficar aí parado, apenas como um jovem que está sendo observado. Não respondo nada. Penso: são os olhos verdes amendoados, a cabeleira negra, a pele de menina. Não tenho mais nada a oferecer. Nada que possa reter a atenção. Apenas isso.
Dirijo-me ao grupo formado por algumas mulheres de idade indefinida. Elas me recebem com um calor exagerado. Ainda sinto seu olhar pousado sobre mim. Está decidido: não falarei com você. Começo a não gostar dos seus olhos sobre mim. Meus dezesseis anos me pertencem. Não estou disposto a deixar que um estranho se apodere deles. Em todo caso, não sem meu consentimento.
O verão entra pela porta de vidro aberta. O sol e a calma também. Vou para a sacada. Você me segue quase que no mesmo instante, em um movimento que não vejo, mas sinto. Distraidamente, ou fingindo distração, você diz: não sei seu nome. Vincent. Você diz: que nome bonito. Tenho certeza de que você vai dizer essa frase antes mesmo que a diga: que nome bonito. Virei-me para vê-lo por inteiro. Eu sei seu nome. Todo mundo, aqui, sabe seu nome. Por isso não o pergunto. Você diz: pergunte-o, sim, por favor. Ninguém nunca mais me pergunta como me chamo. Eu obedeço. Você responde: Marcel. Apenas Marcel, sem o sobrenome. E fico encantado que me diga apenas seu primeiro nome. Penso que poderíamos ser próximos, que, ao me dar apenas seu nome, você nos aproxima, que isso muda tudo, que você já não tem 45 anos. Olho para você e penso: é incrível, se ele tivesse dito seu sobrenome tudo seria muito diferente. Ele entendeu que dizer apenas
o primeiro nome inevitavelmente modificaria a relação que eu poderia manter com quem oferece seu nome e seu sobrenome? Você fez de propósito?
Claro que fez de propósito.
Você diz: o verão está tão lindo. A gente se sente culpado de apreciá-lo tanto. Eu digo: a gente esquece a guerra com esse sol maravilhoso. Já não sabemos o que é a guerra. Você responde: que coisas horríveis está dizendo, não deveria dizer coisas assim. Você pensa como eu. Você esquece a guerra. E talvez se culpe um pouco por não ter vergonha disso. Você diz: sua lucidez tem algo de inquietante, Vincent. Você pronuncia meu nome pela primeira vez. E me agrada ouvi-lo pronunciar meu nome. Gosto da maneira como você diz meu nome. E já sei que, agora que o pronunciou, não vai conseguir deixar de me perguntar minha idade. Você pergunta: quantos anos você tem, Vincent? Dezesseis. Tenho dezesseis anos. Você não responde. Não há o que responder: você tem 45. Você se cala. Tenho olhos verdes amendoados, uma cabeleira negra, uma pele de menina.
Depois, subitamente, você encontra algo para dizer: então você nasceu com o século. Olho para você com um genuíno sentimento de decepção, de desolação. Eu não esperava isso de você. Não como o havia imaginado até então. É uma espécie de mau gosto. Você percebe sua gafe. Tenta corrigi-la com outra gafe: mas imagino que todo mundo faça essa observação. Sim, você tem razão, todo mundo, então por que você? Mesmo assim, a segunda gafe suaviza a primeira. Ela é uma espécie de fraqueza e, no grande homem que você é, essa fraqueza é necessariamente tocante. Lembro-me de que você é hábil, que demonstrou grande habilidade ao se apresentar apenas pelo prenome. Essa gafe também poderia ser uma habilidade. A ideia de
que até sua gafe poderia ser uma habilidade me seduz. Decido considerar que seu erro é sua maneira de não errar.
O sol bate ainda mais forte. Você diz: vou entrar. Essa luz não me faz bem. O calor, sim, mas a luz, não. Escuto o balanço de sua frase. O calor, sim, mas a luz, não. Eu o sigo, mesmo sem você me pedir. E, de repente, percebo que você sorri, que sorri ao se ver seguido sem ter pedido. Deixo-o sorrir sem dizer nada. Penso que terei outras vitórias.
Nossos corpos nos embaraçam. Aqui, nessa sala, diante dos olhares dos presentes, conscientes dos murmúrios que acompanham cada gesto seu, não sabemos o que fazer, o que dizer. Você mantém uma postura quase estática. Meus olhos varrem o chão. Deveríamos dizer algo, tudo menos frases feitas, ou então deveríamos calar e nos separar. Mas ficar assim, desse jeito, sem dizer nada, não faz sentido, precisa acabar.
É mais difícil para você do que para mim. Primeiro, porque você sabe que o observam, que o esperam de prontidão, que querem ver como vai se sair da situação de estar ao lado de um rapaz de dezesseis anos e não dizer nada. E você é um espírito brilhante, um homem de tiradas temidas, de réplicas aguardadas, de palavras dissecadas, de talento literário indiscutível: você precisa sair desse tipo de situação, encontrar as palavras apropriadas. No entanto, insiste em não dizer nada, em manter essa estranha postura estática.
De mim, aceitam mais facilmente o silêncio, talvez o constrangimento. Além disso, eu não sou nada, nada comparado a você. Ficam com pena de mim ou esperam que eu seja dispensado. Você continua sem dizer nada. Acho que não me cabe falar primeiro. Eu me calo. Quanto tempo permanecemos assim, nesse silêncio mundano, eu não sei. Não conto. Não acho longo. Sei que esse silêncio existe, entre nós, e adivinho que, nesse silêncio interminável,
outra coisa está acontecendo. É nossa relação que começa a existir, a tomar forma. É um vínculo que se inventa. E esse silêncio se torna uma intimidade, uma confissão. É, sem dúvida, um silêncio maravilhoso. Sua postura relaxa um pouco. Quando levanto os olhos, vejo que você esboça um sorriso. Está feliz de ter vencido esse silêncio, de o ter transformado em algo compreensível, palpável, significativo. Os outros, que nos observam, também começam a entender. Eles pensam: vejam, acabou de acontecer diante de nossos olhos, esse homem de 45 anos e esse rapaz de dezesseis acabam de se encontrar, sem uma palavra, sem um gesto. Quase nada aconteceu. Poderíamos não ter percebido, ter deixado passar, e, no entanto, aconteceu, esse laço especial se fez, se formou, e é impressionante.
Lá fora, pela porta de vidro ainda aberta, o verão continua, o sol continua, uma leve brisa levanta uma cortina, espalha calor e suavidade por tudo. Basta se entregar a esse verão, não fazer nada além de se deixar levar, não querer nada. Basta receber esse verão como um presente, como algo que não deveríamos possuir e que mesmo assim possuímos. O assoalho range um pouco. As conversas recomeçam. Nós ainda não abrimos a boca.
Você acaba dizendo: eu gostaria de revê-lo. E, nesse pedido, é todo o seu desejo por homens que transparece. Esse desejo é conhecido, ele é de domínio público, ainda que ninguém o nomeie abertamente. Todos sabem e se calam. Vivemos em um mundo em que todos sabem e se calam. Você mesmo jamais exprime esse desejo por homens. Ele está presente, sem nunca ser expresso. No seu pedido: eu gostaria de revê-lo, ele está presente, sem ser realmente expresso. Mas você e eu e todos os outros sabemos o que você quer dizer. Eu respondo: claro. Não penso. Não preciso pensar. A resposta se impõe.
Você diz: venha me ver. Você me passa seu endereço, mas eu já o conheço. Eu irei. Você sabe que irei. Você finge temer que eu possa não ir, mas a história já começou. Claro que não sou inocente. Já não sou uma criança. Não se deixe enganar pelos olhos verdes, pela pele de menina, pela aparência frágil, pela graciosidade. Não vá pensar que baixar os olhos necessariamente significa timidez. E não se trata de estratégia, repito, mas sei o que faço, sei muito bem. Dezesseis anos é a idade dos possíveis. Não me proíbo nada. Por que me proibiria?
Talvez você seja um dos únicos entre os presentes a ter percebido isso. Notou algo na minha atitude, nos meus gestos, no movimento dos meus quadris. Viu o que os outros não podem ver porque não querem ver, enquanto você, justamente, é tudo o que quer ver. Você sabe que meus dezesseis anos já disseram adeus à infância, embora continuem – assim se ganha nos dois âmbitos – a transmitir a imagem da infância. Você sabe que esse jeito de não me recusar a falar com um estranho, que esse ato de me exibir aos olhares sem ruborizar, sem me constranger, que tudo isso tem um sentido. Somos os impudentes.
Além disso, você não me subestima. Na mesma hora, pensa: não se pode falar com Vincent como se ele não fosse entender o que não é dito. Ele vai entender tudo, é claro. Desnecessário ser explícito. Ele não é tolo. Você não sabe o que vai acontecer falando comigo, mas sabe o que convém dizer e o que convém calar para que a aproximação aconteça. Fomos feitos para nos entender. Descubro que sou feito para me entender com você, que tem quase três vezes minha idade, você que tem a ocupação de ser um grande homem. Descubro que não apenas a guerra não impede nada, como ainda favorece esses encontros improváveis. Sem a guerra, sem este
magnífico verão da ausência dos homens, teríamos nos encontrado?
Alguma vez fui inocente? Se algum dia fui, passou muito rápido. Creio que rapidamente compreendi os jogos dos adultos, seus interesses, suas conversas sussurradas, seus subtextos, suas covardias, suas esperanças. Muito rápido, não me deixei enganar. Perdi a ingenuidade, o frescor, a inconsciência. Sei que não é assim com todo mundo, mas não me vanglorio por isso. Não busquei nada, não forcei nada. Simplesmente aconteceu. E, ao mesmo tempo, não tentei tirar proveito dessa situação, dessa precocidade. Não a transformei em uma arma a ser utilizada. Não. Não acrescentei perversidade à precocidade. Não sou perverso.
A perversidade exige esforços que não estou disposto a realizar. Há na perversidade algo de ativo, de voluntário, que não existe em meu caráter. Não tento influenciar os acontecimentos. Deixo-os acontecer. Apenas tenho plena noção de seu alcance, de suas possíveis consequências.
Possuo a inteligência do mundo e dos homens.
As pessoas não vão gostar que eu diga essas coisas. Que posso fazer? Lamento, sinceramente. Acreditem em mim quando afirmo isso.
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