Tensão e ameaças na nova o investigaçã de Maria Kallio
Títulos da Vestígio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . SETE DIAS EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Algumas garotas escondem terríveis segredos... Tradução: Fernando Scheibe
MEU PRIMEIRO ASSASSINATO | Leena Lehtolainen
Uma estreia de tirar o fôlego para Maria Kallio... Tradução: Salma Saad
OS SETE CRIMES DE ROMA | Guillaume Prévost
Roma, 1514. Leonardo da Vinci conduz a investigação...
Tradução: Fernando Scheibe
A FERA INTERIOR | Lotte & Søren Hammer
Podemos fazer justiça com as próprias mãos?
Tradução: Márcia Guimarães
ESTAVA ESCRITO | Gunnar Staalesen
O que realmente sabemos sobre nossos filhos?
Tradução: Elisa Nazarian
NA MENTE, O VENENO | Andrea H. Japp
Diane Silver inicia sua caça ao serial killer...
Tradução: Vinicius Carneiro
VESTIDO DE NOIVO | Pierre Lemaitre
Ninguém está a salvo da loucura...
Tradução: Zéfere
ASSASSINATO NA TORRE EIFFEL | Claude Izner
Crimes em série transformam livreiro em detetive
Tradução: Elisa Nazarian
UM OUTONO EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Alguns garotos nunca perdoam...
Tradução: Fernando Scheibe
MULHER DE NEVE | Leena Lehtolainen
Tensão e ameaças na nova investigação de Maria Kallio
Tradução: Ana Carolina Oliveira
Tensão e ameaças na nova investigação de Maria Kallio
Traduzido do francês por
Ana Carolina Oliveira
Copyright © Leena Lehtolainen, 1996 Edição original publicada por Tammi Publishers Edição em português publicada mediante acordo com Tammi Publishers, Elina Ahlback Literary Agency, Helsinki, Finland, & Vikings of Brazil Agência Literária e de Tradução Ltda., São Paulo, Brazil. © 2014 Editora Nemo/Vestígio
Título original: Luminainen Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. DIRETOR DA COLEÇÃO
Arnaud Vin REVISÃO
Amanda Pavani Eduardo Soares CAPA
Alberto Bittencourt (Sobre imagem de Istockphoto/Marina_Ph) DIAGRAMAÇÃO
Danilo Jorge da Silva Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Lehtolainen, Leena Mulher de neve : Tensão e ameaças na nova investigação de Maria Kallio / Leena Lehtolainen; tradução Ana Carolina Oliveira. -- Belo Horizonte : Vestígio, 2014. Título original: Luminainen ISBN 978-85-8286-095-3 1. Ficção finlandesa I. Título. 14-02356
CDD-894.541
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura finlandesa 894.541 A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
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Prólogo
Não sei quem estava com mais medo, eu ou a oficial na frente da qual eu estava de pé. Minha amiga de faculdade, Riina, nunca tinha casado ninguém, e vi que seus joelhos tremiam quando ela abriu a cerimônia; mas era meu primeiro casamento também. Minhas pernas estavam bambas, e o suor da minha mão, agarrada à de Antti, pingava forte sobre o taco da Villa Elfvik. – Maria Kristina Kallio, você aceita Antti Johannes Sarkela, aqui presente, como esposo... Eu já tinha esquecido que, mesmo em um casamento civil, se deve falar “Sim, eu aceito”. Quase não consegui articular uma palavra e Antti me olhou, provavelmente achando que eu iria dar para trás no último minuto. Suspirei em consentimento e, assustado, Antti gritou o seu com tanta força que Riina ficou sem ação. Mais tarde, contudo, nossos convidados disseram não terem visto nada de estranho naquela cena. Riina nos declarou marido e mulher, e nos voltamos para os convidados, para nos beijarmos e receber nosso lote de felicitações. Queríamos que as núpcias fossem as mais informais possíveis, e a escolha do casamento civil tinha parecido lógica, já que Antti não era um homem de fé. Minha própria relação com a religião era tênue demais para que eu desejasse as bênçãos da igreja. 5
Os abraços se sucediam. Meus pais, minhas irmãs, meus amigos. Koivu me levantou bem alto no ar e disse a Antti, em um tom entre brincalhão e sério: – Você aí, é melhor cuidar muito bem da Maria... Meus colegas, vindos em bando, pareciam estranhamente morosos. Meu superior, o comissário chefe Jyrki Taskinen, da brigada contra a criminalidade e os atentados a pessoas da polícia de Espoo, me felicitou com a cara séria, e os outros representantes da nossa unidade, Palo e Ström, com um ar bastante incomodado, como se eles temessem que meu casamento fosse diminuir minha eficiência no trabalho. Para fechar com chave de ouro, o celular de Taskinen começou a tocar logo que ele apertou a mão de Antti. – Espero que não tenham violentado ninguém, não estou exatamente disponível no momento – grunhi para Palo. Um colega de universidade de Antti, que se preparava para nos cumprimentar, me lançou um olhar hostil. Continuei a apertar mãos e vi, com o canto do olho, Taskinen se misturar novamente aos outros; não devia ser nada que exigisse a presença dele. Engoli minha curiosidade e me concentrei nos convidados. O trabalho que me esperava não ia fugir durante minhas duas semanas de licença. Faço parte desse grupo de mulheres que, quando crianças, sonhavam com o casamento como uma coisa segura, mas entenderam rapidamente que um véu branco e um marido rico não eram um objetivo de vida. Dos 15 aos 30, mais ou menos, fui uma solteira convicta e tenho que confessar que ainda ocorre de eu me perguntar o que me levou a aceitar o pedido de Antti Sarkela. Eu o amava, claro, a questão não era essa, mas amava mais ainda minha liberdade e adorava meu trabalho, apesar dos horários irregulares. – Você continua se chamando Kallio? – perguntou-me a irmã de Antti. – Cada um de nós manteve o próprio sobrenome – apressou-se em frisar Antti. Ele parecia ainda maior e mais magro do que o normal, em seu smoking especial para a cerimônia, destoando de seus 6
longos cabelos castanhos que caíam sobre os ombros. Meu vestido de noiva, apesar de longo e bege, era bem menos tradicional, com guirlandas de rosas em tecido vermelho sangue, uma das quais se prolongava para enfeitar meu penteado. Usava também luvas e sapatos de um vermelho libertino. Talvez a Maria de 10 anos atrás não tivesse ficado totalmente satisfeita com meu look, mas os convidados pareciam gostar do que viam. – É bom ver você sem seu eterno jeans ou seu único tailleur – brincou Palo quando, ao fazermos o tour pelos nossos convidados, nos sentamos à mesa dos meus colegas. Pertti Ström, Pertsa para os íntimos, deu um sorriso dissimulado porque, alguns anos antes, ele tinha me flagrado de minissaia de couro e meia-calça arrastão, durante nossas investigações sobre um caso de assassinato. – Você deixou o relatório sobre o caso Vilen na minha mesa? – disparou ele. Antes que eu tivesse tempo de responder, Taskinen interveio, com um ar irritado: – Pertti, não vamos falar de trabalho. É o casamento da Maria. – Se eu não tiver esse relatório, vou ser obrigado a incomodá-la em plena lua de mel – rosnou Ström. – Não se preocupe, ele está em cima da sua mesa – assegurei-lhe, com um tom adocicado, antes de passar à mesa seguinte. Ele não se cansava de espionar meus erros eventuais. Aliás, eu me perguntava o que ele fazia ali; não tínhamos rigorosamente nada em comum. Eu não tinha podido engolir nada durante todo o dia, e o almoço de casamento estava mais que delicioso. Nossos pais e amigos fizeram discursos, desfiaram todos os clichês possíveis, da corda no pescoço de Antti até sua experiência como capitão, que parecia não tê-lo impedido de se afundar. Ninguém, felizmente, chegou ao ponto de evocar a Virgem Maria. Nossa valsa de bodas teve certo êxito graças a uma mulher baixinha e a um homem de quase dois metros. Eu estava dançando com Palo, quando Ström veio nos interromper. 7
– Raitio foi preso no aeroporto de Turku. Temos que ir buscá-lo. Não precisava dizer mais nada. Tratava-se de um membro importante de uma quadrilha de traficantes de drogas que perseguíamos há muito tempo. Ele tinha desaparecido há algumas semanas, e estávamos quase certos de que tinha conseguido fugir do país. – Você só vai ter que adiar um pouco sua noite de núpcias e vir conosco a Turku. De todo jeito, nada de novo a espera. – insinuou Pertsa, mais grosseiro do que normalmente. – Mas vai ser a primeira vez na minha vida que vou transar legalmente – respondi, sem me intimidar, e desejei uma boa viagem a meus colegas. Taskinen apertou minha mão. Palo me deu um beijo desajeitado. Antes de seguir os colegas, Pertsa sussurrou ao meu ouvido: – Policiais podem sempre tentar se casar, mas isso nunca acaba bem. Mesmo na noite de núpcias, você só pensa no trabalho. Nenhum homem suporta isso. – Obrigada pelo estímulo. – Dei um passo para trás, deixando uma marca de batom na sua bochecha. Enquanto ele se retirava, carrancudo, fiquei me perguntando se ele não tinha razão. Felizmente, Antti me carregou para a pista de dança e eu esqueci todas as minhas dúvidas pelo resto da noite.
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Um
O vento que sacudia meu pequeno Fiat jogava pedaços de neve no para-brisa. O mês de dezembro tinha tido um inverno especialmente rigoroso. Não passava das três, mas já era quase noite. Não me adiantou nada ter passado frequentemente por Nuuksio; de repente, a estrada parecia desconhecida. Repeti as orientações que me tinham dado: virar a primeira à direita depois da ponta do lago Pitkäjärvi, depois duas vezes à esquerda. A última parte era apertada e, provavelmente, estaria bloqueada pela neve. Por sorte, eu trazia uma pá no porta- malas. Contudo, não precisei parar porque alguém tinha desbloqueado a estradinha que levava à mansão de Rosberga, cujas luzes brilhavam no alto de uma colina. Tinham até jogado sal no caminho que subia até o portal de pedra rosa. O local era, sem dúvida, magnífico no verão, mas naquela estação as roseiras ao redor das muralhas estavam cobertas só de espinhos. O ferrolho duplo estava trancado, e a faixa presa a ele não tinha nada de muito acolhedor. Há alguns anos, quando o centro de treinamento de Rosberga fora inaugurado, muito se falou sobre isso. ENTRADA PROIBIDA A HOMENS estava escrito em austeras letras pretas. A estátua de um urso do tamanho de um gato, que ficava em cima do portal, parecia certamente mais simpática. 9
Elina Rosberg, a proprietária da mansão, não permitia que nenhum homem entrasse lá. As terapias de grupo e os seminários que conduzia eram reservados às mulheres. Dizem que ela só contratava encanadoras ou pedreiras para os trabalhos de manutenção de Rosberga. Quando quis que alguém da polícia fizesse uma palestra sobre um estágio de autodefesa intelectual, ela insistiu que fosse uma mulher. O comissariado de Espoo, onde eu trabalhava, há anos fazia enormes esforços de interação. Havíamos distribuído aos estudantes miniaturas colecionáveis com as imagens dos funcionários dos nossos serviços, e esses participavam de bom grado de diferentes manifestações a fim de falar sobre seu trabalho e informar o público. Por isso, ninguém fez muita chacota quando Elina Rosberg pediu que uma policial fizesse uma palestra sobre os crimes contra as mulheres e as relações delas com as autoridades. – É uma missão perfeita para Kallio – brincou Pertti Ström na sala de descanso da brigada. – Se quisermos que aquelas megeras tenham confiança na polícia, é melhor lhes enviarmos uma delas. – É uma pena que os homens não possam entrar lá. Eu poderia exibir você como um espécime de falocrata da pior espécie – respondi. – Pertsa, falocrata? Agora que ele acabou deixando a mulher trabalhar, com as consequências que sabemos – golpeou Palo, escondendo-se debaixo da mesa para fugir do soco de Ström, dado de brincadeira, mas, talvez, não tão inofensivo como poderíamos achar. O divórcio dele, há alguns anos, tinha deixado marcas. Preparei-me para descrever, da maneira mais realista, as mulheres que trabalhavam na polícia ou que tinham algum envolvimento com o departamento. O problema era que eu não sabia para que tipo de público falaria. A mansão de Rosberga era normalmente tida como um reduto ultrafeminista, tanto que uma parte dos treinamentos era organizada em colaboração com a liga feminista Unioni e a Associação pelos direitos das lésbicas, gays, bissexuais e 10
transexuais. Como membro das duas, conhecia a diversidade de suas participantes. Sem dúvida, fosse qual fosse, teria que honrar minha profissão. O público seria certamente diferente do de clubes de aposentados ou de mães de família, diante dos quais eu já tinha falado. Fui incumbida tão facilmente de representar a profissão pelo fato de eu não corresponder à imagem tradicional de um policial. Além de ser mulher, eu era pequena, pouca coisa mais do que 1,60 m. Meus cabelos arrepiados puxavam naturalmente para o ruivo e eu costumava acentuar essa tendência com tinta para cabelos. Meu nariz era torto e eu tinha sardas que, felizmente, desapareciam no inverno. Meu corpo era uma mistura estranha de músculos e curvas e, sem dúvida, por causa da minha boca redonda e minhas roupas de adolescente, às vezes ainda me pediam documento de identidade quando eu comprava bebidas alcoólicas, mesmo já tendo mais de trinta anos. Naquele dia, eu estava usando jeans, uma blusa de lã de gola rolê, um colete com corte masculino e um pouco de maquiagem, com o propósito de me fazer parecer mais velha. Do lado de fora do portal, à primeira vista, parecia não haver nem campainha nem aldrava. Eu ia descer do carro para olhar mais de perto quando os ferrolhos se abriram sozinhos. Ao entrar no pátio coberto de roseiras encarquilhadas de frio, ouvi-os fecharem-se novamente atrás de mim e, sem saber por que, apesar de eles estarem ali com o intuito de proteger o local dos perigos do exterior, seu barulho me soou ameaçador. A mansão de Rosberga também era pintada de rosa, e os muros, assim como o pátio, desapareciam sob as roseiras. Muitas pessoas zombaram da aparência de castelo da Bela Adormecida quando foi aberto o centro de treinamento proibido para os homens. As feministas só estão esperando, finalmente, o beijo do príncipe encantado?, foi a manchete publicada por um tabloide. Parece que as roseiras tinham sido plantadas pela avó de Elina Rosberg. 11
Ela, que me esperava no degrau de entrada da porta emoldurada em branco, me acolheu com um vigoroso aperto de mão. A silhueta magra, apesar dos ombros largos e dos seios generosos, me ultrapassava em mais ou menos 20 centímetros. O vento balançava os cabelos curtos e louros e a luz, batendo de viés, valorizava seu nariz grande e fino e as bochechas altas. Mesmo usando jeans e botas velhas, ela tinha a postura de uma castelã. Sua voz era de contralto, agradável e alegre. – Aceita uma xícara de chá antes da palestra? – perguntou, depois de me cumprimentar. – O grupo ainda está em pleno relaxamento. O treinamento do qual eu deveria participar tinha como tema “Autodefesa intelectual”. Perguntei a Elina sobre o público que me aguardava. – O número de participantes é especialmente alto, mais ou menos 20. É importante dizer que é a primeira vez que organizamos esse treinamento. Os debates são acalorados e as opiniões são, às vezes, bem divergentes. Entramos em uma grande cozinha. Em um canto, um forno de tijolo para fazer pão exalava um calor doce. Só faltava um gato na beirada. – Aira, você pode servir uma xícara de chá à inspetora chefe Kallio, por favor? Vou à sala ver em que ponto está o relaxamento – disse Elina Rosberg, antes de nos dar as costas, me deixando perplexa diante do formal “inspetora chefe Kallio”. A mulher sentada perto do forno se levantou e se apresentou como Aira Rosberg. – Tia de Elina – acrescentou. Mesmo sem essa informação, o parentesco era evidente. Aira Rosberg tinha, com certeza, mais de 70 anos, mas era quase tão alta e de postura tão elegante quanto a da sobrinha. O nariz grande e fino era idêntico, assim como os olhos, de um azul muito pálido. Porém, a cor da tinta dos cabelos as distinguia: os de Aira Rosberg formavam um belo capacete cinza. O chá estava quente e com sabor de cassis. Eu me sentei numa poltrona em um canto da cozinha e recusei o 12
pãozinho. Tentava pensar na minha palestra, mas meu olhar estava atraído por Aira que, usando um avental Marimekko, tradicional marca finlandesa, guardava em um armário as vasilhas e talheres que estavam no lava-louças. Será que ela assumia as funções de cozinheira em Rosberga? Seus gestos eram organizados e certeiros. Ela trabalhava sem se dar conta de mim, a não ser para me perguntar se eu queria mais chá. O tempo parecia passar lentamente, mas, de acordo com meu relógio, só tinham se passado sete minutos quando Elina Rosberg voltou. – Estamos prontas, se você estiver. Eu a segui no hall ornamentado por uma grande escadaria. Uma porta a duplo batente dava para um cômodo que deveria ser o antigo salão da mansão. As paredes eram cobertas de papel de parede com desenho de rosas, mas, ao invés de móveis antigos, mesas e cadeiras leves, fáceis de carregar, alinhavavam-se sobre o taco encerado. Elina me mostrou o lugar reservado aos palestrantes, assim como o retroprojetor, e me apresentou às estagiárias. Comecei a balbuciar minha palestra, incomodada por estar diante de mesas dispostas como em uma sala de aula. Depois de alguns minutos, consegui disfarçar meu nervosismo e retomar minha voz normal. Elina me escutava, sentada na primeira fila. A blusa de lã azul clara se refletia em seus olhos pálidos, valorizando a cor deles. Ela tinha dobrado as longas pernas sobre a cadeira, em uma posição estranha, e dava para ver que uma de suas meias cinza tinha sido cerzida, inadvertidamente, com um fio roxo. Aira se esgueirou para a última fila. Tinha tirado o avental e parecia mais angulosa, usando uma camisa de flanela cinza e calça de veludo azul-escuro. As participantes do treinamento de autodefesa intelectual de Rosberga escutavam em silêncio, com o ar surpreendentemente interessado, algumas até faziam anotações. Tinham o exato perfil que eu havia imaginado: uma média de 35 anos, roupas casuais e pelo menos a metade com os cabelos pintados de vermelho. Quase todas usavam brincos 13
retrô e duas tinham as mesmas pequenas Deusas da Lua que eu. Poderia perfeitamente me misturar ao grupo, nada me distinguiria delas, nada faria que me apontassem o dedo como sendo da polícia. Por outro lado, duas mulheres se sobressaíam. A mais jovem tinha os cabelos muito curtos, pretos com mechas roxas, e mais maquiagem que todas as outras estagiárias juntas. Enquanto a maioria usava roupa esportiva, provavelmente por causa da sessão de relaxamento, ela estava usando uma minissaia preta que mal cobria seu traseiro e moldava lindamente as curvas do seu corpo, uma jaqueta de couro da mesma cor e botas roxas de salto alto, de couro de veado. Sua maquiagem tinha a intenção de fazê-la parecer mais velha, mas dava para ver bem, olhando mais de perto, que ela não poderia ter mais do que vinte anos. Com um ar blasé, ela olhava fixamente as longas unhas roxo-escuras e, involuntariamente, fazia um beicinho cada vez que eu pronunciava a palavra “polícia”. A segunda mulher que se destacava do grupo tinha a magreza das pessoas que correram exaustivamente a vida inteira. Seus cabelos, de um louro descorado, estavam presos em um coque apertado, os olhos azul-acinzentados miravam o vazio. Era difícil precisar-lhe a idade, pois o colete de lã marrom e o vestido de vovó, quadriculado com tons de marrom, envelheceriam qualquer uma. Teria adorado vê-la de mais perto, ouvir sua voz. Ela estava sentada, imóvel, como se numa redoma de vidro que a isolasse do mundo. As outras estagiárias sorriam com as minhas histórias, se cutucavam, trocavam olhares, mas aquelas duas, como excluídas, estavam entrincheiradas numa solidão – para a de cabelos em mechas, barulhenta e impaciente, e para a de coque, muda e claramente angustiante. No final da minha palestra, quando foi a vez das perguntas, não fiquei surpresa que elas tratassem, entre outras, da questão do aumento dos casos de assédio sexual nas vias públicas. – A polícia se contenta em explicar que não se deve andar sozinha à noite e outras coisas do gênero – começou uma ruiva da minha idade, com o ar animado. – Eu, por 14
exemplo, quero fazer minha corrida tranquila, no horário que me convém, quer dizer, quando meu marido está em casa e as crianças, na cama. Não sou eu que agrido as pessoas, por que eu deveria mudar meus horários por causa de alguns nojentos infelizes? – Você tem razão, não deveria ser assim. Mas precisamos, apesar de tudo, evitar todos os riscos inúteis. Onde você corre? Eu conhecia muito bem o medo que, às vezes, toma conta de você quando, durante uma corrida em um caminho desconhecido, pouco frequentado e mal iluminado, cada estalo faz você suspeitar que um assassino se esconde nas moitas. Uma das participantes contou como afugentou um agressor com uma mordida, outra lembrou a colega de emprego que cortou os avanços sexuais no trabalho contando à esposa do culpado durante a festa de Natal da empresa. Percebi, constrangida, que aquelas mulheres me consideravam um tipo de psicoterapeuta em quem elas projetavam suas histórias. Estava ali só para falar sobre meu trabalho, não para dar lição de vida. Fiquei aliviada quando uma das estagiárias expressou sua raiva contra um policial, homem, que a tinha considerado, de cara, culpada de um acidente em um trevo e tinha se compadecido do previsível acesso de cólera do marido “quando ele vir que a mulherzinha arruinou seu carro”, sendo que ela tinha pago o carro com seu próprio dinheiro e proibia seu marido, péssimo motorista, de dirigi-lo. Eu conhecia aquele clima, aquela solidariedade entre as mulheres e, por dentro, sorri ao constatar que em Rosberga realmente se descia o pau nos homens, como a imprensa tinha informado. De repente, meus conselhos práticos sobre a maneira de se comportar de acordo com a polícia foram interrompidos com um tumulto. A moça dos cabelos com mechas, que, durante minha palestra, tinha se concentrado praticamente só no seu esmalte roxo, se levantou num pulo e gritou: – Suas histórias são de chorar! Um carro amassado, meu Deus, meu Deus! É para isso que precisam de um curso de autodefesa intelectual? Ou não querem falar de seus verdadeiros problemas? Hein? 15
Ela se aproximou de mim. O perfume dela era forte e almiscarado, suor orvalhava da sua testa, sob uma camada grossa de pó facial claro. – Já fui violentada tantas vezes na minha vida, que já perdi a conta. Incesto, claro, depois um monte de outros caras dos quais nem me lembro, de tão bêbada que estava, a maior parte do tempo. Mas me lembro perfeitamente do último. Sou o que a maioria de vocês desprezam com certeza, ou, colocando de outra maneira, o que eu chamo de profissional do sexo, mas não uma prostituta, não transo com qualquer um, ganho dinheiro só dançando. Um de meus vizinhos veio várias vezes ver meu show e, uma noite, ele pulou em cima de mim no porão, onde eu tinha descido para buscar batatas. Ele se achou no direito de transar comigo daquele jeito porque eu danço nua. E fez ali no chão de cimento, ele achava excitante. Os olhos dela, estranhamente apagados, demarcados por um traço preto de meio centímetro de espessura, me fixavam, e as abas do pequeno nariz, ornado com uma argola, tremiam como as de um animal enfurecido. – Você pelo menos deu queixa? – perguntei, por não achar coisa mais pertinente para dizer. – Não! Você não acredita mesmo que os policiais veriam as coisas de modo diferente dele! Mas eu lhe enviei uma carta para avisar que eu tinha aids – ela retrucou, em um tom furioso. – É mentira – acrescentou, como se por um constrangimento social –, a não ser que o vagabundo tenha me contaminado. – O que você esperava realmente desse treinamento, Milla? – interveio Elina Rosberg, para meu grande alívio, pois não sabia como continuar a conversa. – O que eu esperava? Nenhuma ideia. Eu me pergunto o que estou fazendo aqui, na verdade... Mas você – retomou Milla, virando-se de novo para mim – você é policial e feminista, ou o quê? O que me teria dito, se eu tivesse ido dar queixa? Teria me levado a sério? – Claro. 16
– Você não teria me passado um sermão de moral, em nome dos direitos da mulher, do estilo não leva a nada ser stripper? – Nesse tipo de situação, normalmente a gente se abstém de dar lição de moral. – Meu esforço de amabilidade não teve efeito, nada parecia conseguir atenuar o ataque de animosidade de Milla. – Mas, não dando queixa, você se deixa vitimizar! – disparou uma mulher de formas generosas, sentada na primeira fila, que tinha conscienciosamente tomado notas. – Com seu comportamento, você ratifica a ideia de que os homens podem livremente se servir de você e, consequentemente, de qualquer uma de nós, já que não sobra para eles nenhum tipo de pena. Quando aconteceu? Talvez você ainda possa ir à polícia. – Não me interessa – respondeu Milla. – E o sujeito felizmente não mostrou mais a cara no bar da esquina. – Essa história de incesto... – começou Elina, com uma voz calma e empática, como uma pessoa acostumada a lidar com questões sensíveis. – Ela tem elementos que possam implicar demandas judiciais? Penso que seria mais interessante falar, agora, dos problemas relacionados à polícia, já que temos a inspetora chefe Kallio entre nós. – Os fatos já prescreveram há muito tempo, imagine! – disse Milla secamente. – E não adianta nada voltar ao meu caso. É preferível falar das suas histórias de carros, de gatos perdidos. Vou fumar. Girou sobre os saltos e se dirigiu, com um andar graciosamente rebolado, à porta pintada de rosa. A feição de Elina Rosberg estava estranhamente perplexa; a situação parecia ter saído, por um instante, de seu controle. Ela olhou para todas as estagiárias, depois para mim, esperando que alguém dissesse alguma coisa. Comecei sem convicção a lembrar os diferentes passos de uma deposição de queixa, mas eu também estava perturbada, menos pela atitude de Milla do que pela de Elina. Eu conhecia Elina, de reputação, há muito tempo. Uns 15 anos antes, quando 17
eu estava no ensino médio, ela tinha uma coluna, como psicóloga, em uma revista para adolescentes da qual minhas irmãs eram assinantes, mas que eu me julgava muito adulta para ler. Apesar de tudo, eu gostava dos seus artigos, porque ela não tentava nem dar lição de moral aos jovens, nem minimizar os problemas deles, e respondia às perguntas com segurança e objetividade. Eu a tinha considerado, sem dúvida, uma espécie de modelo e, quando entrei na escola de polícia, esperava me mostrar tão compreensiva quanto ela no exercício cotidiano da minha profissão. Eu me tinha desencantado rapidamente, mas imaginava que Elina seguia seu trabalho com o mesmo entusiasmo do começo. Graças ao centro de treinamentos de Rosberga, ela pôde se consagrar ao que lhe interessava mais do que tudo: às pacientes que sofriam de problemas psíquicos tipicamente femininos, como as desordens comportamentais alimentares. Ninguém parecia ter mais perguntas a fazer. Eu ia guardar meus papéis na mochila quando a mulher do coque se levantou bruscamente. Ela abriu a boca, voltou a fechá-la e, como em busca de ajuda, olhou para Elina. Depois de um sinal de cabeça da diretora, ela finalmente soltou: – Podem impedir uma pessoa de ver seus filhos? Sua voz trêmula se quebrou, tal como um instrumento que tocamos com muita força, e seu rosto incolor ruborizouse, como se pronunciar aquelas poucas palavras lhe tivesse exigido um esforço imenso. – De que se trata exatamente? É difícil responder sem maiores detalhes. A mulher, com um ar assustado, baixou a cabeça, e Elina respondeu por ela: – Johanna deixou o domicílio conjugal e pediu o divórcio. Ela e o marido querem a guarda dos filhos, mas ele a impede de vê-los. – Legalmente, ele não tem esse direito, desde que nenhuma decisão judicial a proíba de se aproximar deles. – olhei para Johanna, que estremeceu ao escutar as palavras 18
“decisão judicial”. – Por que seu marido não deixa você ver seus filhos? Desta vez, ela mesma respondeu, num tom quase provocador, mas sua voz falhou no final: – Porque matei nosso último filho. De repente, as estagiárias pareciam transformadas em um grupo de mulheres de neve, imóveis e congeladas. Depois de um breve suspiro coletivo de horror, ninguém deixou escapar o menor barulho, mas todos os olhos estavam fixos em Johanna, cujo rosto tinha passado de vermelho para cinza. Também eu olhava fixamente para ela – com a cabeça abaixada, as roupas muito grandes caindo sobre o corpo mirrado. Tinha ela sido presa? Seria por isso que parecia tão acabada? A voz grave de Elina rompeu o silêncio: – Creio que há um pequeno mal entendido. Não acho que alguém aqui considere aborto como assassinato, principalmente quando a gravidez coloca em risco a vida da mãe, assim como a do bebê. Johanna já tem nove filhos e quase morreu ao dar à luz o último. – Os médicos não podiam ter ligado suas trompas ou colocado um DIU? – gritou a mulher que tinha acusado Milla de comprazer-se no papel de vítima. – Nossa religião não admite a contracepção. Vai contra a vontade de Deus – respondeu Johanna, cuja voz inexpressiva parecia discursar frases decoradas. – Você é católica ou o quê? – continuou a mulher. – Johanna faz parte de uma das comunidades laestadianistas, as mais conservadoras do país – explicou Elina. – Ela contratou um advogado? – perguntei, apesar da irritação que eu experimentava ao falar a Johanna por intermédio de outros, como se ela fosse idiota. Sem responder, Elina declarou, num tom autoritário: – Se ninguém tem mais perguntas para a inspetora chefe Kallio, vamos agradecer a ela e finalizar a sessão. Foi uma palestra muito interessante. 19
Aplaudiu, e o grupo, desorientado, foi juntando-se a ela. Enquanto as estagiárias deixavam o salão, ela se aproximou de mim. – Ainda temos que resolver a questão dos seus custos. Mas gostaria muito que conversasse um pouco com Johanna, se você tiver tempo. Tempo não era o que me faltava, e estava realmente curiosa para entender a narrativa da vida de Johanna. Ela, seguindo o fluxo, se aproximou da minha mesa, situada ao lado da saída. Enquanto Elina se virou para fechar a porta, ela me dirigiu seu olhar pela primeira vez. Seus olhos cinza estavam cheios de uma angústia contagiante, tão forte que tive que me forçar para não virar o rosto. Na minha cidade natal também havia laestadianistas e Testemunhas de Jeová, mas a diferença mais visível entre a vida deles e a nossa, na escola, era que eles não podiam participar de nenhuma atividade física acompanhada de música, nem mesmo marchar ao som de um tamborim, nem assistir a programas educativos na televisão da escola. As pencas de filhos deles eram mesmo terrivelmente numerosas, mas nunca tinha ouvido falar de mulheres mortas no parto. – Esses policiais ultrapassaram seus direitos, se você não teve um comportamento violento. Talvez fosse bom entrar em contato com o único entre eles que não é laestadianista e discutir com ele. E, claro, com a polícia departamental. Como se chama seu marido e qual é a profissão dele? – Levi Säntti. Ele é um pregador – respondeu Johanna, e eu quase comecei a rir, de tão absurdo aquilo parecia. – Então é um notável? – É o pregador leigo nomeado da nossa igreja. – Ele é conhecido em todo o país, para falar a verdade – acrescentou Elina. Eu refletia. Não sabia verdadeiramente o que Johanna e ela esperavam de mim. Repeti a pergunta sobre o advogado, que parecia também ser um problema. O do escritório de ajuda judicial local também era laestadianista, e Johanna não tinha meios para remunerar qualquer outro. 20
Precisei me dar um chute mental na virilha para me impedir de prometer alguma coisa. Além do meu título de inspetora chefe, eu tinha feito um mestrado em direito e trabalhei durante quase um ano em um escritório de advogados, antes de irem à falência. Exercer minha segunda profissão me atraía, às vezes bastante, mas onde acharia tempo, já afogada nos casos a resolver? Não tinha certeza, além disso, de que seria deontologicamente aceitável, e o fato de Johanna viver longe de Espoo, sem dúvida, não ajudava nada. Talvez um policial em serviço não estivesse nem autorizado a exercer atividades jurídicas paralelas. – Tenho uma amiga – reagi finalmente, lembrando-me da minha colega de faculdade, Leena – que dava, de tempos em tempos, plantões jurídicos na associação feminista Unioni. Vou lhe dar o telefone dela, ligue para ela. Ela vai com certeza poder ajudar você. Eu também... Vou checar se conheço alguém do departamento de polícia local. Você já deu entrada no seu processo de divórcio? – Ainda não – murmurou Johanna. – Você não é doente mental nem alcoólatra, acredito. E também não tem outras relações masculinas, além do seu marido, ou estou enganada? – Johanna sacudiu a cabeça, como que aterrorizada pela minha pergunta. – Não vejo nenhuma razão para que a justiça dê a ele guarda plena dos seus filhos. Eu tentava parecer tranquilizadora, consciente de que, apesar de tudo, muita coisa dependia do juiz. Naquele momento, meu bipe tocou. – Com licença, vou precisar de um telefone. Estou de plantão. – O mais próximo é na cozinha. Aira se encarregará, ao mesmo tempo, dos papéis para assinar. Não vai ficar para jantar? – Infelizmente, não, mas mantenha-me informada sobre Johanna. – resmunguei, enquanto rabiscava o número de Leena em um pedaço de papel. Na cozinha, Aira preparava o jantar – pelo aroma, um cozido de legumes, enriquecido de ervas. Preenchi minha folha de presença, ao mesmo tempo que discava o número 21
do comissariado. Pertsa, do outro lado da linha, grunhiu que uma mulher tinha esfaqueado seu companheiro em Suvela, um caso, segundo ele, dentro das minhas atribuições. Prometi ir para lá em seguida. Não reencontrei Elina, nem Johanna. Ao voltar ao meu carro, vi, através de uma janela sem cortina, um grupo de mulheres que se apertavam alegremente ao redor de uma mesa iluminada por velas. Elina estava se sentando enquanto Aira trazia um cesto de pão. Johanna parecia não estar lá. No momento em que dava partida, a porta da mansão se abriu. Percebi pelo espaço entreaberto a cabeça com mechas roxas de Milla, depois o batente se fechou e só vi pelo meu retrovisor, instantes depois, a ponta incandescente de um cigarro. Quando cheguei ao portal, mais uma vez, ele se abriu, como por mágica, e se fechou sem fazer barulho, atrás de mim, isolando Rosberga no interior de seus muros, longe do resto do mundo.
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Dois
Com o olhar cansado, eu olhava fixamente, pela janela do meu escritório, a autopista de Turku, onde o tráfego da tarde começava a se intensificar. Um tédio estranho tinha tomado conta de mim, minha cabeça se inclinava irresistivelmente em direção à mesa, e o sofá, do outro lado do cômodo, parecia me chamar. Talvez fossem os efeitos do Natal. Os dias 24, 25 e 26 de dezembro eram de feriado no comissariado, como em todo lugar. Antti e eu tínhamos passado todo esse tempo descansando e lendo em nossa nova casa, em Henttaa. Tinha escolhido trabalhar nos dias que antecedem o ano novo, porque era um bom pretexto para não passar as festas na casa dos pais de Antti, em Inkoo, ou dos meus, em Carélie Du Nord. Porém, agora, preferiria ter aproveitado uma folga a mais para relaxar em frente à lareira com o gato, Einstein, acabar de ler O Natal de Hercule Poirot, de Agatha Christie, e comer chocolate. Não, chocolate não, eca. De repente, só de pensar no doce, fiquei com náusea. Talvez tenha comido demais nesses dias. Com um suspiro, abri um novo arquivo em meu computador e comecei a digitar o relatório do interrogatório que eu tinha acabado de conduzir. Muitos habitantes de Espoo estavam longe de ter tido um Natal tão tranquilo quanto o meu. Em geral, constatávamos nesse período um aumento da 23
violência doméstica e, na minha volta ao escritório, tinha encontrado vários casos de golpes e machucados, além de um morto em uma briga de faca. Não era de se estranhar que vários de meus colegas tivessem uma atitude cínica com relação ao casamento e à vida em família. Só na nossa brigada, mais da metade era divorciada, e Palo já devia estar no terceiro casamento. Como eu podia estar tão cansada, se não tinha feito nada demais? O frio estava tão rigoroso que nossos passeios diários de esqui tinham sido curtos e preguiçosos. Antti e eu morávamos em Henttaa desde o verão, em uma casa independente, bastante velha, que pertencia em copropriedade à família do irmão de um de seus colegas. Ela era difícil de vender porque ficava à margem do trajeto da futura Autopista Nº 2. Por enquanto, nossas janelas davam para campos abandonados, pouco a pouco invadidos pela floresta, onde as lebres brincavam entre os pequenos montes. No entanto, uma vez que a estrada fosse construída, só haveria asfalto cinza e barulho. Nós vivíamos lá um dia após o outro, sem que, por sinal, essa precariedade imposta me incomodasse. Talvez precisasse, na minha vida, da certeza de uma possibilidade de mudança. Principalmente agora, que eu tinha um trabalho fixo e também um marido. Até então, longos períodos em um mesmo trabalho nunca me tinham agradado, e funções com duração determinada ou substituições me caíam como luvas. Os dois anos e meio de relação com Antti foram também um tipo de recorde para mim. Se tinha me arriscado a me casar com ele, era simplesmente por ser tão fácil se divorciar hoje em dia. Antti, por outro lado, tinha começado a se apegar a nosso ambiente e se entristecia com sua extinção. Entrou em contato com os opositores à autopista, mas a batalha parecia perdida mesmo antes de começar: o projeto que o Centro Nacional de Equipamento Rodoviário e os funcionários de Espoo enfiaram na cabeça se realizaria, apesar da inutilidade da tal nova rodovia. Antti já tinha passado por um sofrimento parecido, quando alargaram a Radial Oeste e destruíram as paisagens da sua infância, em Tapiola, e foi sem dúvida por 24
causa dessa perturbação que seus pais tinham vendido a casa de Itäranta, para se instalar definitivamente na sua segunda residência, em Inkoo. Antti se tornou tão hostil à autopista e tão consciente dos problemas ecológicos em geral, que eu tinha previsto, meio a sério, meio de brincadeira, que ele se candidataria, junto ao Partido Verde, nas eleições municipais seguintes. – Seria melhor você se infiltrar nos sociais-democratas ou no partido conservador, já que são eles os mais obstinados em construir rodovias – sugeri finalmente. De qualquer maneira, Antti começava a precisar de atividades diferentes de seu trabalho. Já eu me contentava, como lazer, com as pistas de jogging, a sala de musculação e o estande de tiro do comissariado, que eu frequentava regularmente desde que tinha sido obrigada, durante uma investigação 18 meses antes, a usar uma arma, pela primeira vez na minha carreira, e constatado que minhas habilidades nesse quesito deixavam muito a desejar. Minha técnica voltava a ficar no ponto, mas sinceramente esperava não precisar colocar meu conhecimento em prática. Meu telefone tocou, e o telefonista me informou que Aira Rosberg queria falar comigo. Demorei um tempo para me lembrar dela, de Elina e da mansão de Rosberga. Também não tinha tido mais notícias de Johanna e, entretida com as festas de Natal, tinha me esquecido da promessa de ver se conhecia alguém na polícia departamental da região dela. Tão logo a comunicação foi estabelecida, Aira começou a falar, com uma voz estranhamente hesitante: – Não sei se se trata de um assunto com o qual se pode incomodar a polícia, mas... Elina desapareceu. – Desapareceu? Como assim? – Ninguém a viu, desde ontem à noite. Parece que ela não dormiu na cama dela, mas não encontramos sua camisola nem seu robe em lugar nenhum. Por outro lado, suas roupas estão no quarto. Como se ela tivesse saído com roupa de dormir. – Quando ela foi vista pela última vez? 25
– Cruzei com ela por volta das 10 horas, ela tinha saído para passear e voltava para seu quarto. Algumas de nós estávamos reunidas aqui para o Natal, quatro convidadas, além de Elina e eu, mas ninguém se lembra de tê-la visto depois de ontem à noite. – Ela não deixou nenhum bilhete? Achei ter percebido uma certa vacilação na voz de Aira, quando ela respondeu: – Não. – Ela pode ter ido à casa de alguém? Quem são os amigos mais próximos dela? – Claro que logo liguei para o Joona... Joona Kirstilä. Ela sai com ele. Mas também não estava na casa dele. – O poeta Joona Kirstilä? – perguntei, curiosa. Elina Rosberg estava relativamente presente na mídia, mas ninguém jamais tinha vasculhado suas relações masculinas. – Ele mesmo. Eles estão juntos há quase dois anos. Elina passa a noite, de tempos em tempos, na casa dele, na Rua Lapinlahti, e pensei que talvez ela pudesse estar lá. – Você tem alguma razão em particular para estar preocupada com esse desaparecimento? Aconteceu alguma coisa fora do comum no Natal, uma briga, por exemplo? Quem está em Rosberga neste momento? – Johanna Säntti e Milla Marttila, que você conheceu, se bem me lembro. Elas praticamente moram aqui, desde o seminário do começo do mês. Tarja Kivimäki, uma amiga antiga de Elina, que passou vários dias aqui durante o Natal, e Niina Kuusinen, que chegou dia 25. Ela também já participou de vários treinamentos organizados por Elina. Fiquei surpresa em saber que Milla ainda estava em Rosberga, já que ela não parecia gostar muito de lá. E Johanna... Será que ela tinha sido obrigada a passar o Natal longe de seus filhos? Preferi não pensar sobre aquilo e continuei: – Então, Elina não tem costume de sumir sem avisar? – Não! É muito estranho, eu... 26
– Ela desapareceu há menos de 24 horas e, no caso de adultos, a polícia não começa as buscas tão rapidamente. Ela tem outros amigos ou parentes com quem poderia estar? Aira, mais uma vez, respondeu negativamente, mas, mesmo assim, não parecia disposta a colocar um ponto final na nossa conversa. Perguntei-me o que ela realmente queria que eu fizesse. Talvez ela tivesse me ligado só para ouvir de um profissional que não havia nada para preocupar-se, que um monte de gente desmaia por aí, sem explicação, e acorda em plena forma. Mas eu não tinha coragem. Também achava estranho o repentino desaparecimento de Elina Rosberg. – Se ela não aparecer até amanhã de manhã, ligue para mim novamente – disse, afinal. Era difícil chamar Aira de você, pois ela tinha 40 anos a mais do que eu, mas parecia ser o normal em Rosberga. – Avise se ela voltar – acrescentei, sabendo que não deveria ter feito aquilo, e dei-lhe meu número de telefone pessoal. Tentei me convencer que tinha sido por pura curiosidade, mas sabia muito bem que era uma cilada. Eu estava preocupada. Para não pensar mais em Elina, continuei a digitar meu relatório. Antes de ir embora, liguei para Antti para pedir a ele que encerasse meus esquis. A neve tinha caído grossa durante todo o dia, cobrindo os campos com uma camada espessa. As nuvens começavam a se dissipar e a temperatura, a baixar. As condições seriam ideais para esquiar. Uma das muitas vantagens da nossa casa em Henttaa era ser em plena natureza. E o esqui cross-country era uma ótima variação para o jogging. Ao sair do meu escritório, no corredor, dei de cara com Pertti Ström. Ele tinha feito questão de não sair de folga durante as festas de Natal porque sua família não precisava dele, pelo que parecia. Sua ex-mulher, acompanhada do atual marido, tinha levado as crianças para as Ilhas Canárias. Pertsa estava com o ar ainda menos ameno do que o normal: o rosto largo, carrancudo, e os cabelos castanho-claros, colados pela transpiração ao crânio de têmporas calvas. O nariz vermelho, quebrado várias vezes, se destacava no 27
meio da palidez invernal da sua face. Imaginei se ele não estaria pegando uma gripe. – Perdi o dia com esses meliantes do tiroteio em Perkkaa, eles garantem não se lembrar de nada – rosnou, em resposta ao meu cumprimento. – Merda! Tenho certeza que só foram encher a cara, depois de ter matado o outro, unicamente para poder jurar que esqueceram tudo e não podermos culpar ninguém. E como foi o Natal da jovem noivinha? Comendo ou transando? Eu estava acostumada com o jeito dele desde a escola de polícia, onde estávamos na mesma classe e, portanto, me contentei em acenar com a cabeça e sorrir. Por sinal, ele tinha razão, se bem que, sem dúvida, eu teria descrito minhas atividades em termos ligeiramente diferentes. – E você encomendou um bebê? – continuou ele, me checando da cabeça aos pés, para minha enorme irritação. – Não é da sua conta, mas se é do seu interesse, saiba que não faz parte dos meus projetos. Uso um DIU – lancei, empurrando a porta do andar, antes que ele tivesse tempo de fazer outros comentários. Não estava no clima para manter um combate verbal com ele. Nossas conversas frequentemente se degeneravam e viravam bate-bocas. Nós simplesmente não nos suportávamos. Desde o começo, eu temia trabalhar com Ström, apesar de ter sido exatamente ele, parece, que sugeriu ao nosso chefe, Jyrki Taskinen, que me chamasse para trabalhar na polícia de Espoo. Alguns anos antes, quando eu trabalhava em um escritório jurídico em Tapiola, nós nos chocamos violentamente, por ocasião de um caso de assassinato. Pertsa tinha prendido um inocente, que me escolheu como advogada. No final das contas, eu tinha resolvido o caso antes da polícia – o que ele não digeriu bem. Eu só soube mais tarde que, na época, ele estava em pleno divórcio, o que tinha visivelmente prejudicado a qualidade do seu trabalho. Claro que ele mesmo não tinha me contado nada sobre suas frustrações conjugais, mas a esposa número três de Palo conhecia bem a ex-esposa de 28
Pertsa, e as fofocas sobre a sua vida pessoal corriam soltas pelo comissariado. A neve se acumulou nos acostamentos da rodovia de VähäHenttaa, refletindo as iluminações de Natal das casas e dando à paisagem um ar de cartão postal. Nossa velha casa vermelha parecia especialmente acolhedora: Antti tinha acendido uma vela em um lampião para me receber e, com uma pá, retirava a neve do jardim, pois os flocos voltavam a cair. Enfiei minha roupa de esqui e engoli rapidamente uma banana. O ar fresco apagou o cansaço do meu rosto. O ruído áspero da neve sob meus esquis era ao mesmo tempo familiar e, a cada inverno, totalmente novo. Tentei, sem sucesso, me concentrar nos meus movimentos; meu pensamento sempre voltava a Elina Rosberg. Onde será que ela estaria? A imagem pública de uma pessoa com certeza não permitia conhecê-la verdadeiramente, mas Elina não parecia ser do tipo de agir por impulsos. Ela tinha participado, nos últimos anos, de inúmeros debates televisivos sobre questões referentes especialmente à sexualidade e aos estereótipos de gênero. Enquanto outros começavam a ficar nervosos e se interromper aos gritos, ela mantinha uma calma quase desesperadora. Sua voz era normalmente a que todos se calavam para escutar. Não, ela realmente não dava a impressão de ser do gênero a saltar em um trem, sem avisar ninguém, para visitar um amigo em outra cidade. Principalmente tendo convidados para o Natal. Ao final de alguns quilômetros, meu cansaço voltou. Minhas pernas estavam estranhamente moles e pareciam não ter mais força para mover. Antti esquiava na minha frente, em um ritmo regular, e tive que, bem a contragosto, gritar para que ele fosse mais devagar. – Então, mulher de neve, o que houve? – perguntou ele, rindo. Sacudi os flocos de neve dos meus cabelos, antes de responder: – Minhas pernas se recusam a me carregar, parecem gelatina. Acho que devo estar ficando doente. A não ser que seja só minha menstruação, deve estar chegando. 29
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