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O pensamento hétero e outros ensaios

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MONIQUE WITTIG O PENSAMENTO HÉTERO E OUTROS ENSAIOS

T RA D U ÇÃO

MAÍRA MENDES GALVÃO

éFe


Copyright © 1992 by Monique Wittig Publicado mediante acordo com a Beacon Press Título original: The Straight Mind and Other Essays Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editoras responsáveis

capa e projeto gráfico

Rejane Dias Cecília Martins

Diogo Droschi (capa sobre foto de Colette Geoffrey, Succession littéraire de Monique Wittig Wikimedia Commons)

coordenadoras da coleção

Cecília Martins Rafaela Lamas

diagramação

Christiane Morais de Oliveira

preparação

Rogério Bettoni revisão

Aline Sobreira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Wittig, Monique O pensamento heterossexual / Monique Wittig ; tradução Maíra Mendes Galvão. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica, 2022. -- (éFe) Título original: The Straight Mind and other essays ISBN 978-65-59280-14-8 1. Feminismo e literatura 2. Lesbianidade 3. Movimentos sociais 4. Radicalismo 5. Relações de gênero 6. Teoria feminista I. Galvão, Maíra Mendes. II. Título III. Série. 21-54291

CDD-305.42

Índices para catálogo sistemático: 1. Feminismo : Teoria : Sociologia 305.42 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

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9 Prefácio à edição brasileira: Wittig, o feminismo e o pensamento lésbico (ou teoria lésbica) Adriana Azevedo 17 Prefácio: Mudando de perspectiva Louise Turcotte 25 Apresentação 31 A categoria sexo 41 Não se nasce mulher 55 O pensamento hétero 69 Do contrato social 85 Homo sum 97 O ponto de vista: universal ou particular? 107 O Cavalo de Troia 115 A marca de gênero 129 O lugar da ação


PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

WITTIG, O FEMINISMO E O PENSAMENTO LÉSBICO (OU TEORIA LÉSBICA) Adriana Azevedo1

Se nós, lésbicas e gays, continuamos nos dizendo, nos concebendo, como mulheres e homens, contribuímos para a manutenção da heterossexualidade. [...] Temos de levar a cabo uma transformação política dos conceitos centrais, quer dizer, dos conceitos que nos são estratégicos. [...] os conceitos hétero vão sendo minados. O que é a mulher? Pânico, alvoroço geral de defesa ativa. Francamente, esse é um problema que as lésbicas não têm, graças a uma mudança de perspectiva, e seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois “a mulher” só tem

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Adriana Azevedo é doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, professora substituta do departamento de Ciência da Literatura e integrante do Laboratório de Teorias e Práticas Feministas (PACC), ambos na UFRJ. Escreve sobre teoria e crítica cultural com enfoque em questões do feminismo contemporâneo. 9


sentido nos sistemas heterossexuais de pensamento e nos sistemas econômicos heterossexuais. Lésbicas não são mulheres. Monique Wittig, “O pensamento hétero”, 1978. MONIQUE WITTIG, ESCRITORA 2 e

teórica lésbica francesa radicada nos Estados Unidos, fez, talvez, um dos grandes gestos de reavaliação conceitual do nosso mundo social (ocidental), ao dizer uma das frases mais polêmicas e mais mal compreendidas pelo feminismo. “Lésbicas não são mulheres” foi proferida ao final da conferência intitulada “O pensamento hétero”, lida em Nova York durante a Modern Language Association Convention em 1978, e teria gerado reações fervorosas da plateia. O sujeito político do feminismo francês, naquele contexto histórico, era uma mulher essencial, muito próxima da ideia de mulher que circula ainda hoje nos chamados, pela própria Wittig, “heterofeminismos”. O feminismo estava sendo construído, assim como todas as ciências humanas, a partir de uma visão de mundo heterocentrada, que é o Wittig chama de “pensamento hétero”. E ela vai questionar, com esse termo, o sistema de organização do mundo ocidental, que atravessa para ela todos os conceitos políticos, filosóficos, antropológicos, psicanalíticos, enfim, todo o aparato discursivo das ciências humanas, inclusive o pensamento e as práticas políticas feministas. Para Wittig, esses discursos veem a heterossexualidade como anterior a toda ciência e funcionam como forma de dominação de grupos oprimidos (o que podemos ler hoje como gays, lésbicas, pessoas, racializadas, 2

Fora do Brasil, Monique Wittig é mais conhecida como autora de romances do que como teórica. Seus ensaios políticos e teóricos, redigidos majoritariamente em inglês, foram traduzidos na França somente nos anos 1990, pelo teórico queer francês Sam Bourcier.


não ocidentais, etc.), e o pensamento europeu, sobretudo, esquece que essas organizações discursivas carregam uma dimensão de violência material, física, contra minorias. Não é possível, dentro dessa estrutura, dentro do pensamento hétero, construirmos nossas próprias categorias. A partir daí, encontramos o silenciamento, a impossibilidade de falarmos em termos que não sejam os da heteronormatividade. Wittig estava enfurecida com o feminismo francês antes mesmo das reações ao fim de sua leitura em Nova York. Ela já vinha observando a marginalização das lésbicas no MLF3 e já tinha sofrido uma verdadeira traição das organizadoras da revista Questions Féministes.4 O combinado era que a última edição da revista seria em torno de um questionamento dessa estrutura heteropatriarcal de poder e que, depois disso, iam encerrar os trabalhos do periódico. Acontece que as demais feministas e organizadoras fundaram a Nouvelles Questions Féministes, na qual nem sequer questionam o que para Wittig deveria ser o centro do debate: a heterossexualidade compulsória. Wittig percebe que o feminismo hegemônico endossa esse discurso, e o poder heteropatriarcal, já que se constitui a partir da 3

MLF, ou Mouvement de Libération des Femmes [Movimento de Liberação das Mulheres], foi um movimento feminista nascido no contexto dos eventos políticos do Maio de 68 na França e que reivindicava a liberdade dos corpos das mulheres, lutando contra a misoginia, o machismo e opressões morais, econômicas, sociais, jurídicas que as mulheres sofrem na sociedade. Teve seu em Paris, em agosto de 1970, com protesto no Arco do Triunfo. Ver também nota 6, p. 122.

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Questions Féministes foi uma revista fundada em 1977 por Simone de Beauvoir e Christine Delphy – Monique Wittig se juntou a elas mais tarde. Por causa de tensões internas e discordâncias conceituais e teóricas de Wittig e Emmanuèle de Lesseps, a revista parou de circular, e Delphy e Beauvoir resolveram fundar a Nouvelles Questions Féministes em 1981, em circulação até hoje. 11


ideia de mulher gerada no seio dessa mesma estrutura. É por isso que a partir da sua conferência, da afirmação de que “Lésbicas não são mulheres”, rompendo com o sujeito universal abstrato do feminismo – a mulher essencial – e criando uma outra via para sua prática discursiva, teórica e política, ela funda o chamado “pensamento lésbico”. O pensamento lésbico parte da noção de que a lésbica é uma via de rasura, fronteiriça, e que podemos pensar as lésbicas como muitas coisas que não são mulheres. Em inglês butches, dykes, stonebutches; no Brasil caminhoneiras, sapatões, lésbicas masculinas – variadas designações para sapatões que não obedecem a uma performatividade de gênero normativa. As lésbicas podem ser muitas identidades políticas ou constituições subjetivas que não obedecem à ideia de mulher de um certo heterofeminismo que já é fundado a partir do termo “feminino”, que denota que o sujeito dessa luta se identifica necessariamente com o estereótipo de ser mulher construído pelo heteropatriarcado. As sapatões são as primeiras que nos vêm contemporaneamente à cabeça para pensarmos a proposta epistemológica e conceitual de Wittig. Além disso, conforme propõe Wittig em seu texto, as lésbicas também não são mulheres por não dependerem economicamente, socialmente, culturalmente, reprodutivamente da figura de um homem provedor, protetor e que encarna o objeto de desejo sexual e afetivo da mulher. A lésbica rompe com a heterossexualidade compulsória5 e, ao se relacionar com outras lésbicas, está diante de uma outra existência, que desafia os poderes patriarcais e funda novas formas possíveis de se viver juntas. 5

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Adrienne Rich, em “A heterossexualidade compulsória e a existência lésbica”, também faz uma importante abordagem política do conceito. O ensaio foi originalmente escrito para o dossiê “Sexualidade” da revista Signs e publicado aí em 1980.


A sociedade lésbica que Wittig propõe em outro texto, “Não se nasce mulher”, (uma referência à frase icônica de Simone de Beauvoir “Não se nasce mulher, torna-se mulher”), enceta para essas novas formas possíveis de se viver juntas, mas não sob a forma de um separatismo lésbico raso, excludente ou com bases biológicas do “ser mulher”. A própria Wittig faz uma crítica ao fato de que “a maior parte das feministas e das feministas lésbicas nos Estados Unidos e em outros lugares ainda acredita que a base da opressão da mulher é tão biológica quanto histórica” (grifo da autora), e que “o matriarcado não é menos heterossexual do que o patriarcado: o que muda é apenas o sexo do opressor”. A ideia de uma sociedade lésbica é uma revolução social, discursiva e cultural, é a lésbica recusando o papel de mulher que a sociedade heteropatriarcal impõe aos corpos das mulheres, e a constatação de que “homem” e “mulher” são categorias políticas, e não fatos biológicos ou naturais. Para Wittig, por isso, não vale à pena persistir em um “feminismo” que insiste em suas origens biológicas, o feminismo que vem da palavra “fêmea”, “mulher”, e que significa “alguém que luta pelas mulheres”. É a partir também dessa crítica que as leitoras de Wittig e as teóricas lésbicas inspiradas em Wittig vão pensar em uma teoria lésbica. A teórica feminista Teresa de Lauretis, em sua palestra “When lesbians were not woman” (Quando as lésbicas não eram mulheres)6 diz que, nos anos 1980, as leituras da obra de Wittig e as poucas conversas que ela teve a oportunidade de ter com ela a levaram a “começar o projeto de escrever teoria lésbica, como algo diferenciado da teoria feminista”. Para De Lauretis, a frase de Wittig 6

Trabalho escrito para e apresentado no Colóquio “Em torno da obra Política, Teórica e Literária de Monique Wittig”, sob a direção de Marie-Hélène Bourcier e Suzette Robichon, Paris, 16-17 de junho de 2001. 13


“Lésbicas não são mulheres” abriu um espaço conceitual que até então era impensável, que nos dá a possibilidade de pensar um sujeito excêntrico, que “não se centrava na instituição que sustenta e produz o pensamento hétero”. Wittig produziu um duplo deslocamento: primeiro, um deslocamento psíquico, de energia erótica, desde uma figura que excede as categorias de sexo e gênero (a lésbica de Wittig); segundo, um autodeslocamento, ou desidentificação, do sujeito dos pressupostos culturais e das práticas sociais às categorias de sexo e gênero. Ao recusar o contrato heterossexual, a lésbica de Wittig também recusa as práticas de conhecimento, produzindo um deslocamento epistemológico e uma transformação na consciência histórica. De Lauretis considera a sociedade lésbica de Wittig um tipo de organização social, uma sociedade utópica, futurística ou distópica – como a sociedade das amazonas do romance As Guerrilheiras da própria Wittig, ou o livro de ficção científica The Female Man (O homem fêmea), de Joanna Russ. Wittig elabora que a sociedade heterossexual está fundada na necessidade do outro e do diferente e que as mulheres são os “outros” das diferenças conceituais do sexo. Os homens, por outro lado, não seriam diferentes. As lésbicas não seriam nem homens nem mulheres, provocando uma transformação dos conceitos políticos que são estratégicos para nós. A universalidade da mulher é parte do pensamento heterossexual – nem mesmo as lésbicas são vistas por essa estrutura de pensamento, fora da heterossexualidade. “Quem é o homem da relação?”, pergunta a sociedade diante das lésbicas. Para Wittig não adianta termos uma consciência da opressão e apenas lutarmos contra ela, é necessário também uma reavaliação conceitual do mundo social, a total reorganização dos seus conceitos, sobretudo em um trabalho através da linguagem. O pensamento lésbico de Wittig é fundamental para questionarmos as práticas e as teorias feministas desde um ponto de 14


vista de renúncia das normas heterossexuais. A lésbica não ser uma mulher nos ajuda a pensar um sujeito político anti-heteropatriarcal que não se reconhece dentro das oposições binárias e hierárquicas construídas pelo patriarcado para oprimir tudo o que é diferente do homem hétero. Nos dá, também, possibilidades de construirmos nossas práticas teóricas e políticas que vislumbrem existências que não se adequam dentro da lógica binária de sexo e gênero. Por isso é muito bem-vinda a tradução dos chamados escritos políticos ou teóricos de Wittig no Brasil, finalmente, depois de tantas décadas.

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PREFÁCIO

MUDANDO DE PERSPECTIVA Louise Turcotte1

ao Movimento de Libertação das Mulheres francês, certamente é o de Monique Wittig. Sua reputação surgiu principalmente de suas obras literárias, que foram traduzidas para vários idiomas. Mas, se o legado deixado por Wittig na segunda metade do século XX foi o de escritora, a difusão de seus textos teóricos deixará claro que ela também é uma das grandes pensadoras do nosso tempo. É impossível localizar sua influência unicamente na literatura, na política ou na teoria, pois seu trabalho perpassa essas três áreas, e é precisamente dessa multidimensionalidade que deriva a grande importância de seu pensamento. Muito foi escrito sobre suas obras literárias, mas pouco foi dito sobre seus escritos teóricos e políticos. Darei um depoimento mais político, portanto, pois tive a sorte de conhecer Monique SE HÁ UM NOME ASSOCIADO 2

1

Membro do coletivo lésbico responsável pela publicação de Amazones d'Hier, Lesbiennes d'Aujourd' hui [Amazonas de Ontem, Lésbicas de Hoje], revista canadense fundada em 1982 e escrita de uma perspectiva lésbica radical. (N.E.)

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Ver nota 4, p. 11, e nota 6, p. 122. (N.E.) 17


Wittig pessoalmente no início da década de 1970. Embora seja possível sistematizar a influência imediata do pensamento de Wittig, ainda é razoavelmente difícil prever a totalidade de sua influência sobre a história da luta pela libertação das mulheres. Seus ensaios questionam algumas das premissas básicas da teoria feminista contemporânea. Aqui, o que está em questão é uma revolução conceitual completa. Em 1978, na conferência anual da Modern Language Association, em Nova York, quando Monique Wittig concluiu sua comunicação “O pensamento hétero” com a declaração “lésbicas não são mulheres”, a recepção calorosa da plateia foi precedida por um breve e ensurdecedor silêncio. Quando o ensaio foi publicado, dois anos depois, no periódico francês Questions Féministes, esse silêncio ensurdecedor havia sido transformado – por algumas das feministas mais radicais – em pressão política; então, incluiu-se uma nota para “suavizar” a conclusão. A perspectiva chocante de Wittig era inimaginável naquela época. De fato, uma página da história do Movimento de Libertação das Mulheres havia sido virada por uma das principais instigadoras da França. Que página era essa, exatamente? Por que já não era possível enxergar o Movimento de Libertação das Mulheres exatamente da mesma maneira? Precisamente porque a perspectiva havia mudado. Desde o início do século XX, toda a luta das mulheres, desde a defesa dos “direitos da mulher” até uma análise feminista da “opressão da mulher”, teve como base “o ponto de vista das mulheres”. Era algo subentendido. Essa análise foi refinada ao longo dos anos, e diferentes tendências emergiram, como acontece em todos os movimentos de libertação, mas esse consenso básico nunca foi posto em questão. Ele parecia ser, em qualquer circunstância, indiscutível. Foi assim que a declaração “lésbicas não são mulheres” abalou o movimento inteiro, tanto teórica quanto politicamente. 18


Fundamentada nos conceitos mais recentes do feminismo materialista e radical, entre eles a ideia de “classes sexuais”, a declaração de Wittig contestava um ponto fundamental que o feminismo nunca havia questionado: a heterossexualidade. Não mais como sexualidade, mas como regime político. Até então, o feminismo havia considerado o “patriarcado” um sistema ideológico baseado na dominação da classe das mulheres pela classe dos homens. Mas as categorias “homem” e “mulher” em si não haviam sido questionadas de fato. É aqui que a “existência lésbica” se investe de seu significado específico, pois, se essas duas categorias não podem existir uma sem a outra, e se lésbicas só existem pelas “mulheres” e em decorrência delas, tem de haver uma falha nesse sistema conceitual. No início da década de 1980, muitas lésbicas na França e em Quebec começaram a chamar essa perspectiva de “lesbianismo radical” e a revisar totalmente sua estratégia. Agora, as lésbicas radicais chegaram a um consenso básico que encara a heterossexualidade como um regime político que precisa ser derrubado, e todas nós nos inspiramos nos escritos de Monique Wittig. Para nós, sua obra foi um ponto de partida para a análise e a ação. Toda a história estava preste a ser revista. Quando a história é revista a partir dessa perspectiva, é interessante notar que os fundamentos de uma crítica da heterossexualidade enquanto “instituição política” já haviam sido construídos no início dos anos 1970 por certas separatistas lésbicas nos Estados Unidos.3 Mas o separatismo lésbico norte-americano não adotou essa análise. Em vez disso, seu objetivo era desenvolver, em um sistema essencialista, novos valores lésbicos dentro de comunidades lésbicas. Isso era – e ainda é – ignorar que a 3

Ver BUNCH, Charlotte. Learning from Lesbian Separatism. Ms, Nov. 1976. 19


“heterossexualidade […] só pode garantir seu poder político por meio da destruição ou da negação do lesbianismo”.4 A existência de comunidades lésbicas é estrategicamente necessária. Mas, se elas não estão dentro do contexto de um movimento político cujo objetivo é abolir o sistema heterossexual, passam a significar algo completamente diferente; a questão, nesse caso, seria criar uma “nova categoria”. No entanto, somente a destruição das categorias existentes pode realizar mudanças reais. Esta é a compreensão a que chegamos por meio da obra de Monique Wittig: não se trata de substituir “mulher” por “lésbica”, mas sim de usar nossa posição estratégica para destruir o sistema heterossexual. Nós, lésbicas, somos como os escravos fugidos, “foragidas de nossa classe” (em “Não se nasce mulher”). Essa frase crucial nos dá a dimensão política da perspectiva lésbica. É preciso tê-la em mente sempre que se lê Wittig. Nos Estados Unidos, Adrienne Rich propôs uma análise feminista da heterossexualidade em seu ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, de 1980.5 Para Rich, a heterossexualidade é “algo que tem de ser imposto, administrado, organizado, propagandeado e mantido à força”.6 Esse texto posiciona a heterossexualidade como uma instituição política no sistema patriarcal. Rich vê a existência lésbica como um ato de resistência a essa instituição, mas, para que a “existência lésbica

4

BRUNET, Ariane; TURCOTTE, Louise. Separatism and Radicalism: An Analysis of the Differences and Similarities. Translated by Lee Heppner. In: HOAGLAND, Sarah Lucia; PENELOPE, Julia (Ed.). For Lesbians Only: A Separatist Anthology. London: Onlywomen Press, 1988. p. 450.

5

RICH, Adrienne. Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence. Signs, v. 5, n. 4, 1980.

6

RICH, 1980, p. 648.

20


conceba esse conteúdo político de maneira definitivamente libertadora, a escolha erótica tem de depender da identificação consciente como mulher e se expandir nela”.7 Rich analisa o conceito de heterossexualidade dentro do contexto da teoria feminista contemporânea a partir da “perspectiva da mulher”, enquanto que o lesbianismo radical não utiliza essa perspectiva. Ele enxerga o lesbianismo como necessariamente político e o considera à parte de todo o regime político heterossexual. Pois falar em “heterossexualidade compulsória” é redundante. “A consciência da opressão não é somente uma reação à (luta contra a) opressão. Também é a reavaliação conceitual completa do mundo social, sua reorganização completa com novos conceitos” (em “Não se nasce mulher”). Para mim, isso resume o trabalho de Monique Wittig. Foi por meio de grupos militantes que vim a conhecê-la. Seu completo respeito por cada indivíduo e seu completo desprezo por todas as formas de poder modificaram para sempre meu conceito de militância. E foi por meio de seus escritos que também vim a entender a necessidade de alternar entre teoria e política. Não se pode conceber luta política sem isso, e, na medida em que se transforma gradualmente a teoria, também devemos transformar nossa luta política. Esse é um desafio que requer constante vigilância e constante disposição para reconsiderar nossas ações e posições políticas. É nesse sentido que é preciso compreender os questionamentos ao movimento feminista feitos por lésbicas radicais. “Temos de produzir uma transformação política dos conceitos centrais, quer dizer, dos conceitos que nos são estratégicos” (em “O pensamento hétero”). Ao não questionar o regime político heterossexual, o feminismo contemporâneo propõe uma reorganização do sistema em vez de sua eliminação. De forma 7

RICH, 1980, p. 659. 21


semelhante, parece-me que o desenvolvimento contemporâneo da noção de “gênero” mascara ou camufla as relações de opressão. Frequentemente, “gênero”, ainda que enquanto tentativa de descrever as relações sociais entre homens e mulheres, deixa espaço para que se ignore, ou se diminua, a noção de “classes sexuais”, assim eliminando a dimensão política dessas relações. Gostaria de mencionar aqui um dos elementos críticos do corpus do pensamento de Wittig, que a frase seguinte resume perfeitamente: “Um texto de um escritor minoritário só é eficaz se consegue tornar universal o ponto de vista da minoria” (em “O ponto de vista: universal ou particular?”). Isso exemplifica a extraordinária eficácia de Wittig. Ao reivindicar a perspectiva lésbica como universal, ela subverte os conceitos aos quais estamos acostumados. Pois, até agora, escritoras minoritárias precisavam acrescentar “o universal” às suas perspectivas quando queriam alcançar a universalidade inconteste da classe dominante. Homens gays, por exemplo, sempre se definiram como minoria e nunca questionaram, apesar de sua transgressão, a escolha dominante. É por isso que a cultura gay sempre teve um público razoavelmente amplo. O pensamento lésbico de Wittig não procura transgredir, mas claramente se livrar das categorias de gênero e sexo sobre as quais se apoia a própria noção de universalidade. “Sexos (gênero), diferença entre os sexos, homem, mulher, raça, negro, branco e natureza estão no cerne desse conjunto de parâmetros [do pensamento hétero]. Eles moldaram nossos conceitos, nossas leis, nossas instituições, nossa história, nossas culturas” (em “Homo sum”). Para reexaminar os parâmetros que fundamentam o pensamento universal, é preciso reavaliar todas as ferramentas básicas de análise, inclusive a dialética. Não para descartá-la, mas para torná-la mais eficaz. O trabalho de Monique Wittig é a ilustração perfeita da ligação entre política e teoria. Vemos com muita frequência 22


esses dois elementos como entidades separadas; de um lado há o trabalho teórico e de outro o político, funcionando separadamente, quando, na verdade, deveriam se cruzar. Esse encontro da teoria com a política é fundamental para toda luta política, e é precisamente o que torna o pensamento de Wittig tão inquietante. A conformidade teórica pede luta política. Quando se alcança essa conformidade, é porque já se conseguiu abalar o curso da história.

23


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