Eu odeio te amar
Antes de mais nada
Meu nome é Débora, tenho 24 anos. Às vezes me sinto como se já tivesse chegado aos 30, às vezes como se não tivesse passado dos 15. Quando eu realmente tinha 15 anos, aliás, achava a vida uma coisa meio complicada. Quer dizer, eu amava viver e tal (até porque não sei o que acontece na outra opção, né? Ninguém sabe. Mas, tudo bem, não vamos entrar em questionamentos sobre vida após a morte). O ponto é que eu vivia me perdendo em dúvidas, com mil dilemas do tipo: gosto do Guilherme ou do Felipe? Conto pra minha amiga que vi o namorado dela com outra? Como namorar um cara que mora em outra cidade? Como explico para o meu pai que não sou mais criança e que seria extremamente gentil da parte dele me deixar ficar no meu quarto com meu namorado de porta fechada? Isso sem contar as dúvidas mais rotineiras, do tipo: fecho a boca ou a vida é curta demais e devo comer três pedaços de bolo? Faço natação ou fico no sofá lendo revista? Por que não nasci de cabelo liso? Etc., etc. Acho que, no fundo, como todo mundo, eu esperava que as coisas fossem ficar mais claras à medida que eu crescia. Mas não foi bem isso que aconteceu, não. Pelo menos até agora. Pra falar a verdade, acho superestranho me ver como “adulta” – ainda não me acostumei a essa palavra, que me parece quase tão esquisita quanto “cônjuge” ou “matrimônio”. Além disso, se ser adulta é ter certeza de toda e qualquer escolha feita, aí é que não sou adulta mesmo! Ou será que as incertezas sempre vão fazer parte da vida de todo mundo, não importa a idade? Sei lá. O que eu sei é que, se eu pudesse apertar um botão, teria menos dúvidas a cada ano que passa. Cada vez mais, acho que a vida não é preto no branco: é cinza. E que contradições fazem parte dela, assim como tropeços, recomeços... Nada é o fim do mundo (a não ser o fim do mundo, é claro – mas evito me 2
preocupar com isso, porque, sério, já basta a minha vida, ainda tenho que pensar em meteoros?). Então sim, já tenho 24 anos e, tecnicamente, sou considerada... Bem, vá lá... Adulta. Mas vira e mexe lido com uma dúvida, uma indecisão e até com uma emoção diferente. Quando eu tinha 16, vestibular não era uma preocupação de verdade, por exemplo. Claro, eu planejava que curso iria fazer e tal, mas de um jeito distante, sabe? Uma coisa é ficar tomando sorvete no clube pensando: “Humm, fazer jornalismo ia ser legal, né?” e pular na piscina em seguida. Outra BEM diferente é estudar loucamente pra passar no curso. Outra é começar a pesquisar o mercado de trabalho e ver que as vagas não estão exatamente sendo atiradas em direção à sua janela. E outra é sempre ter se imaginado trabalhando num lugar incrível, rodeado de pessoas sensacionais e ganhando uma fortuna e, de repente, se ver todos os dias num lugar que você nem curte muito, mas onde foi parar nem sabe bem por quê, ganhando pouco demais pra morar sozinha e pensando: “e agora, o que eu faço?”. Essa foi a minha realidade pelo período de um ano e meio, em que trabalhei numa assessoria de imprensa: seis meses como estagiária e um ano como contratada. Era uma assessoria que trabalhava com clientes suuuperlegais, como marcas de ração para roedores ou remédios para terceira idade ou, pior, marca de cimento e outros produtos para obras de construção civil. Argh! Eu me imaginava um lugar mais glamouroso, mais divertido, mais estimulante... Na verdade, eu queria trabalhar na redação de uma revista feminina, escrevendo matérias de comportamento. Mas, em vez de comportamento, estava escrevendo sobre cimento em textos que nem levavam minha assinatura nem nada, porque só serviam pra divulgar a marca do cliente. Ou tinha que escrever esses textos chatíssimos, ou estava entrevistando pessoas pelo telefone, para ter o que escrever nesses textos chatíssimos, ou a chatice maior de todas: tentando arrumar novos clientes para a empresa – coisa que meu chefe me mandava fazer nas raras vezes em que eu conseguia um tempinho livre pra navegar e tal. Isso sem contar que estou usando aqui a palavra “empresa”, mas a realidade estava mais para “cubículo sem charme algum, com poucas janelas e apenas cinco funcionários além de mim”. Bom: quando eu estava a ponto de enlouquecer ou ficar deprimida – o que viesse primeiro – comecei 3
a mandar currículo pra tudo quanto é lado, até que, finalmente, fui chamada para uma entrevista. Falei para o meu chefe que eu tinha dentista, fui à entrevista e passei. Até agora, não acredito: eu passei!!! E, sim, numa revista feminina! Mas depois eu conto mais sobre isso, até porque nem comecei no meu novo emprego ainda. Tem algo que preciso falar antes. O Lipe. Eu e o Felipe nos conhecemos quando eu tinha 15 anos, quando eu ainda não tinha namorado sério. Ele foi o meu primeiro namorado. Foi o cara com quem eu transei pela primeira vez na vida. E, acima disso tudo, foi o meu primeiro e único amor, o cara de quem eu nunca iria me separar, porque viver sem ele seria uma coisa ainda mais louca e complicada do que já é. Mas as coisas não são simples, né, como tenho aprendido cada vez mais. De novo, a vida não é preto no branco. Então, vamos à rápida retrospectiva da novela que deveria se chamar “Felipe e Débora – amor eterno, do primeiro beijo ao altar” (o amor combina com nomes bregas, o que eu posso fazer?)... Mas que virou “Felipe e Débora – padecendo no paraíso (nunca pensei que eu fosse usar essa frase de mãe antes de ter filhos, mas enfim).
O início de tudo Conheci o Felipe na rua do meu pai. Ele era meu vizinho e estava rebatendo bola com o Alexandre, irmão dele, e o Gabriel, que também morava no prédio do meu pai, quando eu me apresentei para os três, na maior cara de pau. Algum tempo depois, o Lipe e eu ficamos e começamos a namorar. Eu me sentia a pessoa mais feliz da face da Terra, ainda mais considerando que: 1) eu tinha certeza de que morreria solteira e 2) eu tinha acabado de me decepcionar loucamente com um garoto do meu colégio, o Guilherme, que era um cachorro, cafa, com uma pedra no lugar do coração, etc. (como peguete, digo, como pessoa, ele é até legal, coitado). Enfim, para apagar aquela sombra chamada Guilherme, veio o Sol chamado Felipe (ok, chega de breguice daqui pra frente). O que eu sentia pelo Felipe não era comparável ao que eu tinha sentido por todo o universo masculino, incluindo aí o Guilherme e, por que não, o meu pai (ok, vamos tirar meu pai dessa competição, porque, né, são amores diferentes). Felipe e eu namoramos, Felipe e 4
eu transamos, Felipe e eu falamos coisas como “vamos passar o resto da nossa vida juntos”, etc.
O meio O Felipe se mudou de cidade. Tudo por causa do chato do pai dele, que não se contentou com nenhum emprego daqui e, em vez de se divorciar e abandonar a mulher e os filhos, continuou casado e levou todo mundo com ele! Ódio!!! Certo, pausa no rancor adolescente. Mas é que, na época, fiquei extremamente revoltada com essa situação, sabe? Estávamos juntos há cinco meses e eu estava completamente apaixonada! Bom, não nos restou nada a não ser aceitar. O Lipe se mudou e combinamos que tudo iria se arranjar e que seria super fácil e dinâmico manter nosso namoro à distância. Mas adivinha? Não foi isso que aconteceu. A gente só brigava, basicamente motivados pela desconfiança e pelo ciúme que dominou completamente nossa antes linda e perfeita relação. Fiquei traumatizada pelo resto da vida com essa coisa de namorar à distância: pode dar certo para alguns, mas não foi o nosso caso. Chegou um momento em que todo telefonema virava uma discussão. Mesmo amando muito meu namorado, decidi terminar tudo. E no dia em que eu telefonei pra dar essa notícia pra ele, adivinha? Ele terminou tudo comigo. E, não bastasse isso, ainda confessou que estava a fim de uma vaca chamada Paola. Fiquei muito revoltada, mas ele se defendeu falando que jamais ficaria com ela sendo meu namorado. Eu estava tão mal que, só pra fazer raiva no Lipe, beijei um carinha que, no final das contas, era gay e virou meu amigo: o Rafa. Enfim, eu e o Lipe terminamos, sofri, ele me contou que sofreu, fiquei com alguns caras, cheguei a namorar um de quem eu nem gostava de verdade, o Caio, e tal.
O recomeço O Lipe viajava pra cá às vezes, ficava na casa dos pais dele, ou seja, do lado do prédio do meu pai, e a gente começou a se cruzar de vez em quando. Eu quase morria a cada vez que a gente trocava algumas palavras, mas tudo bem, continuava seguindo minha triste vida de solteira (porque estar solteira só é bom quando a gente não gosta de ninguém, né! Quando a gente não está, no fundo, tentando esquecer alguém). Um dia, numa balada, a gente se encontrou 5
casualmente e ficou (ok, eu sabia que ele ia naquela balada e arrastei minha amiga Lu pra lá.) Foi mágico, perfeito e tal, e a gente continuou de rolo, mas não era isso que eu queria, porque eu o amava demais, e ficar com ele eventualmente, sabendo que ele não era meu namorado, só ia fazer com que eu sofresse mais e mais. Eu não sou uma pessoa desapegada, sabe? Aí eu fui lá e terminei tudo (dessa vez, consegui terminar antes dele). Ele não entendeu nada, mas eu não quis nem saber. Um dia, porém, quando eu não sabia que ele estava aqui, ele apareceu na casa da minha mãe, me chamou para conversar e perguntou se eu não queria que a gente voltasse a namorar. Pulei no pescoço dele, me sentindo a mais feliz das mulheres, e voltamos para a nossa linda e feliz relação, que, dessa vez, iria sobreviver mesmo à distância. O mais importante, afinal, era que a gente se amava. Logo em seguida, entrei para o terceiro ano e comecei a estudar para o vestibular. Sério, não quero ser dramática a ponto de falar que essa foi uma fase traumática da minha vida... Mas, sim, foi uma fase traumática da minha vida. Meu colégio sempre foi muito difícil e, no terceiro ano, tudo ficou quase impossível. Era tanta tarefa, tanta matéria e, por trás disso, os professores tacando o terror, sabe como? “Enquanto você está tomando banho, seu concorrente está lá estudando”, “enquanto você está se deliciando com um sorvete, seu concorrente está relendo a matéria”: eram coisas desse tipo que eles falavam a todo momento. Eu passava semanas sem viajar para ver o Lipe e sem ele viajar pra me ver, porque eu já ia logo avisando o monte de coisas que eu tinha pra estudar no fim de semana. Não dava pra ele vir pra cá e eu ter só tipo duas horas pra ficar com ele antes de voltar a estudar, né? Isso fora o estresse de escolher uma profissão! Só fui escolher, mesmo, na hora da inscrição para a prova. Paralelamente, a vida também não estava sendo fácil para o Lipe: no fim do primeiro semestre de Administração, ele viu que não era isso que ele queria da vida dele e resolveu cursar Arquitetura. Brigou com o pai, que queria que ele fosse administrador e trabalhasse com ele, e voltou a fazer cursinho. A boa notícia é que o plano era se mudar pra cá, porque aqui tem uma excelente faculdade de arquitetura. Assim, a gente mal se viu no segundo semestre do meu ano do vestibular, porque ficamos, os dois, estudando como loucos, mas essa esperança de morar de novo na mesma cidade nos unia. 6
O recomeço do fim Passei no vestibular. Fiquei tãão feliz e tãão aliviada!!! Comemorei muito com a Bia e com a Lu, que também passaram. E, principalmente, com o Lipe, que também tinha passado e que ia morar ao lado da casa do meu pai de novo! Não que tenha sido fácil: o pai dele ainda estava desiludido com a mudança de curso e não sabia se ia deixar os filhos morarem longe deles. Mas o Lipe bateu o pé e disse que, se não fosse na casa dele, seria numa república. Por fim, os pais dele concordaram e ele veio com o Alexandre, que, feliz da vida por ter uma vida independente longe da família, transferiu a faculdade pra cá. Foi uma época muito, mas muito, mas muuuito feliz. Eu finalmente podia descansar daquela rotina massacrante de estudos, eu tinha meu namorado de novo morando perto de mim, eu tinha todo um futuro de felicidade e amor pela frente, enfim, uma época dourada! Uma época dourada que, bem, durou só cinco meses. Porque aí eu entrei na faculdade. E o Felipe entrou (de novo) na faculdade. E, se ele encarou com maturidade essa nova fase da vida, eu não posso dizer que consegui fazer o mesmo, sabe. De repente, eu tinha novos amigos, só falava sobre jornalismo e só queria ir às festas da faculdade. O Felipe ficou bem mais focado: fez novos amigos, mas estava muito mais preocupado em estudar, tirar boas notas, fazer contatos, já pensando no dia a dia da profissão, etc. E eu lá, cervejada atrás de cervejada e tal. Fui deixando o Felipe meio de lado, apesar de amá-lo muito. Mas é que eu estava muito empolgada com a minha nova vida, sabe! Com a liberdade de ter ganhado meu carro (meus pais me deram um quando eu fiz 18 anos, usado, mas deram), com as pessoas interessantes que eu estava conhecendo, enfim, com esta loucura chamada VIDA. Num sábado em que o Felipe me ligou todo fofo me chamando pra andar de bicicleta e depois almoçar e passar a tarde lá na casa dos pais dele (que virou dele), resolvi que não dava mais. Se eu continuasse empolgadinha daquele jeito, acabaria traindo o Felipe, coisa que eu sempre abominei e ele também: a gente sempre deu valor à confiança, mesmo na época em que morávamos longe um do outro. Ser infiel estava fora de cogitação. Ele chorou, eu chorei, foi bem difícil. Mas eu estava decidida a entrar de cabeça nessa nova fase. E, assim, mesmo sofrendo e morrendo de medo de me arrepender depois, terminei tudo. 7
A temporada sozinha e feliz Eu sentia falta do Felipe, claro. Às vezes, acordava pensando naquele jeitinho lindo e fofo dele, naqueles olhos cor de mel, naquele cabelo lisinho, macio e sempre cheiroso em que eu adorava fazer cafuné, naquele, bem, corpo alto e perfeito de quem adora praticar esportes... Vira e mexe eu me perguntava se tinha agido certo, mas, pra ser sincera, eu só pensava nisso de vez em quando, porque estava ocupada demais: estudando (pouco) e saindo (muito, muito, muito!). Adeus a essa coisa de só sair no fim de semana: meu fim de semana começava na terça ou no máximo quarta. Eu saía com a Bia e a Lu, mas principalmente com a Sofia, minha amiga-irmã da faculdade, e com o pessoal do curso, e com o pessoal de outros cursos, enfim! Era maravilhoso estar na faculdade e ter mais liberdade em casa. Eu podia voltar de manhã pra casa, coisa que não podia na época do colégio. E podia viajar na sexta à noite com o pessoal e voltar domingo, alegria das alegrias! Mãe, obrigada, meus 20 anos foram tudo o que eu queria aos 15! Bem, quase tudo, né, porque sempre faltava dinheiro para as coisas que eu queria fazer e ficava cada vez mais chato para mim pedir para os meus pais, mas, tirando isso, era uma liberdade antes desconhecida por mim. Duas semanas depois de terminar meu namoro com o Felipe, eu já estava ficando com um cara da minha sala, o Alex, um cara muuito lindo com quem eu jamais namoraria, porque ele ficava com tipo o curso inteiro de jornalismo, bem estilo Guilherme... Mas ficar com ele era muito bom. Foi a primeira vez que transei com alguém por quem eu não era apaixonada (dado que minha vasta experiência sexual antes do Alex incluía o Felipe e... só. Mas eu colecionava beijos e, digamos, pegações com outros caras antes, como o Caio e vários outros. Mas enfim, sexo, sexo meesmo, só com o Felipe e, agora, com o Alex). Foi muuito bom, mas eu não queria saber de compromisso com ninguém. O negócio era sair, curtir, enfim, por três anos fui guiada por toda uma filosofia de “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Saí muito, “conheci” mais alguns caras biblicamente (não chega a dois dígitos meu número, mas, enfim, não sou mais adolescente, não preciso ficar contando essas coisas... “Com quantos caras já transei”, que coisa ridícula, né? Não é uma competição – ok, contando o Felipe e o Alex, foram seis). 8
Voltando ao foco No último ano da faculdade, começou a cair a ficha de que eu iria me formar logo, logo, e então voltei ao meu estado mental padrão de preocupação, estresse, ansiedade, etc. Comecei a estudar mais. Tentei fazer vários estágios, mas acabava não passando na última fase das seleções. Peguei trauma de entrevista, credo! Às vezes, eu falava com o Felipe, quando a gente se encontrava sem querer na rua do meu pai ou ligava um para o outro no aniversário, mas falar com ele nunca me fazia bem. Quando eu soube que ele estava namorando, então, mesmo estando no auge da alegria da minha fase sozinha e feliz, eu tive um acesso de choro que durou quase uma noite toda. Mas, enfim, nessa fase focada, comecei a pensar mais nele, a fuçar a vida dele na internet e tal. Vira e mexe, eu pensava em falar com ele que tinha saudade, mas acabava me faltando coragem e eu não tinha essa abertura com ele mais. Toda vez que a gente se encontrava por acaso, eu quase morria ao ver como ele estava lindo, como era bom sentir o cheirinho dele... Mas nosso papo era sempre superficial e, além disso, eu sentia que ele ainda tinha uma mágoa em relação a mim, por eu ter terminado. Eu conheço o Felipe. Daí eu consegui o estágio na assessoria. Tinha notícias dele de vez em quando. Quase morri quando o Gabriel me contou que o namoro do Felipe tinha terminado. Meu passatempo estava sendo ir no perfil de Facebook da namorada dele pra conferir se ela não estava noiva nem nada, então, isso representou toda uma ruptura na minha rotina e toda uma esperança renascendo. Fiquei muito, muito feliz, passei a curtir as fotos e posts dele com mais frequência... Mas só isso. No fundo, eu tinha medo de falar que queria voltar e ouvir um NÃO. Medrosa, né? Pois é.
Voltando ao amor da minha vida ou: hora de aproveitar o paraíso Numa balada, casualmente, me encontrei com o Lipe (ok, ok, eu vi no Instagram onde ele estava e arrastei a Sofia pra lá). Era um sábado em que eu estava supermal, sofrendo na casa da minha mãe por causa da minha vida deprimente de recém-formada: porque eu tinha aceitado ser contratada na assessoria chata e porque eu queria apertar um botão pra esquecer o cara que ficava emperrando minha vida amorosa, a.k.a. Felipe: quando o encanto da fase da pegação acabou, eu queria namorar alguém, dormir juntinho, pensar em formar uma família, essas 9
coisas... Mas como isso iria acontecer se eu ainda estava completamente amarrada ao meu passado? Aliás, como isso iria acontecer com outro cara que não fosse o Felipe? Aí a Sofia passou a tarde me encorajando a resolver essa história de uma vez por todas: se eu queria o Felipe, eu tinha que deixar isso claro pra ele, nem que fosse pra ouvir o não que eu tanto temia e depois seguir minha vida tentando superar isso. Eu tinha que tentar. Eu estava meio na dúvida, mas aí, à noite, vi o Gabriel marcando o Felipe numa foto em uma balada em que eles tinham acabado de chegar, liguei pra Sofia e fomos pra lá. Ele foi super-receptivo comigo, mas não rolou nada. A balada era meio que um bar, ele estava com uma turma grande, enfim. Na volta, porém... Resolvi que estava morrendo de vontade de dormir na casa do meu pai e voltei de carona com o Felipe. E ele me chamou pra subir. E, mesmo com o Alexandre dormindo no quarto do lado, a gente ficou. E, na manhã do dia seguinte, antes mesmo de retornar as chamadas desesperadas da minha mãe no celular, porque eu tinha dormido fora sem avisar, coitada... Respirei fundo e falei que o que eu queria, mesmo, era que a gente voltasse a namorar. E a resposta dele foi a seguinte: “Chega de namorar. Chega de idas e vindas. Casa comigo?”. Pausa para lágrimas. Não posso me lembrar desse momento sem ficar com os olhos marejados. Foi tão, mas TÃO inesperado e lindo! No mesmo dia, a gente foi a uma joalheria escolher as alianças, no mesmo dia a gente contou pra nossa família! Eu pensei que fosse ter um ataque do coração, eu mal conseguia acreditar que aquilo era real, fiquei flutuando por semanas. Isso foi há um ano. E, nesse um ano, eu me senti a mulher mais feliz do mundo... Excluindo a parte de escrever sobre ração e cimento na assessoria chata, claro, mas, tirando isso: nesse um ano, fui a mulher mais feliz do mundo. Voltamos com tanto amor, tanta harmonia, que acho até estranho imaginar que, um dia, a gente já foi um casal que fica brigando. Tudo bem que a gente brigava quando morava em cidades diferentes, mas, mesmo assim, nem consigo lembrar direito de como era brigar com ele. Nossa rotina é tão maravilhosa, cheia de conversa, carinho, sexo, companheirismo... É impossível me imaginar agora sem ele. Acho que tudo o que aconteceu foi bom, sabe, no fim das contas: 10
terminamos porque eu precisava viver outras experiências (enquanto ele com certeza também viveu outras experiências, mas tudo bem, não quero falar sobre isso, bola pra frente... Embora até hoje eu não entenda qual a necessidade de ter tanta mulher que eu não conheço no Facebook dele, mas ok, bola pra frente!). Ai, posso falar? Sei que eu disse há pouco que a vida é cinza, não preto no branco, e uma vida cinza talvez não combine com acreditar em coisas como “o homem da minha vida”, “alma gêmea”, etc. Mas não posso fazer nada se o Felipe é o homem da minha vida, ué. Definitivamente, minha alma gêmea! Ao lado dele, aceito com alegria a palavra “cônjuge”. Ao lado dele, mal posso esperar para ter um “matrimônio”! Não adianta se alguém me disser: “Ah, mas da mesma forma que o Felipe era o grande amor da sua vida e tudo acabou quando você entrou na faculdade, vocês pode ter uma crise de novo e o seu relacionamento pode acabar de novo, ou, quem sabe, dessa vez ele é que vai ter uma crise”. Não. Não pode. Tudo é temporário, tudo é contraditório e incerto na vida adulta, menos o que eu sinto por esse homem e que eu vou sentir pelo resto da minha vida. E é por isso que a gente vai se casar... Daqui a uma semana! Aahh nem consigo pensar nisso sem algum grau de taquicardia: depois de amanhã me caso com o Lipe! Sério, parece um sonho. Quase explodo de felicidade só de pensar que HOJE levo meu vestido pra casa. Claro, isso depois de todo um drama pra achar meu vestido dos sonhos, e do drama que foi convencer meus pais que o custo do meu vestido dos sonhos estava mais pra pesadelo – não tô falando que esta vida é um poço de contradições? Mas, tudo bem, no fim, deu tudo certo, o vestido é maravilhoso! Acho que hoje nem vou dormir: vou pendurar o vestido na porta do meu armário, na casa da minha mãe, e ficar olhando pra ele a noite toda. E, amanhã, usando esse vestido, eu entro na igreja. Mais feliz do que nunca. Porque, quando eu estou com o Lipe, principalmente quando a gente acabou de transar e está naquele momento meio conversando, meio sonolento, eu me pego pensando: apesar de toda a confusão que é se tornar adulta, esta dúvida eu não tenho: ao lado dele, sou a mulher mais feliz do mundo.
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