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Minha Paris

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COL EÇ ÃO

AB T S JU

U BB L E

Gail Scott

MINHA PARIS


Gail Scott

Minha Paris

TRADUÇÃO

Daniel Pellizzari


Copyright © 1999 Gail Scott Copyright © 2014 Autêntica Editora Copyright © 2014 A Bolha Editora Título original: My Paris Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora e A Bolha Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia das editoras.

COORDENAÇÃO EDITORIAL

Rachel Gontijo Araujo Stephanie Sauer REVISÃO

Cecília Martins Reinaldo Reis PROJETO GRÁFICO DE CAPA E MIOLO

Retina78 DIAGRAMAÇÃO

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Scott, Gail Minha Paris / Gail Scott ; tradução Daniel Pellizzari. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora ; Rio de Janeiro : A Bolha Editora, 2014. Título original: My Paris. Bibliografia. ISBN 978-85-8217-196-7 (Autêntica Editora) ISBN 978-85-64967-12-0 (A Bolha Editora) 1. Ficção norte-americana I. Título. 13-06170

CDD-813

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813

A BOLHA EDITORA Rua Aimorés, 981, 8º andar. Funcionários 30140-071 . Belo Horizonte . MG Tel: (55 31) 3214 57 00 Televendas: 0800 283 13 22 www.autenticaeditora.com.br

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Narradora sobre autora: Ela mantinha um velho cartão-postal de um Saltimbanque branco grudado na geladeira. Intitulado “Homem em experimento, vestido de branco e iluminado pelo sol, passando em frente a uma tela negra em uma calçada branca e curva”. Dando uma sensação estranha de correr de trás para a frente enquanto tenta agarrar um ponto no futuro a respeito do qual ela não queria pensar. Essas páginas vêm do studio faux-deco que ela ganhou no sorteio. Mais (é provável) a viagem de véspera de Ano Novo que ela convenceu Y a pagar. A vez em que achou ter visto seu Saltimbanque no Luxembourg. Dançando ao longo de um parapeito ridiculamente baixo. Distante centímetros do chão. Equilibrando-se como se estivesse em uma corda bamba estirada nas alturas. Para a esquerda, na ponta dos pés. Para a direita. Fazendo uma mesura para o público (ninguém assistia). Ele parecia um palhaço pintado de branco. Talvez do “sul”. Ou então um nômade assustado. Sem ter para onde ir.

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1. Como uma heroína de Balzac. Estou sobre um divã. Estreito. Coberto com uma pequena gravura abstrata em preto e branco. Na ponta um biombo de papel-arroz. Três divisórias emolduradas em mogno. Paredes pálidas e finas como cascas de ovo com curvas graciosas nos cantos. Olhando para aquecedores esbeltos e altos quase chegando ao teto. Uma biblioteca com quatro prateleiras em crescente. Mesas de canto baixas. Vidro disposto sobre metal. Mesa de jantar cinzenta e redonda com cadeiras combinando e pernas cromadas e maciças. Mesa de teca com computador. Console de teca com televisão. Vídeo. Fax. Tapetes verdes e amarelos sobre pisos de tabuão. No canto de um deles as iniciais do designer. Não era isso que eu esperava. Eu me sinto um pouco estranha (culpada). Nesta elegância. Banhada pela luz branca que atravessa a transparência das cortinas brancas. Lá fora um boulevard arborizado. Tráfego voando de cima para baixo fazendo um imenso ruído. Meu nêmesis. Estando aqui. Sentada com meus protetores de ouvido. Música no último volume. Ainda assim escutando a barulheira. 2. Agora no canapé ao lado da janela. Ouvindo uma estação de rádio qualquer. Nada de Ferrat cantando Aragon. Nem Satie ou Barbara. A nova França. Evocando menta nas margens. Água de rosas. Laranja. Doces bolos de 7


nozes nas medinas do Marrocos. Olhando para o elegante boulevard Raspail. Para as mulheres bem-vestidas levando pequenos cachorros para passear no canteiro central. Tomando o partido da música árabe. Mas tomando cuidado para não aumentar demais o volume. Por medo de despertar suspeitas no vizinho. Uma duquesa – o homem de bigode dizendo. Enviado para me buscar no aeroporto. E me deixando na minha porta. Vendo o marido dela subindo as escadas e carregando uma estátua. Que suspeitas. Verdade que não tenho os documentos necessários. Tarde demais para pedir um visto no consulado. Permitindo que fique. Agora são seis semanas para o que costumava levar uma hora. Direita tendo assumido o poder. Policiais por todos os lados no bairro. Postados ao lado de um café bem agradável a um quarteirão de distância. Eu me recuso a entrar lá. S diz que estou sendo ridícula. Deixando de mencionar o novo rigor em relação aos vistos. Será normalement aplicado de forma seletiva. Às pessoas “do sul”. Ou seja. África. Magrebe. 3. Chuva. Mais cedo subi toda a cortina externa de palhetas envernizadas de madeira. “Veneziana”. Com a alavanca de marfim escondida por trás das cortinas. Pessoas eretas como atiçadores na parada de ônibus lá embaixo. Ou carregando baguetes apressadas. Cabelo liso e escorrido da nuca até a bochecha. Algumas se inclinando para a frente. Para examinar ternos nas vitrines da requintada loja de moda masculina. Do outro lado da rua. Então mais uma vez me recostando no divã ao lado do biombo de papel-arroz. Ao lado da mesinha de cabeceira com pátina. Com o volume de 1.000 páginas de Walter Benjamin – Paris, Capitale du XIXe siècle – sobre ela. Deixado pelo antigo ocupante do studio. Capa com fotografia de 8


sacada decorativa ornamentada. Encimada por espelho refletindo o teto de vidro e ferro de uma dessas passagens ou galerias labirínticas do século XIX. Costumavam atravessar prédios por inteiro. O labirinto como forma de antigas utopias. Como uma lesma homenzinho de bigode dizendo. Dirigindo desde o aeroporto. Enquanto deixamos a periferia. Ingressando nas ruas curvas do enclave. Prédios cinzentos de seis ou sete andares contra um céu cor de ostra. Grades de ferro forjado. Persianas. Parquinhos tortuosos. Mais além em algum canto daquele bairro quieto e modesto. O studio caiado da artista. Visto nos filmes. Claro que estou feliz por estar aqui. 4. Caminhada com S por rua branca e curva. Rue de Varenne ou rue du Bac. Quente e ensolarado. Sombras severas lançadas por prédios do século XVIII. Carrinhos franceses estacionados sobre metade da calçada. Dois policiais ao lado do café. Le ministère est par là, o ministério fica ali. S dizendo e dando de ombros. Veterana do Maio de 1968. E produções subsequentes. Sabe como encará-los. Como mobília. Esta caminhada começando comigo olhando pela janela. Vendo S na esquina oposta. Fumando. Preocupada. Em vez de estar se apressando. Como fez. Visitando chez nous. Reforçando sensação de não estar na Paris que estou esperando. Tendo imaginado coisas menos lustrosas. Mais aconchegantemente dilapidadas. Como no Hôtel Sphinx onde Nadja morava. Ou lojas antigas. Apinhadas de detritos “maravilhosos”. Como a estranha colher recurvada de Breton com o minúsculo calcanhar feminino segurando a haste. Ou aquele pombal decorado. Com saliência arredondada circundando o topo. 9


Impedindo merda de pombo de cair na cabeça dos outros. Em algum lugar no interior. No refinado faubourg Saint-Germain coisa alguma fica nas mãos do acaso. S atravessando. Chacoalhando bem alto a porta pesada de ferro forjado. Vendo se trancou. Fico aflita. A concierge abandonando seu balcãozinho de mogno. Com cortinas de renda e cetim cor-de-rosa. Analisando o traje exageradamente casual de S. Camiseta folgada. Jeans preto folgado. Mochilona cinzenta abarrotada de livros. Visual largado em voga no momento. Graças a deus. Mulheres usando até mesmo tênis. Forrados de couro italiano. E a mochila precisa ser preta. Pendendo indiferente de um único ombro. Indiferença tão falsa quanto um filme de Catherine Deneuve. No calor da rua enxergo uma mulher parecendo louca. Se arrastando com ar doloroso. Nos encarando com pupilas quase desaparecidas debaixo das pálpebras. Mas o cabelo é curto e liso. Franja sobre a testa. Muito bem cortado. Veston abotoado até em cima apesar do calor. Calçados baratos e limpos. Nós atravessando da esnobe Sétima. Para a menos esnobe Sexta. Caminhando pela Vieux-Colombier, rua do Velho Pombal. Mais lojas resplandecentes. Agora coalhada de turistas. Chegando na place Saint-Sulpice. Com igreja assimétrica. Chafariz. Pombos. Henry Miller pleno de ser americano achando os campanários gordos demais. O incenso fedorento demais. Os pombos melífluos demais. Realismo – a visão de Alguém. 5. O que Paris tem. Tentando enxergar além de noites insones por causa do tráfego. Sufocando na poluição. Autoconsciente demais em relação à aparência. Cabelo 10


macio e bem-arrumado. Sapatos engraxados. Então certo dia se percebendo endireitando a coluna automaticamente. Como fazem os parisienses. Percebendo os odores terrosos e perversos de cem queijos diferentes. Escapando mesclados de uma loja de queijos. Um vivo e exsudando através do papel encerado na sacola. Mais uma costeleta de cordeiro tão rosada que ela sentiu vontade de beijar. Belas azeitonas. Entra sorrindo no saguão do prédio. Envolta nessa nutrição dos sentidos. Uma superfície mais brilhante – Talvez enfim menos viajante. Que uma espécie de flâneur (interna!). Benjamin todavia dizendo flâneur em busca de observações. Como um simples jornalista. Na época de Baudelaire. Enfim sentando no canapé. Olhando pela janela. Chuva escorrendo pela vidraça. Ainda sem ter encontrado o café dos sonhos. Talvez precise deixar o faubourg. Assim evitando perigoso apelo do fim de tarde. Fabricando alcoolistas. Enfim deixando almofadas bem tarde. Tomando banho. Colocando roupas. Caprichando com meias até a panturrilha. Saia curta e floreada. Top preto. Correndo até o Raspail. Escolhendo um café mais próximo da Sexta. Mais corriqueira. Ficando lotado. Trabalhadores bebendo cerveja ou vinho. No balcão. Tirando carteiras dos cintos. Da parte baixa das costas. Mulheres elegantes com belas sacolas de compras. Pedindo drinques sem álcool. Granadina. Ou menta. Para a pele. Garçom com olhar vidrado. Dizendo que o traje não engana. A menos que seja meu sotaque angloquébécois. Assumindo aquele brilho no rosto. Pessoas avançando à luz morredoura. Mulher mordiscando uma baguete. Projetada para fora de uma sacola de compras. Outra mordendo uma grande barra de chocolate. 11


Métro-boulot-dodo. Eu abrindo Nadja. Amando como Breton deslocou a pergunta “quem sou eu?” para um antigo adágio francês. Quem eu assombro? Ônibus com imagem grande de Bambi. Passando pela janela. 6. O maravilhoso vai acontecer. Eu pensando às 5h30 da manhã. Olhando pela janela. Céu azul pálido mais além da anarquia das chaminés. Bastando perfurar o esnobismo da superfície. Lá embaixo na calçada o homem pálido. Vivendo no porão. Para sair – diariamente contornando os limites dos ladrilhos de mármore verde-pálido engenhosamente cortados no piso do saguão. Dispostos na diagonal. Após o antigo elevador de mogno. Talvez um item de colecionador. Balcão da concierge à esquerda. Só um pouco maior. Acima disso meu studio. Mais a grand suite da duquesa. Acima de nós talvez aquela família rica do Senegal. Acima deles – mulher jovem da indústria cinematográfica. Maçãs do rosto muito francesas. Covinha no queixo. Eu encontrando nas escadas. Mas exausta. Assim me atrasando mais uma vez ao deixar almofada. Claramente não flâneur. No sentido típico de finais do século XIX. De estar passeando de forma diligente. Ou seja. Praticamente uma personalidade tipo A. Segundo Benjamin. Óculos redondos. Fisionomia suscetível. Na foto. Encontrada na gaveta do console embutido de TV/fax/videocassete. Fazendo lembrar amiga R de Winnipeg. Ao passo que prefiro me deitar sobre peluche. Ainda que agora esteja me vestindo mais rápido. Sapatos engraxados. Cabelos encrespados. Calças passadas. E também deixando de almoçar. Deixando o studio meio bagunçado. Tendo mais tempo para vagar. Correndo até Saint-Germain. Jeans vermelhos e 12


jaqueta de bolinhas ao estilo Beatle. Pelo Quartier Latin. Desviando de alemães. Escandinavos. Americanos. Pensando em como os franceses querem se livrar dos estrangeiros. Alguns estrangeiros. Diz S. Folhas ao longo da rua virando pequenas lantejoulas douradas ao pôr do sol. Único exemplo real do genuíno chic parisiense. Magnífica afro-francesa com vestido ajustado que vai até as panturrilhas. Saltos plataforma. Cabelo enrolado em duas tranças sobre orelhinhas. Esquerda. Café Le Cluny. Lasse, atordoada. De fadiga. Como no dia em que cheguei. Décalée, deslocada. Como franceses se referem ao jet lag. Enfim. Correndo. Pois estarei encontrando mais escritores da América francófona. Também ocupando studios como eu. Vencedores de competições de arte. Que amor seu sotaque uma dizendo. Querendo dizer que não é autêntico. (Mãe inglesa). Medindo meus ditongos pesados. Contra seus fonemas rítmicos do Québec. Parisienses olhando com desprezo. Tu vas faire de si belles conquêtes, as pessoas vão ficar encantadas. Você conseguiria perder se quisesse – disse outra. Uma terceira colocando a mão sobre meu ombro. Cruzando pont Marie até île Saint-Louis. Fazendo pausa para assistir pôr do sol. Pequenas ondulações marrons terminadas em ouro. Reproduzidas à exaustão no cinema. Luz marrom escapando por entre margens frondosas do Sena. C recitando diversas farces de crêpe. Oeuf/ tomate. Bacon/oeuf/fromage/ratatouille. Boudin/pomme. Roquefort/noix. Perfil gálico se aproximando. Lábios grossos sorrindo. Prazer! Será que alguém tem o direito. Ocorre a mim que talvez seja um modo protestante de pensar. Eu perguntando se a mãe dela teria ciúmes. 13


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