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Meu Primeiro Assassinato

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Títulos da Vestígio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . SETE DIAS EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque

Algumas garotas escondem terríveis segredos... Tradução: Fernando Scheibe

MEU PRIMEIRO ASSASSINATO | Leena Lehtolainen

Uma estreia de tirar o fôlego para Maria Kallio... Tradução de Salma Saad

OS SETE CRIMES DE ROMA | Guillaume Prévost

Roma, 1514. Leonardo da Vinci conduz a investigação...

Tradução: Fernando Scheibe

A FERA INTERIOR | Lotte Hammer e Søren Hammer

Podemos fazer justiça com as próprias mãos?

Tradução: Márcia Guimarães

ESTAVA ESCRITO | Gunnar Staalesen

O que realmente sabemos sobre nossas crianças?

Tradução: Elisa Nazarian


Uma estreia de tirar o f么lego para Maria Kallio...

Traduzido do Ingl锚s por

Salma Saad


Copyright © Leena Lehtolainen, 1993 Original edition published by Tammi Publishers Portuguese edition published by agreement with Tammi Publishers, Elina Ahlback Literary Agency, Helsinki, Finland, & Vikings of Brazil Agência Literária e de Tradução Ltda., São Paulo, Brazil. Copyright da tradução © 2013 Editora Nemo/Vestígio título original

Ensimmäinen murhani capa

Diogo Droschi (sobre imagem de M. Marcotte) tradução do inglês

Salma Saad preparação

Lizete Mercadante Machado revisão

Larissa Lino Barbosa diagramação

Christiane Morais Coleção dirigida por Arnaud Vin Revisado conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde janeiro de 2009. Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. VESTÍGIO Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional, Horsa I, 23º andar, Conj. 2301, Cerqueira César . São Paulo . SP . CEP 01311-940 Tel.: (55 11) 3034 4468 Esta obra foi publicada com apoio financeiro da FILI – Finnish Literature Exchange Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Lehtolainen, Leena Meu primeiro assassinato : uma estreia de tirar o fôlego para Maria Kallio / Leena Lehtolainen ; tradução do inglês Salma Saad . – São Paulo : Vertigo , 2013. Título original: Ensimmäinen murhani. ISBN 978-85-8286-007-6 1. Ficção policial e de mistério (Literatura finlandesa) 2. Ficção finlandesa I. Título. 13-06169

CDD-848.97

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura finlandesa 848.97


À deriva na maré deslizamos por esta estrada infindável Tempestades arrebentando arco e quilha Mas o que é isso, meu camarada? Uma impaciente luz no pântano, uma impaciente luz no pântano Andando e sentindo as pedras sob os pés Um nascido para o prazer e o outro para a dor Mas em cada coração o tique-taque de um relógio Que ao parar era hora de a morte reinar À deriva na maré deslizamos por esta estrada infindável Por todo o percurso homem algum, ninguém a conhecerá Terra, céu e mar – tudo irá se acabar Como irá a alma se salvar da infelicidade? Mas como é bom dizer em sonhos Que a primavera voltará e que a manhã despontará Lançados sobre a terra vêm os ventos anunciando o dia Ou mentiram eles? À deriva na maré Eino Leino, melodia por Toivo Kuula


Prelúdio Jyri acordou com uma vontade urgente de ir ao banheiro. Na sua boca havia ainda o gosto de uísque, cerveja, alho e dos cigarros a mais que consumira. Sua esperança, naquele momento, era encontrar em casa um Jaffa vermelho. Quando de ressaca, Jyri preferia fumar um Jaffa, isso quando a situação não era grave o suficiente para que ele não recorresse à cerveja. A manhã estava divina. Tuulia e Mirja, sentadas na varanda, se ocupavam com o café da manhã. Jyri se divertia ao ouvi-las tagarelar sobre a qualidade dos diferentes tipos de queijo – pois as duas mulheres não se suportavam. Mas como uma delas era considerada a melhor soprano e a outra a melhor contralto da AECLF, a Associação Estudantil dos Cantores do Leste Finlandês, elas tentavam se entender. Mirja era um arquétipo fiel de contralto: cabelos escuros, encorpada e sombria. Ou seja: perfeita para encenar a cigana do Il trovatore de Verdi, qual era mesmo o nome dela...? Quando o sol resplandecente atingiu-lhe os olhos, sua cabeça quase explodiu. Por via das dúvidas Jyri tomou dois “Buranas Extra Forte”, embora a esta altura ele certamente já estivesse praticamente imune a ibuprofeno. Ele não achou seu Jaffa vermelho, mas havia suco fresco. O mundo parecia tão cheio de vida que chegava a sufocar: o mar reluzia, gaivotas cantavam no cais, e havia o sinal do mormaço que a tarde iria trazer. Cantar nesse calor não seria fácil. – Se sentindo um pouco confuso, Jyri? – perguntou Tuulia, também pálida. Nenhum dos dois havia dormido bem. Mas e daí? Eles só teriam que trabalhar no dia seguinte. 7


– Os outros ainda estão dormindo? – Piia estava indo nadar. Não vi mais ninguém. Espero que eles se mexam, quem sabe assim talvez a gente consiga aproveitar o dia. – A voz dela comportava certa amargura, pois Tuulia não tinha muita paciência com gente preguiçosa. Achava que a AECLF havia mandado seu melhor quarteto para a vila dos pais de Jukka a fim de que pudessem ensaiar para o próximo concerto, e não para farrear. Então que se levantassem, jogassem um café goela abaixo e começassem a aquecer suas vozes! Jyri se levantou. Até que nadar não era uma má ideia. A água do mar estava morna, 21 graus centígrados, perfeita. Ele começou vagueando pela doca onde ficavam os barcos. Piia estava na praia, perto da sauna, usando biquíni. Jyri não estava com energia suficiente para se arrastar até lá. Então o melhor era esquecer o baú de trajes de banho, arrancar a roupa e pular na água. Jukka estava na água também, recostado nas pedras na parte rasa do mar. Pelo buraco em sua cabeça, devia estar sentindo uma baita dor. E ele não parecia estar lá muito animado... De repente, Jyri sentiu um grande enjoo, o que o fez ajoelhar e vomitar sobre o junco. Depois de dois longos minutos, Jyri conseguiu finalmente se levantar e caminhar com muita dificuldade de volta para a varanda, onde os outros se achavam. Apesar de possuir uma invejável voz de tenor, Jyri era incapaz de produzir uma palavra que fosse. – Ora se não é o mandachuva peladão chegando aí! – disse Tuulia. – Jukka... está lá na doca. Ai que merda... ele está morto! Afogado. – De que diabos você está falando? Seguido por Mirja, Antti saiu correndo em disparada até a margem. Momentos depois retornou, indo direto para o telefone, onde também se encontravam os números de emergência. Da varanda todos puderam ouvir a voz grave e ofegante desta contralto chamando primeiro a polícia e somente depois a ambulância. 8


1. À deriva na maré deslizamos por esta estrada infindável Quando o telefone tocou, eu estava tomando uma ducha para tirar o sal do corpo. Ouvi minha própria voz na secretária eletrônica seguida pela voz de um amigo me pedindo que ligasse de volta urgentemente. Este meu domingo sem nada para fazer até que tinha durado muito. Por algum motivo, eu havia planejado passar este meu primeiro fim de semana de temperatura amena cultuando o sol, apesar de eu ser uma pessoa que detesta a ociosidade, principalmente a que a praia oferece. Eu ia muito à academia durante o inverno então, pela primeira vez em anos, meu corpo estava mais apresentável em um biquíni, apesar do ritmo da minha bebedeira, mas nunca irei perder meus pneuzinhos. Desliguei a secretária eletrônica e liguei para a delegacia de polícia – a telefonista me conectou com o Rane. – Oi, Kallio! Estarei aí em 15 minutos. Está tudo sob controle. Tem um corpo lá em Vuosaari. Os meninos da patrulha ligaram faz meia hora. Você não precisa pegar nada no seu escritório, precisa? Vejo você em breve! Enquanto eu procurava por algo decente para vestir, pensei: “Lá vou eu de novo...” Minha saia de uniforme estava em Pasila, então resolvi usar uma calça jeans mesmo. Meu cabelo estava molhado, e o secador só iria embaraçá-lo ainda mais. Enquanto fazia uma careta para o meu reflexo no 9


espelho, tentava jogar algo no rosto remotamente parecido com uma maquiagem que pudesse fazer de mim uma policial respeitável. Meus olhos verdes amarelados pareciam os de um gato, e a cor dos cachos dos meus cabelos, bem grossos, se intensificavam com o avermelhado da tintura que eu havia aplicado (Todos irão notar, mas ninguém saberá ao certo de onde vem a diferença...). O que mais provavelmente iria provocar o desdém alheio seria meu narizinho empinado salpicado de sardas geradas pelo sol. Já me disseram que minha boca é sensual, o que em finlandês significa uma boca um pouco mais carnuda. Será que eu, uma garota vestida às pressas, teria mesmo que me embrenhar em uma das regiões mais afastadas ao leste de Helsinque para defender a lei e restituir a ordem? A sirene de Rane podia ser ouvida por uma distância considerável. Assim como metade dos policiais da Finlândia, ele adorava ligá-las. Os mortos não fogem, mas a população não precisa saber disso. – A turma do laboratório criminal já foi para lá – disse Rane sem rodeios enquanto eu, um pouco desajeitadamente, me sentava ao seu lado em seu Saab. – O corpo achado em Vuosaari é de um sujeito que morreu por afogamento, mas este caso está meio mal explicado. Uma cara de uns trinta anos; acho que se chama Peltonen. Ele estava passando o final de semana com umas dez pessoas em uma casa de veraneio, um tipo de coral, e hoje de manhã acharam este tal de Peltonen na água. – Ele foi empurrado? – Não sei, não entraram em detalhes. Só sei que são algum tipo de cantores. Nesse momento Rane virou o carro tão repentinamente para pegar a rodovia que bati com meu cotovelo contra a porta. Foi então que resolvi pôr o raio do cinto, que por sinal estava posicionado mais apropriadamente para um policial homem, e por isso machucava meu pescoço. – Onde está Kinnunen? E os outros? E hoje não era para ser seu dia de folga? 10


– Eles estão ocupados com um caso de esfaqueamento que aconteceu ontem. E faz meia hora que estou tentando falar com o Kinnunen, mas você sabe como são os domingos... Ele provavelmente está no terraço de algum bar tentando curar a ressaca. Rane suspirou e nós preferimos colocar um ponto final nessa conversa. O chefe da nossa seção, o detetive Kalevi Kinnunen, era um alcoólatra, ponto final. Depois dele, quem tomava as decisões era eu, que cuidaria do caso até que Kinnunen se curasse de sua embriaguez ou ressaca, ponto final. – Escute, Rane, eu acho que conheço esse cara de algum tempo atrás, é uma história meio engraçada... – Minhas férias vão começar amanhã, e estou disposto a tirá-las. Goste você ou não, este caso é seu e ninguém está perguntando sua opinião. Pelo seu tom, parecia óbvio que Rane achava que teria sido melhor para mim ter continuado com meus estudos em advocacia, porque sendo assim eu poderia escolher meus próprios casos. Ele sempre gostou de mim, mas com uma certa suspeita, como tantos outros no meu departamento. Eu era uma jovem policial mulher. E além do mais, diferentemente dos outros, estava ali temporariamente substituindo um colega por mais dois meses. Depois de meu exame final do ensino médio, e para a surpresa de todos a minha volta, eu me candidatei à Academia de Polícia e fui aceita. Na escola, sempre fui do tipo rebelde, uma punk vestindo jaqueta de couro, mas que mesmo assim tirava boas notas. A outra punk que era mais zoneira, e vivia matando aula, é hoje professora do ensino fundamental. Eu era cheia de noções idealistas sobre justiça social. Imaginava que uma policial seria capaz de ajudar tanto as vítimas quanto os criminosos. Achava que poderia mudar o mundo e queria me especializar na proteção de menores. Mas a Academia de Polícia tem sido uma decepção. Mesmo assim, e para minha surpresa, eu manejei tudo muito bem, principalmente em comparação aos homens. Há tempos 11


estou acostumada a ser um deles, desde o ensino médio tenho dedilhado meu baixo em uma banda de garagem cheia de testosterona, e também jogava futebol com o “resto dos caras”. Durante meus estudos eu me acostumei a ser a melhor da turma, e tive que manter isso também na Academia de Polícia. Mas no final das contas, o trabalho de oficial de polícia foi um pouco demais para mim. Dois anos escrevendo relatórios, fazendo revistas em mulheres condenadas ou classificando o histórico social de pessoas responsáveis por pequenos delitos foram o suficiente. Eu estava usando somente uma parte de meu cérebro; a mais enfadonha e oficiosa. Ninguém estava interessado em minha compaixão e não havia muito uso para minha inteligência – inteligência que eu sempre gostei de manter em boa forma. Esses dois anos de trabalho na Academia reacenderam o meu desejo de continuar a estudar e, rapidamente, isso me incentivou a fazer dois cursos de oficial de polícia. Faltavam mulheres e talvez minha promoção tivesse acontecido tão rápido justamente por isso; o que provavelmente acabou causando certas fofocas entre os meninos. Mas o que parecia causar um ressentimento ainda maior era o fato de eu não estar satisfeita com a minha profissão. No final das contas, acabei entrando para a advocacia pensando estar no caminho certo, e, aos 23 anos de idade, eu julgava saber o que queria da vida, simplesmente por estar interessada na aplicação das leis. Durante o tempo de faculdade estagiei e fiz alguns bicos com a guarda municipal, e agora, cinco anos depois, eu vim a ser, outra vez, uma guarda municipal. Os estudos me entediaram, e depois de um período de seis meses como substituta no departamento policial de Helsinque, me pareceu ser uma boa ideia, principalmente pelo fato de eu estar me especializando em direito penal. Calculei que esses seis meses me permitiriam uma certa distância de meus trabalhos de classe, enquanto proporcionariam uma nova visão da vida em geral. Até então tal suposição também vinha se mostrando uma grande ilusão. Como investigadora criminal, eu não tinha energia para nada além do trabalho, algumas 12


cervejinhas de vez em quando, e muito pouco tempo para malhar ou caminhar. E para completar, meu chefe estava fazendo 10 por cento de suas obrigações e nos outros 90 por cento de seu tempo ou estava bebendo ou cuidando da ressaca. Eu não entendo como ele ainda não foi mandado pastar. As obrigações de Kinnunen quase sempre sobravam para alguém, principalmente durante o verão, quando a situação se tornava intolerável. As verbas para efetivar pessoal na mesma função que a minha terminaram em abril, e o período de férias para aqueles que trabalharam em excesso no início do ano estava prestes a chegar. Eu já não me sentia tão forte como pensava ser quando era mais nova, mas admitir isso seria um grande erro. Meus colegas homens ficavam especialmente de olho no meu estado nervoso, avidamente monitorando minhas reações ao inspecionar casos como o cadáver de algum imbecil que bebeu água com ácido sulfúrico e que agora apodrecia em seu próprio vômito. Não que isso não revirasse o estômago da turma, mas eu tinha menos permissão do que eles para demonstrar minha náusea, simplesmente por ser mulher. Então eu tinha que ser durona e fazer piadinhas tão cruéis na hora do almoço que até mesmo uma garfada de fricassé de galinha se transformava em um ato devastador. Apesar de tudo, não havia nada que pudesse ser feito sobre minha aparência, eu sou completamente feminina. Eu tinha que manter minha juba comprida, porque caso contrário os cachos se descontrolavam. Em comparação aos homens, eu sou simplesmente baixa, minha altura quase que frustrou minha entrada na Academia de Polícia, mas um médico conhecido meu adicionou ao meu certificado os cinco centímetros que faltavam. Meu corpo é uma combinação bizarra de curvas femininas e músculos masculinos. Sou forte para alguém do meu tamanho, e conheço essa força tão bem que situações perigosas não me intimidam. E neste exato momento me dei conta de que estava precisando dessa autoconfiança que costumo exibir quando estou de coque e usando meu uniforme de policial. 13


Até então, tanto os meus casos policiais quanto os outros crimes, tinham sempre sido, de alguma forma, impessoais. Mas agora as palavras “coral” e “Peltonen” me provocaram um medo tão afiado quanto uma facada. Se minha intuição não falhara, eu estava prestes a encontrar pessoas pelo menos familiares e que me conheciam de uma época bem diferente. Durante meu primeiro ano no curso de direito, eu havia morado em um pequeno apartamento estudantil, perto de um shopping no lado leste de Itakeskus. As meninas com quem eu dividia esse lugar discutiam constantemente entre si, porque uma delas, quando ficava em casa, passava metade do tempo cantando. Às vezes tinha um quarteto inteiro harmonizando no quarto de Janna, enquanto o namorado dela tocava baixo. Jukka Peltonen, ou “O Gato”, tinha os olhos de Paul Newman e um constante bronzeado adquirido em viagens de iate. Janna, que passava noites de agonia por causa de Jukka, às vezes me convidava até seu quarto para tomarmos uma garrafa de vinho tinto e conversar sobre o assunto. Após anos e anos de convivência com garotos do tipo marombeiros, o Jukka era um colírio para os olhos. Para mim os exercícios de voz da Janna nunca foram um grande incômodo, porque ela sempre foi uma boa cantora e caso eu enjoasse de sua música clássica era só colocar meus fones de ouvido e ligar o velho Popeda na maior altura que o problema ficava resolvido. Mais tarde, quando minha tia-avó morreu, seus herdeiros não quiseram vender o apartamento de Toolo até que o preço do imóvel subisse, então eu me mudei para lá, pois eles só me cobravam o condomínio. O valor do apartamento subiu, mas meus parentes gananciosos quiseram esperar por uma bolha imobiliária, só que em vez disso veio a recessão e os preços caíram. Assim, acabei morando em um bairro muito melhor do que minhas condições permitiam, rodeada por restaurantes que não podia pagar. De vez em quando eu via Janna na universidade e fiquei sabendo que ela e Jukka tinham terminado. Logo depois Janna se apaixonou pelo filho de uma família que a acolhera 14


durante uma viagem que ela havia feito para a Alemanha, para cantar com o coral, e acabou ficando por lá e virou dona de casa. Eu mantive o típico contato resumido a cartões de Natal com minha antiga companheira de apartamento. Eu tinha também uma vaga memória dos outros amigos da Janna, de nomes e feições, que agora me voltavam à memória. Além do Jukka havia outros garotos bem interessantes... e eu já bebi uma ou outra garrafa de vinho junto com a turma da AECLF. Eu estava legitimamente receosa de vê-los em Vuosaari porque eu sabia que essa turma tinha uma tendência a deixar a vida passar. Cantores líricos em geral são um caso à parte, uma gangue de masoquistas embarcando numa cantoria de músicas banais junto a pessoas com vozes piores do que a deles, tudo isso regido por um torturador acenando seus braços em movimentos incompreensíveis. A estrada até a vila se desdobrava através da paisagem verdejante de verão. Rane, apesar de já não ligar mais as sirenes, continuava a correr. Carros de polícia tinham permissão para fazer isso também. Eu era responsável por lhe indicar as direções e nós conseguimos achar a saída principal sem maiores problemas. Era extremamente vergonhoso quando a polícia se perdia, o que já aconteceu comigo várias vezes, e eu era sempre a culpada. Do outro lado da mata, o mar esboçava um prata cintilante. Uma lebre atravessava a estrada com passos longos e preguiçosos. Uma vespa tentava entrar no carro pela janela. – Tem alguns casarões de veraneio antigos por aqui que os mais ricos compraram e reformaram – explicou Rane. Finalmente nós percorremos uma estradinha de terra de uns dez metros de comprimento chegando até uma área isolada. Passamos por um portão arqueado onde uma placa de ferro anunciava o nome do lugar como sendo Villa Maisetta. Uma passagem estreita coberta por plantas levava até o jardim de uma idílica casa de veraneio, um lugar exatamente como eu gostaria de morar. Tinha dois andares, janelas brancas e calhas feitas em um belo trabalho em madeira. No gramado estavam o carro de patrulha e um Volvo antigo usado pelo laboratório criminal. 15


– Os caras foram rápidos hoje. O que a gente está fazendo aqui? – Eu me preparava para uma postura cínica e quase hostil. Nada de lágrimas para cadáveres de antigos namorados bonitinhos de velhas amigas. Um oficial de patrulha se dirigiu até nós e com ele veio uma garota de cabelos escuros e um ar de melancolia. Nós nos apresentamos e os dois olharam para mim de modo suspeitoso. Isso me incomodou, mesmo eu tendo me preparado para esse tipo de atitude. A menina de cabelos escuros não me parecia estranha, e o nome Mirja me remeteu aos comentários maldosos de Janna sobre a garota mais chata do coral. Mirja não bebia nem destilados, o que, pelo menos há cinco anos em tais círculos de artistas, era um pecado imperdoável. Mirja nos levou até a praia onde se encontrava o pessoal do laboratório criminal fotografando um corpo jogado contra as pedras. O médico-legista também estava lá. Suponho que estavam a nossa espera já há algum tempo, pois todo o trabalho já tinha sido feito. Fiquei meio sem graça pelo fato de me aguardarem para poderem retirar o corpo da água; eu não tinha o menor anseio de ver aquele corpo, ou de reconhecê-lo como o Jukka, e muito menos de ver o que tinham feito com ele. – E aí? Alguma conclusão? – perguntei ao médico-legista, que fumava um pequeno charuto. Ele era um homem de pelo menos 50 quilos acima do peso e que me desprezava quase tanto quanto eu o desprezava. A única diferença é que eu sabia que ele era foda no que fazia, enquanto que ele já não pensava o mesmo de mim. – Onde está Kinnunen? – perguntou Mahkonen com um ar de suspeita. – Onde quer que ele esteja a gente não pode ficar aqui parado esperando que ele apareça – respondi agressivamente. – Vamos, e mãos à obra. O que você acha ter sido a causa da morte? – Com base no rosto eu diria que este rapaz morreu afogado, apesar de o buraco na cabeça ser bem intrigante. Eu não sei bem o que pensar, temos que levá-lo para a mesa. 16


– Mahkonen falava olhando para os sapatos de Rane em vez de se dirigir a mim. – Qual a possibilidade de ele ter sido atingido na cabeça por alguém e depois jogado na água? – perguntou Rane. – É bem possível, mas aquele buraco não o afetou muito. De qualquer forma, parece bem estranho. Seria bom saber com que o rapaz foi atingido. – Talvez por uma pedra? – Rane olhava em volta, prestando atenção no rochedo da praia, que apresentava algumas pedras que caberiam muito bem na palma da mão. – É... Fazer os rapazes virar pedra por pedra dessa praia os manterá ocupados – comentou o médico-legista com uma certa ironia. Eu dei permissão para que o paramédico retirasse o corpo da água e deixei que ele o virasse cuidadosamente. Aquele rosto e seus cabelos louros cobertos de sangue coagulado e de sal me pareciam grotescamente familiar. Nem mesmo o inchaço fora capaz de tirar a expressão de horror daqueles olhos que ainda estavam abertos e que, compostos pelo roxo matizado de sua pele, brilhavam como luzes mornas. Seu casaco branco estava decorado por algas e o jeans grudava em seus pés descalços e pernas amorenadas. Imagens da versão atraente de um Jukka de alguns anos anteriores passavam dolorosamente pela minha mente. Apesar de Jukka ser alguns poucos anos mais velho do que eu, ainda não devia ter chegado aos trinta. Eu já tinha visto cadáveres de gente nova, mas a diferença é que seus corpos haviam sido destruídos por álcool ou drogas. Contive minhas lágrimas enquanto tentava limpar a garganta. Comecei então a distribuir tarefas para os investigadores do laboratório criminal. De onde surgiu aquele buraco na cabeça de Jukka? Será que ele escorregou da doca? E assim por diante. Eu sabia que minhas ideias bizarras me faziam parecer nervosa e apreensiva, mas não havia nada que pudesse fazer para disfarçar. Mesmo tendo visto uma ministra da Defesa chorar em público, isso era o tipo da coisa que eu não me permitia. – Vamos ver o que sabem as pessoas da casa – falei ao 17


Rane me virando para a bela vila. Foi então que percebi um grupo de pessoas sentadas na varanda da casa, que dava para o mar. Eles devem ter notado meu ataque mal-humorado, mas ninguém estava olhando para nós, como se estivessem tentando negar a presença das autoridades. Ao prestar atenção, percebi que a vila parecia ser mais uma cópia, talvez de uma casa antiga que ali existira em uma outra época. A tinta devia ter uns vinte anos, mas a casa em si não devia ser muita mais velha que eu. A varanda estava ensolarada, e mais uma vez praguejei contra minha calça jeans. Alguns membros daquele sexteto sentado na varanda me pareciam familiares. – Maria! – gritou confusamente uma voz clara e alta. – Você se tornou uma policial? Você se lembra de mim? Sou eu, a Tuulia. Eu me lembrava muito bem dela. Estava sempre no nosso apartamento e às vezes nós nos encontrávamos na cantina da universidade. Eu gostava da Tuulia, pois tínhamos o mesmo senso de humor. Ela estava mais bonita do que me lembrava, esguia e madura no seu corpo de mulher. – Lembro – eu disse sem conseguir sorrir – Sim... agora sou a sargento Maria Kallio da Unidade de Crimes Violentos, e este é o oficial Lahtinen. Primeiramente, nos permita apresentarmos e depois nos conte os acontecimentos de ontem à noite. – Eu soava ridícula até para mim mesma e não tinha coragem de olhar ninguém nos olhos. Aparentemente Mirja era uma líder nata. Ela falava pausadamente, como se estivesse lendo um documento. Talvez tivesse planejado antecipadamente o que iria dizer. – Meu nome é Mirja Rasinkangas, e nós somos da Associação Estudantil dos Cantores do Leste Finlandês, a AECLF. A companhia para a qual Jukka Peltonen trabalha está organizando os eventos de verão, e eles queriam incluir um concerto. Prometeram pagar bem, então o Jukka agregou este quarteto duplo para cantar. O grupo que acompanhava Mirja era composto do quarteto de Jukka e mais quatro cantores que passavam aquele 18


verão na cidade. Os pais de Jukka estavam fora velejando, portanto sua casa de veraneio parecia um lugar ideal para eles ensaiarem. Os oito cantores haviam se reunido no dia anterior e depois de ensaiarem um pouco partiram para as típicas atividades de verão dos finlandeses: tomar todas e tomar sauna. À meia-noite as pessoas começaram a ir se deitar, mas ninguém sabia bem o que Jukka estava fazendo. A última vez que o viram vivo teria sido às duas da madrugada. – Eu estranhei não ter visto o Jukka de manhã – disse Mirja. – Mas aí Jyri veio correndo da praia gritando que Jukka havia se afogado, e lá estava ele, na margem... – Sua voz soava trêmula. – Quando vocês foram até Peltonen, vocês mexeram com o corpo? – Eu tentei checar o pulso dele, mas nós o deixamos onde estava – respondeu uma voz grave vinda da varanda. – Eu sou Antti Sarkela, caso não lembre. Como não senti pulso algum, me pareceu óbvio que ele tinha se afogado e que não havia nada que pudéssemos fazer. Eu me lembrava do Antti também. Tive uma queda por ele por quase duas semanas depois que ele sentou ao meu lado no bonde e começou a conversar comigo sobre um livro de Henry Parland que eu estava lendo. Quantos garotos tinham a vaga noção de quem era Henry Parland? Mas depois resolvi esquecer Antti e cultuar Henry, mas desde aquela nossa conversa passei a achar o Antti tão irritante quanto interessante. Eu o achava bonito. Ele tinha um rosto fino e traços indianos, um nariz longo e media quase dois metros de altura. Eu achava difícil interpretar a expressão de seus olhos, parecia uma combinação de medo e sofrimento. Eu me lembrava também de que Antti e Jukka tinham sido grandes amigos. – Ok, estou cuidando deste caso agora, o que significa que as próximas entrevistas serão em Pasila. Por motivos de força maior sugiro que vocês deixem a casa imediatamente, pois eu gostaria de começar as entrevistas esta noite mesmo. Posso oferecer uma carona se for preciso. Eu acho que não 19


tem nenhum ônibus que passe por aqui. Mas por enquanto seria bom saber, mesmo que superficialmente, quem é quem, coisas do tipo o que fazem e onde moram. Rane, você está tomando nota? Quem é você? – perguntei a um garoto com um porte pequeno que me parecia estar doente. – Sou Jyri Lasinen – respondeu ele com sua voz de tenor –, tenho 20 anos e estudo Matemática e Ciência da Computação na universidade. – Pelo modo que falava parecia estar em uma entrevista de trabalho. – Eu sou Mirja Rasinkangas – repetiu a menina robusta de cabelos escuros –, 26 anos, estudante de História. – Piia Wahlroos. – Esta voz estava um pouco acima de um sussurrar. Sua dona tinha grandes olhos castanhos, uma aliança de casamento com um brilhante de impressionar, ela era esguia e usava um estiloso vestido de linho... Eu registrava tais detalhes sem arranjá-los na minha cabeça de alguma forma em particular. – Tenho 26 anos e estudo Línguas Nórdicas. – Sirkku Halonen, 23. Química. Sou Irmã de Piia. Nossos sobrenomes são diferentes porque ela é casada. – Sirkku era uma versão apagada e mais comum de sua bela e esbelta irmã. Ao lado dela, segurando sua mão, estava um homem forte com cabelos ouriçados. Seu namorado, obviamente. – Sou Timo Huttunen, Ciências Florestais. 25. – Tuulia Rajala, 29. Ociosa. – Antti Sarkela. Professor-assistente de Matemática, 29, apesar de eu não entender o que nossa idade tem a ver com tudo isso. Rane fez uma cara de repugnância; ele tinha começado a gravar a partir da palavra “apesar” e olhou feio para Antti, como se fosse ele o culpado. – Ótimo, peguem suas coisas para que possamos ir imediatamente. Fui até a praia para poder conversar um pouco mais com os peritos. No meio do caminho, me deparei com a maca de Jukka, seu próximo endereço seria o laboratório de patologia. Quando retornei a casa, Mirja estava esvaziando a geladeira. 20


– A propósito... onde cada um estava dormindo? – O quarto de Jukka fica lá em cima, sobre a entrada. Jyri e Antti ficaram no quarto de seu irmão do outro lado do corredor. Timo e Sirkku estavam no final do corredor, na cama dos pais do Jukka e a Piia, Tuulia e eu dormíamos aqui embaixo, no chão da sala. – Então o Jukka era o único que dormia sozinho. – Acho que sim. Apesar de eu achar que ninguém passou muito tempo dormindo. Parecia que tinha sempre alguém acordado fazendo alguma coisa. Gente indo ao banheiro, eu até vi o Jyri aqui embaixo, apesar de ter um outro banheiro lá em cima. Quanto aos outros eu não sei, mas dormi muito mal nesta madrugada. Tuulia ronca pavorosamente, e por mais que eu tentasse acordá-la, o ronco não parava. – Me desculpe se não deixei você dormir. – Tuulia acabara de entrar na cozinha. – Eu imaginei que a consciência de Piia não a teria deixado dormir de qualquer forma... – Ela olhou para a geladeira. – Lá se foi o bouilla baisse1. Vem comer com a gente quando terminarmos com o interrogatório. Um jantar em memória ao Jukka... Até mesmo o molho de tomate tem uma cor apropriada. Pena que a gente só tenha vinho branco. – Dá um tempo, Tuulia – disse Mirja em tom de desaprovação, sem sequer notar o tremor na voz da companheira. Eu escapei da discussão e fui até o segundo andar onde Jyri estava dobrando seu saco de dormir defronte a uma bela vista do mar Báltico. Um corredor estreito levava até um quarto espaçoso, que parecia pertencer aos pais de Jukka. A porta se achava entreaberta e pude ver as pernas de uma mulher na cama sendo acariciadas por mãos masculinas. Sirkku e Timo, concluí. O quarto de Jukka estava vazio e tinha um ar juvenil, parecia não ter passado por nenhuma mudança nos últimos dez anos. Colcha verde-água, e na parede pôsteres de veleiros, algumas garrafas vazias de Cutty Sark na estante, livros de 1

Prato típico da culinária francesa constituído de uma sopa preparada à base de peixe. (N.T.) 21


navegação e um violão. Havia um suéter em cima da cadeira e um par de sapatos jogados embaixo da cama. Na noite de sua morte, Jukka havia saído descalço, talvez por não querer acordar ninguém. A cama estava desfeita, o que indicava que, para onde quer que Jukka tenha ido, ele tinha dormido antes e pretendia voltar. No último quarto estava Antti Sarkela deitado em uma cama estreita, com as mãos na nuca. Ao me ver, ele deu um pulo, como um recruta perante um sargento. – Achou alguma pista? – Sua voz era evidentemente antagonista. – Talvez. Você estava dormindo neste quarto? – Unrum... – Você conhece... ou melhor, conhecia Jukka muito bem. Teria como você vir comigo até o quarto dele para me dizer se falta algo? Antti pareceu grande demais para aquele pequeno quarto. – Não sei se saberia dizer. – Antti deu uma olhadinha no armário. – São as mesmas roupas de sempre. Jukka sempre tinha essas coisas aqui e acabava trazendo só uma malinha quando vinha para cá. Ali está ela. Provavelmente algumas partituras e meias limpas... É, eu acho que as coisas por aqui estão como antes. O olhar de Antti se deparou com um livro de partituras para corais mistos que se achava em cima da mesa. Estava aberto na página de “Levado pela corrente”, uma música de Toivo Kuula2 carregada de emoção. Apesar de eu não ser uma grande fã de poesia, sempre gostei da obra de Eino Leino na qual essa música é baseada. Jukka havia feito uma série de anotações nessa página. Antti desviou os olhos, e percebi que ele estava mordendo o lábio. – Era isso que vocês estavam ensaiando ontem? – perguntei, mais para quebrar o gelo do que por curiosidade. – Dentre outras coisas, o cliente requisitou músicas finlandesas. Compositor e maestro finlandês (1883-1918). (N.T.)

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Eu peguei a carteira de Jukka, que se encontrava ao lado do livro de partituras. Algo me dizia que eu não havia notado tudo que aquele quarto tinha para me dizer. Já era quase hora de partirmos da vila. A área da praia estava fechada para acesso. Os peritos ficaram para procurar algo que pudessem qualificar como a arma do crime, e um policial uniformizado permaneceu na casa para se encontrar com os pais de Jukka, que estavam chegando naquela noite. Eu olhei para o grupo de pessoas que interrogaria naquela noite e eles me pareceram desnorteados. Era plausível que algum passante pudesse ter testemunhado a morte de Jukka, ou que fosse responsável por ela. Era uma possibilidade que não podia ser descartada. Durante o verão, houve vários furtos nos arredores da cidade. Talvez Jukka tivesse se deparado com algum desses ladrões fugindo em um barco. Havia várias cabanas na ilha e quase todas ficavam vagas a maior parte do tempo. Entretanto, naquele momento, o resto desse quarteto duplo teria de ser o alvo da investigação. Pelo menos um deles sabia mais do que tinha me dito. Talvez um deles tivesse até matado Jukka. Nesse caso não estávamos lidando com um criminal profissional e desalmado, mas sim com um cidadão comum que em breve seria consumido pela própria culpa, pensei cheia de otimismo. Antti e Tuulia tinham voltado para a praia e me parecia que eles estavam tentando explicar algo aos policiais. – O que há? – indaguei ao me aproximar para chamá-los para partir. – Meu gato Einstein – explicou Antti. – Faz duas horas que ele sumiu e eu não posso ir sem antes achá-lo. – Você acha que ele se perdeu? – perguntou Tuulia preocupada. – Claro que não, ele nasceu aqui! Só deve estar em uma de suas expedições. – Que tal se você vir conosco e voltar outra hora para procurar seu gato? – sugeri, soando um pouco mais antipática do que era minha intenção. 23


Eu disse para os policiais que estavam guardando a área para ficarem de olho no gato e para pegá-lo caso o avistassem. Eles me olharam como se eu estivesse fora de mim. – Ah, quer dizer então que agora estamos perseguindo gatos também – comentou um deles irritado. O carro de Jukka também ficara para que técnicos pudessem dar uma olhada inicial nele. Mais tarde seria levado para o laboratório; as chaves estavam na ignição. O BMW de Piia Wahlroos comportava cinco dos membros do coral. Não havia sentido em mandar um policial junto para evitar que eles formulassem algum álibi, pois todos tiveram tempo suficiente para isso antes da chegada da polícia. Eu podia apostar que Mirja Rasinkangas e Antti Sarkela seriam os únicos a aceitar uma carona com a polícia. E se tivesse apostado mesmo, teria ganhado. Empurrei meu assento para a frente assim que senti as longas pernas de Antti cutucarem atrás no meu banco, pois o contato me irritara. – Então, Maria, o que você faz como policial? – perguntou Antti enquanto saíamos da pequena estrada de terra para o asfalto. – Da última vez que a vi você estava estudando direito. – Eu fiz um estágio na Academia de Polícia antes de entrar para o direito,, era para ser temporário. – Você já desvendou muitos desses... assassinatos? – O suficiente. – Cara, não subestime a inteligência dessa garota – disse Rane em um tom ácido. Isso me divertiu. O complexo de baixinho de Rane ataca outra vez. Ele também estava pouquíssimo acima da média mínima de altura necessária para entrar na Academia. E eu nem me preocupei em ralhar com o Rane por me chamar de garota, afinal de contas ele estava me defendendo. Ai, a velha linha tênue. – Você morava com a Janna – notou Mirja de repente. – Agora estou lembrando... – Parecia que as lembranças que ela tinha de mim não eram necessariamente das melhores. Deve ser por causa daquela vez em que bebíamos todas juntas e eu fui abrir meu bico sobre o que achava sobre a importância dos corais. 24


Eu tinha que ligar para Janna na Alemanha. Ela já havia namorado o Jukka e podia até mesmo me passar alguma informação importante. Janna com certeza conhecia a maioria das pessoas envolvidas no assassinato; afinal fazia só dois anos desde sua turnê hessiana3. Passamos o resto da viagem em silêncio, eu precisava organizar internamente tudo que sabia até agora antes que começasse o interrogatório. De acordo com a estimativa do médico perito, Jukka havia recebido um golpe diagonal e frontal contra a cabeça com um instrumento sem corte. O possível assassino devia ser bem mais alto que Jukka, e, no caso, Antti, que estava no carro comigo, era o único candidato. Ou, alternativamente, Jukka estaria sentado ou ajoelhado. Mas não agachado, pois no caso o golpe teria sido realizado por um outro ângulo. Será que Jukka teria marcado um encontro na doca com alguém que ele queria encontrar a sós? Ou fora surpreendido enquanto estava no local? A única forma de esclarecer os fatos seria por meio de trabalho árduo, questionando e ouvindo pessoas. Os homicídios que tinha resolvido até então eram consideravelmente simples, algum bêbado que esfaqueara um companheiro de copo ou enfiara uma machadinha na cabeça da mulher. Mas foram homicídios casuais, não premeditados. Seria este agora meu primeiro assassinato?

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Em alusão ao escritor alemão Herman Hesse (1877-1962). (N.T.) 25


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