Mestre e doutor em Estudos Literários (UFMG) com trabalhos sobre Murilo Rubião, atua como pesquisador do Núcleo de Estudos dos Acervos de Escritores Mineiros (NEAEM). Desenvolve trabalhos sobre acervos literários e culturais, correspondência de escritores e crítica biográfica. Organizou os volumes leite criôlo: edição fac-símile (2012) e Em defesa do patrimônio: correspondência entre Manoel José de Paiva Júnior e Rodrigo Melo Franco de Andrade (2013).
9 788542 302004
Mares interiores Correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende
Cleber Araújo Cabral
9 788551 300671
ISBN 978-85-423-0200-4
Cleber Araújo Cabral (org.)
A
organização, a descrição e o estudo da correspondência de Murilo Rubião e Otto Lara Resende têm por objetivo trazer a público as cartas que trocaram por mais de 40 anos (1945-1991). A edição desses documentos, obra do tempo de inegável valor literário, mas também histórico, visa atender aos leitores interessados no período da cultura e da literatura brasileira vivido pelos dois escritores. Além de apresentar feição pouco conhecida da obra de Murilo e de Otto (a de “carteadores”), o livro contribuirá para o conhecimento da vida pessoal, de facetas do processo de criação literária, das redes de convivência com escritores, intelectuais e políticos, bem como da linguagem e da cultura das épocas em que viveram.
ISBN 978-85-513-0067-1
Cleber Araújo Cabral
organização
Mares interiores Correspondência de Murilo Rubião &
Otto Lara Resende
Belo Horizonte, 24 de setembro de 1948 Meu caro Otto, Ando triste como um chapéu de chuva sem pano, sem dono e sem chuva. Nunca andei precisando tanto de cartas e amigos. E não recebo cartas, não encontro amigo. Tudo tristeza, seu Otto.
Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1948 Murilo amigo: Ha vários dias estou para lhe escrever. Mas você não imagina por quantas complicações tem passado este pobre. Andei caningado, mais que nunca, com embaraços por todas as latitudes. Agora, estou repondo as coisas nos lugares, já não tenho o rosto inchado, paguei uma letra no Banco, fiquei noivo, as coisas vão indo. Ainda há o que fazer, muito, mas esperemos em Deus. Por tudo isso, tenho andado sumido. Não escrevo cartas, gênero a que fui outrora dedicado. Meus correspondentes desapareceram, ninguém me responde, grito, não há eco. Você é o único mineiro fiel, o único cristão dessas montanhas que estrangulam a alma dessa gente mesquinha e fria, de coração de pedra num peito de gelo.
páginas anteriores
Murilo Rubião e Otto Lara Resende na redação do Suplemento Literário de Minas Gerais, 23/07/1970
Cleber Araújo Cabral (organização,
p r e f á c i o e n o ta s )
MARES INTERIORES CORRESPONDÊNCIA DE MURILO RUBIÃO &
OTTO LARA RESENDE
Copyright © 2016, herdeira de Murilo Rubião Copyright © 2016, herdeiros de Otto Lara Resende Copyright © 2016, Editora UFMG Copyright © 2016, Editora Autêntica Todos os esforços foram feitos no sentido de encontrar os detentores dos direitos autorais das obras que constam deste livro. Pedimos desculpas por eventuais omissões involuntárias e nos comprometemos a inserir os devidos créditos e corrigir possíveis falhas em edições subsequentes. Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora e pela Editora UFMG. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia das Editoras. As Editoras agradecem ao Acervo Murilo Rubião (AMR/AEM/CELC/UFMG), ao Acervo Otto Lara Resende (AOLR/IMS-RJ) e ao Arquivo da Imprensa Oficial de Minas Gerais pela valiosa contribuição para esta publicação. coordenação editorial
editora responsável
Camila Figueiredo
Maria Amélia Mello
direitos autorais
assistente editorial
Anne Caroline Silva
Rafaela Lamas
coordenação de textos
revisão
Lira Córdova
Lúcia Assumpção capa
produção gráfica
Diogo Droschi
Warren Marilac
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Mares interiores : correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende / Cleber Araújo Cabral (organização, prefácio e notas). -- 1. ed -- Belo Horizonte : Autêntica Editora : Editora UFMG, 2016. ISBN 978-85-513-0067-1 (Autêntica Editora) 978-85-423-0200-4 (Editora UFMG) 1. Cartas brasileiras 2. Otto Lara Resende, 1922-1992 - Correspondências 3. Rubião, Murilo, 1916-1991 - Correspondências I. Cabral, Cleber Araújo. CDD-869.6 -869.96
16-07056 Índices para catálogo sistemático: 1. Cartas : Literatura brasileira 869.6 2. Correspondência : Literatura brasileira 869.96
Av. Antônio Carlos, 6.627 | CAD II | Bloco III Campus Pampulha | 31270-901 | Belo Horizonte-MG | Brasil Tel.: (55 31) 3409 4650 | Fax: (55 31) 3409 4768 www.editoraufmg.com.br | editora@ufmg.br
Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975 www.grupoautentica.com.br
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420, Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
UNIVERSIDA D E F ED ERA L D E M IN A S G E R A I S
Reitor Jaime Arturo Ramírez Vice-Reitora Sandra Regina Goulart Almeida EDITORA U F M G
Diretor Flávio de Lemos Carsalade Vice-Diretor Roberto Alexandre do Carmo Said Co n s e l h o E d i to r i a l Flávio de Lemos Carsalade (Presidente ) Danielle Cardoso de Menezes Eduardo de Campos Valadares Élder Antônio Sousa Paiva Fausto Borém Maria Cristina Soares de Gouvêa Roberto Alexandre do Carmo Said
ABREVIAÇÕES
AMR / AEM / CELC / UFMG – Acervo Murilo Rubião / Acervo de Escritores Mineiros / Centro de Estudos Literários e Culturais / Universidade Federal de Minas Gerais AOLR / IMS-RJ – Acervo Otto Lara Resende / Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro H.P. – Hélio Pellegrino JCMN – João Cabral de Melo Neto MR – Murilo Rubião O. – Otto OLR – Otto Lara Resende P.E. – Polícia do Exército SL – Suplemento Literário de Minas Gerais
AGRADECIMENTOS
À Adriana, barco, oceano e porto, pelo amor, auxílios e companhia constantes. À família de Murilo Rubião, especialmente a Sílvia Rubião, que desde o início acolheu a proposta de edição desta correspondência. À família de Otto Lara Resende, por concordarem em propiciar o reencontro de Murilo e Otto. À equipe do Acervo de Escritores Mineiros, sediado na UFMG, em especial aos funcionários Antônio Afonso Pereira Júnior, Márcio Flávio Tôrres Pimenta, Maria Madalena P. A. Rocha e Adrieli Sandra, pelo auxílio e prestimosidade. À equipe do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro (Coordenadoria de Literatura), especialmente à Manoela Purcell Daudt d’Oliveira, pela solicitude com que me recebeu nas dependências do IMS, bem como pela agilidade com que respondeu aos meus e-mails no curso dos últimos cinco anos. Aos professores Eneida Maria de Souza (UFMG), Marcos Antonio de Moraes (USP) e Reinaldo Martiniano Marques (UFMG), por todas as conversas e orientações no trato com arquivos e cartas de escritores.
S U M Á R I O
13 ∙ prefácio 23 ∙ notas à transcrição das cartas 27 ∙ cartas 29 ∙ Rio – Belo Horizonte (1945-1952) 107 ∙ Madri – Bruxelas (1957-1959) 145 ∙ Belo Horizonte – Lisboa – Rio de Janeiro (1966-1991) 175 ∙ perfis biográficos 185 ∙ anexos 187 ∙ Ausência (para Tentativa) Murilo Rubião 188 ∙ Literária - “Convidando uma geração a depor” Otto Lara Resende 191 ∙ Literária - “Convidando uma geração a depor” Murilo Rubião 194 ∙ “Posso garantir, no entanto, que todos somos uns bons rapazes. É a única coisa de que estou certo" Otto Lara Resende 199 ∙ Adesão ao herói de nosso tempo Otto Lara Resende 206 ∙ Depoimento e vida Murilo Rubião 215 ∙ bibliografia de apoio 219 ∙ créditos das imagens
PREFÁCIO
Mares Interiores Os propósitos eram bons, a terapêutica (com base no iodo e uísque), correta. Entretanto, havia mares interiores. Murilo Rubião, carta 08
Pois o que é preciso é alçar as âncoras e partir. Partir! Partir! (Creio que realizo a viagem temerária pelos mares interiores). Otto Lara Resende, carta 16
A organização, a descrição e o estudo da correspondência de Murilo Rubião (1916-1991) e Otto Lara Resende (1922-1992) têm por objetivo trazer a público as cartas que trocaram por mais de 40 anos (1945-1991). A edição desses documentos, obra do tempo de inegável valor literário, mas também histórico, visa atender aos leitores interessados no período da cultura e da literatura brasileira vivido pelos dois escritores. Além de apresentar feição pouco conhecida da obra de Murilo e de Otto (a de “carteadores”), o livro contribuirá para o conhecimento da vida pessoal, de facetas do processo de criação literária, das redes de convivência com escritores, intelectuais 13
e políticos, bem como da linguagem e da cultura das épocas em que viveram. Como toda correspondência, a de Murilo Rubião com Otto Lara Resende constitui um conjunto tanto de instantâneos autobiográficos como de “retratos do Brasil”. Além de flashes do contexto sociopolítico vivenciado por Murilo e Otto, as cartas tanto possibilitam observar o processo de construção de suas obras como propiciam a composição de retratos (parciais e passíveis de rearranjo) de ambos. Uma possibilidade de leitura desse álbum do tempo – ou de memórias – consiste em ler esse conjunto epistolar como um romance de formação,1 no qual podemos perceber as etapas da trajetória de construção do caráter, do aperfeiçoamento em direção ao conhecimento de si e do mundo tanto da parte de Murilo como de Otto. Pode-se dizer que há duas linhas de força que atravessam e estruturam o diálogo desses escritores: o processo de conhecimento de si e a especulação acerca do destino literário – ou da “chance de posteridade”. A correspondência se inicia “no meio do caminho”, quando a amizade desses escritores já está consolidada, não fornecendo dados sobre o princípio dessa história, nem tampouco o contexto em que os dois se conheceram. Entretanto, seus arquivos apresentam indícios das circunstâncias em que parece
Tal ideia soa interessante, tendo em vista que o processo de composição dos arquivos pessoais de escritores se dá com o objetivo de construir “o livro da própria vida” a partir da recolha e da organização de fragmentos de circunstâncias (sendo o diálogo epistolar uma dessas). Tal ideia foi elaborada pelo crítico Marcos Antonio de Moraes a partir de um comentário feito por Manuel Bandeira em uma carta enviada a Mário de Andrade. Certo dia o poeta de Libertinagem, ao ler seu arquivo pessoal de correspondências recebidas de Mário, Ribeiro Couto e outros amigos, comenta ao autor de Macunaíma que esse material “tão rico em substância humana”, deu-lhe “a impressão de ter lido um romance do tipo do Contraponto de [Aldous] Huxley ou do Manhattan transfer do [John] dos Passos”. Ao aproximar dois romances de vanguarda aos diálogos epistolares mantidos com amigos, Bandeira abre “perspectivas para se trilhar também a correspondência [...] como um “romance’”. Para mais detalhes, ver Moraes (2001, p. 13).
1
14
ter ocorrido tal encontro. Otto inicia a carreira de jornalista em 1939, no jornal O Diário, em Belo Horizonte. Nessa ocasião, conhece João Etienne Filho, diretor da publicação e integrante da revista literária Tentativa,2 da qual Murilo, à época redator do jornal Folha de Minas, também fazia parte. É por intermédio de Etienne que Otto conhecerá, entre outros, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Guilhermino César e, claro, Murilo Rubião. É, portanto, no espaço do jornal, ambiente de iniciação à vida literária, que se dá o encontro entre os dois companheiros de geração.
Duas vidas, três momentos No conjunto epistolar que ora se apresenta, é possível notar três momentos desse processo de formação: inicialmente, entre 1945 e 1952, as cartas abreviam a distância entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. De 1957 a 1959, ligam Madri a Bruxelas. Por fim, de 1966 a 1991, a correspondência faz a ponte aérea Belo Horizonte-Lisboa e, posteriormente, retorna ao porto inicial, conectando Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. O primeiro momento (1945-1952) é o mais breve em termos cronológicos, mas foi aquele no qual ocorreu o maior volume de cartas (57, no todo). Nessa fase, vemos o retrato em movimento de dois escritores quando jovens, em busca do aprimoramento de seus instrumentos de escrita e no estágio inicial da elaboração de suas obras literárias. Nas cartas desse contexto, como também no restante da correspondência, vê-se uma troca de confidências pautada na
Revista literária, de tendências católicas, editada por jovens moços de Belo Horizonte, estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG). Foram publicados nove números entre abril e novembro de 1939. Participaram da revista Armando Más Leite, Euler Ribeiro, Hélio Ribeiro, Jair Rebelo Horta, João Etienne Filho, Juventino Lemos, Milton Sales, Murilo Rubião, S. Oliveira Sales e Décio Rocha; no terceiro número, Alphonsus de Guimarães Filho e Nazareno Alphonsus.
2
15
reciprocidade, em afinidades eletivas e na ausência de hierarquias – a despeito da diferença de seis anos entre Otto e “o irmão mais velho atento e atencioso”, como Murilo é descrito na crônica “Seus amigos e seus bichos”.3 Antes, ambos se tratavam como confrades de boemia jornalística e literária, além de sócios de curiosas irmandades literárias (ao que consta, inexistentes), como a “Dragon’s Literary Guild”, a “Comunidade kafkiana” e o “Sindicato do Alfredo”. Aqui, a carta assume a função de zona franca, confessionário, mas também laboratório, espaço de troca de ideias, da “escrita compartilhada”, feita mediante a permuta de manuscritos, mas, sobretudo, lugar de “puxar esquecidas angústias”. O tom abertamente confessional das cartas, nesse momento, quase as transforma em “cartilhas de tristeza” e “cadernos de melancolia”. O tédio e a tristeza emergem de boa parte da correspondência de Murilo e Otto na década de 1940, mas também se espraiam naquelas trocadas durante a estada europeia de ambos. Além de falarem dos dissabores cotidianos, não são poucas as cartas em que ambos expõem as inquietações existenciais que rebentam em seus tumultuosos “mares interiores” – como os dramas amorosos, a insatisfação com a própria ficção, a vocação para a literatura, as dúvidas e as questões religiosas. Não à toa, Murilo e Otto se identificam com Alfredo, personagem que dá título a um dos contos de O ex-mágico. Nesse texto, um homem, depois de fracassadas tentativas de fugir do passado e de conviver com seus semelhantes, transforma-se em um dromedário que vaga por terras estranhas sem a esperança de um paradeiro. Cabe observar que essa tendência trágica e a sensação de desamparo, traduzidas em certo gauchismo (herdado, sem dúvida, de Carlos Drummond de Andrade), perpassam a correspondência (e a obra
RESENDE, 1993, p. 116. Nesse texto, escrito por ocasião da morte de Rubião em 16/09/1991, Otto traça um perfil do amigo a partir da evocação de algumas situações que viveram juntos.
3
16
literária) dos missivistas. Entretanto, convém salientar que tais questões apontam para um conjunto de inquietações comuns à geração de escritores (como os participantes da revista Edifício, em que Otto publicou alguns textos) que desponta no cenário literário belo-horizontino da década de 1940. No plano pessoal das vidas de Murilo e de Otto, ocorrem fatos significativos. Em 1945, o recém-formado Otto se muda para o Rio de Janeiro, onde trabalha em inúmeros jornais. Já Murilo, após várias tentativas, finalmente publica, em 1947, seu primeiro livro, O ex-mágico, com o qual conquista, em 1948, o Prêmio Literário Othon Lynch Bezerra de Mello, que auxilia no reconhecimento de sua obra por outros escritores. Entre 1949 e 1950, ocorre a breve temporada de Murilo no Rio, quando reside com o amigo Otto. Após a estada carioca, Murilo retorna a Belo Horizonte, estabelecendo-se como chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek – recém-eleito governador de Minas Gerais. Se nesse período se escreveram as cartas mais emotivas, nele também se encontram as mais ricas em comentários sobre a criação literária. São vários os exemplos de cartas em que Otto se debruça sobre os contos de Rubião, analisando-os e discutindo aspectos formais – aliás, esta é uma face que se desprende desse epistolário: Otto crítico literário e leitor de originais. Infelizmente, não vemos o Murilo leitor a fazer o mesmo com os textos do amigo. Exemplos dessa partilha da escrita se encontram na carta de 08/09/1948, quando Murilo diz ao amigo que “Daqui por diante – a promessa é solene – você receberá sempre uma cópia dos contos que estou escrevendo para o novo livro: A estrela vermelha”. Na resposta, remetida por Otto em 30/09/1948, o autor de O braço direito faz várias observações e tece sugestões redacionais sobre cinco textos de Rubião, dos quais apenas quatro aparecerão, em 1953, enfeixados no volume A estrela vermelha. Também nesse momento da correspondência lemos Murilo dar notícias, em 17
30/03/1950, sobre o “Coelho” (o protagonista de “Teleco, o coelhinho”), além de mencionar “Manoel, que nasceu ali, no esgoto da Feira de Amostras”, personagem de uma novela à época em processo de elaboração – mas que, infelizmente, não chegou a ser concluída. Outra característica desse momento, digna de nota, diz respeito ao estilo epistolar dos interlocutores. De um lado, irreverente e ágil, a conversa escrita de Otto. De outro, nas cartas rubianas, a ironia e a curiosa mistura de situações cotidianas a enredos literários, alinhavadas pela emulação do tom bíblico e constantes citações de passagens do Livro dos livros. Aliás, é interessante notar que esse diálogo com a Bíblia não aparecerá nas cartas de 1950 em diante. Outro detalhe estilístico que merece destaque são as várias metáforas, de grande força poética, presentes nas mensagens tanto de Murilo como de Otto – tais como “os abismos insuspeitados”, os “trilhos paralelos condenando à solidão“, o “olhar de inverno”, a tristeza de “um chapéu de chuva sem pano, sem dono e sem chuva”, o “consertei meu guarda-chuva sentimental”, “aluguei meu olhar de inverno” e a “viagem temerária pelos mares interiores”. Já o segundo momento da correspondência compreende o breve período entre 1957 e 1959. Nesse contexto, são trocadas 18 cartas entre os escritores, que agora residem na Europa. Murilo se encontra em Madri, onde exerce a função de chefe do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil, também atuando como adido cultural junto à Embaixada do Brasil. Otto segue para a Bélgica, a convite do Itamaraty, a fim de ministrar aulas de Estudos Brasileiros no Instituto de Estudos Hispano-Americanos da Universidade de Utrecht, na Holanda, mas passa a maior parte do tempo exercendo função na Chancelaria da Embaixada do Brasil, em Bruxelas. De um lado, Murilo diz que, “apesar de fabulosa, Madri é tudo, menos Belo Horizonte”. De outro, insulado “na bruxa” (como chamava Bruxelas), Otto rumina “pensamentos pessimistas e profundamente melancólicos”. 18
No campo da criação literária, em contrapeso a essa atmosfera (aparentemente) desestimulante, a temporada europeia se mostra um período fecundo e de intensa atividade criadora – ao menos para Otto. Há registros da publicação do livro de contos Boca do inferno, da elaboração do romance O braço direito e da novela “O carneirinho azul”. Fato interessante é a carta de 06/06/1957, na qual Murilo faz breve apreciação do estilo e da técnica de Otto – fato digno de nota, uma vez que esse é o único comentário crítico de Murilo acerca da ficção do amigo em toda a correspondência. Quanto a Murilo, afora o envio dos originais de “O coelhinho” (“Teleco, o coelhinho”), que Otto comenta minuciosamente em carta de 17/09/1957, o autor de O ex-mágico apenas relata brevemente ao amigo que escreve, “mas com a velha lentidão rubiônica e sem grandes ambições quanto à posteridade”. Terminadas as estadas madrilenha e bruxelense, inicia-se a última (e mais longa, em termos cronológicos) fase da correspondência, que abrange 1966 a 1991. Em dezembro de 1959, Murilo retorna ao Brasil, instalando-se em Belo Horizonte, onde permanecerá até o fim da vida. Em agosto do mesmo ano, Otto encerra a temporada em Bruxelas, retornando ao Rio de Janeiro, mas em 1967 ruma para Lisboa, onde cumprirá missão cultural junto à Embaixada do Brasil em Portugal até 1969. Apesar de ser a fase mais extensa do conjunto epistolar, o fluxo das cartas é o menos caudaloso (20 cartas em 25 anos). O ritmo frequente, as cartas extensas e a escrita compartilhada da juventude cedem lugar a cartas mais objetivas e a questões de outra ordem. Nesse momento, tanto Otto como o autor de O ex-mágico já são escritores reconhecidos no campo literário. Afora notícias de seus contatos com intelectuais e escritores em Lisboa, Otto pouco fala de sua ficção e de seu trabalho. Já Murilo se encontra assoberbado por inúmeras demandas, como a direção do Suplemento Literário e da Fundação de Arte de Ouro Preto, a correspondência com artistas, escritores 19
e intelectuais de todo o país e do exterior, a defesa de interesses de vários setores do campo cultural junto ao Estado. Curiosamente, em 1966, Murilo se assemelha ao Mário de Andrade que conheceu quando jovem, tanto na idade como no ritmo de vida: ambos têm cerca de 50 anos e se encontravam divididos entre as tarefas de figura pública e de escritor canonizado. Eis o retrato do “Murilo de Andrade” que aparece nesse contexto – a transformação daquele que buscava legitimidade junto aos escritores mais velhos naquele que concede condições de legitimação aos novos artistas e escritores que acorriam ao Suplemento Literário. No campo da literatura, destaca-se o Suplemento Literário de Minas Gerais, periódico criado por Murilo em 1966. Essa publicação permeia esse momento da correspondência, aparecendo seja nos recortes remetidos por Otto, de Lisboa, informando sobre a aceitação e a repercussão do periódico, seja nos pedidos de colaborações ou de auxílio para reunir contribuições de amigos para a elaboração de números temáticos que Murilo faz ao amigo Otto. Ainda no plano da criação literária, da obra rubiana temos notícia apenas da publicação dos contos “Os comensais” e “Petúnia”, e do envio do livro O convidado, ao passo que Otto nada menciona de sua ficção. Quanto à turbulenta situação política vivida no Brasil entre 1964 e 1985, há apenas uma breve menção. No “P.S.” da carta de 18/12/1969, Otto pede a Murilo que envie ao crítico literário Fábio Lucas um “abraço, atrasado mas de calorosa simpatia, pelo golpe que lhe deram”, devido à cassação e à aposentadoria desse de seu emprego como professor na UFMG, quando da publicação do AI-5, em 1969.
P.S.: Carta-náutica; destino, posteridade Aparentemente, Murilo Rubião e Otto Lara Resende não planejaram a publicação das cartas que trocaram por mais de 40 anos (1945-1991), embora tenham preservado zelosamente 20
a documentação dessa amizade escrita em seus arquivos. Tal intento não é mencionado pelos missivistas em nenhum momento da conversa à distância. Contudo, esse gesto de preservar a própria memória parece indicar, como se verá em algumas das cartas aqui publicadas, uma aposta e um gesto de se dirigir à posteridade. Em carta enviada a Otto (05/08/1948), Murilo dissimula seu projeto de endereçar sua obra e seu arquivo ao futuro, dizendo ao amigo que “Esta carta não se destina à posteridade”.4 Anos depois, o próprio Rubião põe em xeque suas intenções ao mencionar, em outra carta endereçada a Otto, que uma entrevista de Paulo Mendes Campos5 confere a ambos “uma pequena chance de entrarmos na posteridade”.6 Em sua resposta, Otto diz ao amigo: Quanto ao recorte do Correio da Manhã, devolvo-o a você. Recebi um igual do Rio, mandado pelo meu irmão. Contemplei longamente a fotografia, lembrei-me das circunstâncias, do dia em que a tiramos, lembra-se? [...] Grande retrato! Fiquei pensando como surgiu a ideia de fazê-lo, me ocorreu que só você poderia ter tido ideia tão sensata e rica e, ao mesmo tempo, poderia ter levado a turma a concretizar essa ideia, que hoje nos permite voltar, à vista de um documento, os olhos para aquele tempo, ainda ontem e já tão distante! Muito obrigado, pois. É como você diz: a entrevista do Paulusca é uma chance de posteridade...7
Espaço nômade, de trânsito de ideias e de estados de espírito, a carta é lugar em que o sujeito se apresenta em sua
4
RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Belo Horizonte, 5 de agosto de 1948.
Menção à reportagem de Renard Perez “Escritores Brasileiros Contemporâneos – n. 52 – Paulo Mendes Campos”, publicada no Correio da Manhã, em que consta uma fotografia, feita em um estúdio de Belo Horizonte, no ano 1948, quando aparecem reunidos, em um “retrato de geração”, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião e Emílio Moura.
5
RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Madri, 30 de julho de 1957.
6
RUBIÃO, Carta a Otto Lara Resende. Belo Horizonte, 5 de agosto de 1948.
7
21
instabilidade, tal como as marés – fluxo e refluxo. Guimarães Rosa diz, em um de seus contos, que “todo abismo é navegável a barcos de papel”.8 Tal imagem náutica é pertinente para explorar a metáfora dos mares interiores, mas também a dos abismos insuspeitados sob a tinta na superfície das páginas. Em comum, a carta, os mares e o barco apresentam as ideias de deslocamento, travessia e viagem.9 Cabe lembrar, ainda, que o termo “carta” também porta outra acepção que interessa de perto ao presente (con)texto – a de mapa. Tal como os mapas, a correspondência de Murilo e Otto fornece condições de traçar caminhos ou percursos passíveis de exploração. Ao subir a bordo dessas cartas, o leitor poderá se lançar pelos mares (e abismos) das vidas e obras de Murilo e de Otto – atlas voláteis, em processo de releitura e reescrita, convite à deriva.
8
ROSA, 1976, p. 38.
9
Há, ainda, outra analogia: a de se comparar o processo de composição de um texto literário com o processo de construção de um barco. Mas com quantas letras se cria um texto? E quantas são necessárias para se narrar a história de uma vida?
22
www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica