Skip to main content

Luto e melancolia - Precedido por Transitoriedade

Page 1


SIGMUND FREUD

Luto e melancolia

Precedido por Transitoriedade

TRADUÇÃO

Ernani Chaves

Maria Rita Salzano Moraes

APRESENTAÇÃO Gilson Iannini

POSFÁCIO

Natalia Timerman

SIGMUND

FREUD

Luto e melancolia

Precedido por Transitoriedade

TRADUÇÃO DE TRANSITORIEDADE

Ernani Chaves

TRADUÇÃO DE LUTO E MELANCOLIA

Maria R ita Salzano Moraes

APRESENTAÇÃO

Gilson Iannini

POSFÁCIO

Natalia Timerman

TEXTOS SINGULARES NÃO FICÇÃO

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Título original: Trauer und Melancholie; Vergänglichkeit.

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editoras responsáveis

Rejane Dias

Cecília Martins

coordenação editorial

Gilson Iannini

Pedro Heliodoro

assistente editorial

Cecília Castro

revisão da tradução

Pedro Heliodoro

revisão

Aline Sobreira

Lívia Martins

Lira Córdova

capa

Alberto Bittencourt

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Freud, Sigmund, 1856-1939

Luto e melancolia: Precedido por Transitoriedade / Sigmund Freud ; tradução Maria Rita Salzano Moraes ; Ernani Chaves. -1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Textos Singulares)

Título original: Trauer und melancholie; Vergänglichkeit; ISBN 978-65-5928-597-6

1. Luto - Aspectos psicológicos 2. Melancolia 3. Perda (Psicologia) I. Título. II. Série.

25-280510

CDD-155.937

Índices para catálogo sistemático: 1. Luto : Aspectos psicológicos 155.937

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

www.grupoautentica.com.br

São Paulo

Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP

Tel.: (55 11) 3034 4468

SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

7 Apresentação

Gilson Iannini

19 Transitoriedade

25 Luto e melancolia

53 Posfácio

Da leitora, da psiquiatra, da filha

Natalia Timerman

Apresentação

A transitoriedade (Vergänglichkeit) designa o caráter daquilo que é vergänglich, isto é, literalmente aquilo que é fugaz, efêmero, que não pode durar, que deve passar.i Este ensaio, considerado, não por capricho, uma das melhores realizações literárias de Freud, foi escrito em vista de uma demanda recebida em novembro de 1915 da Associação Goethe de Berlim e foi publicado primeiramente no livro O país de Goethe. O pano de fundo desta publicação era a arrecadação de fundos para a reconstrução da Prússia Oriental, devastada pela Primeira guerra. Em especial, tratava-se de uma peça de propaganda em tempos de guerra: quando os inimigos retratavam o povo alemão como bárbaros e violentos, tratava-se de recuperar a Alemanha como um povo de cultura. Um total de 247 autores contribuíram para a empreitada, entre eles, Albert Einstein, Arthur Schnitzler, Hugo

i A tradução inglesa corrente intitulou “On transience”. Três edições francesas subsequentes propuseram “Fugitivité” (1956), “Ephémere destinée”(1984) e “Passagèreté” (1988).

Gilson Iannini

von Hofmannsthal, Richard Strauss e centenas de outros. Tratava-se de discutir acerca do futuro dos países germânicos em relação à guerra e à paz. A tonalidade de muitas contribuições é de cunho nacionalista, como lembra Paul-Laurent Assoun, mas Freud prefere referir seu ensaio ao país de Goethe, operando um ligeiro, mas decisivo deslocamento.

Este deslocamento esvaziaria qualquer latente nacionalismo, apostando ao contrário na possibilidade de reconstrução de tudo aquilo que embora parecesse sólido, era no fundo tão frágil quanto uma paisagem de verão: a neutralidade da ciência, as realizações da arte e da cultura, a aposta na superação das diferenças entre povos e raças. Mas a aposta política de Freud é clara: devemos fazer o luto destas instituições, de seu caráter imaginário, narcísico, porque é apenas através de sua perda que elas podem sobreviver. Neste sentido, além de ser um texto relevante para a discussão estética e literária sobre o tempo, o caráter político do ensaio não pode ser negligenciado, principalmente, se o tomamos lado a lado com as “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte” (1915).

O ensaio relata um passeio em companhia de “um amigo taciturno” e de “um jovem, mas já famoso e conhecido poeta”. A bibliografia secundária não tardou a identificar esses dois personagens como Lou Andreas-Salomé (curiosamente disfarçada no gênero masculino) e Rainer-Maria Rilke.

A “florescente paisagem de verão”, por sua vez, nos remeteria às Dolomitas, uma cadeia montanhosa

dos Alpes orientais no norte da Itália, que Freud conhecia desde sua temporada como naturalista em Trieste. O verão em questão seria o de agosto de 1913, pouco antes da eclosão da Grande Guerra, quando Freud visitava a região mais uma vez. Pelo relato de Freud, podemos imaginar uma caminhada lenta e meditativa, observando as paisagens paradisíacas das montanhas, em meio a flores e cogumelos, que o psicanalista adorava apreciar. Quando lemos o texto, quase podemos imaginar a cena, quase podemos reconstrui-la com o auxílio de poucos dados biográficos suplementares, como estes fornecidos acima acerca da identidade real dos personagens em questão, da localização precisa e da época. Na verdade, podemos até mesmo fruir das mesmas sensações que o autor evoca. Reside aí uma das virtudes literárias de Freud. Trata-se de um ensaio atravessado por um lirismo raramente encontrado em outros textos: é quase uma elegia.

Mas o fato é que Freud encontrou-se com Lou e Rilke quando do IV° Congresso da Associação internacional de psicanálise, ocorrido em Munique. Àquela altura, Freud estava preocupado com os destinos da psicanálise, na época da máxima distensão com o príncipe herdeiro, Jung. Rilke, por sua vez, estava em Munique por razões diversas: tentava recuperar a fugidia inspiração para escrever. O mais provável, contudo, é que o passeio romântico à trois na natureza nunca tenha ocorrido. Talvez a conversa tenha sido tão fugidia e tão efêmera quanto

um encontro no café do hotel em que estavam hospedados, talvez em meio a outros personagens igualmente sentados à mesa, talvez no burburinho dos intervalos dos congressos psicanalíticos. O encontro à três, nas montanhas alpinas, é, muito provavelmente, uma ficção literária de Freud, uma fantasia diurna, do tipo daquela que o próprio autor tematiza em “O poeta e o fantasiar”. A que serve, portanto, a reconstrução ficcional da cena?

Outro fato à nossa disposição é que Rilke visitara Freud na Berggasse, pela última vez, no final de 1915, pouco antes de Freud redigir seu ensaio. Sabemos ainda que o psicanalista relata esta visita a Lou pouco tempo depois, dizendo que nenhuma aliança eterna entre os dois homens poderia jamais subsistir. Foi, portanto, sob a sombra do luto da amizade do poeta que Freud decidiu ficcionalizar a cena da conversa sobre o tempo e o luto. Isso sabemos com algum grau de certeza, o resto é reconstrução. Mas a verdade não tem estrutura de ficção?

A resposta de Freud à revolta do poeta diante da transitoriedade da natureza é uma aula sobre as relações entre a libido e o luto, evocando as questões do objeto e de sua perda, principalmente se tivermos em mente o ensaio metapsicológico sobre o luto que seria publicado apenas algum tempo mais tarde. Mais do que isso: pouco se nota que Freud estende sua teoria do luto, que se aplicaria não apenas à perda de objetos como pessoas ou coisas, mas também a instituições e valores: ou seja,

Freud borra não apenas a fronteira entre psicologia individual e psicologia social, mas também entre natureza e cultura.

É claro que há diferenças de escala, magnitude e mesmo de dinâmica. Quando perdemos uma pessoa amada, é uma parte de nós, de nosso narcisismo, de nossa própria história libidinal que morre junto. Mas o mecanismo psíquico envolvido no luto da beleza de uma flor ou de uma paisagem de verão não deixa de ter semelhanças estruturais com mecanismo de luto acerca da ciência, da arte ou da política. Lição maior para tempos obscuros.

Chama a atenção ainda nesse texto o silêncio de Lou. Àquela altura, Lou era ex-amante, mas eterna musa do poeta, ao mesmo tempo em que era psicanalista e escritora, e fascinava Freud, como havia fascinado Nietzsche outrora. No ensaio de Freud, não apenas ela é qualificada de taciturna, ou seja, um predicado que evoca o caráter de quem fala pouco, mas também o afeto melancólico de quem escuta em silêncio, o que, diga-se de passagem, não condiz muito com a descrição fornecida pelos melhores biógrafos da escritora russa. A psicanalista, mulher, disfarçada em homem no relato freudiano, seria a verdadeira testemunha da disputa retórica dos dois homens, o poeta e o psicanalista, em torno da transitoriedade da beleza? Teria Freud ficado sem palavras diante do discurso de Rilke em 1913, sendo o texto que temos em mãos uma resposta a posteriori ao que escutara, talvez de modo taciturno? Não saberemos. O que

www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook