O conceito de História Christian Meier, Horst Günther, Odilo Engels, Reinhart Koselleck
Uma observação de Norbert Elias em A sociedade da corte pode servir para sintetizar a proposta de Lugar de dúvidas: “Utiliza-se continuamente a palavra ‘história’ para designar tanto aquilo sobre o que se escreve quanto o próprio escrever. A confusão é grande. À primeira vista, a história parece um conceito claro e sem maiores problemas, mas, ao estudá-la mais cuidadosamente, é que se dá conta de quantos problemas sem solução se escondem por trás dessa palavra”. A análise histórica é a prática de um ofício, e de um ofício das mais altas exigências intelectuais, que requer um conjunto de conhecimentos especializados e o domínio das teorias, dos conceitos, dos métodos e das técnicas, quase sempre provenientes das outras ciências sociais. É um ofício que supõe, portanto, processos de formação acadêmica que não podem ser suplantados pela atividade militante nem por uma atitude improvisada e aficionada – a do amateur, a do erudito local. Escrito especialmente para estudantes de História e Ciências Sociais, este breve livro tem como propósito chamar a atenção para as possíveis consequências de se encarar com ingenuidade o ofício de historiador.
Evidência da história – O que os historiadores veem François Hartog Lugares para a história Arlette Farge
Renán Silva
Oliveira Vianna entre o espelho e a máscara Giselle Martins Venancio O pequeno X – Da biografia à história Sabina Loriga Por uma história-mundo Patrick Boucheron, Nicolas Delalande Regimes de historicidade Presentismo e experiências do tempo François Hartog Conheça outros títulos da coleção www.autenticaeditora.com.br
Sobre a prática da análise histórica Breviário de inseguranças
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Renán Silva (Bogotá, 1951) estudou história na École des hautes études en sciences sociales em Paris e é doutor em História Moderna pela Universidade de Sorbonne (Paris I). Entre 1999 e 2000, foi Academic Visitor no St Antony’s College, da Universidade de Oxford. Atualmente é professor do Departamento de História da Universidade de Los Andes; dedica suas investigações à história cultural e política da Colômbia (séculos XVI-XX) e alguns de seus livros mais importantes são Prensa y revolución (2010, 3. ed.), Los ilustrados de Nueva Granada, 1760-1808 (2008, 3. ed.), República liberal, intelectuales y cultura popular (2005), Sociedades campesinas, transición social y cambio cultural (2006) e A la sombra de Clío (2007).
LUGAR DE DÚVIDAS Sobre a prática da análise histórica Breviário de inseguranças Renán Silva COLEÇÃO HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA
Quais e de que natureza são as operações que fazem com que o ofício do historiador não seja uma prática espontânea? Quais as consequências da caracterização do trabalho histórico como fruto apenas da escrita? Se considerarmos autores como Georges Duby, Michel Foucault, Jonathan Spence ou Carlo Ginzburg, cujos livros conjugam um denso trabalho de erudição, formas criativas de emprego da linguagem e um uso pouco convencional da imaginação histórica, torna-se pertinente a divisão entre um campo marcado pelo prazer, pela imaginação e pelo requinte da escrita, como o da ficção, e outro encerrado num insosso “apego positivista ao método, aos fatos e à realidade”? Essas são interrogações feitas por Renán Silva neste pequeno livro, que, com posicionamentos seguros, enfrenta também outros temas complexos, como a controversa delimitação da história do tempo presente como campo autônomo, o privilégio conferido à violência do século XX como base de leituras catastróficas das histórias latino-americanas e os supostos riscos de instrumentalização da historiografia por análises que, excessivamente centradas na formação de minorias, seriam pouco críticas aos condicionantes do seu próprio discurso. Num texto breve, mas com profundidade, Renán Silva sugere que a reflexão sobre a própria prática deve ser parte constitutiva do ofício do historiador, nem sempre atento à complexidade das operações que efetua ao colocar em questão interpretações naturalizadas sobre o passado, produzindo um estranhamento em relação à experiência vivida. Trata-se, portanto, de referência relevante a todos aqueles que se interrogam sobre as potencialidades e os limites dessa difícil tarefa.
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ISBN 978-85-8217-622-1
9 788582 176221
Douglas Attila Marcelino Professor de Teoria da História e História da Historiografia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Coleção
HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA Coordenação
Eliana de Freitas Dutra
Renán Silva
Lugar de dúvidas Sobre a prática da análise histórica Breviário de inseguranças
Tradução
Cristina Antunes
Copyright © Renán Silva Copyright © Universidad de los Andes Copyright © 2015 Autêntica Editora Título original: Lugar de dudas: Sobre la práctica del análisis histórico – Breviario de inseguridades
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revisão
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Lúcia Assumpção
editora responsável
capa
Rejane Dias editora assistente
Alberto Bittencourt (Sobre foto de Beverett / IstockPhoto)
Cecília Martins
diagramação
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Jairo Alvarenga Fonseca
Diogo Droschi revisão da tradução
Vera Chacham
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Silva, Renán Lugar de dúvidas : sobre a prática da análise histórica : breviário de inseguranças / Renán Silva ; tradução de Cristina Antunes. -- 1. ed. – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2015. (Coleção História e Historiografia, 13) Título original: Lugar de dudas : Sobre la práctica del análisis histórico –
Breviario de inseguridades ISBN 978-85-8217-622-1 1. Ciências sociais 2. História 3. Historiografia I. Título. 15-03802
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Submeter a própria doença ao arado. F.N. A transferência faz parte do objeto. S.F. Creio que há algo de verdade quando considero que, falando no sentido estrito, meu pensamento é só reprodutivo. Creio que nunca inventei um movimento de pensamento, sempre me foi proporcionado por outra pessoa. A única coisa que fiz foi me apropriar dele em seguida e com paixão para minha tarefa de esclarecimento. L.W. Em consequência disso... este ensaio é um prefácio do início ao fim. Qualquer especialista que espere mais ficará decepcionado. B.M.*
Indiquemos de uma vez a origem das epígrafes utilizadas. A ideia de “submeter a própria doença ao arado” pertence a Nietzsche, que a repetiu em muitíssimos de seus textos. A ideia de arado e de doença, assim como sua conjuntura, aparece comentada de maneira ampla em Gilles Deleuze (1976). Que a transferência faça parte do objeto é, como se sabe, um tema central do pensamento de Freud e agrega novas complexidades à ideia puramente racionalista das relações entre objeto e sujeito no campo da ciência. A frase de Wittgenstein que tirou uma gota de seu contexto é simplesmente uma forma estilizada, meio encoberta, de agradecer aos meus professores, por todos os seus ensinamentos. Nesta ocasião, encontrei o texto, que já conhecia, em Jacques Bouveresse (2006). B.M. são as iniciais de Benoit Mandelbrot, um dos pensadores mais singulares que alguém pode encontrar, e a frase que cito foi tirada das páginas iniciais de Maldelbrot (1997), e aqui somente indica o caráter provisional e inconcluso destas observações.
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Apresentação
Pós-modernismo e desestruturação de um ofício
Moda: Senhora Morte, senhora Morte. Morte: Espera que seja hora e virei sem que me chames. Leopardi1
Bem no início do século XX, Norbert Elias produziu uma das críticas mais radicais (e paradoxais) da forma dominante de praticar a análise histórica na Europa, em finais do século XIX e princípios do século XX. O ponto principal da crítica de Elias tem a ver com o que hoje, de maneira usual, chamamos de a autonomia do conhecimento científico, ou seja, sua capacidade de se separar dos juízos de valor e das opiniões mais correntes e impensadas que habitam a imaginação de uma sociedade em um determinado momento, e de produzir elementos de conhecimento que estabeleçam alguma distância e diferença – mínimas, pelo menos – em relação às versões que os grupos e os indivíduos de uma sociedade determinada oferecem sobre essa história, quando a consideram a partir de seus interesses particulares e de suas memórias e identidades de grupo.2 Giacomo Leopardi [1824]. Cf. uma tradução recente de Carolina Zapata Vidal (2004). Walter Benjamin gostava de citar em muitas ocasiões a primeira linha do texto. Cf., por exemplo, Paris, capital del siglo XIX, El libro de los paisajes (2013, p. 61), mesmo que seus tradutores tivessem preferido traduzir “Dona Morte” e não “Senhora Morte”, colocaram a frase em forma exclamativa e intitularam o texto como “Diálogo entre Muerte y Moda.”
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Norbert Elias [1933 para a edição inicial, 1969 para a primeira edição alemã] em Elias (2001, p. 27-59). Uma versão do problema da autonomia do conhecimento tão crítica como a de
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Lugar de dúvidas – sobre a prática da análise histórica
Elias assinalou nessas páginas, que ainda são lidas com interesse por sua pertinência ao presente – e penso agora, antes de tudo, na historiografia colombiana –, que a análise histórica seguia sendo um saber caracterizado por uma escassa “autonomia como ciência”, entre outras coisas, pelo próprio peso do presente sobre suas análises, já que esse presente, à maneira de um enorme anacronismo, permeava toda consideração sobre o passado da sociedade, o que fazia com que boa parte da análise fosse, antes de tudo, valorações impostas ao passado a partir do presente e, inclusive, a tradução encoberta de opções puramente políticas ou religiosas dos investigadores – reproduzo com muita proximidade as palavras de Elias.3 O grande sociólogo alemão acrescentava, além disso, que o trabalho dos historiadores – e ele devia estar pensando nos historiadores alemães e franceses de sua época e da geração anterior – mostrava uma grande dificuldade para ligar teorias – modelos e hipóteses – e trabalho empírico. Como disse Elias, os historiadores “carecem de quadros de referência cientificamente elaborados e verificáveis”, acrescentando, umas linhas adiante, a afirmação de que a análise histórica mostrava também, de maneira complementar, uma grande dificuldade para acumular conhecimentos e para incorporar o trabalho das gerações anteriores sobre seu próprio presente. Todo esse duro juízo – que acima chamamos de paradoxal – ia acompanhado por uma avaliação positiva do trabalho de Leopold Von Ranke (e, por essa via, do positivismo, esse gigantesco avanço do conhecimento que na segunda metade do século XX foi convertido
Elias, porém talvez mais elaborada em termos conceituais, é a de Pierre Bourdieu (2003). Assinalemos de uma vez que sempre que fazemos citações textuais precisas e amplas damos as páginas respectivas; o caso contrário quer dizer que o que invocamos com a referência é mais o “espírito” da obra. Deixemos estabelecido também que, nos casos em que não se cita o ano da edição original da obra que se referencia é porque tal omissão não rompe com nenhuma das regras documentais da análise histórica, ou seja, que se trata de um caso em que não é necessário tal esclarecimento. E sobretudo deixemos indicado de maneira explícita que nenhuma das referências que serão vistas adiante tem um caráter autoritário. Todas remetem a leituras, efetivamente realizadas, que não são mais que possibilidades e caminhos tentados e em nenhum caso cânone nem ortodoxia. Se às vezes o leitor jovem pode encontrar algumas dessas referências pouco habituais, que esse fato sirva para recordar de que maneira o “pensamento único” se apoderou das referências universitárias das três últimas décadas das ciências sociais como se fosse a única possibilidade existente. ELIAS, 2001, p. 27.
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Apresentação
na bête noire de todos os ceticismos e subjetivismos. Elias citará de maneira aprobativa – mas mantendo sua atitude crítica – um parágrafo sobressalente de Ranke extraído de seu Diario. São palavras que vale a pena citar in extenso: A história se parafraseia continuamente... Cada época e sua tendência principal se apropriam e transferem a ela suas próprias ideias. Depois disto se faz a partilha dos louvores e dos vitupérios. Então, tudo é impulsionado para tão longe, que já não se conhece em absoluto a própria realidade. A única coisa útil nesse momento é voltar à informação original.4
As palavras de Ranke são eloquentes e reveladoras, e ajudam a dar a conhecer seu contexto à ideia tão criticada de conhecer a realidade tal como ela foi, um enunciado nem sempre bem compreendido em cuja análise se tomou o caminho fácil de acusar Ranke de abdicação, perante toda a tarefa interpretativa, e de servidão, diante do que narram os documentos. Dessa maneira, deixou-se de lado o que pode ser mais importante na formulação de Ranke, ou seja, o que se relaciona com a ideia da cultura documental como conquista da civilização intelectual, o que lembra que a conquista da erudição no mundo acadêmico foi um ganho intelectual de que não vale a pena se desprender, pelo menos no campo da análise histórica – e isso apesar de seus inevitáveis pesos).5 Além disso, a observação de Ranke citada por Elias apresenta a própria conjuntura historiográfica em que Ranke propôs seu trabalho e que na opinião do sábio alemão exigia deixar de lado um universo de interpretações preconceituosas e lugares comuns, através do único caminho que o tornava possível nesse momento: a volta às fontes, para usar as palavras do velho ideal renascentista; ou como disse Ranke, “A única coisa útil nesse momento é voltar à informação original”.6
ELIAS, 2001, p. 25. O texto de Ranke (de Hojas de Diario, 1831-1849) citado por Elias termina da seguinte maneira: “Mas sem o impulso do presente, porventura seria estudada? É possível uma história completamente verdadeira?”.
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Cf. a respeito Anthony Grafton (1998).
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Sem dúvida, Elias não aprova a ideia de Ranke de que a volta às fontes, por si mesma, soluciona os problemas da análise histórica, mas agradece a Ranke por relacionar os documentos com os elementos de prova e argumentação no conhecimento histórico e ter favorecido a criação do espaço em que se faz possível propor a pergunta de se “os documentos, as fontes originais
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Mas Ranke disse muito mais, e o disse de maneira explícita. De acordo com sua maneira de ver as coisas, os historiadores, sob a pressão do presente, se dedicam antes de tudo a repartir elogios e vitupérios, a exaltar ou a condenar segundo suas próprias apreciações políticas, a apoiar esta ou aquela facção; e enquanto o estudioso acredita narrar, na realidade se dedica a tecer juízos de valor, embora esconda seus valores em uma ou várias citações documentais, que não mudam nada quanto ao domínio que o comentário exerce sobre a análise. Isso quer dizer que na análise histórica, de maneira prática e dominante, os agrupamentos extracientíficos, os partidos e os ideais com os quais o investigador individual se identifica em sua própria sociedade determinam, em grau considerável, o que obtém das fontes primárias que consulta, às vezes sob uma intenção apologética aberta, às vezes sob uma forma velada, às vezes sem que o praticante do ofício o perceba.7 A crítica de Elias/Ranke – que aqui só recordamos de maneira breve – poderia ser vista simplesmente como um exemplo de um tempo longínquo em que as coisas eram feitas desse modo, momento superado em nosso presente e momento em via de superação quando o próprio Elias apresentou sua crítica. Não nos esqueçamos de que cinco anos antes dois professores da recém-reorganizada Universidade de Estrasburgo haviam decidido marchar para Paris levando com eles uma forma nova de entender os problemas da análise histórica, de investigar e de escrever história; um programa de trabalho que, a partir da revista Annales, se converteria num pilar da transformação da investigação histórica no século XX, o que em aparência quer dizer que, em grande medida, a crítica não competia senão ao setor mais conformista dos que se dedicavam ao trabalho de historiador.8 de informação, são a substância da análise histórica” ou não – como se sabe, a resposta de Elias é negativa, como o é a resposta das ciências sociais frente a seus dados e a da análise histórica frente a seus documentos (ELIAS, 2001, p. 25-27). ELIAS, 2001, p. 25. Em uma época de tanta militância gratuita, que não distingue entre obrigações de ciência e obrigações cidadãs, reiteramos a posição de Elias sobre este ponto: “as valorações e ideais habitualmente transitórios que se derivam das agudas controvérsias de uma época, servem como substitutos [na análise histórica] de teorias relativamente autônomas e de modelos de relações verificáveis e passíveis de revisão a respeito da aquisição de um saber particular novo” (ELIAS, 2001, p. 28).
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É preciso repetir que as coisas estavam mudando a uma velocidade surpreendente na cultura franco-alemã desde finais do século XIX. No caso alemão, Elias conhece em detalhe a crítica
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Apresentação
É possível que as coisas sejam assim e que a crítica de Elias começasse a ser superada no próprio instante em que era formulada – por isso designamos essa crítica como paradoxal. No entanto, não há dúvida de que essa crítica caracteriza bem uma forma de trabalho largamente estendida até hoje no campo dos historiadores. Não se deve esquecer que essa forma de fazer funcionar a análise histórica em uma sociedade não desapareceu, apesar de que possa ter sido criticada pelo trabalho de renovação da análise histórica, analítica, documentada e construída na relação com as modernas ciências sociais. No caso colombiano – e em geral no da América Latina, embora as cronologias não sejam sempre exatamente as mesmas e às vezes os hiatos temporais sejam extremos –, a melhora dos estudos históricos, que na Colômbia tem um ponto de inflexão visível em princípios dos anos 1960 e um momento culminante em finais dos anos 1970, provaria que desde então a liquidação das velhas formas de fazer história é um fato consumado e que a crítica de Elias poderia passar ao campo da análise arqueológica, como lembrança de um passado que foi. De fato, teríamos, de certa forma, mais de meio século de uma evolução historiográfica sem interrupções – ainda que com um ou outro pequeno sobressalto, naturalmente –, o que nos converteria em um bastião da análise histórica metódica, rigorosa, imaginativa, exemplo para qualquer outra comunidade historiográfica, e, além do mais, o que estaria em relação com essa grande expansão que a atividade acadêmica conheceu no campo da História: aparecimento de novos departamentos universitários de História, de novos programas de formação – incluídas as formações doutorais –; existência de revistas de alta classificação nos rankings; e certa circulação internacional do professorado – dos quais a maior parte possui hoje um título de doutor e, em alguns casos, certificados de pós-doutorado regularmente obtidos em universidades do chamado Primeiro Mundo.9 weberiana das ciências puramente ideográficas e a formação do campo das ciências da cultura, em cuja evolução, e com um acento muito particular, participa. Cf. Norbert Elias (1995). Para o caso francês, sobre esses pontos, cf. Lucien Febvre (2009). Febvre, como Bloch, insistiu na importância do período de Estrasburgo e das relações com os sociólogos durkheimianos – especialmente com Maurice Halbwchs –, com os psicólogos e com os linguistas. O tema das revistas (e demais publicações) dos departamentos de História das universidades pode servir para ilustrar essa particular inversão entre meios e fins que, sob a pressão dos
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A ideia que atravessa este trabalho é que, depois do curto verão que constituiu esse fenômeno desigual, designado na Colômbia como nova história (c. 1960-1980), a maior parte de suas conquistas incipientes caiu por terra, pois, ante o domínio crescente do pós-modernismo em todas as suas variantes – constituído na ideologia dominante nos estudos históricos colombianos nos últimos trinta anos –, não houve o tempo nem a decisão necessários para haver fundamentado uma tradição de estudos históricos que pudesse resistir à avalanche da academia estadunidense, principal expoente de todos os giros linguísticos, semióticos, visuais, espaciais, etc., havidos e por haver. Uma avalanche cuja consciência sobre seus efeitos destruidores somente nos anos recentes parece existir no que se refere ao que se acumulou de saber e de saber fazer, que havíamos recebido como legado da dezena de bons historiadores colombianos que deixaram uma lição de imaginação e maturidade que hoje parece tão distante.10 As mudanças advindas tiveram, certamente, várias fontes e possuem aspectos positivos que aqui não ressaltamos, e não é preciso acreditar que dessa modificação se possa fazer uma análise simples, mono-causal, ideia a que poderia induzir o título desta introdução. Quis somente indicar um dos elementos dessa alteração, e vou fazê-lo recorrendo a uma formulação de Michel De Certeau, um autor que circulou de maneira significativa nestes anos nas escolas de história da Colômbia. Faço-o não sistemas de acreditação e de ranking internacional, terminaram sendo aceitos sem nenhuma discussão. O grande esforço de seus editores tem a ver não com a qualidade dos textos que publicam nem com a possibilidade de produzir debates historiográficos de significação, mas com o cumprimento das condições que demandam as agências de acreditação, sejam nacionais ou estrangeiras. Do lado dos autores o principal é que seus textos sejam incluídos em revistas de alta acreditação e, oxalá, que sejam publicados em inglês e nos Estados Unidos, sem que importe muito a pertinência e significância da matéria investigada. Do lado dos avaliadores universitários dos produtos de seus docentes, o essencial é o meio de publicação, sem importar a novidade ou trivialidade das ideias ou dos argumentos que são expostos. Mais de meio século depois de ter se iniciado o processo de mudança dos estudos históricos na Colômbia – mudança que tentou colocá-los em dia com o que há muito tempo se fazia na Europa e em outras partes do continente – e há mais de três décadas da publicação do Manual de historia de Colombia (dir. de Jaime Jaramillo, 1978-1980) –, já se pode observar com tranquilidade a importância cultural do acontecimento e seu apenas relativo alcance intelectual. Ao que parece, se fez o melhor que se pôde, e a releitura da obra convence de seus achados, mas também informa acerca de suas limitações – por exemplo, nos textos sobre história da arte, da arquitetura ou da educação, ainda mal encaminhados para sua época – e de suas notáveis ausências; por exemplo, uma história da religião católica e do processo de evangelização, as duas grandes forças que modelaram a sociedade a longo prazo, ao lado da monarquia, um tema igualmente descuidado.
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Apresentação
porque o brilhante historiador que foi De Certeau seja o responsável pelo que é uma situação mais propriamente municipal e corporativa, mas sim porque me ajuda a sintetizar a ideia de desestruturação de um ofício. Em seu importante livro A escrita da história, no capítulo “A operação historiográfica”, De Certeau apresentou um esquema geral constituído por três dimensões, as quais são básicas para analisar a maneira como a análise histórica funciona em uma sociedade e como funciona a própria análise histórica.11 Segundo o autor, a operação historiográfica se sustenta sobre três grandes pilares. Em primeiro lugar, trata-se de um lugar social – o que corresponde à análise da instituição histórica, suas academias, suas associações, seus lugares de formação, suas formas de recrutamento; um terreno conhecido e frequentado por aqueles que se interessam pela sociologia do conhecimento histórico. Em segundo lugar, trata-se de uma prática, e estritamente uma prática de ciência, de um trabalho de transformação de enunciados que começa com a determinação de um tema – o que acontece no marco de uma agenda de investigação que é socialmente determinada desde o princípio, pois, como disse De Certeau, a “instituição permite e proíbe” – e com a construção de um corpus no âmbito de um arquivo. Como indica De Certeau, a análise histórica não começa “com a palavra nobre da interpretação” e concebê-la dessa maneira equivale a convertê-la, finalmente, “em uma arte de dissertar que apagaria os rastros de um trabalho”, de um trabalho que sob sua materialidade – aquele que fazemos no arquivo e com o arquivo – não deixa de ser um trabalho conceitual, com uma forte carga epistemológica ligada às artes da construção de uma demonstração e da administração de uma prova.12 Em terceiro lugar, a análise histórica é um exercício de escrita, o que a vincula com a retórica e a crítica literária – embora fosse preciso considerar com cuidado a ideia de De Certeau de que a análise histórica é uma “encenação literária”,13 o que introduz de início um elemento de confusão, pois nem toda narrativa constitui um exercício literário, ainda que se relacione com figuras de linguagem e metáforas.
Michel de Certeau [1974] 1982, p. 56-104 (há tradução para o castelhano).
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DE CERTEAU, 1982, p. 70.
12
DE CERTEAU, 1982, p. 88.
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Lugar de dúvidas – sobre a prática da análise histórica
Não há dúvida de que uma das mais significativas contribuições da perspectiva pós-moderna – e nesse ponto De Certeau é de maneira muito precisa devedor de Roland Barthes14 – tem a ver com esta revelação da linguagem e, de maneira muito particular, da retórica; uma verdade esquecida mas conhecida desde a Grécia e desde Roma, um momento da operação historiográfica do qual não desaparece, como se crê, em serviço da escrita, nenhuma das exigências lógicas da análise histórica. Assim De Certeau o indica de maneira expressa quando fala da viagem “do arquivo ao texto”, da “inversão da escrita” – são suas palavras – e dos problemas cronológicos tal como aparecem no momento da escrita – embora tivesse podido acrescentar problemas mais delicados que abordou em outros momentos, como o do eu que narra e o delicado assunto dos tempos verbais na construção de um relato histórico, para citar somente o que é matéria conhecida. O que me interessa ressaltar, sem dúvida, não tem relação com os fundamentos das teorias pós-modernas em história ou em filosofia ou em antropologia – esse não é o objeto deste texto.15 O que quero assinalar refere-se, de maneira exclusiva, com uma forma perversa de apropriação de uma proposta historiográfica – cujos fundamentos não discutimos aqui –, o rasgão produzido em um dispositivo quando este foi despojado de sua complexidade e transformado de maneira redutora em um só dos elementos: a escrita, de resto, sem nenhum exame crítico.16 Cf. Roland Barthes (1967, p. 65-75), citado em múltiplas oportunidades por De Certeau neste contexto e, em geral, de maneira aprobativa.
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A bibliografia sobre este ponto do giro linguístico pós-moderno e os estudos históricos é enorme e creio que já deve ser difícil de manejar – embora em alguma parte deva ter sido publicado ou estar em via de publicação um handbook sobre o tema. De minha parte, só assinalo os bons e numerosos livros sobre o assunto de Fredric Jameson, um crítico atento porém equilibrado em relação a essas novidades. Cf., por exemplo, Jameson (1999), que, além do mais sabe distinguir com exatidão entre as filosofias pós-modernas – a matriz das diversas estruturas culturais, a partir de uma forma de ligar a vida social e a linguagem – e a sociedade pós-moderna, que é uma maneira de designar algumas das evoluções mais significativas do velho capitalismo depois da Segunda Guerra Mundial, tanto nas sociedades ricas e tecnologicamente avançadas como nas pobres e atrasadas, todas vinculadas agora no âmbito da sociedade global. Sobre as evoluções precisas de Hayden White, o expoente público mais reconhecido da redução da análise histórica (a imaginação histórica) a matrizes retóricas identificáveis, cf. White (2010).
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É notável que na Colômbia, e em geral na América Espanhola, não haja exames analíticos cuidadosos de um autor como De Certeau, a quem se invocou e citou tanto nos últimos anos – um autor do qual também as instituições universitárias dos jesuítas, em sua vertente pós-moderna, fizeram uma de suas cartas fortes. A recopilação Relecturas de Michel de Certeau (1925-1986), sob
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Apresentação
É surpreendente, para dizer o mínimo, que quem foi um teórico da prática social e cultural – como o foi Pierre Bourdieu, embora com suposições de análise diferentes –, quem criou a expressão tópica de a invenção do cotidiano e falou repetidamente das artes de fazer no estudo sobre a vida popular, quem elaborou uma das mais radicais teorias das formas diferenciais de apropriação, quem deixou em sua oficina de elaboração a ideia essencial de práticas sem discurso – uma crítica visível do intelectualismo dos analistas do discurso – e quem se apoiou, para boa parte de seu trabalho, nas correntes linguísticas mais próximas da pragmática – de fato queixou-se por suas indecisões para avançar do enunciado à enunciação e o interrogou sobre o lugar de uma história social dos prisioneiros em Vigiar e punir, para além do mundo dos dispositivos benthamianos – tenha terminado sendo uma figura emblemática da redução da análise histórica à escrita – que é só uma de suas dimensões – e, por essa via, um dos supostos sustentáculos da redução da realidade social às realidades linguísticas, e que seja visto hoje como hoje como o aparente suporte da retórica abundante e exacerbada da grafia. Em todo caso, sobre a base da escassa tradição de trabalho no campo dos estudos históricos na Colômbia, os efeitos da redução da análise histórica à escrita têm sido fortemente empobrecedores e desestruturadores do ofício de historiador. De um lado, essa insistência permitiu o exercício do ofício de historiador de uma maneira que favoreceu a permanência da ilusão de que se trata de uma atividade que se realiza por fora de todos os condicionantes sociais que pressionam o trabalho dos historiadores e as agendas temáticas de pesquisa. Tem sido deixada de lado toda a reflexão sobre o que De Certeau chamou de análise de um lugar social, ou, para dizer de maneira mais precisa: pensa-se que a análise da instituição histórica é um tema puramente histórico que nada tem a ver no presente com nossa atividade de historiadores com a qual se ampliou o campo do não pensado pelos
a direção de Carmen Rico de Sotelo (2006), parece renunciar de saída a todo espírito crítico e se dedica a “reverenciar” o pai De Certeau. Para um balanço geral sem tom de apologia, cf. Éric Maigret (2000, p. 511-549); e sobre pontos muito concretos da análise (como as artes de fazer), cf. Roger Chartier (1998, p. 161-172). Para o estudo do notável caso – em termos conceituais e culturais – de apropriação perversa do pensamento francês nos Estados Unidos, cujas consequências sofremos de maneira especialmente passiva nas universidades satélites do chamado Terceiro Mundo, cf. o informado livro de François Cusset (2005).
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Lugar de dúvidas – sobre a prática da análise histórica
historiadores – o caráter social de sua atividade –, quando se trata de um elemento constitutivo de sua prática. Por outro lado, e isso pode haver trazido efeitos piores, a redução da análise histórica a um de seus elementos significou que todos os aspectos que no trabalho dos historiadores se relacionam com as formas de demonstração, com as maneiras de construção de um argumento, com as modalidades de produção de um contexto, com os efeitos de sobreintepretação e dramatização (tão claros na historiografia colombiana), em uma palavra, com todos os recursos que reclamam a perspectiva da epistemologia e o recurso às operações lógicas, como formas de controle da operação historiográfica, foram descartados na investigação e no ensino, e, em grande medida, se converteram em reflexões e exigências alheias e exteriores ao nosso ofício, o que terminou debilitando em alto grau o que hoje se oferece na vida universitária como produto da análise histórica. Essa situação é a que devemos enfrentar hoje, não para restaurar nenhum velho programa de investigação de uma pretendida idade de ouro – que nunca existiu –, e menos ainda para reivindicar um “marxismo” que tem pouco a oferecer, mas sim para avançar em direção a formas mais complexas da análise histórica, mais de acordo com as necessidades do conhecimento histórico e, é preciso dizê-lo, mais de acordo com as expectativas de cidadãos em formação numa sociedade que, do ponto de vista intelectual, se moderniza tão lentamente. Cidadãos que continuam sendo tratados como crianças, para quem seria suficiente repetir todas as mitologias da memória histórica, que é, atualmente, juntamente com o étnico – o racial disfarçado –, o ancestral e a ideia de vítimas eternas das elites e do controle social, a roupa nova do imperador, o traje do velho nacionalismo histórico criollo, a mais constante tradição de análise histórica que a Colômbia já teve. É por isso que a crítica de Norbert Elias é tão pertinente, em um momento em que pressões de índole diversa debilitam toda a autonomia do conhecimento histórico, coagido a se converter em uma explicação imediata do presente em relação às suas próprias dúvidas, vacilações, lacunas e impasses. Esse é um ponto importante em um momento em que, por diversas esquinas da praça principal – a do poder –, se anuncia uma reinterpretação – em curso – da história da sociedade colombiana.
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