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Lima Barreto por jovens leitores

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FERNANDA FREITAS|VAGNER AMARO (ORGS.)


FERNANDA F RE I TAS VAGN ER A MARO (ORGS. )

LIMA BARRETO por jov ens l eitores


Copyright © 2013 Os organizadores Copyright © 2013 Autêntica Editora PROJETO GRÁFICO DE CAPA E MIOLO: Diogo Droschi (sobre imagens de Jhonatan Otto e Carolyne de Melo) ILUSTRAÇÕES DE MIOLO: Jhonatan Otto (página 87); Carolyne de Melo (páginas 11, 19, 35, 49, 55, 63, 75) DIAGRAMAÇÃO: Waldênia Alvarenga Santos Ataíde REVISÃO: Lúcia Assumpção e Fernanda Freitas

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO presidente do conselho nacional

diretor geral do departamento nacional do sesc

Antonio Oliveira Santos

Maron Emile Abi-Abib

ESCOLA SESC DE ENSINO MÉDIO coordenação de códigos e linguagens

direção

Luiz Fernando de Moraes Barros

Claudia Fadel

coordenação da biblioteca

gerência pedagógica

Vagner Amaro

Ines Paz Senra

Os contos publicados neste livro foram extraídos do livro: BARRETO, Lima. Contos completos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lima Barreto : por jovens leitores / Fernanda Freitas, Vagner Amaro (orgs.). -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2014. Vários colaboradores. ISBN 978-85-8217-370-1 1. Barreto, Lima, 1881-1922 2. Contos brasileiros 3. Escola Sesc de Ensino Médio 4. Leitores 5. Leitura 6. Literatura - Estudo e ensino I. Freitas, Fernanda. II. Amaro, Vagner. 13-13866

CDD-807

Índices para catálogo sistemático: 1. Clube de Leitores da Escola Sesc de Ensino Médio : Contos : Literatura brasileira : Estudo e ensino 807

AUTÊNTICA EDITORA LTDA. Belo Horizonte

São Paulo

Rua Aimorés, 981, 8º andar . Funcionários 30140-071 . Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214 5700

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Televendas: 0800 283 13 22 www.autenticaeditora.com.br


7 PREFÁCIO POR LÚCIA BETTENCOURT

9 APRESENTAÇÃO POR FERNANDA FREITAS E VAGNER AMARO

11 O CEMITÉRIO POR BRUNA VILANOVA

19 UM E OUTRO POR VINÍCIUS AGOSTINHO

35 O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS POR DANIELLI COSTA

49 O ORÁCULO POR SAELLY MATOS

55 ADÉLIA POR JOSELITO PRADO

63 UM MÚSICO EXTRAORDINÁRIO POR CAROLYNE DE MELO

75 QUASE ELA DEU O “SIM”; MAS..., POR MARIANA CASELLI

85 O PECADO POR JHONATAN OTTO

91 SOBRE LIMA BARRETO POR FERNANDA FREITAS E VAGNER AMARO


PREFÁCIO Boas ideias levam a boas leituras LÚCIA BETTENCOURT

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saudoso Moacyr Scliar sabia contar histórias como ninguém. Dele me lembro bem de um texto: “O conto se apresenta”. Nessa história, escrita supostamente pelo próprio “conto”, ele diz que surgiu como narrativa oral com a missão de afastar os medos da noite escura e os mistérios do desconhecido. Seria, então, nossa primeira forma de conhecer o mundo e de transmitir esse conhecimento, sedimentando a ideia de pertencimento a um grupo social. O projeto desenvolvido pelos orientadores do Clube de Leitores da Escola Sesc de Ensino Médio tem essa percepção: se ler individual e silenciosamente é apropriar-se de um novo mundo, ler comunitariamente é dividir esse novo mundo com o grupo, ampliando o conhecimento de todos e estreitando os laços entre seus componentes. O projeto se sedimenta, já em seu segundo livro. O primeiro trouxe histórias de Machado de Assis e este traz as de Lima Barreto — autores da virada do século XIX para o XX. Machado e Lima são diferentes como suco de caju e picolé de limão. Um tem o travo desencantado do humor irônico, o outro tem o azedinho estimulante da malandragem desvelada. Ambos são deliciosos, refrescantes, nutritivos e… implacáveis. Muitas vezes o aluno não é, ele mesmo, um leitor espontâneo. O exemplo e o incentivo de um outro, que o seja, desperta o colega 7


para as novidades e os prazeres da leitura. Assim, Bruna Vilanova procura levar seus amigos à leitura de O cemitério, falando da desigualdade social que Lima Barreto, ele mesmo vítima dessa desigualdade, desvela. Já Vinícius Agostinho, ao ler Um e outro, apela às revelações dos segredos da alma, diagnosticados pelo autor de modo a que os leitores tirem suas próprias conclusões. Danielli Costa relembra, no convite à leitura de O homem que sabia javanês, que a malandragem pode funcionar como única saída para a “correção” das desigualdades numa sociedade fraturada e doente. Saelly Matos chama nossa atenção para o questionamento da religiosidade supersticiosa e para a crítica à falha na formação cultural do brasileiro em O oráculo. Joselito Prado enfoca o papel da mulher numa sociedade machista, agravada pelas falhas assistenciais e do sistema de saúde, em Adélia. Já em Um músico extraordinário, Carolyne de Melo destaca o estilo literário como instrumento de reflexão: em vez de interpretar, a revelação dos fatos é que leva à desconstrução do mito de genialidade artística. Em Quase que ela disse sim, mas…, Mariana Caselli consegue perceber o jogo de interesse por trás do casamento, que passa bem longe do idealismo amoroso. No derradeiro conto da coletânea montada pelo Clube dos Leitores, O pecado, Jhonatan Otto coloca o dedo na ferida do preconceito racial. Nem os mais santos escapam: o preconceito é odioso, pois mesmo a vida mais ilibada e pura não é valorizada se o indivíduo comete o “pecado” de não possuir (a cor) (a religião) (a origem) (––––) certa. Agradeço a esses leitores que me convidaram a reler Lima Barreto e que me mostraram a relevância que estas obras, escritas há quase um século, ainda possuem. Elas ampliam nossa consciência e nos estimulam a melhorar uma sociedade que já caminhou bastante em termos de consciência social, mas que ainda precisa de leituras críticas para não nos levar de volta às situações que o conhecimento e a reflexão permitem evitar.


APRESENTAÇÃO FERNANDA FREITAS VAGNER AMARO

T

radicionalmente, a leitura literária está relacionada a um ato solitário de imersão nos conteúdos do texto. A cultura de ler de maneira solitária e silenciosa garante uma relação orgânica e enriquecedora com o texto, ao ponto de encontrarmos representações culturais da leitura como a apropriação de um novo mundo. Tal prática, no entanto, se distancia das culturas orais em que grupos se formavam para contar e ouvir histórias. Nesta coletânea, apresentamos o resultado de uma experiência que destaca as potencialidades da leitura em grupo, permitindo a ampliação de conhecimentos por meio da troca de impressões sobre o texto lido. Nesse sentido comunitário da leitura é que o Clube de Leitores da Escola Sesc de Ensino Médio está inserido. Em encontros com duração de 50 minutos, textos curtos da Literatura em Língua Portuguesa são compartilhados e aprofundados. Os mediadores são professores e bibliotecários, que selecionam os textos e funcionam também como guias para a ampliação do olhar sobre o que se lê. Os objetivos são divulgar o acervo da biblioteca da escola, pluralizar o repertório de leitura dos alunos e torná-los mais críticos sobre o que leem dentro ou fora do clube. No repertório de leitura, visitamos textos de autores como Miguel Sanchez Neto, Sérgio Sant’Anna, Machado de Assis, João do 9


Rio, Fabrício Carpinejar, Bernardo Carvalho, Heloisa Seixas, João Guimarães Rosa, Moacyr Scliar, Lima Barreto, Monteiro Lobato e João Anzanello Carrascoza, entre outros. No ano 2011, como resultado da oficina, a Escola Sesc de Ensino Médio publicou, pela Autêntica Editora, o livro Machado de Assis por Jovens Leitores, no qual os alunos reproduziram a metodologia de apresentação dos textos e convidam para a leitura. A publicação se tornou parte do repertório de leituras dos alunos da primeira série da Escola. O segundo volume deste trabalho baseia-se no mesmo propósito de promover a literatura de um autor não contemporâneo através do olhar do jovem leitor. Os jovens autores fazem um convite para que conheçamos a obra de Lima Barreto e revelam suas impressões de leitura. Assim, acreditamos aumentar a comunidade de leitores do clube. Reiteramos o convite de nossos alunos para que se leia mais e melhor, cada vez com menores preconceitos, a vasta e rica produção literária existente em Língua Portuguesa.

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LIMA BARRETO por joven s leitore s


O CEMI T ÉR IO por Brun a Vilan ova

Afonso Henriques de Lima Barreto: mulato, órfão, cresceu em um Brasil que tinha acabado de se livrar das amarras doloridas da escravidão. Se olharmos sob o seu ponto de vista, um sem-número de críticas à sociedade devia povoar seu pensamento. Tais anseios transbordavam de seu corpo e mente e, por meio da caneta, Lima Barreto dava voz às suas ambições numa literatura engajada social e politicamente. Em “O cemitério”, o autor nos apresenta uma sociedade muito semelhante à nossa: há pessoas que chamam mais atenção, outras que recebem pouco prestígio social. Todas estão sempre se acotovelando pelas vielas estreitas da vida para alcançar um patamar acima daquele onde estão. A comunidade retratada no conto, porém, se difere daquela em que vivemos em um aspecto: trata-se de um cemitério, com suas lápides majestosas e querubins imponentes. É por lá que anda nosso protagonista. A linguagem fluida e sua temática crítica permitem a nossa identificação imediata com o personagem. Mesmo escrito no século passado, o conto se faz original em todos os aspectos, proporcionando uma leitura fresca e permitindo o diálogo imediato com os nossos tempos. Ao terminar a leitura, percebemos que não ficaríamos surpresos se a história tivesse acontecido ontem mesmo, num pequeno cemitério de nossa cidade. Em muitos âmbitos, a obra pode se comunicar com nossa vida. Afinal, somos mesmo caminhantes de uma estrada longa, estamos sempre à 13


espreita daqueles que não nos observam e travamos uma competição insana para chegar ao topo de tudo. Mesmo na sociedade defeituosa em que vivemos — a qual é espelhada pelo cemitério do conto —, às vezes nos prendemos àqueles que nos trazem um pouco de lucidez e clareza. Idealizamos aquele ser e moldamos suas características de acordo com nossos interesses. Num piscar de olhos, sua identidade já não mais lhe pertence: passa a ser inteiramente nossa. É exatamente a situação que acontece com o homem que divaga conosco no cemitério de Lima Barreto. Enquanto descobre as curvas mais vivas de uma sociedade entorpecida, ele passa a criar fantasias sobre uma alma que não mais respira. Inexplicavelmente.


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