ISBN 978-65-6002-166-2
R E L ATO D E V I A G E M
9 786560 021662
Lamento de um canto inacabado
© Claire Désérable
Amiens, França, em 1987. Foi jogador profissional de hóquei no gelo até os 28 anos, quando decidiu se dedicar inteiramente à literatura. Estreou em 2013 com Tu montreras ma tête au peuple, sobre a Revolução Francesa, seguido de Évariste (2015) e Un certain M. Piekielny (2017). Em 2021, recebeu o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa por Mon maître et mon vainqueur. Em 2023 publicou L’usure d’un monde, relato de uma travessia pelo Irã em plena revolta popular. Sua obra está traduzida em mais de vinte línguas.
François-Henri Désérable
François-Henri Désérable nasceu em
A
os trinta anos, com um romance recém-entregue ao editor e nenhuma vontade de assinar uma hipoteca de três décadas, François-Henri Désérable faz a única escolha que lhe parece possível: trocar os móveis pela mochila e pegar a estrada. Sessenta e cinco anos depois de Ernesto Guevara e Alberto Granado atravessarem a América Latina sobre a velha Norton batizada de La Poderosa, Désérable parte em seus rastros. De moto, carona, barco ou na caçamba de uma caminhonete, cruza Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela até chegar a Cuba. O que encontra pelo caminho, porém, está longe de ser uma peregrinação ao mito. Seu interesse é pelo jovem Ernesto que ainda não era Che: asmático, mulherengo, apaixonado por rúgbi, livros e aventura. E, sobretudo, pelas pessoas, histórias, perigos e paisagens que surgem quando se aceita o imprevisto da estrada. Com humor, erudição e um olhar profundamente humano, Lamento de um canto inacabado é um grande relato de viagem sobre a vontade de partir, a intensidade de estar no mundo e o que se perde quando chega a hora de seguir adiante.
-Henri is o ç n a r F le Désérab
o La m e n t de um c a nto do a b a c a in
e Na rota d vara e u G e h C
“É preciso tirar a poeira, fazer um curativo, passar horas, dias, consertando a moto. Na saída de uma cidadezinha, La Poderosa atravessa um rebanho de vacas e termina sua carreira entre duas pedras: o garfo dianteiro se solta, o chassi que protege o câmbio se acaba. [...] Joaquín, um argentino, nos tinha dado carona. Ele vestia um suéter puído nos cotovelos e tinha um bigode em forma de til, essa ondinha que coroa o n de Roberto Bolaño. Ele nos deixou entre Peulla e Petrohué, nas margens do lago Todos los Santos, diante do vulcão Osorno, onde tínhamos armado nossa barraca. Estávamos agora em Niebla, sentados na praia. Quentin fumava, eu via flutuarem os barcos de madeira amarela e o Sol naufragar no rio Valdívia. A paisagem tinha firmado um pacto sagrado com a luz. Eu sentia um contentamento plácido, uma quietude difusa, a sensação, em suma, de estar onde deveria estar. Viajar para longe ainda é o melhor meio de se distanciar de si mesmo. Aos que viajam na esperança de se encontrar, sempre preferi os que o fazem a fim de se perder: levantando os olhos para o mundo, olha-se um pouco menos para o próprio umbigo. [...] Hippolyte Taine tinha resumido isso num aforismo perfeito: ‘Viajamos para mudar, não de lugar, mas de ideias’.”
R E L AT O D E V I A G E M
François-Henri Désérable
Lamento de um canto inacabado Na rota de Che Guevara Tradução: Eduardo Muylaert
Copyright © Éditions Gallimard, Paris, 2025 Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Título original: Chagrin d’un chant inachevé: sur la route de Che Guevara Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. direção editorial
Arnaud Vin editor responsável
Eduardo Soares preparação de texto
Sonia Junqueira revisão de texto
Eduardo Soares capa
Diogo Droschi (Sobre imagem de arquivo pessoal do autor) diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Désérable, François-Henri Lamento de um canto inacabado : na rota de Che Guevara / François-Henri Désérable ; tradução Eduardo Muylaert. -- São Paulo : Vestígio Editora, 2026. Título original: Chagrin d'un chant inachevé ISBN 978-65-6002-166-2 1. América do Sul 2. América Latina 3. Guevara, Ernesto, 19281967 4. Relatos de viagens I. Título. 26-388087.0
CDD-910.4 Índices para catálogo sistemático: 1. Relatos de viagens 910.4
Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
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Este relato deve muito às duas residências onde foi escrito em parte: a Maison Julien Gracq, em Saint-Florent-le-Vieil (Maine-et-Loire), e a Fondation des Treilles, em Tourtour (Var). A Fondation des Treilles, criada por Anne Gruner-Schlumberger, tem principalmente a vocação de abrir e alimentar o diálogo entre as ciências e as artes, a fim de promover a criação e a pesquisa contemporâneas. Ela acolhe igualmente pesquisadores, escritores e artistas fotógrafos na propriedade das Treilles (Var) – www.les-treilles.com.
Todas as fotografias reproduzidas nesta obra foram tiradas pelo autor. © Éditions Gallimard, 2025.
Para Gaspard, Andrea, Camille, Ishaan & Paul O mundo é tão vasto, e vocês são tão pequenos.
Por que não partir agora mesmo? Nenhum de nós jamais será mais jovem do que hoje. Jack London
21
Argentina
35
Chile
55
Bolívia
89
Peru
139
Colômbia
149
Venezuela
167
Cuba
173
Bibliografia
Havana Cúcuta Bogotá COLÔMBIA EQUADOR
Caracas San Cristóbal VENEZUELA
Quito Iquitos
PERU
Oceano Atlântico
Manaus Leticia
BRASIL
Pucallpa
Machu Picchu Oceano Lima Cuzco Andahuaylillas Pacífico La Paz BOLÍVIA Puno Santa Cruz Copacabana / Isla del Sol Sucre Arica Vallegrande / La Higuera Iquique Potosí Uyuni Chuquicamata PARAGUAI Antofagasta San Pedro Iguazú de Atacama Assunção Chañaral Itinerário do autor ARGENTINA Itinerário de Guevara e Granado Itinerário comum
CHILE
Córdoba
Valparaíso
Buenos Aires
Santiago do Chile 0
450 km
EdiCarto
Niebla Puerto Montt
13
San Martín de los Andes
Bahía Blanca
San Carlos de Bariloche
Na parede da sala de aula, ao lado do quadro-negro, havia um mapa-múndi. Nele apareciam países de várias cores, a rosa dos ventos, os meridianos, os mares, os oceanos. O imaginário içava a vela mestra: o mundo inteiro estava ali, diante de mim, reduzido à escala de um quarenta-milionésimo. Eu lia Katmandu e imaginava bandeiras de oração e templos budistas; lia Chicago e empurrava a porta de um bar clandestino onde, na penumbra, brilhavam o cano de um Colt e as brasas de um charuto; lia Nova York e ouvia os riquixás pipocando entre vacas sagradas, vendedores de especiarias e de flores (por muito tempo, confundi Nova York com Nova Délhi). Enquanto esperava um dia ver tudo isso de perto, de verdade, passava os dias com os olhos grudados no mapa, sempre sonhador. O sr. Postel, um homenzinho enérgico, de cabelos grisalhos, vivia me repreendendo por isso. Ele falava de somas, subtrações, figuras geométricas, e eu me embriagava com os nomes de cidades desconhecidas. Tomando os colegas como testemunhas, me apontava como contraexemplo: “Façam como ele, e vocês não vão chegar longe”. Talvez. Mas escrevo estas linhas na Patagônia. * 15
Naquele outono, as taxas de juros caíam, os preços dos imóveis subiam, e minha família e meus amigos andavam preocupados: não estava na hora de investir em um imóvel? Com um pouco de sorte e um gerente de banco complacente, talvez eu pudesse me endividar por trinta anos – minha idade na época. Eu não tinha nem condições nem vontade. Assinar uma escritura de compra e venda me daria a sensação de assinar minha própria entrada na prisão, de ver minha liberdade encolher até caber em alguns metros quadrados. E depois, um apartamento precisa de mobília; aos móveis, sempre se deve preferir a mochila de viagem. Eu tinha acabado de entregar ao meu editor duzentas e vinte laudas de um romance que me servira de vida por quase três anos. Eu era rico apenas de meus olhos intranquilos, tomado pela dúvida e ocioso. O que ia fazer agora? Era hora de partir, sem motivo nem prazo. Partir para onde? Os próprios escritores tinham viajado tanto que era impossível escolher qualquer rumo sem imediatamente seguir seus passos: Chateaubriand, de Paris a Jerusalém; Nerval e Flaubert, pelo Oriente; Stendhal e Giono, pela Itália; Rimbaud, na Abissínia; Stevenson, com um burro pelas Cévennes; Alexandra David-Néel, da China à Índia, atravessando o Tibete; Ella Maillart, até os confins da Ásia – como Nicolas Bouvier, de quem eu teria gostado de pegar emprestada a frase: “É a contemplação silenciosa dos atlas, de bruços no tapete, entre os dez e os treze anos, que dá essa vontade de largar tudo”. * Ainda hoje, me basta fechar os olhos para revê-lo, aquele mapa pregado na parede da sala de aula. Nele apareciam os nomes maravilhosos de Bombaim, Ulan-Bator, Vancouver, Samarcanda. Mas e o de Córdoba? 16
É de Córdoba, na Argentina, a um dia de viagem ao noroeste de Buenos Aires que, na manhã de 29 de dezembro de 1951, partem Ernesto Guevara, vinte e três anos, e seu amigo Alberto Granado, vinte e nove anos. Guevara e Granado. Granado e Guevara. Os dois G. O itinerário dos dois G: Argentina – Chile – Peru – Colômbia – Venezuela. O meio de transporte: uma Norton 500 cm³ de 1939, que eles batizam de La Poderosa. Duração da viagem: sete meses. Extensão: oito mil quilômetros. O objetivo: confrontar-se com a miséria dos sul-americanos? Conscientizar-se do imperialismo ianque? Partilhar a sorte dos que são explorados, beber no gargalo dos oprimidos? Percorrer as estradas da América Latina como quem percorre suas veias abertas? Escrever isso seria reescrever a motivação do jovem Ernesto à luz do mito que Che se tornou. Seria politizar a viagem deles. Ora, os dois G têm um único objetivo: ver o mundo. “O lado transcendente da nossa empreitada”, destaca Ernesto, “nos escapava então; só víamos a poeira da estrada e nós mesmos sobre a moto, engolindo quilômetros na nossa fuga para o norte.” E é ao longo da viagem que ocorre uma mudança: “Essa errância sem rumo pela nossa América Maiúscula me transformou mais do que eu imaginava”.* Mas, no começo, essa viagem não é senão uma viagem, uma simples viagem iniciática, como tantos milhares de jovens pelo mundo afora fizeram – e continuam fazendo até hoje. Dessa viagem, os dois G criaram cada um seu relato – dos quais Walter Salles tirou um filme.** Eu tinha visto o filme, tinha lido os relatos. Como muitos adolescentes neste mundo, * “Ese vagar sin rumbo por nuestra ‘Mayúscula América’ me ha cambiado más de lo que creí.” (Guevara, El viaje) ** Diários de Motocicleta. Direção: Walter Salles. Focus Features, 2004. 17
tive o retrato do Che feito por Korda pregado na parede do meu quarto. Mais tarde, debrucei-me mais sobre sua vida; fiz o que sei fazer melhor: me empanturrei de leituras. Jornais, depoimentos, biografias – lia tudo. O misticismo, a porção de absoluto, a visão romântica e a recusa de transigir: era isso que me atraía no Che. Sem falar na coragem que eu não tinha – a de um homem que subordina a própria existência às exigências de uma causa que o supera. Eu não tinha estofo de revolucionário; esperava ter o de um vagabundo. Chegou o dia em que decidi pegar a estrada. A estrada do Che. * Colocar meus passos nos passos do Che não iria se revelar esmagador? Não, porque eu colocava os meus nos de um jovem. Um jovem que ainda não era o Che, não ainda, e que talvez nunca viesse a sê-lo sem essa viagem: um jovem estudante de medicina, amante de piadas e de mulheres, louco por leitura e louco por rúgbi; um jovem que gostava de nadar em corredeiras, escalar montanhas e montar a cavalo; um jovem aventureiro, imprudente, temerário, desorganizado, aplicado, mulherengo (“desde os dezesseis anos, um mulherengo, um pegador terrível”, nos conta seu primo); um jovem cujo único ideal era uma ideia elevada da amizade e cujo melhor amigo era um sujeito seis anos mais velho, que o leva com ele pelas estradas. O itinerário estava traçado; eu só tinha de segui-lo. Na minha sacola de viagem, três pobres palavras de espanhol: no, hablo e español. Eu precisava a qualquer custo de um companheiro de viagem que falasse espanhol. Ao ligar para Quentin, eu sabia dos riscos: ele era intrépido, inconsciente do risco; ia ao encontro do perigo, despreocupado; a aventura não o repelia, o romanesco muito menos. Havia alguns meses, ele vivia em Lanzarote, se levantava cedo, pegava algumas ondas de manhã e, no resto do tempo, 18
se dedicava à preparação para um concurso extremamente seletivo que deveria lhe abrir as portas da diplomacia. Tinha acabado de fazer as provas escritas: um desastre. Estava perdido; não iria para a fase oral. Paciência, tentaria de novo no ano seguinte. Convencê-lo a me acompanhar não foi difícil. Quentin era um viajante incansável, arrebatado por seus desejos de horizontes. Se estivesse livre, iria na certa; se não estivesse, se libertaria. Quando, numa tarde de dezembro, lhe anunciei que ia atravessar a América, não tive tempo de terminar a frase, nem de acrescentar “do Sul de moto”: “Meu amigo, vou com você”. Lembro-me de nós certa manhã, na Butte-Montmartre. Ainda não é bem dia, não estamos bem acordados, mal dormimos; estamos deixando a Europa e, como César diante do Rubicão, lançando às suas legiões um “Para Roma!”, ouço Quentin dizer ao taxista, com voz firme: “Para Roissy!” O táxi devia estar no meio do caminho do aeroporto quando, assaltado por uma dúvida, conferi nossas passagens: o avião saía de Orly. Foi preciso dar meia-volta, atravessar Paris congestionada no sentido contrário e chegar a Orly para ouvir: “Embarque encerrado”. Por sorte, nossa atendente se enterneceu com nossa trapalhada – ainda não é nem meio-dia, murmurou ela com voz abafada para a colega, e já temos os idiotas do dia. Sua solicitude fez com que nos encaixassem, mediante uma taxa extra, em outro voo que saía naquela mesma noite e fazia escala em Madri, antes de seguir para Buenos Aires. Voar para o oeste é a realização de um velho sonho mitológico. É rasgar o espaço e voltar no tempo. Encarnamos Cronos, acreditamos, por algumas horas, ser senhores e possuidores da ampulheta, capazes de virá-la à vontade. O avião acabara de passar sobre Las Palmas; Quentin lia Com Che Guevara pela América do Sul, de Alberto Granado, e eu estava mergulhado no relato que Ernesto havia feito das 19
aventuras deles. Voávamos a 880 quilômetros por hora, a 10 mil metros acima do Atlântico; a temperatura exterior era de 67 graus abaixo de zero; atravessávamos uma zona de turbulência; tinham nos pedido que permanecêssemos sentados e com os cintos afivelados. Eram 21h51 em Madri, quatro horas a menos em Buenos Aires, eu lia Diários de Motocicleta e estava em La Poderosa, empoleirado no bagageiro, atrás dos dois G, cujos cachecóis, esvoaçando ao vento, me chicoteavam o rosto. Estávamos em janeiro de 1952. No retrovisor, desfilava o Pampa.
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