Regina Pinto de Carvalho
INHOTIM NA VISÃO DA FÍSICA LEITURAS COMPLEMENTARES PARA O ENSINO MÉDIO
Blanca Brites
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Inhotim na visão da Física
Copyright © 2021 Regina Pinto de Carvalho Copyright © 2021 Blanca Brites
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editoras responsáveis
fotografia de capa
Rejane Dias Cecília Martins
Lygia Pape, Ttéia 1C, 2002, fio metalizado, dimensões variáveis. Coleção Instituto Inhotim, Brumadinho. Foto: William Gomes
revisão
Aline Sobreira
ilustração
Henrique Cupertino
revisão técnica
Ana Márcia Greco de Sousa
diagramação
Waldênia Alvarenga
capa
Alberto Bittencourt
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Carvalho, Regina Pinto de Inhotim na visão da física : leituras complementares para o ensino médio / Regina Pinto de Carvalho, Blanca Brites. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica, 2021. ISBN 978-65-5928-057-5 1. Arte contemporânea 2. Física - Ensino médio I. Brites, Blanca. II. Título. 21-55631 CDD-530.7 Índices para catálogo sistemático: 1. Física : Ensino médio 530.7 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
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Estude a ciência da Arte e a arte da Ciência. Desenvolva seus sentidos e, em especial, aprenda a ver. Tenha em mente que todas as coisas se conectam com outras coisas. Leonardo da Vinci
O Instituto Inhotim é ao mesmo tempo um museu de arte contemporânea e um jardim botânico: em meio a um paisagismo primoroso, encontram-se trabalhos de artistas brasileiros e estrangeiros, todos de renome internacional. Como os conceitos básicos da Física aparecem em qualquer situação do cotidiano, um olhar atento pode transformar um passeio pelo Instituto Inhotim em uma ótima aula de Física, pontilhada de observações sobre a arte contemporânea. Este livro pretende servir como um primeiro guia para professores do ensino médio e pessoas curiosas em geral, numa abordagem conjunta sobre Arte e Física. Para isso, são destacados aspectos interessantes de algumas obras do Inhotim e sua relação com conceitos da Física estudados no ensino médio. As ilustrações explicativas foram preparadas de forma a serem visíveis para pessoas daltônicas. Se você, caro leitor, tem essa característica e teve dificuldade em interpretar esboços e gráficos, por favor, faça contato conosco, para que possamos, futuramente, melhorar o nosso trabalho. Agradecemos ao Instituto Inhotim, em especial a Antonio Grassi, Renata Bittencourt, Juliano Borin e Thais Araujo, por facilitar nossas visitas e fornecer informações preciosas sobre as obras e o jardim botânico. Agradecemos também à professora Maria Sylvia Dantas e ao senhor Tales Almeida (UFMG), pelo incentivo e pelas valiosas
sugestões; e aos professores Marcelo Marchiori (UFMT), Regina Simplício (UFV) e José Guilherme Moreira (UFMG), pela organização de palestras, e aos seus alunos, pelas participação e sugestões sobre o tema. Belo Horizonte, maio de 2021. Blanca e Regina
INTRODUÇÃO INHOTIM E A ARTE CONTEMPORÂNEA..................... 13 CAPÍTULO I
DESVIO PARA O VERMELHO – CILDO MEIRELES.... 17
As cores dos objetos.......................................................... 19
Atividades........................................................................... 21
Apêndice: O desvio para o vermelho na Astrofísica......... 23
Agradecimentos................................................................. 25 CAPÍTULO II
A INVENÇÃO DA COR, PENETRÁVEL MAGIC SQUARE #5, DE LUXE – HÉLIO OITICICA................... 27
Mistura de pigmentos........................................................ 29
Seixos rolados.................................................................... 30
Atividades........................................................................... 31 CAPÍTULO III
TTÉIA 1C – LYGIA PAPE....................................................... 33
A visão de um objeto......................................................... 34
Adaptação visual ao escuro............................................... 35
Reverberação sonora.......................................................... 36
Atividades........................................................................... 36
CAPÍTULO IV
VIEWING MACHINE – OLAFUR ELIASSON................ 39
Imagens em espelhos múltiplo......................................... 40
Atividades........................................................................... 44 CAPÍTULO V
BISECTED TRIANGLE, INTERIOR CURVE – DAN GRAHAM....................................................................... 45
Superfícies semirrefletoras................................................ 46
Imagens em espelhos planos e curvos............................. 47
Espelhos cilíndricos........................................................... 49
Atividades........................................................................... 51 CAPÍTULO VI
ATRAVÉS – CILDO MEIRELES........................................... 53
Objetos transparentes – Refração..................................... 54
As fases da Lua................................................................... 56
Som obtido no choque entre objetos................................ 57
Atividades........................................................................... 58 Agradecimentos................................................................. 60
CAPÍTULO VII
AHORA JUGUEMOS A DESAPARECER II – CARLOS GARAICOA............................................................. 61
A chama de uma vela......................................................... 62
Atividades........................................................................... 66
Apêndice: Emissão de luz por átomos e moléculas......... 66
Agradecimentos................................................................. 67 CAPÍTULO VIII
O PARQUE DE INHOTIM................................................... 69
No meio do caminho tinha uma pedra............................. 70
Verde que te quero verde................................................... 72
Plantas aquáticas....................................................... 74
Fototropismo.............................................................. 76
Devagar se vai ao longe..................................................... 78
Atividades........................................................................... 82
Apêndice: Como determinar a densidade de um objeto.. 84
Agradecimentos................................................................. 85
SUGESTÕES DE LEITURA.................................................. 86
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INTRODUÇÃO
INHOTIM E A ARTE CONTEMPORÂNEA
O Instituto Inhotim tem seu perfil direcionado à arte contemporânea, e as obras selecionadas para este livro são, na sua maioria, instalações que possuem pavilhão próprio ou estão distribuídas pelo parque. Muitas vezes os artistas contemporâneos criam seus trabalhos em espaços diferenciados, onde o visitante é convidado a participar, deixando assim de ser um simples observador. Esse procedimento vem sendo realizado desde a década de 1960, e rompia com regras tradicionais de arte, em que o quadro era exibido na parede e a escultura, em um pedestal, e não podiam ser tocados. A partir de então, a obra passou a ser instalada em um espaço próprio, que se torna parte dela; esse conceito é denominado instalação. Algumas vezes, a instalação é efêmera e feita somente para um determinado espaço. No entanto, ela pode ser refeita, adaptada a outros lugares. Nesse caso, deve seguir rigorosamente o projeto do artista. Mesmo que os artistas contemporâneos escolham espaços alternativos para realizar seus trabalhos, suas instalações também podem estar em galerias ou museus de arte. Nesse contexto, não há mais regras rígidas a serem seguidas, e outros elementos se tornam importantes, tais como o uso simultâneo de diversos materiais, o recurso a espaços alternativos, a interatividade com o público, a integração com a tecnologia e a ativação de todos os sentidos.
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Inhotim na visão da Física
Aqui aparece a figura do curador, que passa a ter ativa importância na arte contemporânea. Seu papel é trabalhar em sintonia com o artista, acompanhar seu planejamento e indicar as obras para exposição. Ainda é sua incumbência participar de todo o processo sobre como e onde os trabalhos serão mostrados; é ele quem, através de textos, apresenta a exposição, evento ou instalação ao público. O curador ocupa-se, junto a uma equipe, em fazer a expografia1 da exposição. Destacamos que o artista sempre deve ter a palavra final. As instalações podem acontecer em espaços fechados, em parques ou outros locais abertos, onde se integram ao ambiente externo através de um trabalho de paisagismo, como é o caso aqui em Inhotim. A história mais recente do paisagismo ocidental tem origem com os jardineiros que trabalhavam para as cortes. É possível identificar dois tipos de jardim: um é associado aos jardins franceses, a exemplo do Palácio de Versalhes (século XVII), com sua forte simetria, perspectiva valorizada, canteiros em forma de bordados e fontes exuberantes. O outro apresenta um estilo oposto: é o jardim à inglesa, do século XVIII, de linhas sinuosas e aparência informal, que idealiza a natureza. Era um jardim mais livre, contudo, muito bem planejado, e teve grande repercussão mundial. Atualmente, o paisagista é um profissional que trabalha em conjunto com botânicos, arquitetos, agrônomos e artistas. Seu propósito é criar ambientações com áreas verdes, para o conforto do público, e que possam ser esteticamente apreciadas. Isso se faz através de um planejamento espacial com desenho, distribuição e harmonização da vegetação, seja de flora local ou não. Hoje, domina a flexibilidade na escolha da vegetação, pois ela pode ser constantemente renovada e alterada. Consideram-se ainda a localização, Expografia é a forma concreta de transmitir espacialmente a concepção da exposição. Uma equipe com arquiteto, iluminador, montador, entre outros, planeja a disposição dos elementos, a ambientação do espaço, a circulação do público.
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Introdução
as condições climáticas e a valorização do espaço circundante, seja ele natural ou urbano. Um exemplo bem contemporâneo de paisagismo são os jardins verticais, que, além do aproveitamento espacial, buscam compensação pela pouca vegetação das cidades e se integram com a arquitetura urbana. Sua escala pode ir de pequenos espaços em apartamentos a parques e paredes externas de edifícios, ou mesmo incluir todo um bairro. Livres de regras, os paisagistas, na sua maioria, criam jardins e parques considerando as questões ecológicas e ambientais.
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CAPÍTULO I
DESVIO PARA O VERMELHO – CILDO MEIRELES
Cildo Meireles. Desvio para o vermelho, 1967-1984. Fotos: Pedro Motta. Coleção Instituto Inhotim.
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Inhotim na visão da Física
Cildo Meireles nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1948. Estudou na Fundação Cultural do Distrito Federal e iniciou sua vida artística muito jovem, fazendo pintura e escultura. Retornou para o Rio de Janeiro e, nos anos 1970, começou a fazer intervenções que refletiam a situação político-social da época, com seu projeto Inserções em circuitos ideológicos, que consistia em fazer a obra circular na vida real, sem preocupação com a permanência do objeto. Por exemplo, ele utilizou cédulas de dinheiro, cruzeiro (moeda brasileira da época) ou dólar norte-americano, nas quais carimbava a pergunta: “Quem matou Herzog?”, assunto censurado na época. As cédulas eram colocadas em circulação, sem saber qual seu destino, mas tendo a certeza de que outras pessoas as veriam e se perguntariam a respeito do assunto, criando assim uma rede de informação. A instalação Desvio para o vermelho é composta de duas salas. A primeira, Impregnação, parece ser a sala de visitas de uma casa comum. Tem as paredes pintadas de branco e todo o resto é tingido em vários tons de vermelho: desde o carpete no chão até os móveis, os objetos de decoração, os quadros, a geladeira, o sofá. A participação do público é fundamental para que as pessoas sintam o ambiente como uma imersão na cor, como se o visitante se banhasse de vermelho. A segunda sala, Entorno, é pintada de preto, inclusive o chão, e tem pouca iluminação. Logo na entrada, vê-se no chão uma pequena garrafa de onde escorre tinta, formando uma vasta mancha vermelha por toda a peça. Ao fundo dessa sala, uma fraca luz atrai o olhar até uma pia, Desvio. Essa pia foi fixada de maneira inclinada na parede, e pela torneira escorre um jato de líquido vermelho, que lembra sangue. O artista cria essas situações para provocar muitas percepções sensoriais no visitante. A obra Desvio para o vermelho foi apresentada pela primeira vez em 1967 e, desde 2006, tem sala permanente no Instituto Inhotim. Cildo Meireles tem reconhecimento nacional e internacional, com obras nos museus mais reconhecidos do mundo.
Capítulo I
Desvio para o vermelho – Cildo Meireles
As cores dos objetos A luz visível corresponde a uma pequena faixa do espectro eletromagnético. Cada faixa de frequência é percebida como uma cor diferente. Por convenção, dividimos o espectro visível em algumas cores: vermelho (frequências mais baixas), laranja, amarelo, verde, azul, violeta (frequências mais altas). Essa divisão é apenas formal, já que pequenas variações da frequência emitida poderão fornecer tons intermediários. O espectro visível estimula os três tipos de cone existentes no fundo de nossos olhos: um dos tipos é principalmente estimulado pela luz vermelha, outro pela luz azul e outro pela luz verde. Por essa razão, em alguns casos, divide-se o espectro visível em três cores: as frequências mais baixas correspondem ao vermelho, as intermediárias, ao verde e as frequências mais altas, ao azul. A cor com que percebemos um objeto depende das cores da luz emitida, refletida ou transmitida por ele. Uma cor estimula com intensidade diferente cada tipo de cone; nosso cérebro compara os sinais enviados pelos três tipos de cone e os interpreta como uma determinada cor: os diversos matizes são obtidos quando os estímulos para cada cone têm diferentes intensidades. A cor branca é percebida quando todas as frequências são recebidas com a mesma intensidade; a preta, quando nenhuma frequência é recebida por nossos olhos. Tomemos como exemplo uma flor vermelha, com folhas verdes, iluminada por luz branca: as pétalas da flor absorvem todas as frequências visíveis, exceto as de frequência mais baixa, que são refletidas até nossos olhos. Recebendo luz dessa frequência, nosso cérebro a interpreta como vermelha. Ao mesmo tempo, as folhas absorvem todas as frequências visíveis, exceto as intermediárias, que são refletidas até nossos olhos e interpretadas pelo cérebro como sendo a cor verde. Se a mesma flor fosse iluminada por luz vermelha, esta seria refletida pelas pétalas, que apareceriam como
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Inhotim na visão da Física
vermelhas; as folhas absorveriam essa luz e não refletiriam nada, aparecendo como pretas. Um vidro azul absorve luz de todas as cores, exceto as de frequências mais altas, que são transmitidas até nossos olhos e interpretadas como sendo a cor azul. Em teatros e shows, é comum se usarem fontes de luz coloridas para conseguir belos efeitos no palco. Se forem acesas, ao mesmo tempo, luzes vermelhas, verdes e azuis, todas as frequências estarão presentes, e o efeito será o mesmo de quando se usa luz branca; se forem acesas as luzes de apenas uma ou duas cores, teremos iluminação da cor correspondente à soma das frequências presentes. A mistura de tintas pode também resultar em novas cores, porém, nesse caso, teremos uma subtração de frequências. Por exemplo, uma tinta vermelha absorve luz de todas as cores, exceto vermelha; uma tinta azul reflete o azul e absorve todas as outras cores; o mesmo acontece com uma tinta verde. A mistura de todas as tintas terá pigmentos que absorvem praticamente todas as frequências, resultando numa cor escura. Quase todos nós, quando crianças, tivemos uma experiência decepcionante ao misturar todas as tintas de uma caixa de aquarelas: no lugar da linda cor nova esperada, foi obtida outra, escura.
Capítulo I
Desvio para o vermelho – Cildo Meireles
Atividades A1. Objetos transparentes coloridos podem servir como filtros, pois deixam passar apenas determinadas cores. Obtenha filtros vermelhos usando plástico, papel celofane ou placas de acrílico coloridos.
a) Observe, através de um filtro vermelho, a instalação Impregnação. Descreva o aspecto do ambiente visto por você.
b) Explique o que viu, respondendo às perguntas seguintes: • Que cores são emitidas pela lâmpada da sala?
• Que cores são refletidas por cada objeto? • Que cores chegam aos seus olhos através do filtro? c) Descreva o que se observa olhando a instalação através de um filtro azul, e explique a observação. A mesma atividade pode ser desenvolvida observando-se uma foto da instalação ou qualquer outro ambiente com objetos coloridos.
A2. Ao passar da primeira sala (carpetada) para a segunda, observe que o chão parece mais frio onde não existe o carpete. No entanto, as salas estão à mesma temperatura. O que provoca as sensações diferentes? Você precisa estar descalço ou de meias, como é recomendado na entrada da instalação.
A mesma atividade pode ser desenvolvida caminhando sem sapatos sobre pisos revestidos de materiais diferentes.
A3. Na instalação Entorno, um pequeno frasco derrama tinta vermelha, que se espalha por uma grande área no piso.
a) Avalie o volume de tinta que poderia ser contido no frasco. b) Avalie a área em que essa tinta se espalhou no piso. c) Usando os dados obtidos em (a) e (b), determine a espessura da camada de tinta espalhada pelo piso. Comente a suposição
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Inhotim na visão da Física
de que toda a tinta saiu do frasco, levando em conta que a dimensão aproximada de um fio de cabelo é de 10-4 m.
A atividade pode ser também desenvolvida avaliando-se as grandezas através do esboço da sala (Figura I-1).
média de ~1 m ~ 18 m ~ 100 mL
Figura I-1. Dimensões aproximadas da instalação Entorno.
A4. Na instalação Desvio, uma torneira jorra tinta ininterruptamente sobre uma pia, dando a impressão de que o fluxo é inclinado. De acordo com seus conhecimentos sobre gravitação, comente a posição do fluxo de água e da pia. Tem sentido afirmar que uma das posições é correta e que o outro objeto está inclinado?
Como se pode obter um fluxo de água na mesma direção que a torneira?
Capítulo I
Desvio para o vermelho – Cildo Meireles
Apêndice: O desvio para o vermelho na Astrofísica Na Astrofísica, a expressão “desvio para o vermelho” descreve o fenômeno que deu origem ao modelo do Universo em expansão. Quando um átomo recebe energia, por exemplo, por aquecimento, seus elétrons migram para estados de energia mais alta (Figura I-2A); eles só podem ocupar níveis com valores bem definidos de energia. Ao retornar ao seu estado fundamental, esses elétrons emitem energia na forma de ondas eletromagnéticas, com energias determinadas pela diferença entre as energias dos níveis atômicos (Figura I-2B). 2
Energia
E3 E2
E3
E2
1
2
Energia
E1
E1
Eo
Eo A
1
B
Figura I-2. Os elétrons em um átomo só podem ocupar estados bem definidos de energia: na figura, as energias permitidas são E0, E1, E2 e E3. Em A, o elétron 1 ocupa o nível E1 de energia, e o elétron 2 ocupa o nível E3. Em B, o elétron 1 retornou ao estado fundamental E0, emitindo energia correspondente à diferença entre os níveis E1 e E0; o elétron 2 passou do nível E3 para o nível E2, e nesse caso a energia emitida foi menor que a energia emitida pelo elétron 1.
Essa é a chamada descrição quântica do átomo. Podemos fazer uma analogia da descrição quântica, por exemplo, com sacos de arroz comprados em um supermercado: o arroz é vendido em sacos de 1 kg; então só podemos comprar arroz com valores discretos, múltiplos de 1 kg (não é possível comprar, por exemplo, 4,5 kg de arroz).
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O arroz é quantizado, e o valor de um quantum de arroz (a menor quantidade existente) é 1 kg. Se o arroz fosse vendido a granel, pesado no momento da compra, poderíamos comprar qualquer quantidade, ou seja, valores contínuos do produto. Cada elemento tem um espectro bem definido, pois os elétrons de seus átomos emitem luz correspondente à diferença de energia entre os níveis característicos do elemento. A energia das ondas é relacionada à frequência (maior energia indica frequência maior) e inversamente relacionada ao comprimento de onda (maior energia corresponde a menor comprimento de onda). Assim, é possível identificar a presença de um elemento analisando-se as frequências de luz emitidas por uma amostra. Observando-se o espectro emitido pelas estrelas, nota-se que o elemento mais abundante é o hidrogênio, porém os comprimentos de onda emitidos têm sempre um valor maior que os do espectro do hidrogênio observado em laboratório: o espectro nas estrelas é deslocado na direção do vermelho. Quanto mais afastadas as estrelas, maior o deslocamento em seus espectros. Essa observação pode ser explicada pelo efeito Doppler: quando um objeto que emite ondas se afasta do observador, cada crista de onda demora mais a chegar do que se o objeto estivesse em repouso: o comprimento de onda fica aumentado (no caso da luz, há um desvio para o vermelho). Se o objeto se aproxima do observador, as cristas de onda chegam mais rapidamente – o comprimento de onda fica diminuído (no caso da luz, desvio para o azul). O efeito Doppler pode ser facilmente notado com as ondas sonoras, se observarmos o ruído do motor ou da buzina de um carro (Figura I-3): se o carro se aproxima, o som é mais agudo (frequência maior, comprimento de onda menor); se o carro se afasta, o som é mais grave (frequência menor, comprimento de onda maior). O que ouvimos na passagem do carro é aproximadamente: iiióóó...
Capítulo I
Desvio para o vermelho – Cildo Meireles
υ=0
υ>0
A
B
Figura I-3. O efeito Doppler para o som: em A, um carro está parado, e o som de sua buzina é ouvido com a mesma frequência pelo motorista e por pessoas fora do carro. Em B, o carro se move para a direita; uma pessoa situada fora do carro, à sua frente, ouve o som com frequência maior (comprimento de onda menor, som mais agudo). Uma pessoa fora do carro, atrás dele, ouve o som com frequência menor (comprimento de onda maior, som mais grave). O motorista e outras pessoas que se movem junto com o carro ouvem o som com a frequência com que ele é emitido.
Então, observando-se o desvio para o vermelho no espectro das estrelas, conclui-se que o Universo não é estacionário, mas está em expansão, com as estrelas e galáxias se afastando umas das outras.
Agradecimentos Agradecemos à estudante Ana Julia R. Ferreira, ao engenheiro Pedro R. Ferreira e ao professor Gabriel Franco (UFMG) por suas sugestões para a preparação do Apêndice.
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