ANGELA MARSONS INFÂNCIAS ROUBADAS
tradução de
Luis Reyes Gil
Copyright © 2015 Angela Marsons Copyright © 2021 Editora Gutenberg
Título original: Lost Girls
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editora responsável
capa
Flavia Lago
Alberto Bittencourt (sobre imagem de Shutterstock)
preparação
Samira Vilela
diagramação
Christiane Morais de Oliveira
revisão
Fernanda Simões Lopes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Marsons, Angela Infâncias roubadas / Angela Marsons ; tradução de Luis Reyes Gil. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2021. Título original: Lost girls ISBN 978-65-86553-60-4 1. Ficção policial e de mistério (Literatura inglesa) I. Gil, Luis Reyes. II. Título. 21-59413
CDD-823.0872
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura inglesa 823.0872 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Dedico este livro a Mary Forrest, cujo amor e generosidade tocaram tantas pessoas, inclusive a mim. Mary, você nos ensinou muita coisa, e aquelas lições continuam em nossos corações.
PRÓLOGO
Fevereiro de 2014
E mily B illingham tentou gritar através da mão que cobria sua boca. Os dedos eram finos, mas prendiam com força seu maxilar. Com dificuldade, soltou um grunhido abafado, jogando a cabeça para trás para tentar se soltar. A parte de trás de seu crânio bateu em algo duro, uma costela. – Fique quieta, sua putinha – disse ele, arrastando-a pelo chão. O zumbido em seus ouvidos quase abafava a voz do homem. Ela sentia o coração batendo forte no peito. Vendada, não conseguia ver onde estava, mas sentia o cascalho sob seus pés. Cada passo a afastava mais de Suzie. Emily deu mais um safanão. Tentava afastá-lo com todas as forças, mas ele apenas a puxava para mais perto. Ela se contorcia, lutando para se desvencilhar, mas ele a apertava mais forte a cada movimento. Não queria ir com ele. Precisava fugir. Precisava conseguir ajuda. Papai saberia o que fazer. Papai conseguiria salvar as duas. De repente, ouviu o rangido de uma porta se abrindo. Oh, não! Era a van. Ela juntou forças para gritar. Não queria entrar na van de novo. – Não... por favor...! – implorou, tentando se desvencilhar. Ele a chutou com força atrás dos joelhos e ela tombou para a frente, mas ele impediu que caísse segurando-a pelos cabelos. A fisgada de dor no couro cabeludo fez com que lágrimas saltassem de seus olhos. Com um só movimento, ele a jogou na traseira do veículo e bateu a porta com força. Fez o mesmo barulho de lata que ela ouvira dias atrás, quando voltava a pé da escola para casa. Agora, sua sala de aula parecia muito distante. Ela se perguntava se algum dia veria seus colegas de novo. A van deu uma ré brusca, atirando-a contra as portas. A dor explodiu como um rojão na parte de trás de seu crânio. 7
Tentou endireitar o corpo, mas a van corria rápido, jogando-a de um lado para o outro. Seu rosto bateu com força no chão de madeira, e ela encolheu de dor quando sua panturrilha raspou num prego. Uma trilha de sangue quente escorreu até o tornozelo. Suzie teria lhe dito para aguentar firme, como quando ela torcera o pulso na aula de educação física. Naquele dia, Suzie segurou sua outra mão e disse que tudo ficaria bem, enchendo seu coração de força. Ela se sentiu bem melhor. Mas não se sentia bem agora. – Não consigo, Suzie. Me desculpe – Emily sussurrou entre lágrimas e soluços. Queria aguentar firme pela amiga, mas a tremedeira, que havia começado nas pernas, agora se espalhava pelo seu corpo. Ela aproximou os joelhos do queixo, tentando se encolher ainda mais, tentando desaparecer, mas o tremor não cessava. Uma gota de xixi deslizou entre suas coxas. O filete virou um jorro que ela não conseguiu conter. Emily gemia de dor e pânico, rezando para que aquele suplício terminasse. Então, a van parou. – Por favor, m-mamãe, venha me buscar – ela sussurrou, sua voz adentrando o silêncio sinistro. Ficou encostada à porta, sem se mexer. A tremedeira havia paralisado seus membros. Não tinha mais forças para lutar. Tudo o que podia fazer era esperar pelo que aconteceria em seguida. O medo formou um nó em sua garganta quando o sequestrador abriu a porta.
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CAPÍTULO
1
Black Country, março de 2015
Kim Stone sentiu seu sangue ferver. Começando pelo cérebro, a raiva percorreu seu corpo como uma corrente elétrica, indo até a planta dos pés e circulando pelo sangue novamente. Se seu colega Bryant estivesse ali agora, pediria a ela que se acalmasse. Que pensasse antes de agir. Que levasse em conta sua carreira, seu ganha-pão. Então, foi até bom que estivesse sozinha naquele momento. A academia Pure Gym ficava na Level Street, em Brierley Hill, entre o Shopping Merry Hill e o complexo Waterfront de escritórios e barzinhos. Era domingo, horário de almoço, e o estacionamento estava lotado. Kim deu uma volta para localizar o carro que procurava e estacionou sua moto Ninja bem próximo à entrada. Não tinha intenção de ficar ali muito tempo. Ela entrou no saguão e foi até a recepção, onde uma mulher bonita, de corpo torneado, sorriu e lhe estendeu a mão. Kim imaginou que a mulher estivesse esperando receber sua carteirinha da academia, mas ela tinha a própria identificação para mostrar: seu distintivo da polícia. – Não sou membro da academia, mas preciso trocar uma palavrinha rápida com um de seus clientes. A mulher olhou em volta como quem procura ajuda. – Assunto policial – Kim informou. É, digamos que seja isso, acrescentou para si mesma. A mulher assentiu. Kim olhou para o painel de orientação e soube exatamente aonde precisava ir. Virou à esquerda, entrando, por trás, em um salão com três fileiras de aparelhos nos quais as pessoas andavam, corriam ou subiam e desciam degraus. 9
De costas para ela, todos gastavam energia sem ir a lugar algum. A pessoa que procurava estava se exercitando em um canto afastado. Desconfiou que fosse ela pelo cabelo loiro e comprido amarrado num rabo de cavalo. Quando viu o celular sobre a tela de exibição do equipamento, a inspetora teve certeza. Depois de encontrar seu alvo, Kim não deu mais atenção aos braços e pernas que se erguiam e se alongavam ao seu redor, nem aos olhares curiosos que recebia por ser a única pessoa totalmente vestida naquela sala. Para ela, a única coisa que importava era o envolvimento de uma mulher na morte de um menino de 19 anos chamado Dewain. Kim foi até a mulher e parou diante do aparelho em que ela estava. O choque estampado no rosto de Tracy Frost quase amenizou sua raiva, mas não o bastante. – Podemos conversar um instante? – ela perguntou, embora não estivesse realmente pedindo permissão. A mulher quase perdeu o equilíbrio – o que teria sido simplesmente terrível. – Como você conseguiu...? – Tracy olhou em volta. – Não vai me dizer que usou seu distintivo para entrar. – Podemos conversar em particular? – Kim insistiu. Tracy continuou se exercitando. – Escute, eu não tenho o menor problema em falar aqui mesmo – disse a inspetora, levantando a voz. – Nunca mais vou ver essas pessoas de novo. Ela notou que pelo menos metade dos olhares da sala havia se voltado para as duas. Então, Tracy desceu do aparelho e pegou o celular. Kim ficou surpresa com a estatura da mulher, que devia ter no máximo 1,60 m. Nunca a vira sem saltos de quinze centímetros, não importava a ocasião. Kim abriu a porta do banheiro com força e empurrou Tracy contra a parede. Por pouco a cabeça da mulher não atingiu o secador de mãos. – Que merda você achou que estava fazendo? – gritou a inspetora. A porta de um dos cubículos se abriu e uma adolescente escapuliu do banheiro. Agora, estavam só as duas. – Você não pode colocar as mãos em mim como se... 10
Kim se afastou um pouco, deixando apenas um pequeno espaço entre as duas. – Como é que você pôde publicar aquela matéria, sua estúpida? Ele está morto agora. Dewain Wright está morto por sua causa! Tracy Frost, repórter local e exemplo perfeito de pessoa desprezível, piscou duas vezes ao ouvir as palavras de Kim. – Mas... a minha... matéria... – Sua matéria matou o menino, sua imbecil! Tracy começou a negar com a cabeça, mas Kim confirmou novamente. – Foi, sim. Dewain Wright, um adolescente do conjunto habitacional Hollytree, fizera parte da gangue Hollytree Hoods durante três anos. Quando quis deixar o grupo, outros membros o esfaquearam e abandonaram seu corpo, dando-o como morto. Mas o garoto foi encontrado por um homem que passava por ali, que prestou os primeiros-socorros e salvou sua vida. Então, Kim foi chamada para investigar o crime. A primeira instrução que recebeu da polícia foi de esconder de todos, exceto da família, que o rapaz ainda estava vivo. Sabiam que, se a notícia chegasse à gangue Hollytree, eles dariam um jeito de terminar o serviço. Kim passara aquela noite sentada ao lado da cama dele, rezando para que desafiasse o quadro clínico e conseguisse respirar sem aparelhos. Havia segurado sua mão, oferecendo a própria energia para que ele encontrasse forças para recuperar a consciência. Ela se comovera com a coragem do garoto de desafiar o destino para buscar outros caminhos. Queria saber mais sobre aquele jovem destemido que decidira que a vida de gangue não era para ele. Kim inclinou-se novamente em direção a Tracy e fuzilou-a com o olhar. Não havia como fugir. – Eu implorei para que aquela matéria não fosse publicada, mas você simplesmente não conseguiu se conter, não foi? Estava desesperada por um furo. Tão desesperada que jogou fora a vida de um rapaz! – Kim gritou para ela. – Mas quer saber? Espero que receba a atenção que queria, porque não há mais lugar para você aqui. E farei de tudo para garantir isso. – Não foi por minha causa que o... 11
– Claro que foi por sua causa – disse Kim, furiosa. – Não sei como você descobriu que ele ainda estava vivo, mas, agora, está morto. E dessa vez é pra valer. A confusão estampava o rosto de Tracy. Ela queria falar, mas não conseguia encontrar as palavras. De todo modo, Kim não teria escutado. – Você sabia que ele estava tentando cair fora, não sabia? Dewain era um garoto decente, preocupado apenas em não morrer. – Não pode ter sido culpa minha – disse Tracy, a cor começando a voltar ao seu rosto. – Ah, Tracy, mas foi, sim – disse Kim enfaticamente. – O sangue de Dewain Wright está nas suas patas imundas. – Eu só estava fazendo o meu trabalho. O mundo tinha o direito de saber. Kim se aproximou ainda mais dela. – Juro por Deus, Tracy. Eu não vou descansar até que o mais perto que você consiga chegar de um jornal seja como motorista da expedição. As palavras de Kim foram interrompidas pelo toque de seu celular, e Tracy aproveitou a deixa para sair do seu alcance. – Stone – disse ela ao atender. – Preciso de você na delegacia. Agora. O Detetive Inspetor-Chefe Woodward não era o mais cordial dos chefes, mas costumava ao menos cumprimentá-la antes de falar. Kim pensou rápido. Ele estava ligando no horário de almoço de um domingo, depois de ter insistido para que ela tirasse um dia de folga. E, aparentemente, já estava muito irritado com alguma coisa. – Estou indo praí, Stacey. Me espere com uma taça de vinho branco seco – disse ela, desligando o telefone. Woodward provavelmente não entendera por que ela o chamara de Stacey, mas explicaria isso mais tarde. De jeito nenhum revelaria uma ligação urgente de seu chefe enquanto estivesse cara a cara com a repórter mais desprezível. Kim tinha dois palpites: ou ela estava metida em encrenca ou havia alguma coisa muito grave acontecendo. Qualquer que fosse a opção, não havia nenhuma vantagem em deixar aquela boçal ouvir a conversa. 12
– Não pense que isso acabou – disse Kim, abrindo a porta do banheiro. – Darei um jeito de fazer você pagar pelo que fez. Eu prometo. – E eu farei você perder seu emprego por isso! – Tracy gritou atrás dela. – Vá em frente – Kim disparou por cima do ombro. Um garoto de 19 anos havia morrido na noite anterior, e por um descuido. Ela não estava em seus melhores dias, e tinha a sensação de que aquele estava prestes a ser pior ainda.
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