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O homem que venceu Hitler - Uma história de amor e coragem

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Marcio Pitliuk

O HOMEM QUE VENCEU HITLER Uma história de amor e coragem

3ª edição


Copyright © 2012 Marcio Pitliuk Publicado mediante acordo especial com a Allary Éditions em conjunto com a 2 Seas Literary Agency, sua agente devidamente designada, e com a Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, sua coagente. Publicado anteriormente no Brasil pela Editora Gutenberg com o mesmo título. Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editor responsável

revisão

Arnaud Vin

Aline Sobreira

editor assistente

capa

Eduardo Soares

Diogo Droschi (sobre imagem de Ildiko Neer/Trevillion)

preparação

Cecília Martins Shirley Gomes

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Pitliuk, Marcio O homem que venceu Hitler : Uma história de amor e coragem / Marcio Pitliuk. -- 3. ed.-- São Paulo : Vestígio, 2020. ISBN: 978-85-54126-77-3 1. Ficção brasileira 2. Holocausto judeu (1939-1945) - Ficção 3. Judeus - História 4. Sobreviventes do Holocausto - Ficção I. Título. 20-33439

CDD-B869.3 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500


Este livro é dedicado a todos os que arriscaram a própria vida para salvar judeus durante o Holocausto. Mais de vinte mil pessoas foram reconhecidas e homenageadas com o título “Justos entre as nações”, outorga oferecida pelo Museu do Holocausto de Jerusalém, o Yad Vashen.

Quem salva uma vida, salva a humanidade. Provérbio judaico


Esclarecimento

As histórias de Chaim Kramer e Anna Kowalski e os nomes usados nesta obra são fictícios; no entanto, os diversos acontecimentos que se desenvolvem em torno da história principal são verídicos. Foram relatados por sobreviventes do Holocausto durante o trabalho de pesquisa que resultou neste livro. Trechos em itálico se referem a fatos históricos que aconteceram durante a Segunda Guerra Mundial. Nesses casos, nomes, datas e acontecimentos são absolutamente verídicos. O autor


Prefácio Tom Venetianer1

Há um prescrito em livros sagrados do judaísmo afirmando que: “Aquele que salva uma vida salva a Humanidade”.2

Pitliuk e eu somos amigos de longa data. Foi atendendo a um convite seu que comecei a dar palestras sobre minha experiência pessoal durante o Holocausto, quando, naquela horrível época, eu tinha sete anos. Honrado e com alegria, aceitei o convite dele para prefaciar este livro. Para retribuir a amabilidade do meu amigo, preocupou-me encontrar o enfoque que transmitisse a essência desta bela e sensível obra, fazendo você deleitar-se dela. Estava diante de um dilema. Sabe aqueles momentos em que nos encontramos diante de um impasse como esse? A solução está em pensar, parar, pensar, parar e pensar novamente, até que repentinamente acontece o “clique”. A trama concebida pelo autor contém situações inesperadas – suspense puro –, fugindo assim dos relatos costumeiros das muitas obras escritas sobre o Holocausto. Ele concebeu um romance entre duas pes Engenheiro aposentado, é sobrevivente do Holocausto, prisioneiro dos campos-gueto Terezín e Sered, e presidente nacional da Sherit Hapleitá, entidade que representa os sobreviventes do Holocausto no Brasil.

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Mishnah Sanhedrin 4:5; Talmud Yerushalmi 4:9, Talmud Sanhedrin Babilônio 37a.

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soas que na vida real dificilmente aconteceria. Mas sua descrição é tão realista que, ao longo do relato, você facilmente se identificará com elas. Foi aqui que o clique “clicou”. Recordando minha própria experiência durante a Segunda Guerra Mundial, quando eu e meus pais estávamos próximos da morte, sobrevivemos à orgia homicida nazista graças ao altruísmo de algumas pessoas, como a personagem Anna Kowalski, que foram capazes de superar o temor da morte para assegurar a vida de seu semelhante. Sem tal conduta desprendida, eu e meus pais, e o fictício Chaim Kramer, teríamos perecido nos campos de extermínio na Polônia. Para evidenciar essa constatação, descrevo dois episódios que aconteceram comigo, fundamentando a mensagem central do autor: A despeito das perversidades humanas levadas aos píncaros pelos Nazistas, a bondade e o amor ao próximo também se manifestaram, originando heróis anônimos, tais como a personagem central Anna. Em um mundo conturbado como o atual, essa frase é um sopro de otimismo, assegurando que ainda há esperança para a raça humana. Só por isso já vale obter esta obra. Vamos então aos heróis que me salvaram.

Um padre que honrou sua batina Meu pai não gostava de falar sobre o período do Holocausto, quando foi assassinada grande parte da nossa família, nem sobre os horrores que vivenciou no campo de concentração de Sachsenhausen. Foram precisos muitos anos depois da tragédia para que meu pai relatasse em detalhes esse fato. O Padre J. Kravar era um amigo de longa data do meu tio Gustáv. Ele era o pároco em Kecerovce, um pequeno vilarejo a uns vinte e cinco quilômetros de Košice, na Eslováquia, onde vivíamos. Antes da guerra, o padre e meu tio se encontravam socialmente na sua modesta igreja paroquial. O padre era um enxadrista aficionado, e meu tio jogava razoavelmente bem, daí nasceu uma grande amizade. 10


Quando, em 1942, começaram a aparecer notícias sobre a eventual expulsão dos judeus da Eslováquia, o tio Gustáv foi visitar o padre para se consultar. Expôs que ele temia que os fascistas eslovacos o entregassem e a sua família para os nazistas. Indagou o que o amigo lhe recomendava. Padre Kravar respondeu: – Gustáv, você e sua família deveriam se converter ao cristianismo. Sabe, eu já fiz isso algumas vezes com outras famílias judias. Um certificado de batismo, ainda que falso, pode evitar que sejam importunados. É provável que esse documento dê uma certa garantia de não serem levados sabe lá Deus para onde. Aquele desgraçado do Tiso3 é capaz de querer lamber as botas dos seus senhores em Berlin e autorizar essa barbaridade. Relutantemente meu tio aceitou a oferta. Mais tarde, com o recrudescimento das perseguições aos judeus, meu pai e os outros irmãos também foram “batizados” pelo padre Kravar. Não era um batizado de fato, e o padre arriscava o seu pescoço, emitindo certificados falsos para cada um dos membros da nossa família. Você, leitor, talvez esteja se perguntando onde estava a temeridade cometida pelo padre. Na Eslováquia, sob o regime fascista monitorado por Berlim, qualquer pessoa que ajudasse um judeu a se esconder, ou a fugir, seria imediatamente preso e fuzilado. O mesmo risco de punição corria a personagem Anna, quando acolheu o personagem Chaim nesta obra que você tem em mãos. Por meses esses certificados ajudaram a nos esconder nas Montanhas dos Cárpatos sob o disfarce de camponeses eslovacos com nomes trocados e falsos. Esses documentos continham o selo episcopal da região, conferindo-lhes veracidade. Até que a farsa foi descoberta, fomos capturados e deportados. Porém, muitos anos depois, os certificados do padre Kravar realizaram outro milagre, que contarei adiante. Josef Tiso, um bispo católico que foi presidente da república eslovaca fascista. Era um antissemita convicto.

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Salvo por uma prisioneira No outono de 1944, fomos capturados pela Gestapo no esconderijo das montanhas que citei anteriormente. Passamos por dois campos de trânsito. No primeiro, os homens foram separados das mulheres. Mamãe e eu fomos deportados para o campo-gueto Terezín, hoje uma cidade pacata na República Tcheca. Meu pai foi para Sachsenhausen, um campo de trabalhos forçados na Alemanha. Vou poupá-lo, leitor, de descrever as péssimas condições vigentes nesse campo de concentração. Todas elas conjuravam para que os prisioneiros adoecessem e morressem, seja por exaustão, subnutrição, falta de condições sanitárias e higiênicas e/ou fraqueza resultante dos execráveis alimentos que nos serviam em quantidades diminutas. Consequentemente, adoeci e tive caxumba. A caxumba é uma doença viral. Na atualidade, com os antipiréticos, seu tratamento é relativamente fácil. Mas em um campo de concentração, a simples febre alta não tratada pode matar o enfermo. No terceiro dia, minha febre tinha chegado à perigosa temperatura de 40º C. Eis que aconteceu um milagre. No local onde trabalhava, mamãe conheceu uma médica tcheca, não judia, a Dra. E. Klim. Era uma prisioneira que trabalhava no ambulatório dos oficiais nazistas. Logo no primeiro encontro, mamãe se apresentou: – Sou Alžbeta Venetianerová. A doutora a olhou, espantada: – Eu sou a Dra. Klim. Por acaso você é parente do Dr. Alexander Venetianer? – Sim, ele é o meu marido. A médica a olhou, estupefata: – Alžbeta, esta é uma coincidência incrível. Seu marido e eu fomos colegas de turma na Universidade Carolina de Praga. Ele estudava Química e Farmácia, e eu, Medicina. Depois de formada, eu me casei e perdi contato com ele. Ali nascia uma grande amizade. A partir de então, e apesar da jornada cansativa, depois do trabalho, as duas se encontravam e conversavam sobre suas vidas antes da guerra. 12


Quando comecei a apresentar os sintomas de caxumba, mamãe pediu que ela me examinasse. Ela diagnosticou a doença. Mamãe conta que a sua expressão já denotava más notícias. – Querida amiga, seu filho corre sério perigo. Se a febre subir muito, ele poderá ter convulsões e problemas respiratórios. Reverter tal quadro sem remédios é impossível. Tente dar banhos frios. Desesperada, mamãe acatou a recomendação. Junto a algumas colegas do nosso alojamento, tentaram me dar banhos frios no lavatório. Era inverno, a temperatura ambiente estava extremamente fria, e eu não aguentava os banhos. De qualquer forma, esse tratamento não parecia ajudar. Incapaz de agir, mamãe procurou novamente a doutora Klim. – Eva, meu filho está com febre muito alta. Os banhos não ajudam. O que faço? Pelo amor de Deus, me ajude. E mamãe começou a soluçar. A médica a abraçou, tentando consolá-la. – Alžbeta, há um único remédio que poderia baixar a febre, mas é muito difícil consegui-lo, pois eu teria que o roubar do ambulatório. Você sabe que, se me pegarem, arrisco um castigo muito sério. Em todo caso, vou ver o que posso fazer. Apesar de correr risco mortal, a doutora decidiu que ia furtar uma dose daquele remédio. Se fosse apanhada, teriam-na mandado para a Pequena Fortaleza,4 uma sentença de morte certa. Nessa mesma noite, ela veio me ver e aplicou o medicamento. Segundo mamãe, eu estava prostrado, banhado de suor e já tinha começado a delirar. A médica passou a noite comigo, acompanhando minha reação à droga, sob o risco de ser descoberta. Em poucas horas, a febre começou a ceder. Na manhã seguinte, minha temperatura voltou ao normal. O inchaço do rosto também diminuiu. A heroína, neste caso, que também arriscou a própria vida, foi uma prisioneira em um campo de concentração, um lugar improvável para atos intrépidos, onde cada um lutava para sobreviver. A Pequena Fortaleza era uma prisão à parte de Terezín, para onde eram enviados os prisioneiros relapsos, fugitivos ou que cometeram crimes hediondos.

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Quando a guerra terminou, meu pai retornou do campo de Sachsenhausen, eu e minha mãe, do campo de Terezín. Todos os nossos parentes, os Venetianer, tinham sido assassinados. Meu pai, enojado e atormentado pela virulência do antissemitismo na Europa, decidiu que íamos emigrar. Ele vinculou tal decisão à condição de que só iríamos para algum país fora do Velho Continente. No meio tempo, a Tchecoslováquia voltou a existir, e sua capital voltou a ser Praga. E como todos os consulados e embaixadas dos países que o interessavam estavam localizados em Praga, papai começou a viajar com frequência para a capital. Esbarrou em muros de intolerância! Nenhum país nas Américas (norte e sul) emitia vistos de entrada para judeus refugiados da guerra. De tanto ir ao consulado brasileiro, ele fez amizade com uma assistente consular, moça jovem e cristã casada com um judeu. A empatia entre os dois se estabeleceu, e a cada vez que meu pai retornava às suas visitas em Praga, ele sempre ia ver essa moça. Sistematicamente a resposta era a mesma: – O governo brasileiro não permite a entrada dos judeus. Em sua última visita, a jovem estava toda sorridente e deu ao meu pai uma boa notícia: – Dr. Alexandre, tenho boas notícias. Se o senhor apresentar um documento atestando que o senhor e sua família não são judeus e outro documento denominado Carta de Chamada, eu conseguirei os vistos. Carta de Chamada era um documento em que o imigrante era convidado a vir ao Brasil, sem custos para o governo brasileiro, em geral emitido por um familiar que vivia no país. Agora voltamos ao padre Kravar. Aquele atestado de batismo que ele fez anos atrás novamente foi útil, já que os papéis certificavam que “não éramos judeus”. Com isso em mãos, meu pai entrou em contato com uma prima da minha mãe que vivia no Brasil há muitos anos e solicitou a Carta de Chamada. 14


Foi assim que, no dia 29 de junho de 1948, aportamos em Santos e começamos vida nova em um país que oferecia grandes oportunidades.

Desfecho feliz Os episódios acima relatados comprovam que a Anna fictícia do livro poderia perfeitamente ter sido uma das minhas personagens reais, como o padre Kravar, ou a doutora Klim, pessoas que, sob o risco da própria morte, decidiram ajudar seus semelhantes. De certa maneira, Chaim Kramer fui eu. Parabéns ao Marcio Pitliuk pela belíssima obra.

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