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Herança

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HERANÇA Miguel Bonnefoy

Tradução: Arnaldo Bloch


Copyright © 2021 Éditions Payot & Rivages Título original: Héritage Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication année 2021 Carlos Drummond de Andrade de l’Ambassade de France au Brésil, bénéficie du soutien du Ministère de l’Europe et des Affaires étrangères. Cet ouvrage a également bénéficié du soutien des Programmes d’aides à la publication de l’Institut Français. Este livro, publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação ano 2021 Carlos Drummond de Andrade da Embaixada da França no Brasil, contou com o apoio do Ministério francês da Europa e das Relações Exteriores. Este livro contou também com o programa de apoio à publicação do Institut Français.

editor responsável

preparação de texto

capa

Arnaud Vin

Sonia Junqueira

editor assistente

revisão

Diogo Droschi (sobre ilustração de Ann.and.Pen/Shutterstock)

Eduardo Soares

Eduardo Soares

diagramação

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Bonnefoy, Miguel Herança / Miguel Bonnefoy ; tradução Arnaldo Bloch. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2021. Título original: Héritage ISBN 978-65-86551-34-1 1. Ficção francesa 2. Realismo mágico 3. Saga familiar I. Título. 21-63644

CDD-843

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura francesa 843 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500


Lazare

L

azare Lonsonier lia durante o banho quando a notícia da Primeira Guerra Mundial chegou ao Chile. Naquela época, ele tinha o hábito de folhear os jornais franceses a doze mil quilômetros de distância, com o corpo imerso em água morna, perfumada por raspas de limão. Anos depois, ao voltar do front só com meio pulmão, e tendo perdido dois irmãos nas trincheiras do Marne, nunca mais conseguiria dissociar as fragrâncias cítricas e o ranço das granadas. Segundo os relatos familiares, seu pai, em tempos remotos, fugira da França levando trinta francos num bolso e uma videira no outro. Nascido em Lons-le-Saunier, nas montanhas do Jura, ele cuidava dos seis hectares de seu vinhedo quando a grande praga de filoxera veio secar suas castas e levá-lo à ruína. Em poucos meses, do legado de quatro gerações de viticultores só lhe restavam, no sopé das encostas, as raízes mortas dos pomares e algumas plantas selvagens, das quais se extraía um triste absinto. 9


Ele deixou essas terras de calcário e cereais, de nozes e cogumelos, e embarcou num navio de ferro saindo do Havre rumo à Califórnia. Como o Canal do Panamá ainda não tinha sido aberto, a embarcação teve que contornar pelo sul das Américas, e ele foi obrigado a viajar quatro dias a bordo de um cap-hornier1 no qual duzentos homens, em porões entulhados de gaiolas de aves, entoavam fanfarras tão barulhentas que ele foi incapaz de fechar os olhos até as proximidades da costa da Patagônia. Uma noite, quando vagueava como um sonâmbulo por um corredor de beliches, ele viu, na penumbra, uma velha mulher com os lábios amarelos, coberta por pulseiras, sentada numa cadeira de palha, com a testa tatuada de estrelas. Fez sinal para que ele se aproximasse e o interpelou. – Não consegue dormir? Ela tirou do sutiã uma pequena pedra verde, menor que uma pérola de ágata e cravejada por minúsculas cavidades cintilantes. – São três francos. Ele pagou, e a velha aqueceu a pedra no fundo de um casco de tartaruga, enquanto agitava a fumaça sob seu nariz. O vapor subiu tão rápido à cabeça que ele pensou que era o fim. Naquela noite, dormiu quarenta e sete horas de um sono forte e profundo, no qual vinhedos dourados eram percorridos por criaturas marinhas. Ao acordar, vomitou tudo o que tinha no ventre e, incapaz de sustentar o peso do próprio corpo, não saiu da cama. Ele jamais soube se foram as fumaças da velha cigana Expressão francesa usada para designar qualquer navio que atravesse o Cabo Horn (em francês, Cap Horn), ponto mais meridional da América do Sul. [N.T.]

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ou as fétidas emanações das gaiolas do porão, mas caiu num estado de febre delirante. Passou toda a travessia do Estreito de Magalhães alucinando, em meio às catedrais de gelo, vendo sua pele se cobrir de manchas grisalhas, como se seu corpo se desfizesse em cinzas. Ao capitão, que já sabia reconhecer os primeiros sinais da bruxaria, bastou bater o olho para prever a ameaça de uma epidemia. – É a febre tifoide. Vamos desembarcá-lo na próxima escala. Foi assim que, em plena Guerra do Pacífico, ele aportou em Valparaíso, na costa do Chile, um país que ele não sabia localizar num mapa e cuja língua ignorava completamente. Ao chegar, juntou-se à longa fila que se estendia paralela a um armazém de pesca, na direção do posto alfandegário. Percebeu que o agente de imigração fazia sempre duas perguntas a cada passageiro antes de carimbar a ficha. Concluiu que a primeira deveria ter a ver com a procedência do passageiro, e a segunda, logicamente, se referia à destinação. Quando chegou sua vez, o agente perguntou, sem levantar os olhos: – Nombre? Sem entender uma palavra de espanhol, mas convencido de ter adivinhado a pergunta, ele respondeu, sem hesitação: – Lons-le-Saunier. A expressão no rosto do agente não dizia nada e, com um gesto cansado, ele se limitou a anotar, preguiçosamente: “Lonsonier”. O funcionário prosseguiu: – Fecha de nacimiento? – Califórnia. O agente encolheu os ombros, escreveu uma data e entregou a ficha ao viajante. Naquele instante, o homem 11


que deixara os vinhedos do Jura foi rebatizado Lonsonier e nasceu pela segunda vez em 21 de maio, dia de sua chegada ao Chile. Ao longo do século que se anunciava, ele jamais retomaria o rumo do Norte, desencorajado pelo deserto do Atacama e pelos augúrios das xamãs. Às vezes, quando olhasse para as colinas da Cordilheira, diria: – O Chile me faz pensar na Califórnia. Lonsonier habituou-se rápido às estações invertidas, às siestas no meio do dia e ao novo nome, que, apesar de tudo, preservava sonoridades francesas. Aprendeu a reconhecer os tremores de terra e a agradecer a Deus por tudo, mesmo pela desgraça. Ao fim de poucos meses, falava como se fosse nativo da região, pronunciando os r como as rochas de um rio, acusado apenas por um leve sotaque. Como lhe haviam ensinado a ler as constelações do zodíaco e a medir as distâncias astronômicas, decifrou a nova escritura austral, na qual a álgebra das estrelas era efêmera, e compreendeu que viera parar num outro mundo, um mundo feito de pumas e araucárias, um mundo primordial, povoado por gigantes de pedra, salgueiros e condores. Foi contratado para chefiar a viticultura nos domínios de Concha y Toro e construiu várias adegas, ou bodegas, como eram chamadas, em fazendas de criadores de lhamas e tratadores de gansos. A antiga vinícola francesa, nas bordas da Cordilheira, precisava renovar-se e renascer naquele talho de terra longo e estreito, suspenso no continente como uma espada à cintura, onde o sol era belo. Não demorou para ser admitido numa confraria de expatriados, transferidos, chilianizados, ligados por hábeis alianças e enriquecidos pelo comércio de vinho estrangeiro. O humilde viticultor, o pobre camponês que 12


tomara a estrada dos mistérios, viu-se, subitamente, no comando de várias propriedades, convertido num engenhoso homem de negócios. Nada, nem as guerras, nem a filoxera, nem as revoltas ou as ditaduras afetavam sua nova prosperidade. Tanto que, ao festejar seu primeiro ano em Santiago, Lonsonier abençoou o dia em que uma cigana, a bordo de um navio de ferro, queimou uma pedra verde sob suas narinas. Ele se casou com Delphine Moriset, uma moça ruiva frágil e suave, de cabelos lisos, vinda de uma antiga família bordalesa de comerciantes de guarda-chuvas. Delphine contava que sua família decidira migrar para São Francisco depois de um período de seca na França, na esperança de abrir uma loja na Califórnia. Os Moriset atravessaram o Atlântico e costearam o Brasil e a Argentina antes de passar pelo Estreito de Magalhães, quando fizeram uma escala no porto de Valparaíso. Por uma ironia do destino, chovia naquela manhã. Num ímpeto, seu pai, o Sr. M. Moriset, desceu ao cais com um baú e vendeu em uma hora todos os guarda-chuvas que traziam na bagagem. Não voltaram ao navio e trocaram São Francisco por esse país de garoas, espremido entre uma montanha e um oceano, onde, dizia-se, em certas regiões a chuva podia cair sem parar durante meio século. Unido pelos acidentes do destino, o casal instalou-se em Santiago, numa casa em estilo andaluz na Rua Santo Domingo, perto do Rio Mapocho, cujas cheias acompanhavam o degelo da neve. A fachada se escondia por trás de três limoeiros. Os cômodos, todos com pé-direito alto, exibiam um mobiliário da época do Império composto de peças artesanais de vime de Punta Arenas. Em dezembro, mandavam trazer especialidades francesas, e 13


a casa se enchia de abóboras e vitela recheada, gaiolas apinhadas de codornas vivas e faisões depenados, que já vinham deitados sobre bandejas de prata, com uma carne tão endurecida pela viagem que não se podia cortá-la ao chegar. As mulheres então se dedicavam a experiências culinárias improváveis, mais próximas da magia que da gastronomia. Misturavam às velhas tradições das mesas francesas a vegetação da Cordilheira, impregnando os corredores de aromas misteriosos e fumaças amarelas. Serviam-se empanadas recheadas com chouriço, frango ao malbec, pasteles de jaiba com queijos de Flandres e reblochons tão fedorentos que as criadas chilenas achavam que vinham de vacas doentes. Os filhos que tiveram, em cujas veias não corria uma única gota de sangue latino-americano, eram mais franceses que os franceses. Lazare Lonsonier foi o primeiro dos três meninos a nascer em quartos cobertos de lençóis vermelhos cheirando a aguardiente e a poção de serpente. Mesmo cercado por matronas que falavam mapuche, sua primeira língua foi o francês. Os pais não queriam privá-los dessa herança migratória, que, no fim das contas, salvara-os do exílio: era, entre eles, como um refúgio secreto, um código de classe, ao vestígio e triunfo de uma vida anterior. Na tarde do nascimento de Lazare, quando o batizavam sob os limoeiros na entrada da casa, fizeram uma procissão no jardim e, vestindo ponchos brancos, celebraram o ato ressuscitando a videira que o velho Lonsonier trouxera no bolso e guardara, junto com um punhado de terra, dentro de um chapéu. – Neste momento – ele disse – cobrindo o caule de terra – nós plantamos, de fato, nossas raízes. 14


Desde então, sem nunca ter estado lá, o jovem Lazare Lonsonier imaginou a França envolta na mesma fantasia com que os cronistas das Índias provavelmente imaginaram o Novo Mundo. Passou a juventude num universo de histórias mágicas e remotas, protegido das guerras e das agitações políticas, sonhando com uma França que havia sido retratada, nos livros, como uma sereia. Nela, vislumbrava um império que conduzira tão alto a arte do refinamento que a descrição dos viajantes não podia superar o próprio Império. A distância, as raízes extraviadas, o tempo haviam embelezado esses lugares que seus pais, com amargura, abandonaram. Assim, sem conhecê-la, sentia saudade da França. Certo dia, um vizinho com sotaque germânico perguntou de que região vinha seu nome. O rapaz louro, de porte elegante, era originário de uma corrente migratória de colonos alemães ao Chile, vinte anos antes. Sua família se instalara no sul para trabalhar as terras escassas da Araucânia. Lazare voltou para casa com a pergunta entalada na garganta. À noite, seu pai, consciente de que a família herdara seu patrimônio de um mal-entendido na alfândega, murmurou em seu ouvido: – Quando você for à França, encontrará seu tio. Ele vai contar tudo. – Como ele se chama? – Michel René. – Onde ele mora? – Aqui – disse, apontando para o coração. As tradições do velho continente estavam tão arraigadas na família que, no mês de agosto, ninguém se surpreendeu 15


com a chegada da moda dos “banhos”. Uma tarde, o pai Lonsonier chegou em casa cheio de opiniões sobre a higiene doméstica. Em seguida, importou uma banheira com pés decorativos, que não tinha nem torneiras nem ralo: era só um grande ventre de mulher grávida onde duas pessoas podiam se acomodar lado a lado em posição fetal. Madame ficou impressionada, as crianças se divertiram com as proporções da peça, e o pai explicou que ela era feita de presas de elefante, provando, assim, que a nova aquisição da família era a descoberta mais fascinante depois do motor a vapor ou da máquina de fotografar. Para enchê-la, pediu ajuda a Fernandito Bracamonte, el aguatero, o carregador de água do bairro, pai de Hector Bracamonte, que teria, alguns anos depois, um papel capital na genealogia familiar. Já naquela idade era um homem curvado como um galho de bétula, com enormes mãos de obreiro. Atravessava a cidade montado em lombo de mula, puxando uma carroça com barricas de água quente, e subia os degraus para encher as bacias com gestos cansados. Dizia ser o mais velho de uma irmandade que vinha do outro lado do continente, no Caribe, entre os quais Severo Bracamonte, o garimpeiro, um restaurador de igrejas de Saint-Paul-du-Limon, um utopista de Libertalia e um cronista maracucho que respondia pelo nome de Babel Bracamonte. Mesmo com tantos confrades, ninguém parecia se preocupar com ele na noite em que os bombeiros o encontraram afogado na traseira de um caminhão-pipa. A banheira foi instalada e, como todos os Lonsonier lavavam-se em fila, um de cada vez, mergulharam alguns limões, colhidos das árvores no alpendre, para purificar a água, e arrumaram um suporte de bambu para ajudar a folhear o jornal. 16


Por isso, em agosto de 1914, quando a notícia da Primeira Guerra Mundial chegou ao Chile, Lazare Lonsonier lia durante seu banho. Uma pilha de jornais tinha chegado naquele dia com dois meses de atraso. L’Homme Enchaîné publicava telegramas do imperador Guilherme II ao Czar. L’Humanité anunciava o assassinato de Jaurès. Le Petit Parisien informava sobre o estado de sítio geral. Mas a última edição do Petit Journal exibia, numa grande manchete com caracteres intimidadores, que a Alemanha acabava de declarar guerra à França. – Pucha! – exclamou. A notícia despertou em sua consciência a distância que os separava. Súbito, sentiu-se dominado por uma noção de pertencimento àquele país longínquo, atacado em suas fronteiras. Saltou da banheira. No espelho, viu um corpo baixo, magro e inofensivo, inapto para o combate. Mesmo assim, experimentou um renovado heroísmo. Contraiu os músculos, e um orgulho sóbrio abrasou seu coração. Parecia reconhecer o sopro de seus ancestrais e, nesse instante, teve uma intuição medonha: deveria, com certeza, obedecer ao destino que, depois de uma geração, lançava os seus rebentos ao mar. Enrolou-se numa toalha e desceu ao salão brandindo o jornal. Diante da família reunida, com o corpo emanando um denso perfume de limão, elevou o punho e declarou: – Vou lutar pela França! Naquela época, a memória da Guerra do Pacífico permanecia viva. O caso de Tacna e Arica, províncias peruanas conquistadas pelo Chile, ainda criava conflitos de fronteira. Como o exército peruano era vinculado à 17


França e o chileno, à Alemanha, era natural para os filhos de imigrantes europeus, nascidos nas encostas da Cordilheira, ver na discórdia da Alsácia-Lorena uma analogia com a contenda de Tacna-Arica. Os três irmãos Lonsonier – Lazare, Robert e Charles – abriram um mapa da França sobre a mesa e se puseram a estudar meticulosamente o deslocamento das tropas, sem ter a mínima ideia daquilo que viam, convencidos de que seu tio Michel René travava batalhas nas pradarias de Argonne. Proibiram que se tocasse Wagner no salão e, com taças de pisco à mão, sob a luz de uma lâmpada, divertiram-se dizendo os nomes de rios, vales, cidades e aldeias. Em poucos dias, o mapa estava coberto de tachinhas coloridas, alfinetes e bandeirolas de papel. Pesarosas, as criadas observavam a pantomima, respeitando a ordem de não pôr a mesa enquanto o mapa estivesse sobre ela. Além do mais, ninguém na casa entendia como era possível lutar por uma região onde não se reside. No entanto, em Santiago, a guerra ecoava como um chamado vizinho, tão poderoso que, em breve, estaria no centro de todas as conversas. De repente, uma outra liberdade – aquela da escolha, aquela da pátria – irrompia diante deles, afirmando sua presença e sua promessa de glória. Nas paredes do consulado e da embaixada foram colados cartazes que alertavam para a mobilização geral e anunciavam coletas de fundos. Edições especiais eram impressas com urgência, e senhoritas que só falavam espanhol confeccionavam caixas de chocolate em forma de quepes. Um aristocrata francês instalado no Chile reservou três mil francos para recompensar o primeiro soldado franco-chileno a ser condecorado por um ato de guerra. Os cortejos se formaram nas principais avenidas, 18


e os navios começaram a se encher de recrutas, filhos ou netos de colonos, que partiam para guarnecer as fileiras com as fisionomias confiantes, as mochilas cheias de roupas dobradas e amuletos feitos de escamas de carpa. O espetáculo era tão sedutor, tão radiante, que os irmãos Lonsonier, arrastados por aquela hora grandiosa, não puderam resistir ao desejo ardente de participar da mobilização em massa. Em outubro, na Avenida Alameda de Santiago, diante de quatro mil pessoas, fizeram parte do grupo de oitocentos franco-chilenos que deixaram a estação de Mapocho na direção de Valparaíso, onde deviam embarcar num navio com destino à França. Uma missa foi celebrada na igreja San Vicente de Paul, entre as ruas 18 de Septembro e San Ignacio, e uma banda militar interpretou a Marseillaise de forma retumbante diante de uma plateia tricolor. Mais tarde, soube-se que os reservistas eram tantos que foi preciso engatar vagões especiais à fileira do expresso del norte, e que muitos voluntários atrasados levaram quatro dias para transpor a Cordilheira dos Andes, coberta de neve naquela estação do ano, antes de chegar ao navio em Buenos Aires. A travessia foi longa. O mar produziu em Lazare um misto de angústia e fascínio. Enquanto Robert lia o dia inteiro na sua cabine e Charles se exercitava na ponte, ele fumava, escutando os rumores que circulavam entre os outros recrutas. Pela manhã, eles entoavam cantos militares e marchas heroicas, mas à noite, ao poente, sentados em círculo, contavam histórias apavorantes que diziam que no front choviam cadáveres de pássaros, que a febre negra fazia germinar escargots no estômago, que os alemães 19


gravavam à faca suas iniciais na pele dos prisioneiros e que doenças desaparecidas desde os tempos do Barão de Pointis estavam de volta. Mais uma vez, Lazare evocava a França como uma quimera, uma arquitetura feita de relatos. Quando, ao fim de quarenta dias, distinguiu a costa francesa, deu-se conta de que o único pensamento que não havia considerado era o de que ela realmente existia. Para o desembarque, ele vestiu uma calça de veludo cotelé, mocassim de palmilhas finas e um paletó de malha trançada que herdara do pai. Vestido à chilena, pisava no cais com a ingenuidade do adolescente que um dia fora, não com o orgulho do soldado que se tornaria. Charles, por sua vez, usava um traje de marinheiro, uma camisa de listras azuis e uma boina de algodão coroada por um pompom vermelho. Tinha esculpido no rosto um bigode fino, perfeitamente simétrico, ornando os lábios à moda de seus gloriosos ancestrais gauleses, o qual alisava com um pingo de saliva. Robert trajava uma camisa com peitilho, calça de cetim e, pendurado na cintura, exibia um relógio de prata atado a uma correntinha. Só no dia de sua morte soube-se que a peça sempre marcava a hora chilena. A primeira coisa que notaram ao descer no cais foi o perfume, quase idêntico ao do porto de Valparaíso. Mas não tiveram tempo de evocá-lo, pois, imediatamente, foram enfileirados diante de um comando da companhia e receberam uniformes: uma calça vermelha, um capote fechado por duas séries de botões, polainas e um par de botas em couro. Em seguida, subiram em caminhões militares que transportavam milhares de jovens imigrantes aos campos de batalha, prestes a se dilacerarem no seio do continente que seus pais, um dia, haviam deixado para 20


nunca mais voltar. Sentados frente a frente em bancos longos, nenhum deles falava o francês que Lazare conhecia dos livros, de traçado espirituoso e palavras seletas. Só davam ordens sem poesia e insultavam um inimigo que não se via nunca. À noite, após a chegada, numa fila diante de quatro grandes panelas de ferro fundido em que dois cozinheiros ferviam um ensopado de ossos, Lazare só ouvia dialetos bretões e provençais. Por um instante, foi tentado a retornar à embarcação, tomar o mesmo caminho que o trouxera e voltar para casa. Mas lembrou-se da promessa e decidiu que se algum dever patriótico existia para além das fronteiras, era o de defender o país de seus avós. Nos primeiros dias, Lazare Lonsonier esteve tão ocupado nas tarefas de consolidar trincheiras, fixar troncos e divisórias, estabilizar o solo com placas, que não teve tempo de sentir falta do Chile. Com seus irmãos, passou mais de um ano instalando arame farpado, dividindo a comida em porções e transportando caixas de explosivos por longas vias bombardeadas, exposto a baterias de artilharia, entre uma linha e outra. No início, para preservar a dignidade de soldados, sempre que encontravam uma fonte de água limpa tomavam banho com um pouco de sabão, que cobria seus braços com uma espuma cinzenta. Deixaram crescer as barbas, mais por moda que por desleixo, merecendo, como os demais soldados franceses entrincheirados, a honrosa alcunha de poilus. Mas à medida que passavam os meses, o preço da dignidade se tornava humilhante. Em grupos de dez, eles se submetiam ao degradante ritual da desinfecção: completamente nus, num prado, com suas roupas mergulhadas em água fervente, esfregando seus fuzis com uma mistura de fuligem e gordura. Depois vestiam de novo seus uniformes rasgados, 21


imundos, desfiados, cujos odores perseguiriam Lazare até as horas mais sombrias da ascensão nazista. Corria o boato de um prêmio de trinta francos oferecido a quem trouxesse uma informação do front inimigo. Rapidamente, nas piores condições, soldados rasos, esfomeados, tentaram a sorte, rastejando por entre cadáveres cobertos de larvas. Enfiavam-se na lama como animais e ficavam em vigília, abrindo espaço entre os cachos de suas espessas cabeleiras, na esperança de pescar, pela fenda dos ouvidos, uma data, uma hora, um indício de ataque. Longe de seus alojamentos, eles se insinuavam ao longo das linhas alemãs, tremendo de pavor e de frio, e, em sua função de vigias clandestinos, passavam às vezes noites inteiras encolhidos em buracos de explosão. O único a ver a cor do dinheiro foi Augustin Latour, um cadete que vinha de Manosque. Ele dizia ter descoberto um alemão no fundo de um barranco, o pescoço quebrado pela queda. Ao revistar seus bolsos, só encontrou cartas em alemão, notas de marcos e pequenas moedas com um buraco quadrado no meio. Mas num fundo falso em couro, ao nível da cintura, avistou os trinta francos, cuidadosamente dobrados em seis, que o alemão sem dúvida roubara de um cadáver francês. Ele agitava as notas, repetindo: – Eu reembolsei a França! Foi mais ou menos nessa época que descobriram um poço a meio caminho entre as duas trincheiras. Até o fim de sua vida, Lazare Lonsonier não soube como as duas linhas inimigas fizeram para acertar os termos do cessar-fogo que permitia seu uso. Por volta de meio-dia, os tiros cessavam, e um soldado francês tinha meia hora 22


para sair de sua trincheira, encher de água um punhado de baldes volumosos e retornar. Passada a meia hora, era a vez de um soldado alemão se abastecer. Assim que os dois fronts estivessem guarnecidos, os tiros recomeçavam. Era a maneira de sobreviverem, para seguirem se matando. Essa dança macabra se reproduzia diariamente com uma precisão militar, sem tropeços de parte a parte, num estrito respeito aos códigos cavalheirescos da guerra. A ponto de muitos voltarem do poço dizendo terem ouvido pela primeira vez, desde o início do conflito, o canto distante de um pássaro ou o murmúrio de um moinho. Um dia, Lazare Lonsonier se voluntariou. Carregando quatro baldes pendurados nos antebraços, vinte cantis vazios a tiracolo e uma bacia para lavar louças entre as mãos, ele chegou ao poço em dez minutos de marcha, perguntando-se como daria conta do caminho de volta com os mesmos recipientes cheios. O poço, envolvido por um velho canteiro e uma mureta decrépita, tinha a tristeza de um viveiro vazio. Em seu entorno jaziam algumas bacias cravejadas de balas e um uniforme militar que alguém abandonara em suas bordas. Ele amarrou a alça do balde numa corda e o fez descer até ouvir um esguicho. Quando o puxou de volta, uma massa surgiu, súbita como um rochedo, diante dele. Lazare levantou a cabeça. De pé, coberto de lama de camuflagem, um soldado alemão apontava sua arma contra ele. Aterrorizado, ele soltou a corda, deixou cair o balde, girou o corpo num impulso, tentou fugir, mas tropeçou numa pedra e gritou: – Pucha! Esperou pelo tiro, que não veio. Lentamente, abriu os olhos e voltou-se para o soldado, que deu um passo à 23


frente. Lazare recuou. O homem com certeza não tinha a mesma idade que ele, mas o uniforme, as botas, o capacete, tudo lhe dava vantagem. O soldado alemão abaixou sua pistola e perguntou: – Eres chileno? A frase foi sussurrada num espanhol perfeito, um espanhol que evocava condores selvagens e arrayanes, corvos marinhos e rios que cheiravam a eucalipto. – Si – respondeu Lazare. O soldado pareceu aliviado. – De donde eres? – De Santiago. O alemão sorriu. – Yo también. Me llamo Helmut Drichmann. Lazare reconheceu o jovem vizinho da Rua Santo Domingo, o mesmo que lhe perguntara, dez anos antes, a origem de seu nome. A notícia da guerra caíra em suas cabeças ao mesmo tempo. Os dois cederam à tentação de atravessar um oceano para defender outro país, outra bandeira, mas agora, diante daquele poço, no espaço de um instante, eles voltavam em silêncio a beber da fonte que lhes dera a vida. – Escuchame – disse o alemão. – Estamos preparando um ataque-surpresa sexta-feira à noite. Dê um jeito de ficar doente e passe a madrugada na enfermaria. Isso pode salvar sua vida. Helmut Drichmann pronunciou essas palavras num sopro só, sem cálculo nem estratégia. Ele o disse como quem dá água a outro homem. Não porque se tem a água, mas porque se tem a sede. O alemão retirou seu capacete com um gesto lento, e só então Lazare pode vê-lo direito. Seu rosto era de uma beleza de mármore, pesado e translúcido, de uma cor sóbria, cuja pátina remetia ao charme 24


das velhas estátuas. Lazare lembrou-se de todos aqueles soldados que dormiam nas fossas na esperança de flagrar uma conversa, de revelar o esconderijo de um pelotão ou a posição secreta de uma metralhadora. Então mediu o preço dessa confidência, que lhe pareceu, de repente, absurda e transparente, lançada, com suas grandezas e suas infâmias, nas verdadeiras dimensões da História. Ele viveu naquele dia o primeiro dilema de uma longa cadeia que perseguiria as gerações que viriam após a sua. Deveria salvar a própria pele, refugiado na enfermaria, ou proteger seus companheiros, fazendo, imediatamente, um relatório ao oficial superior? A recusa em escolher crescia dentro dele com um clamor silencioso. Assim que retornou às linhas francesas e encarou seus confrades, temeu que pudessem ler em seus olhos a dupla identidade de mentiroso e traidor que assumia. Concluiu que, por amor ao Chile, era necessário respeitar o segredo que Helmut Drichmann acabava de lhe confiar. Imaginou um meio-termo impossível entre a impostura e a confissão. Procurou um indício, um sinal que pudesse confortar sua escolha, mas diante de seus camaradas exaustos, permaneceu hesitante. Mas ao ver Charles e Robert sob cobertas encardidas, deitados em leitos de milho prensado, a vergonha que experimentou foi tanta que, sem nada poder fazer, viu sua decisão esvair-se. Compreendeu que a verdadeira fraternidade o ligava, no fundo dele mesmo, a uma outra escolha. Ainda levou um tempo para perceber. Estava longe de supor que acabava de se abrir nele a primeira ferida. Com um discreto pudor, uma hora depois de sua chegada, informou ao seu superior sobre a emboscada alemã. Quando lhe ofereceram os trinta francos de prêmio, ele recusou. 25


Na quinta-feira, ao amanhecer, o esquadrão de Lazare atacou, com cinquenta homens bem armados. Pegos de surpresa quando ainda dormiam, os alemães foram incapazes de reagir à ofensiva. Os franceses jogaram granadas nas camadas de palha, incendiaram a despensa, executaram prisioneiros, soltaram as matilhas de cães, fuzilaram os reféns. Durante muitas horas, cometeram os mesmos abusos que atribuíam ao inimigo. Logo, os derrotados rastejavam na lama em torno dos vencedores. Lazare procurou com os olhos o cadáver de Helmut Drichmann na planície fumacenta. Revirou corpos, decifrou suas insígnias, curvado sobre cada uniforme, tão concentrado que não viu o projétil estourar próximo dele. A bomba explodiu a um metro com uma força letal. Muitos anos mais tarde, no fim de sua vida, na casa em Santo Domingo, prestes a deixar este mundo, Lazare reviveria com precisão horripilante a memória daquela detonação que o lançou nas escavações de um abrigo vizinho e estilhaçou suas costelas numa pedra. O choque abriu seu flanco esquerdo e cavou nele um buraco tão profundo que era possível identificar, coberto de terra e de chuva, seu pulmão, exposto. Antes de perder a consciência, pensou ter visto o rosto de Helmut Drichmann curvar-se sobre ele. Em seguida, deixou-se afundar num abismo etéreo e esqueceu a cena durante anos. Até o dia em que, três décadas e dois meses depois, aquele mesmo soldado alemão, carregado de ouro e de lama, foi procurá-lo em sua sala para conduzi-lo a seu próprio encontro com a morte.

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