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Gênero e educação - 20 anos construindo o conhecimento

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GÊNERO E EDUCAÇÃO: 20 ANOS CONSTRUINDO CONHECIMENTO Cláudia Vianna e Marília Carvalho (Orgs.)

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Copyright © 2020 Programa de Educação para a Diversidade – ProEx/UFOP Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

COORDENADORA DA SÉRIE CADERNOS DA DIVERSIDADE

REVISÃO

Lúcia Assumpção Júlia Sousa Samira Vilela

Keila Deslandes CONSELHO EDITORIAL

Adriano Nascimento – UFMG Alcilene Cavalcante de Oliveira – UFG Carla Cabral – UFRN Érika Lourenço – UFMG Keila Deslandes – UFOP Mônica Rahme – PUC Minas Richard Miskolci – UFSCar

CAPA

Alberto Bittencourt PROJETO GRÁFICO

Tales Leon de Marco DIAGRAMAÇÃO

Larissa Carvalho Mazzoni

EDITORAS RESPONSÁVEIS

Rejane Dias Cecília Martins

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gênero e educação : 20 anos construindo conhecimento / Cláudia Vianna, Marília Carvalho (organizadoras). -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2020. Bibliografia ISBN 978-85-513-0796-0 1. Comportamento 2. Desigualdade social 3. Educação 4. Educação sexual 5. Identidade de gênero 6. Política educacional 7. Relações de gênero I. Vianna, Claudia. II. Carvalho, Marília. 20-33601 CDD-370.1934 Índices para catálogo sistemático: 1. Desigualdades sociais : Sociologia educacional : Educação 370.1934 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310 - 2312 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468


Sumário

Prefácio......................................................................................................................................7 Marilia Pontes Sposito

Apresentação .......................................................................................................................11 Cláudia Vianna e Marília Carvalho

Entendendo a “interseccionalidade”: abordagens e desafios........................... 17 Cinthia Torres Toledo

Da homologia entre sexo e raça: um esboço de aproximação conceitual................................................................................................... 31 Luciana Alves

É possível fazer uma análise de gênero a partir de dados quantitativos?......................................................................................................... 45 Adriano Souza Senkevics

O uso de bases de dados na compreensão das desigualdades por sexo e cor/raça na educação brasileira: desafios e potencialidades..... 57 Amélia Artes

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay: pânicos morais sem fronteiras e formação do campo político e educacional antigênero no Brasil da virada do século XX..................................................................................73 Keila Deslandes

As agendas feministas, LGBT e antigênero em disputa nos Planos Estaduais de Educação (2014-2018).......................................................................... 81 Cláudia Vianna e Alexandre Bortolini

O que velam e revelam as ilustrações dos livros didáticos do PNLD/2013 para a Educação do Campo: um olhar sobre o gênero.............................................................................103 Neide Cardoso de Moura


Quando elas batem: relações sociais de gênero e a violência escolar........ 119 Paulo Rogério da Conceição Neves

Um olhar para a socialização na construção das desigualdades de gênero no contexto escolar.............................................133 Sandra Unbehaum, Thais Gava, Elisabete Regina B. Oliveira (in memoriam)

O que nos ensinam meninas e meninos quando escapam das fronteiras de gênero?.........................................................147 Daniela Finco

Relações de gênero e práticas escolares.................................................................163 Edna de Oliveira Telles

Ofício de aluno: análise das configurações de aluno sob o olhar das relações de gênero.......................................................175 Fábio Hoffmann Pereira

Quilombolas, homens e negros: identidades, masculinidades e educação................................................................187 Alan Augusto Moraes Ribeiro

As professoras e a nova gestão pública: entre o cuidado e as metas..........................................................................................201 Marília Carvalho, Ivana Gonçalves de Oliveira, Ângela Esteves Modesto, Cláudio Marques da Silva Neto

Referências..........................................................................................................................237 Sobre os autores e as autoras.....................................................................................265


Prefácio

Marilia Pontes Sposito Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Cora Coralina

Ao iniciar o prefácio do livro Gênero e Educação: 20 anos construindo conhecimento, organizado por Cláudia Vianna e Marília Carvalho, não posso deixar de registrar este momento que atravessamos. Vivemos tempos difíceis, que têm exigido mudanças em nossas vidas, criado incertezas, perplexidades e novas tensões. Testemunhamos, também, experiências de resistência coletiva e de solidariedade que interpelam, na prática, as desigualdades múltiplas e os individualismos dos modelos neoliberais. O futuro está à nossa frente e, talvez, possamos extrair dessa travessia aprendizados que orientem nossas escolhas e modos de vida. Resgato, no conjunto de fragmentos constituintes da memória, o título do belo romance de Gabriel García Márquez, O amor em tempos de cólera. Sim, apesar do cotidiano atual, território inexplorado a percorrer, reconheço “A alegria em tempos de Covid-19” diante do generoso convite para redigir breves palavras, prefácio desta bela iniciativa. A pandemia expõe feridas profundas da nossa sociedade, sobretudo a dilacerante desigualdade social que condena milhões de brasileiros à fome, ao desemprego e à persistente exclusão de direitos básicos consagrados nas sociedades democráticas. A vida cotidiana em tempos de distanciamento social evidenciou fraturas, frequentemente submersas, tornando mais públicas as desigualdades ainda presentes nas relações de gênero. A violência doméstica atinge em maior proporção as mulheres; o home office, para a maioria daquelas que atuam no mundo profissional, revelou-se de difícil conciliação com as atribuições diárias dedicadas à manutenção da casa, ao cuidado com os filhos e, muitas vezes, à atenção aos idosos e idosas. Revelou, também, o silencioso e não reconhecido grupo de trabalhadoras domésticas, babás e cuidadoras que asseguram 7


a estabilidade de famílias e possibilitam o trabalho feminino nas mais diversas áreas. O lançamento de um livro que traz a temática das relações de gênero nesta conjuntura é extremamente oportuno, ao reiterar a importância da continuidade e aprofundamento dos estudos, pois, como afirmam as organizadoras, trata-se de um processo em permanente construção. Conheci as jovens Cláudia e Marília nos anos 1990, quando ambas estavam enfrentando os desafios do mestrado. Desde aquele momento, acompanhei a trajetória de duas pesquisadoras competentes e dedicadas. Iniciei em 1994 minhas atividades como orientadora de doutorado da Faculdade de Educação da USP, sendo ambas minhas primeiras alunas, e com elas compartilhei as emoções das duas primeiras teses defendidas. Ambas iniciaram sua carreira como docentes da Faculdade de Educação da USP muito jovens, enfrentando um desafio importante ao buscar novos caminhos e temas para a pesquisa, inaugurando na instituição, de modo sistemático, os estudos sobre as relações de gênero na área da Educação. O empenho em viabilizar suas orientações foi acompanhado por um significativo e bem-sucedido esforço para alcançar densidade teórica e metodológica, condições essenciais para o reconhecimento acadêmico. As disciplinas oferecidas por ambas consolidaram a formação de profissionais e pesquisadores(as) ao lado de um número significativo de dissertações e teses por elas orientadas. Seminários e atividades de extensão integraram também a trajetória de trabalho por elas desenvolvida. Em suma, professoras competentes e dedicadas. Mas ainda outra característica se agrega ao que foi brevemente enunciado. A prática profissional de ambas, sempre em parceria, contemplou um traço fundamental para a consolidação da área de estudo: a capacidade de despertar e agregar novos pesquisadores e pesquisadoras por meio do trabalho coletivo. Seus alunos e alunas encontraram nas professoras incentivo e apoio para desenvolver seus projetos, participando do Grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual (EdGES) a partir de 1999. Cláudia e Marília estiveram sempre presentes e, certamente, extraíram dessa convivência contínua novos aprendizados. A prática da pesquisa requer o estudo sistemático, o debate das ideias, a crítica construtiva e o aprendizado do rigor na produção do conhecimento. Após 20 anos de existência, a experiência do EdGES constitui exemplo bem-sucedido desse projeto voltado para a formação de profissionais. Estudantes que participaram das atividades do grupo nesses 20 anos exercem agora importantes atividades em instituições 8


diversas no país. A partir do esforço incansável de Marília e Cláudia, os estudos de gênero encontraram guarida na FEUSP, ao lado de fecunda interlocução com pesquisadores e pesquisadoras de instituições nacionais e internacionais. Esse esforço corajoso e persistente demanda continuidade no interior da instituição, de modo a preservar parte significativa de suas conquistas em termos de relevância social e reconhecimento acadêmico. Comemorando duas décadas de muitos desafios e lutas, o livro Gênero e Educação: 20 anos construindo conhecimento exprime aspectos muito significativos dessa trajetória. A contribuição das organizadoras, de seus parceiros e parceiras para o desenvolvimento dos estudos de gênero na área da Educação certamente ultrapassa aquilo que é possível reunir em um único livro. A seleção dos textos certamente não esgota a riqueza do trabalho desenvolvido, mas ilustra de modo claro aspectos relevantes de suas orientações. A obra reúne contribuições daqueles e daquelas que já conviveram com suas mestras e ainda mantém vínculo com as atividades do EdGES, ao lado das novas gerações que estão em processo de formação. No livro, os aspectos teóricos tratados inicialmente, o cuidado com as questões metodológicas e o amplo leque de investigações são exemplos da importância do trabalho desenvolvido nos estudos das interfaces entre gênero e educação. Além de uma celebração que resgata múltiplas trajetórias de pesquisa, os capítulos aqui reunidos oferecem aspectos importantes e extremamente atuais para o estudo das relações de gênero, perscrutando novas possibilidades e novos desafios. Tem sido uma honra, na condição de colega e amiga, acompanhar as trajetórias das pesquisadoras e professoras. Certamente Marília e Cláudia testemunham, mais uma vez, o enlace entre o ensinar e o aprender, como intuiu a poeta Cora Coralina. Julho de 2020.

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Apresentação

Cláudia Vianna Marília Carvalho

Esta coletânea foi organizada para marcar os vinte anos de trabalho ininterrupto do Grupo de Estudos de Gênero, Educação e Cultura Sexual (EdGES). Cadastrado no Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) desde 1999 e vinculado à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), o grupo é coordenado por Cláudia Pereira Vianna e Marília Pinto de Carvalho. Reúne também pesquisadoras/es vinculadas/os à Fundação Carlos Chagas; Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Presidente Prudente; Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS); Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP); Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Universidade Federal de Lavras (UFLA); Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Parte dessas/es pesquisadoras/es formaram-se no âmbito do grupo e estão entre os mais de oitenta estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado que orientamos, além de participar de nossas pesquisas e seminários. Atualmente, são oito iniciações científicas, doze mestrados e sete doutorados em andamento. Além das investigações levadas a cabo por cada uma/um das/os pesquisadoras/es e suas equipes, em 2006/2007, o grupo desenvolveu coletivamente a pesquisa “Democratizando o conhecimento: uma base de dados sobre mulheres, gênero e educação formal”, financiada pelo CNPq e Secretaria Especial da Mulher, que resultou numa base de dados com 1.213 resumos de teses, dissertações e artigos acadêmicos, disponibilizada ao público. Foram muitas as atividades de extensão, entre cursos, palestras, rodas de conversa e seminários, dentro e fora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP). O mais recente curso intitulado Diálogos de gênero na Educação Básica foi realizado em parceria com o Departamento de 11


Educação da Fundação Carlos Chagas. Também recebemos e debatemos com pesquisadoras/es de diferentes países, como Montserrat Moreno Marimon e Genoveva Sastre Vilarrasa (Universidade de Barcelona); Hilary Povey, Rosemary Preston e Carol Adams (Grã-Bretanha); Nelly Stromquist (University of Maryland); Sonsoles San Roman (Universidade Autônoma de Madri); Raewyn Connell (Universidade de Sidney); e José Ignacio Pichardo Galán (Universidade Complutense de Madri). Todo esse trabalho, em sua riqueza e diversidade, não caberia em uma coletânea e tivemos que fazer opções. Estão aqui representadas as principais linhas de investigação abrigadas no grupo, com a participação de autoras e autores que no momento mantêm atividades conjuntas e diálogo com a equipe. A preocupação com o aprofundamento teórico e a discussão metodológica marcou o EdGES desde suas origens e está presente nos quatro capítulos que abrem o livro, embora não exclusivamente neles. Os textos de Cinthia Torres Toledo (“Entendendo a ‘interseccionalidade’: abordagens e desafios”) e de Luciana Alves (“Da homologia entre sexo e raça: um esboço de aproximação conceitual”) buscam enfrentar teoricamente a complexa relação entre as desigualdades de gênero e outras desigualdades, especialmente a racial. Já os capítulos “É possível fazer uma análise de gênero a partir de dados quantitativos?”, de Adriano Souza Senkevics, e “O uso de bases de dados na compreensão das desigualdades por sexo e cor/raça na educação brasileira: desafios e potencialidades”, de Amélia Artes, refletem sobre dimensões teóricas e metodológicas da pesquisa quantitativa em gênero e educação. Pensamos que esses quatro capítulos permitem vislumbrar alguns dos caminhos futuros da construção de conhecimento em gênero e educação, não apenas porque três de suas/seus autoras/es são jovens doutorandas/os, mas principalmente pelo caráter inovador da forma como esses capítulos desenvolvem duas questões que são relativamente antigas no campo e também no EdGES, mas ainda estão em aberto: a interseccionalidade e os usos da pesquisa quantitativa. O tema das políticas educacionais, tão caro ao grupo e sempre presente em nossa agenda, está representado pelo capítulo de autoria de Keila Deslandes, intitulado “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay: pânicos morais sem fronteiras e formação do campo político e educacional antigênero no Brasil da virada do século XX”; e pelo de Cláudia Pereira Vianna e Alexandre Bortolini, “As agendas feministas, LGBT e antigênero em disputa nos Planos Estaduais de Educação (2014-2016)”. 12


Sintonizados nas mudanças recentes do debate sobre gênero na escola, esses textos enfocam as ofensivas conservadoras antigênero como um fenômeno transnacional, também presente no âmbito das políticas de educação brasileiras, e a disputa em torno dos significados de gênero e de valores como a laicidade e o respeito à diversidade. Os três artigos que se seguem versam sobre aspectos diversos da Educação Básica e constituem ótimos exemplos da importância de um enfoque de gênero na análise de diferentes objetos. Neide Cardoso de Moura aborda os livros didáticos para a escola do campo, em “O que velam e revelam as ilustrações dos livros didáticos do PNLD/2013 para a Educação do Campo: um olhar sobre o gênero”; já Paulo Rogério da Conceição Neves, no capítulo “Quando elas batem: relações sociais de gênero e a violência escolar”, discute situações de violência na escola em que as meninas são protagonistas. Completando esse conjunto, Sandra Unbehaum, Thais Gava e Elisabete Regina B. Oliveira refletem sobre os fundamentos teóricos que permitiriam compreender, em sua complexidade, os processos de aproximação e afastamento das meninas às carreiras científicas. Articulado à pesquisa “Elas nas Ciências”, o capítulo “Um olhar para a socialização na construção das desigualdades de gênero no contexto escolar” é também nossa forma de homenagear a querida Elisabete Regina B. Oliveira (Betinha), falecida em 2018. O livro se completa com cinco capítulos que sintetizam pesquisas empíricas qualitativas sobre os diferentes níveis da escolarização. A Educação Infantil é o foco de Daniela Finco, no texto “O que nos ensinam meninas e meninos quando escapam das fronteiras de gênero?”. Já Edna de Oliveira Telles e Fábio Hoffmann Pereira abordam o Ensino Fundamental, nos capítulos “Relações de gênero e práticas escolares” e “Ofício de aluno: análise das configurações de aluno sob o olhar das relações de gênero”, respectivamente. Esses três estudos não apenas retratam meninos e meninas em ações de conformidade e de transgressão às normas de gênero, como revelam elementos dos simbolismos de gênero que marcam o cotidiano das escolas, seus espaços e suas práticas. Na sequência, Alan Augusto M. Ribeiro, em “Quilombolas, homens e negros: identidades, masculinidades e educação”, nos fala das complexidades sociais vividas por diferentes homens negros, por meio de pesquisa com estudantes universitários. E, finalmente, a equipe formada por Ivana Gonçalves de Oliveira, Ângela Esteves Modesto e Cláudio 13


Marques da Silva Neto, liderada por Marília Pinto de Carvalho, analisa o trabalho das professoras do Ensino Fundamental 1,1 entrecruzando gênero e classe, no capítulo “As professoras e a nova gestão pública: entre o cuidado e as metas”. Ambos os textos exemplificam bem nosso esforço de articular o gênero com outras desigualdades sociais, assim como a importância que atribuímos a uma fundamentação teórica sólida que dê consistência às análises. O leitor notará que, em sua diversidade temática, os capítulos desta coletânea mantêm diálogo entre si, resultado de nossas intensas discussões teóricas. Por essa razão, decidimos manter uma única lista de referências bibliográficas ao final, de forma a destacar que se trata de capítulos de um livro e não apenas peças avulsas agrupadas. Há uma grande diversidade de referenciais, claro, e estamos convencidas de que a uniformização não é boa amiga do conhecimento científico. Mas tomando as obras cujas citações mais se repetem nos diferentes capítulos, duas autoras se destacam como referência teórica no conjunto do livro: Raewyn Connell e, principalmente, Joan Scott. Marca nossa produção a perspectiva de tomar o gênero não como objeto de estudo empírico em si mesmo, mas como categoria de análise, tal como sugerido por Scott (1995). Assim, procuramos entender as marcas de gênero na educação e perceber em que aspectos pensar a partir do gênero pode contribuir para compreender temas candentes do campo educacional, tais como a violência escolar, o ofício de aluno, as políticas educacionais e o trabalho docente, por exemplo, temas que à primeira vista não seriam generificados. Para nos aproximarmos desses objetos, lançamos mão de diferentes estratégias de pesquisa empírica – quantitativa, qualitativa, documental – com uso de observações, entrevistas, questionários, levantamentos textuais e bases de dados demográficos. Embora atentas/os às possibilidades de ação dos sujeitos, nossa ênfase não recai sobre a identidade individual e sua construção, mas sobre os esquemas simbólicos, as ações coletivas, as estruturas e as instituições. Nossa leitura de Scott busca resgatar as diferentes dimensões apontadas pela autora e a necessidade de considerar todas elas, uma vez que “o gênero implica em quatro elementos inter-relacionados”: “os símbolos 1

O Ensino Fundamental se divide em anos iniciais (do 1º ao 5º ano) e finais (do 6º ao 9º ano). No cotidiano das escolas, essas etapas são frequentemente chamadas de Fundamental 1 e Fundamental 2. Usamos neste livro ambas as nomenclaturas.

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culturalmente disponíveis”; os “conceitos normativos que expressam interpretações dos significados dos símbolos”; a política, as instituições e a vida social; e “a identidade subjetiva” (Scott, 1995, p. 86-7). Por sua vez, Raewyn Connell (1987) nos ajuda a reafirmar que considerar as dimensões estruturais não significa negar a mudança histórica, nem a ação dos sujeitos, pois se as estruturas constituem o pano de fundo sobre o qual cada um/a pode agir, elas não são fixas, nem constituem determinações inescapáveis. Pelo contrário, as estruturas têm uma história a partir de tensões e contradições sobre as quais os sujeitos atuam o tempo todo. Essa abordagem tem nos permitido colocar o exame das relações sociais de gênero em diálogo com outras formas de desigualdade – classe, raça, idade, sexualidade, identidade de gênero etc. –, preocupação que transparece neste livro não apenas nas reflexões teóricas, mas também no esforço das análises empíricas em considerar como a articulação entre diferentes desigualdades modula cada uma delas, fazendo com que o gênero seja múltiplo em sua transversalidade. Enfim, num tempo em que tantos desafios estão colocados para a produção de conhecimento – do corte de recursos aos ataques ideológicos à universidade pública – e em particular para o debate de gênero, que vem sendo demonizado e distorcido, temos muito orgulho e alegria de trazer a público este livro. Como ponto de encontro da história com o futuro, ele é somente uma pequena mostra do que fizemos nesses vinte anos de trabalho e um breve anúncio do que ainda vem por aí.

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