O LEGADO FOLCLÓRICO | VOLUME 3
Copyright © 2015 Felipe Castilho Copyright © 2015 Editora Gutenberg
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Psonha
assistente editorial
Thiago Cruz
ilustração de miolo
Carol Christo
diagramação
Christiane Morais Andresa Vidal
revisão
Nilce Xavier capa e logotipo
Octavio Cariello
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Castilho, Felipe Ferro, água & escuridão / Felipe Castilho. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2015. -- (O Legado Folclórico ; 3) ISBN 978-85-8235-318-9 1. Ficção brasileira I. Título. II. Série. 15-06816
CDD-869.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.93
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Para Ant么nio Cedraz.
And as we wind on down the road Our shadows taller than our souls [...] Stairway to Heaven Led Zeppelin
Quando olhares em torno e tudo parecer treva escuridão, fantasma, antes de clamar contra a maldade dos tempos e dos homens, examina se estás sendo a luz que deves ser. Dom Helder Câmara
AGRADECIMENTOS
Se você está chegando agora, ou você leu os outros dois livros da série, ou está perdido – e nada como estar perdido para se encontrar. Oi, meu nome é Felipe! Seja muito bem-vindo. Volte duas casas, você tem mais dois livros para colocar em dia antes de começar este. Não, não dá pra começar a leitura pelo terceiro volume, desculpe. Para quem estava aguardando este livro: o primeiro agradecimento é seu. Pela paciência, pelas mensagens nas redes sociais, pela cobrança e por dividirem esse peso comigo. Agradeço a todos que se envolveram durante o processo de forja do Ferro, Água & Escuridão, seja com uma sugestãozinha aqui ou ali, com broncas ou elogios: Neusa e André, da minha primeira casa (nossa Ilha da Bobeira só cresce); aos amigos da Gutenberg, minha segunda casa; aos amigos da Parceria 6 Assessoria de Comunicação; ao mago Eric Novello, por compartilhar da mesma megalomania que eu na criação de mundos e por me ouvir pirando durante os trajetos de viagem para palestras ou depois de uma sessão de Vingadores; Octavio Cariello, pela capa incrível e pelo logotipo, e Thiago Cruz por contar parte do Legado com tinta guache; todo o povo da Geek.Etc.Br; Hans Zimmer, pela trilha sonora de Interestelar que ouvi em loop em certas partes do livro; Rafael Castilho, melhor fotógrafo tupiniquim; Adenilson e Thais, da Saraiva; Tatiane Martins, do CMRJ; Daniel, Adriano, Lucy, Lucas e demais intergalácticos da Editora Aleph; aos amigos da Quanta Academia de Artes, que é outra casa; e à Daniela, minha nossa, por ter aguentado a minha Transformação Insana, por ter lido quase em tempo real cada uma das linhas deste livro e por ter me ajudado a colocar tudo em ordem. De repente eu percebo que sou muito rico, pois tenho um tesouro gigantesco de pessoas que são muito mais do que eu mereço. Como nem tudo é ouro, flores e mega-abraços, quero fazer um desagradecimento: Lorena, essa é pra você. Eu te detesto.
prólogo
ESQUECIMENTO
O garoto descia as escadas.
Os degraus estavam iluminados por uma lâmpada fraca e amarelada. Cada passo abaixo, um rangido. Cada rangido, uma memória de todo aquele tempo sob a tutela do Patrão. Nem todas eram boas. Mas nem todas eram tão ruins assim. Alguns colegas o acompanhavam no trajeto até a sala, onde o aguardavam para o procedimento padrão de desligamento – um acontecimento que não era muito rotineiro no Casarão. Tapinhas em suas costas, votos de boa sorte e boa viagem – ou viagens, plural, uma vez que sua realidade logo se transformaria em um eterno armar e levantar de acampamentos. Já sobre as pessoas, o garoto não podia garantir que todos sentiriam sua falta, de verdade. De sua parte, tinha certeza: não sentiria. Com o esquecimento promovido por uma sereia, ou mesmo sem ele. Na verdade, pensava, havia uma única razão para tristeza. Mas todos os outros prós eliminavam o contra. < 11 >
Zé o aguardava ao pé da escada. Com aquelas longas costeletas que ele havia passado a usar, os cabelos puxados para trás com brilhantina e a camisa listrada para dentro da calça. Não sorriu, pois aquela não era uma situação feliz. Mas também não era um funeral, felizmente. Era uma escolha do garoto, e escolhas devem ser respeitadas. – Pegou todas as suas coisas? – perguntou o meio-caipora, notando um pequeno saco de pano às costas do garoto. Ele estreitou os olhos cinzentos antes de parar no último degrau e responder ao adulto (que conseguia ser mais baixo que ele). – Todas as minhas coisas seria um exagero. – Wagner sorriu, trocando sua bagagem de ombro. – Não vejo como poderia ter acumulado algo por aqui. Tenho o que vocês me deixaram guardar, o pouco que pude comprar. Desapego material e blá, blá, blá... – Espero que você esteja levando alguma coisa dentro dessa sua cabeça – disse uma voz mais forte, grave, vinda de trás de Zé. Patrão se aproximava, com saltos leves e cadenciados que mal faziam o piso de taco reclamar. – Não proíbo ninguém de encher a mente com o que realmente importa. Wagner revirou os olhos. – Eu sei. Sou grato, e coisa e tal. Patrão parou ao lado de Zé, observando o garoto em silêncio, como se estivesse pensando se teria alguma utilidade repreendê-lo pelo comportamento à essa altura do campeonato. Sua atenção mudou de foco quando um outro adolescente desceu as escadas, pedindo licença e ultrapassando a pequena procissão que vinha atrás de Wagner. Era pouco mais velho, um rapaz de no máximo 16 anos, que também carregava uma trouxa de pano. – Lionel – murmurou Zé, cruzando os braços. – Veio trazer o resto da bagagem do amigo? O jovem parou ao lado de Wagner, que continuou encarando o Saci sem dispensar um olhar para o lado. – Eu vou junto com Wagner. Também quero ir morar com os Gitae. Zé arregalou os olhos e abriu os braços, buscando compreensão nas feições imutáveis do Patrão. Chiou com sua voz de quem engoliu gás hélio. – O que é isso? Uma debandada? O velho Saci enfiou a mão no bolso da calça, o que chamou a atenção instantânea de Wagner para o movimento, fazendo seus olhos relampejarem e brilharem com algo por trás do eterno nublado em suas íris. Patrão, ainda sem dizer uma palavra, também puxou um fósforo do bolso, acendeu-o com o polegar e o levou ao fornilho do cachimbo. Um cachimbo comum, ordinário, de madeira. O interesse nos olhos do pequeno Wagner se esvaiu, e ele voltou ao seu estado de indiferença habitual. < 12 >
– Está tudo bem, Zé – disse Patrão, com uma baforada lenta flutuando entre ele e Lionel, que quase não piscava. – Avisaremos Eugênio que ele terá dois novos membros, então. E que olhar é esse, garoto? Esperava que eu ficasse de joelho e implorasse para você ficar? Wagner riu, contido, e desceu do último degrau da escada, preguiçosamente. – Bom, mas e o tal do meu esquecimento? Cadê? – Isso tudo é pressa, Wagner? A voz era melodiosa. Como se fosse um líquido grosso e que não cai do gargalo da garrafa de uma só vez. Mel derramado nos ouvidos, espesso e doce. Iara entrou na sala, vinda da cozinha, e recostou-se no batente da passagem. Usava um vestido leve de mangas largas, verde-água, estampado com mandalas laranjas. Por baixo, uma calça pantalona boca de sino e uma sandália rasteirinha. Tanto tecido, tantas ondas em seus cabelos negros, apenas para seus olhos verdes chamarem mais atenção do que tudo naquele recinto. Estrelas gêmeas, atraindo toda a gravidade em suas direções. O garoto, pela primeira vez, vacilava e deixava sua expressão presunçosa se desfazer por apenas um segundo antes de levantar a guarda novamente. – Não é pressa, senhora. É só... o que precisa ser feito. Ela demorou um tempo antes de percorrer o espaço que a separava de toda a reunião. Parou entre Patrão e Zé, de frente para Wagner, pouco mais baixo que ela, e estendeu a mão direita. – Primeiro você. O garoto pareceu não entender o que ela queria em um primeiro instante. Então a compreensão o atingiu e ele pousou a bagagem aos pés. Em seguida, levando as mãos para trás de seu pescoço, desfez o nó do cordão – o que deixou o Patrão inquieto por um breve momento – e tirou o muiraquitã de tartaruga de dentro da camisa, quase que imperceptivelmente hesitante. – Aqui está – disse, depositando o amuleto na mão de quem o havia confeccionado. – Feliz? – Não exatamente – disse ela, surpreendendo todos ao redor. – Mas espero que você esteja. O menino nada disse. Continuava olhando para Iara, mulher, sabe-se lá quantas centenas de anos mais velha do que ele apesar do frescor de sua aparência. Wagner deixava transparecer uma espécie de petulância misturada à admiração, à respeito – coisa que ele não fazia questão de demonstrar ao Patrão ou a Zé. Ela, notando que o instante se prolongava, ergueu a outra mão, que não segurava o muiraquitã. – Não vai doer – disse ela. – Acho que já está doendo – ele corrigiu, mas sua fala não fez sentido < 13 >
para a plateia ao redor. A mão de Iara recuou de leve, mas depois tornou a tocar a testa dele. A magia ocorreria em instantes. Ela o encarava, experiente, sabendo que era a primeira vez que sua mente era tocada daquele jeito, invadida. Não teria sequelas nem maiores complicações. Um elo temporário se formaria entre os dois, e então... – Hipólita – Wagner murmurou, de olhos fechados. – O quê? – ela perguntou, se desconcentrando. – O quê? O que ele disse? – também perguntou Zé, no embalo, sem entender. – Hipólita – ele repetiu, e parecia que falava inconscientemente. O toque mental de Iara, de alguma forma, já percorria o seu labirinto cerebral. A mulher inclinou o rosto. Wagner estava quase febril, seus lábios tremiam. Ela não entendia o porquê daquilo estar acontecendo, já que... – Iara – Patrão chamou, sem nenhuma urgência na voz, mas mostrando-se preocupado. Algumas pessoas cochichavam e tentavam entender o significado do que o garoto havia dito. – Está tudo ocorrendo normalmente? Ela acenou positivamente com a cabeça, franzindo o cenho e umedecendo os lábios com a língua. Wagner pareceu relaxar as feições de um momento para o outro, como se tivesse adormecido. A mão de Iara correu para a parte de trás da cabeça dele, e alguém se prontificou a sustentar o corpo que amolecia. Por fim, o garoto adormeceu, nos braços de um colega da Organização. – Feito – disse ela, quase que em um sussurro. – Tem certeza? – perguntou o Patrão, pitando o cachimbo. E ela sorriu de volta, parecendo novamente a Senhora das Águas segura de si. – Claro que sim. Lionel, olhando para o amigo desacordado, engoliu tão ruidosamente que toda a sala pôde ouvir sua garganta. Iara estendeu a mão em sua direção. – Não precisa ter medo, Lionel – ela disse, sendo muito mais objetiva nesta segunda vez. – Você só vai tirar um cochilo. E assim foi. Os garotos foram deitados nos sofás, e algum tempo se passou enquanto o lugar era esvaziado. Alguns iam para a rua, outros subiam as escadas. Apenas Patrão e Zé guardavam o sono tranquilo dos garotos, em silêncio, enquanto aguardavam a chegada de Eugênio, dos Gitae. E pouco tempo depois ele apareceu. Um senhor de longos bigodes torcidos, camisa de seda, lenço na cabeça e muitos brincos de argola. Estava acompanhado por um ciganinho, de cerca de 8 anos de idade, que ele apresentou ao Saci e ao meio-caipora como seu filho, de mesmo nome. Houve um breve momento de gentilezas e sorrisos e, assim, Wagner foi carregado para fora por Zé, e < 14 >
Lionel pelo Eugênio adulto. Patrão ficou parado no meio da sala, observando as partículas de poeira se movendo no facho de luz da porta entreaberta, até a fumaça de seu cachimbo cessar. Ele sacou um lenço de dentro do bolso frontal da camisa xadrez e limpou o fornilho. Enquanto o limpava, o ar pareceu se mover. Tremeluzir. O Patrão meneou a cabeça. O relógio na sala parou. As partículas de poeira na luz também, estacaram no ar. E uma ventania começou ali mesmo, entre as paredes do Casarão, sem sobreaviso e com violência. Olhando para um ponto específico ao seu lado, na altura de seu ombro, o Patrão ainda se mexia no meio do redemoinho que se formava. Invisível, destacado daquela cena e daquele momento, alguém o observava. E era para ele que o Patrão olhava. – E eu posso saber o que você está fazendo aqui, tão longe de seu tempo, Sr. Anderson Coelho? A imagem pareceu encolher. O vento tomou conta da sala até ela se esvanecer no ar, despedaçada em milhões de fragmentos de memória. Anderson, um mero espectador etéreo, foi obrigado a se fragmentar também.
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