Hugo Almeida ORGANIZADOR
Feliz aniversário,
Clarice
Contos inspirados em Laços de família
Copyright © 2020 Hugo Almeida Copyright © 2020 Os autores
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editoras responsáveis
Rejane Dias Cecília Martins revisão
Aline Sobreira capa
Diogo Droschi diagramação
Larissa Carvalho Mazzoni
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Feliz aniversário, Clarice : contos inspirados em Laços de família / organização Hugo Almeida. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2020. ISBN 978-65-59280-03-2 1. Contos brasileiros 2. Clarice Lispector I. Almeida, Hugo. 20-49288
CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Literatura brasileira B869.3 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br
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Perguntei uma vez ao Hélio: você, que é analista e me conhece, diga – sem nenhum elogio – quem sou eu, já que você me disse quem é você, pois preciso conhecer o homem e a mulher. Respondeu-me: você é uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self – centro nuclear de confluência e de irradiação de força – e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, Sol e Lua. Quando conseguir – e este é trabalho de uma vida – descobrirá em você o masculino e o feminino, o côncavo e o convexo, o verso e o anverso, o tempo e a eternidade, o finito e a infinitude, o yang e o yin, na harmonia do tao – totalidade. Você então conhecerá homem e mulher – eu e você: nós. “Um homem chamado Hélio Pellegrino”, crônica de Clarice Lispector, de 4 de setembro de 1971, em Todas as crônicas
Apresentação: Laços de Clarice Hugo Almeida
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Contos inspirados em... Devaneio e embriaguez duma rapariga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A neta Letícia Malard
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Delírios e divagações da miúda Ronaldo Cagiano
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Amor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Amor reloaded Álvaro Cardoso Gomes
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Uma carta Stella Maris Rezende
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Uma galinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um olho Jeosafá Fernandez Gonçalves
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O ovo e as aves Lino de Albergaria
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A imitação da rosa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O preço do silêncio 57 Ana Cecília Carvalho
O filho do pai 63 Raimundo Neto
Feliz aniversário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O canto de Clarice Hugo Almeida
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O arrepio da noite Mayara La-Rocque
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Um sino que não toca Ronaldo Costa Fernandes
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A menor mulher do mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A maior mulher do mundo Beatriz de Almeida Magalhães
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Asa negra arrastada na areia Itamar Vieira Junior
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O jantar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
No restaurante Anna Maria Martins
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Relíquias 121 Jádson Barros Neves
Preciosidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O filho Sandra Lyon
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Novelos 133 Valdomiro Santana
Os laços de família . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sob a lua Tarisa Faccion
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O dia adia W. J. Solha
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Começos de uma fortuna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Sonhos de Ana Marta Barbosa Stephens
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De onde parte a revoada Bruna Brönstrup
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Mistério em São Cristóvão ............................................................................
Fora de época Francisco de Morais Mendes
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Noite de maio 187 Guiomar de Grammont
O crime do professor de matemática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Observação de aves segundo F.H. Jeter Neves
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Todos os infernos no mundo 203 Rodrigo Novaes de Almeida
O búfalo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A jaqueta verde Mafra Carbonieri
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A mulher do casaco marrom Marilia Arnaud
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Gênese dos contos 219
Sobre os autores 259
Apresentação
Laços de Clarice Hugo Almeida
Não escrevi antes sobre seu livro de contos [Laços de família] por puro embaraço de lhe dizer o que eu penso dele. Aqui vai: é a mais importante coletânea de contos publicada neste país desde Machado de Assis. Erico Verissimo em carta a Clarice, em 3 de setembro de 1961
Numa passagem de “O alienista”, de Papéis avulsos, de Machado de Assis, Simão Bacamarte deixa dona Evarista deslumbrada com o que vê no livro das contas do médico apresentado por seu escriturário. “Era uma Via Láctea de algarismos”, na expressão do narrador machadiano sobre a fortuna do casal. Nos livros de Clarice Lispector também existem galáxias deslumbrantes, mas de outra natureza. Na sua Via Láctea de contos, a constelação mais brilhante e harmoniosa tem 13 estrelas e chama-se Laços de família, de 1960. Agora em 2020, data do centenário de nascimento da escritora, completam-se 60 anos da publicação do livro. Dupla celebração. Com este Feliz aniversário, Clarice, 27 ficcionistas brasileiros dialogam com sua obra e homenageiam essa estrela – tão humana quanto misteriosa – nascida na 11
Ucrânia que aportou no Brasil ainda bebê,1 correu o mundo, iluminou a nova pátria e subiu, subiu, em 9 de dezembro de 1977. No dia seguinte, completaria 57 anos. Esta coletânea traz duas versões inspiradas em cada um dos contos de Laços de família. Elas seguem a ordem dos textos do livro de Clarice. Apenas de um conto, “Feliz aniversário”, há três versões. Intertextuais ou não, todas com novos títulos e epígrafes dos originais, as recriações – em geral uma escrita por mulher e outra por homem, quase sempre de estados e idades distantes – têm pontos de vista bem diferentes ou mesmo opostos. Amostragem da rica e diversificada literatura brasileira contemporânea, que não se concentra no triângulo Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, traz escritores de vários estados, do Rio Grande do Sul ao Pará, nascidos na década de 1920 até a de 1990, muitos deles com a obra consolidada e expressivos prêmios, uns internacionais, mas há também alguns em início de carreira e duas inéditas, como o leitor pode constatar em “Sobre os autores”, na parte final do livro. Três vivem no exterior – Estados Unidos, Inglaterra e Portugal. Apesar de alguns sobrenomes iguais, não há parentes entre os autores. “Desde seu primeiro romance [Perto do coração selvagem, de 1943], Clarice centra sua atenção no registro de labirintos da intimidade de suas personagens, atenta a detalhes patentes na vida cotidiana, como nos laços de família e em experiências mais complexas, como o amor, a paixão, o ódio, a amizade, a
A escritora dizia que havia chegado ao Brasil com 2 meses, mas, pela documentação (passaporte da família) consultada e registrada por Nádia Battella Gotlib em Clarice fotobiografia (São Paulo: Edusp, 2009), ela chegou ao país com 1 ano e 3 meses.
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inveja”, afirmou à BBC, em dezembro de 2018, Nádia Gotlib, uma das maiores especialistas na obra clariciana. Na mesma matéria, outra importante estudiosa de Clarice Lispector, Yudith Rosenbaum, faz esta pergunta: “O que Clarice não falaria hoje, da nossa época?”. E justifica: “Dá vontade de saber, porque o olhar dela para a sociedade era muito revelador”. Talvez a escritora respondesse: “Os problemas se aguçaram. E a impiedade parece ter vencido. Isso é sofrimento, não?”. Yudith poderia lembrar que ainda há o amor. “Ah, ainda bem.” O leitor verá que inquietação, dor, mistério, amor, inveja etc. atravessam as narrativas deste livro. No final do volume, encontrará depoimentos dos autores (há belos miniensaios) sobre a “Gênese dos contos”. Alguns conheceram a escritora e relembram a magia desses encontros. Eu e os demais participantes de Feliz aniversário, Clarice esperamos que o nosso trabalho tenha resultado digno da autora de Laços de família.
Apresentação
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OS CONTOS
A neta Letícia Malard
Um holofote enquanto se dorme que percorre a madrugada – tal era a sua embriaguez errando lenta pelas alturas. “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, Clarice Lispector
A lua. A mesma que estava a nascer por detrás da verde mata, em paródia do avô brincalhão, carregando no sotaque pelas noites enluaradas do seu fim de vida: tenho vontade de comê-la inteirinha, misturada com farinha, remexida com cachaça. Não há coisa mais boa do que a lua andar à toa.
“Luar do sertão”: a primeira música que o velho aprendera no Brasil. E ela, sob uma lua sertaneja, pela vez primeira beijou aquele homem enquanto o avô dormia. A vizinha de maus bofes, um olho no cravo, o outro na ferradura, gritou, por sobre o muro: – Bela filha duma cadela! Emborrachada! 17
Um esplendor de cadelinha no cio, na leveza do álcool, ao luar dos apaixonados. Ela. Num claro-escuro de minguante fugiu com aquele patrício aclimatado e desconhecido. Cruzada a fronteira do desejo, ele não tinha a quem devolvê-la. O velho era um lápis que poderia riscá-lo do mapa, lançá-lo numa cova como um coelho morto. Fez o serviço completo e abandonou-a no primeiro bordel da rodovia. Ai, que maçada! Era um aborrecimento mais pequeno: dali em diante seria mulher à toa, andando como a lua, despida de nuvens, nua e crua. Linda de matar, sabe-se lá se podia aparecer-lhe um gajo que não tomava parte do sonho, convidá-la a casar-se até no juiz. Largou-a sem vinho nem cachaça, ensinara-lhe o conhaque barato. O que teria sido feito do avozito? Ela já falava só português brasileiro, mas se ligava a ele menos pelo sangue do que pelas palavras. Eram unha e carne, corda e caçamba. Quando na conversa pipocavam expressões mineiras, o velho reclamava: – Não vás lá esquecer a nossa língua, percebes? Falasme sempre à moda do nosso Porto… se me fazes o favor… Avô e neta amavam-se. Mas aquele homem apareceu das terras do demo encarnado, vivia nos altos, a instalar antenas de telemóveis. Fugiram, como fogem padre e moça. O avô não foi nem mandou ninguém no seu encalço. Desesperouse, destemperou-se, fechou-se no espanto e na raiva. Não ia correr céus e mares atrás de mulher perdida, castigar o finório. Já não tinha forças para descalçar aquela bota. E estava de casamento apalavrado com a vizinha que a odiava. Neta desmiolada, flor que não se cheirava, tinha pancada na mola. Maldito dia em que a tomou para criar, evitando que fosse entregue às freiras depois do suicídio da mãe. Ficou malvada por culpa dele, sim, amor demais, passava o tempo a botarlhe paninhos quentes. 18
Frágil como uma andorinha, seus primeiros voos rasantes navegavam por sobre as folhas amareladas das glicínias no jardim do parque. As mãozitas rechonchudas puxavam os cabelos dos meninos, seguravam firmes os seus rostos onde estalava beijos. Depois saía a correr, seguida nos folguedos por um cortejo de cabelos louros ao vento. Dos cinco aos sete anos fingia-se de bela adormecida, deitada na grama sobre uma toalha branca de linho, à espera do beijo de algum príncipe. Linda, belíssima. Nenhum gesto de aceitação nem de recusa. Simplesmente acontecia. Se o menino quisesse avançar, não encontraria ferrolho nas portas. Aos dez conheceu a felicidade na leitura, a preferência por histórias de cavalos e éguas. No texto do real, a abertura do seu olhar para a coreografia viva no pasto, pernas, patas e ventres em torvelinho, primeira janela aberta ao amanhecer do erótico. No aniversário dos treze anos pediu ao avô telas, pincéis e tintas. Queria criar não propriamente figuras. Apenas inventar confidências, em ângulos abertos e livres de barreiras, traços multicoloridos na predominância do vermelho e do castanho, luas de onde escorria sangue, gaivotas depenadas em mergulho num mar de lama. O avô enxergava na neta uma pontinha de gênio, criança tipicamente portuguesa, ora pois. Indagava: – Porque a m’nina se volta contra si? Porque não te guias pelo azul da tarde, a floração dos castanheiros encobrindo as primeiras estrelas? Tentava inverter a nudez do leva-e-traz das imagens de juízo final pintadas pela neta. E recitava versos do tempo da Maria Cachucha, aprendidos quando miúdo, com as titias na festa de Santo Antônio, naquela Lisboa das três fontes de lume do romantismo: Letícia Malard
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primeira estrela que vejo fazei o meu desejo. Se ele me ama, um cão late. Se ele me odeia, a porta bate. Se ele me for indiferente, que eu oiça um assovio.
Porém, ela vivia de ilusões, fogos de palha. Ser escritora? Pintora? Não possuía tracejado original para capturar o mundo, muito menos para ouvir e entender estrelas. A escola maçante, uma chatura em tudo. A janela aberta enquadrava lagartixas, um gato preto gordito a passear no muro, a caçá-las, corpo livre andarilho numa mancha de sol. E ela ali, presa à carteira, no opaco da sombra, gata dentro de um texto anestesiado, a voz fanhosa da professora – uma colcha branca estendendo-se sobre a paisagem. Aprendiz sem prazeres, vez ou outra escapava da cena externa para entrar na balbúrdia dos colegas diante de uma barata voadora. Era a única que tinha coragem de capturar a barata, paciente, agarrando-a viva pelas asas, ai, ai, depois apertando-a com cuidado, até ver sair a massa branca, lentamente, enquanto cantarolava as sete saias de filó. As companheiras repugnavam em vômitos. A valsa de quinze anos ensaiada no espelho não era preciosa, saía da música para cair ofegante no cesto de roupas sujas. Antes da festa no club, sufocada no vestido de musselina roxa e destoante para a ocasião, os seios de Maria Antonieta, o toucado de rosas naturais sem espinhos, correu atrás da garrafa de Porto escondida no armário do avô. Só um trago reforçado, para animar o coraçãozito, pois não? Precisava de muita leveza naquela noite de fidalguias. Noite em que começou a embriagar-se, no ritual iniciático de beber e desbeber pela vida afora. Uma virgem 20
entontecida. Leituras e pinturas jogadas às baratas, no quartito da empregada. Agora, o trajecto de tasca em tasca, a memória oscilante entre o esquecer e o lembrar, indiferente ao abismo tramado pelos mortais. Uma rapariga pairando sobre todos os seres e todas as coisas. Cabeça na lua. Aquele homem das antenas foi seu amor de perdição. Antes de mais, ele se fazia a ela, chegava cedo ao emprego, o estrépito da camioneta produzido ao longe, ficava a rondar sua morada até o avô lhe fazer um gesto para a mesa do pequeno almoço. Palestras amenas e variadas. Um Don Juan adorador de vinhaça e de viola. A rapariga olhava-o nas alturas metalizadas, linha de frente da equipa, amarrado em cintos de segurança, movimentos de braços, pernas e troncos de lagosta viva, o capacete amarelo procurando caminhos na sobreposição de triângulos e círculos de ferro. Em tarde de lua cheia, um cromo gravado no satélite. Mesmo quando chovia a potes, lá estava ela, cabeça levantada ao alto. Controlava as vertigens, o arrepio no temor de uma desmontagem fatal, o efeito tranquilizador do gole no frasco a postos. Nada de ai meu Jesus Cristo! Deus? Não ia além de um ser jovem que nunca envelhece, que acende e apaga o universo, trabalho inglório porque um dia perguntarão quem foi Deus. E a resposta: alguém que deveria ser amado sobre todas as coisas e nunca foi. O antenista e aquela loirice amaram-se uma curta eternidade. O amor é aquilo de que não se vive depois dele. O maior risco que corre o apaixonado é dizer “eu te amo”. E ela disse, acabou perdendo-se e perdendo tudo. Ficou sendo uma árvore sem folhas, uma fronteira deslocada, um livro aberto na cama. Ele não disse “também te amo”. Saiu do texto pela porta da frente, a libido satisfeita entre o sol sem revérberos e a solidão com sede de mais capitoso vinho. Abrindo espaços Letícia Malard
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com a ideia de abandoná-la a seu destino, o bordel das janelas verdes. Vinha a calhar, tinha amizades com a senhoria. Anos transcorreram. Na casa das mulheres, os galos cantaram em dezenas de madrugadas, despertando as emborrachadas, ela mais do que todas, um tantito inchada, gordota, mas sem perder o favoritismo da clientela. Sorriso resignado, dentes radiosos, olhos de volúpia, figura múltipla e sedutora. Um corpo sem sujidades, para vender à beira da rodovia. Conformada, não se importando com o lugar de ser. Único pensamento, no martelo da noite e do dia: a dúvida, quase certeza, da morte do avô, saudade lunar. Talvez de desgosto, sem vela na mão, nem pelo menos uma ave-maria. Talvez a murmurar seu nome, em ato de desassossego e perdão. Um pinheiro no aguardo de qualquer espécie de morte, tombando sob o vendaval, a ser enterrado só, debaixo de chuva. Certa noite de agosto, tão borracha quanto cansada, entre o sólido do travesseiro e o líquido do copo, preparava-se para o último cliente. Avisaram: um desconhecido, chegado do fim do mundo, em busca de abrigo da tempestade, pedindo mulher, a mais galante. Perfumou-se. Mesclado ao cheiro do perfume, um holofote nas trevas: a voz entoando “Luar do sertão”, sem letra, subia os degraus da sala de espera. Era sua memória? O ruído do trovão? Uma cantiga de ninar? Um fantasma importuno? Um rádio perdido entre as taças da orgia? Abriu a porta, o corpo desnudo nas transparências, o cabelo loiro cobrindo os seios, nuvem de pó luminoso. Diante dela, o homem, ressuscitado de tempos imemoriais, o corpo liberto, sem encará-la deu três passos e desabou em sua cama.
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