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Eu disse não! - Uma trincheira antigolpista

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EU DISSE NÃO!


Carlos Baptista Junior

EU DISSE NÃO! Uma trincheira antigolpista

1ª reimpressão


Copyright © 2026 Carlos Baptista Junior Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial

capa

Rejane Dias

Diogo Droschi (Sobre fotografia de Fred Danin)

editoras responsáveis

Rejane Dias Rafaela Lamas

diagramação

preparação de texto

Guilherme Fagundes

Otacílio Nunes

pesquisa iconográfica

revisão

Ludymilla Borges Rafaela Lamas

Aline Sobreira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Baptista Junior, Carlos Eu disse não! : uma trincheira antigolpista / Carlos Baptista Junior. -- 1. ed.; 1. reimp. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. ISBN 978-65-5928-789-5 1. Brasil - Política e governo - Século 21 2. Democracia - Brasil - História 3. Forças Armadas 4. Golpes de Estado - Brasil 5. Memórias I. Título. 26-382320.0

CDD-320.981 Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Política e governo 320.981 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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À minha esposa e aos meus filhos: Cristiane, Priscilla e Bruno Baptista. Aos meus pais: Carlos e Marlene Baptista. Ao meu mais novo tripulante: meu neto – Felipe Baptista Dantas.


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Apresentação Wagner William

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Introdução

CAPÍTULO 1

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77

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157

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Doze horas na Polícia Federal

CAPÍTULO 2

Uma crise militar inédita

CAPÍTULO 3

A roda da fortuna (não é apenas sorte)

CAPÍTULO 4

Elasticidade institucional

CAPÍTULO 5

Militares no período eleitoral de 2022

CAPÍTULO 6

Contagem regressiva

CAPÍTULO 7

Trocando espaço por tempo

CAPÍTULO 8

O ruído do silêncio

CAPÍTULO 9

Vítimas e algozes: nosso círculo vicioso


Apresentação

Wagner William1

Preceitos constitucionais das Forças Armadas, a “disciplina e hierarquia” orientam de forma vital os militares, mas provocam um eterno dilema: o que fazer quando esses fundamentos atentam contra a própria Constituição? Esta obra nos abre portas para salas reservadas e encontros secretos. Seguimos os passos do autor, que revela flagrantes exclusivos e cenários inéditos vividos a partir de abril de 2021, quando assumiu o Comando da Aeronáutica, no governo Jair Bolsonaro. O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior passaria ao centro do poder e das seguidas crises sofridas e provocadas pelo governo federal. Dos dias seguintes à vitória do candidato da oposição na eleição presidencial, surgem reconstituições que provocam espanto e desconforto. O autor é testemunha da nociva intersecção entre a política partidária, a estrutura militar e uma inadmitida derrota eleitoral. Participa de reuniões em que identifica um ciclo repetitivo que corroía a estabilidade institucional, mesmo após a cúpula do governo ter acesso ao 1

Wagner William nasceu em São Paulo em 1968. Jornalista e produtor de TV com mais de 30 anos de carreira, em 2013 ganhou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos pela reportagem “O primeiro voo do condor”, publicada pela revista Brasileiros. É autor de livros como O soldado absoluto: uma biografia do marechal Henrique Lott (Record, 2005) e A Operação Secreta Etiópia-Maranhão: a guerra dos respiradores no ano da pandemia (Vestígio, 2021). 9


relatório final do Ministério da Defesa, que não aponta fraudes e aprova integralmente o processo eleitoral. O inconformado presidente insiste. Os temas repetem-se e voltam a girar em um infinito carrossel: uso de medidas de exceção, suspeitas sobre as urnas eletrônicas e riscos para o futuro do país. O mês seguinte ao segundo turno das eleições lembrou ao autor outro novembro. Em 1955, o ministro da Guerra, o então general Henrique Lott, abandonara os fundamentos da “disciplina e hierarquia” para seguir apenas a Constituição e comandar um contragolpe preventivo que garantiu a posse dos candidatos democraticamente eleitos para a presidência e a vice-presidência da República: Juscelino Kubitschek e João Goulart, respectivamente. Da lição da História não se esquece. Questionar os resultados eleitorais é triste tradição usada por lamentáveis perdedores, no exterior e no Brasil. Tanto em 1955 quanto em 2022, os derrotados tentaram sabotar a segurança que deveria reger uma transição democrática e pacífica. O contexto era muito diferente, mas um fator continuava decisivo. A ruptura só aconteceria com apoio fundamental da estrutura militar do Estado. O clima político recebia doses de tensão e medo, com bloqueios de rodovias e acampamentos em frente a quartéis, manifestações contra o resultado eleitoral e pedidos de intervenção. Movimentações e bastidores que são narrados pelo autor, enquanto atestava não existir um mínimo recurso jurídico legal para contestar o desejo dos eleitores. Ele nunca escondeu sua opinião sobre a lisura do resultado. Naquele interminável novembro de 2022, ouviu do presidente uma curiosa advertência: “eu já te dei dois cartões amarelos”. Da lição da História não se foge. Baptista Junior assumiu sua obrigação constitucional e cumpriu sua missão como líder militar. O comandante da Aeronáutica disse não ao golpe. 10


Disse não e foi além. Escreveu um livro histórico, corajoso documento que vai se tornar referência essencial para qualquer reportagem ou publicação acadêmica sobre a crise das eleições de 2022. Colocou no papel expressões inquestionáveis como “Era o próprio chefe da nação quem chancelava o absurdo – uma operação de influência que convenceu muitos brasileiros a não se vacinarem e a não confiarem no sistema eleitoral”; “a minuta do golpe – que até hoje alguns insistem em afirmar que nunca existiu – estava ali”; e “foi justamente em dezembro – período que à época aparentava maior calmaria – que estivemos mais próximos de um golpe de Estado”. Em 1955, ao ouvir a proposta para aceitar o processo que impediria a posse do candidato eleito, Lott respondeu: “Não sirvo a presidente golpista”. Em 2022, ao tomar conhecimento da minuta do golpe, Baptista Junior respondeu: “Não aceito sequer receber esse documento. A FAB não participará disso”. A lição da História é o que fica.

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Introdução

Escrever não é apenas um exercício de desafio à memória ou à imaginação, mas também uma luta travada a cada pensamento, a cada linha, contra um íntimo que questiona se tamanha dedicação e persistência serão recompensadas pelo prazer que os leitores encontrarão ao chegarem ao último parágrafo destas páginas. Após 48 anos como militar da Força Aérea Brasileira, certamente seria mais fácil “sentar a pena” sobre as minhas histórias vividas como piloto de caça, em missões de combate aéreo sobre o Vale do Paraíba ou no cerrado goiano, como fizeram tantos ases das guerras passadas ou amigos pessoais em seus relatos bem-humorados e, por vezes, um pouco exagerados. Até tentei seguir por esse caminho há alguns anos, mas o meu olhar não brilhou para tal desafio. A faísca que colocou fogo em minha alma foi acionada na madrugada do dia 17 de fevereiro de 2024, na sede da Polícia Federal, em Brasília, após a conclusão de um depoimento que durou mais de 11 horas. Estava exausto física e mentalmente pela atividade que terminara, mas ainda tive tempo para uma rápida conversa com um ou dois dos jovens agentes que auxiliaram o delegado Fábio Schor naquela oitiva. Foi quando um deles me sugeriu que aqueles fatos eram importantes demais para que não ficassem registrados em um livro, para as gerações futuras. Em complemento à sugestão daqueles jovens agentes, a decisão final de escrever este livro consolidou-se com a 13


percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel. Realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes –, o primeiro desses levantamentos revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro. Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022. Dois anos e meio depois, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições brasileiras, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil: “Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia”. Em seguida, afirmou que o percentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%. Em suma, já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia. Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras. Concluí que este livro seria a melhor opção. A partir daquele momento – e até para amparar minha participação nas ações penais em que estava sendo arrolado como testemunha –, iniciei um processo de pesquisa e organização de matérias e documentos, bem como a estruturação de 14


um projeto para este livro: objetivos, público-alvo, estrutura narrativa, estratégias de edição e de publicação. De tudo isso, as premissas básicas foram o mais importante: o livro teria de ser um registro histórico escrito em primeira pessoa, com análises e percepções pessoais. Estaria afastada, por completo, a possibilidade de se tornar um registro formal das realizações da Força Aérea durante meu comando. Também não seria uma ferramenta de vingança por possíveis mágoas e decepções nem instrumento de promoção pessoal de minhas decisões ou das de qualquer outro personagem. O livro aqui apresentado é um relato pessoal de um período singular da vida social e política brasileira, iniciado no governo Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019, mas com maior foco a partir da chamada “crise militar de 2021”, que culminou na substituição do ministro da Defesa, dos três comandantes das Forças Armadas e do chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Tendo como pano de fundo a gestão da pandemia de covid-19 e os embates cruzados entre diversas instituições nacionais, o ano 2022 e seu processo eleitoral não poderiam ter se apresentado de modo diferente, a não ser como um campo de batalha que acabaria por fragilizar, ainda mais, nossa democracia. A acirrada campanha eleitoral para a Presidência da República, que por muito tempo ainda será tema de análises apaixonadas e questionamentos, levou à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para seu terceiro mandato. Seu oponente, Jair Bolsonaro, o primeiro presidente não reeleito neste século, entrou em um estado de isolamento que parecia só ter fim se conseguisse se manter no poder após o fim do seu mandato. O objetivo final deste livro, ao registrar os bastidores e minhas análises pessoais sobre esses meses de 2022, é mostrar os fatores que impediram que uma ruptura institucional 15


– ou aquilo que muitos passaram a denominar “golpe” – se concretizasse. Ao longo da nossa história republicana, diversos foram os movimentos que impediram que o poder fosse assumido em consonância com a vontade do povo: o Movimento Tenentista da década de 1920, que nos levou à Revolução de 1930; o governo provisório de Getúlio Vargas, que desaguou no golpe do Estado Novo e em mais oito anos de ditadura; a Novembrada de 1955, um contragolpe que garantiu a posse do governo Juscelino Kubitschek, mas que não foi capaz de impedir as insurreições de oficiais da Aeronáutica, em Jacareacanga e Aragarças; e, finalmente, a Revolução de 1964, que levou ao cancelamento das eleições previstas para outubro de 1965 e a 21 anos de governos militares. Apesar de cada um receber nomes e interpretações de acordo com interesses diversos, todos representaram o desrespeito à vontade popular e às leis em vigor – um golpe de Estado. Um golpe contra o povo. “Povo” é um termo que parcelas da população tentam sequestrar para justificar suas opções ideológicas e políticas, mas que, na verdade, significa todos nós: os mais de 213 milhões de brasileiros que sonhamos com um país melhor para as gerações futuras. Venci os desafios que me impus na tarefa de escrever este livro, com a convicção de que os fatos e as opiniões aqui descritos poderão contribuir para o processo de evolução contínua da sociedade brasileira, a partir dos ensinamentos do filósofo e escritor George Santayana, que afirmou que “quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo”. Não precisamos repetir nossos erros indefinidamente, pois eles nos prendem ao passado. Boa leitura.

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C A P Í T U LO 1

Doze horas na Polícia Federal

Em um fim de tarde de fevereiro de 2024, peguei meu neto na creche para que seu pai pudesse jogar futebol com os amigos. Minha filha raramente chegava em casa antes das 19h30, o que nos levava, a mim e a Cristiane, a assumir nossas atividades de avós. Essas tarefas são sempre motivo de muita alegria: um passeio no shopping, uma ida ao parque ou um cachorro-quente do Edivaldo, na Superquadra Norte 104 – um quiosque que já era famoso, mas que ganhou ainda mais notoriedade após as visitas de Jair Bolsonaro durante seu governo. Desci do carro, encomendei os sanduíches para viagem e retornei ao veículo, onde minha mulher e meu neto aguardavam no banco traseiro. Ao entrar, notei Cristiane visivelmente assustada. Embora o trajeto até o prédio da minha filha fosse de menos de 500 metros, ela fez questão de me mostrar, imediatamente, uma mensagem de WhatsApp que acabara de receber, com o seguinte teor: Boa tarde. Este é o celular do tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior? Aqui é a EPF [nome].2 Estou enviando esta mensagem por ordem do delegado Fábio Schor, responsável pela Petição 12.100. O delegado precisa falar com o senhor, para enviar uma intimação. 2

O nome da escrivã da Polícia Federal (EPF) foi propositalmente mantido em sigilo. 17


Estranhei o fato de não terem meu número de celular, que era o mesmo desde quando eu assumira o Comando da Aeronáutica, três anos antes, e que poderia ser facilmente obtido no Gabinete do Comandante. Não me surpreendeu, contudo, o uso do número da minha esposa, já que a linha estava registrada em meu nome. Considerando a possibilidade de se tratar de um golpe, fiz uma captura da tela da mensagem e decidi aguardar. Naquele momento, embora acompanhasse as notícias sobre o chamado “Inquérito do Fim do Mundo”,3 desconhecia completamente o que significava a Petição nº 12.100. Se a Polícia Federal não dispunha do meu número de telefone, o mesmo não se aplicava ao meu endereço, para o qual eu havia me mudado havia menos de 10 dias. Era tarde do dia 15 de fevereiro de 2024 quando atendi à porta. Dois homens jovens, em trajes civis, identificaram-se como agentes da Polícia Federal e informaram que traziam uma intimação do delegado Fábio Schor para que eu prestasse depoimento no dia seguinte, na sede da instituição, em Brasília. Quando perguntei se desejavam entrar para que eu assinasse o recibo, preferiram aguardar do lado de fora. Entrei, assinei a Intimação nº 568232/2024 e devolvi a cópia assinada. Ainda tive tempo de comentar sobre a mensagem recebida no celular da minha esposa e explicar por que não havia verificado sua autenticidade. Durante todo o contato, os agentes demonstraram profissionalismo e cortesia. Em seguida, comuniquei o fato ao comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, 3

Expressão difundida no debate público a partir de críticas do então ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, único voto divergente no julgamento da ADPF nº 572, que analisou a constitucionalidade do Inquérito nº 4.781/DF. 18


que prontamente disponibilizou uma viatura com um segurança para me conduzir à oitiva na Polícia Federal. No dia seguinte, por volta de 14h30, o sargento Ronaldo, que havia servido em minha segurança pessoal enquanto eu era comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), chegou à minha residência para seguirmos até o prédio da Polícia Federal, situado no Setor Comercial Norte, em Brasília. Estávamos apenas nós dois, sem a presença de advogado. Aproveitamos o trajeto, facilmente percorrido naquela tarde de sexta-feira, quando a vida em Brasília diminui de intensidade, para relembrar alguns momentos vividos juntos, em tantas missões anteriores. Conforme orientação prévia, entramos pela garagem, onde já éramos aguardados. Seguimos de imediato pelo elevador até o andar da Divisão de Contrainteligência. Sem demora, fui encaminhado à sala onde seria realizada a oitiva, enquanto o sargento Ronaldo aguardaria em um local próximo. Eu portava apenas um tablet, com algumas anotações preparadas para uma conversa introdutória, além da minha agenda do período em que estive no comando.

O início da oitiva Na sala, fui recebido pelo delegado Fábio Schor, encarregado do Inquérito nº 4.874-STF, acompanhado por quatro ou cinco agentes, que se revezariam ao longo das horas que ali permaneci. Uma escrivã – que logo identifiquei como sendo a que havia feito contato pelo celular da minha esposa – entrou, registrou a qualificação do depoimento com meus dados pessoais e, em seguida, deixou a sala. O delegado Fábio Schor iniciou os procedimentos, fazendo as leituras de praxe sobre os meus direitos e deveres como depoente e mencionando que aquela oitiva se dava no âmbito da Petição nº 12.100, vinculada a inquéritos que tramitavam no Supremo Tribunal Federal (STF). De certa 19


forma, ele demonstrou estranheza pelo fato de eu estar desacompanhado de um advogado. Em seguida, concedeu-me a palavra para que eu apresentasse as considerações e dúvidas que julgasse oportunas.

Nota técnica: os inquéritos no STF e a ADPF nº 572 Para que se compreenda o cenário jurídico que fundamentava as investigações conduzidas pelo delegado Fábio Schor, é importante detalhar os instrumentos utilizados pelo STF para investigar os ataques às instituições: •

Inquérito nº 4.781/DF (Fake News): instaurado em 2019 para investigar notícias falsas, calúnias e ameaças contra a Corte e seus membros. Baseou-se no art. 43 do Regimento Interno do STF, que permite a abertura de investigação por parte do tribunal quando a infração ocorre em sua sede ou dependência (conceito estendido ao ambiente digital).

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Inquérito nº 4.874/DF (Milícias Digitais): investiga a existência de organizações estruturadas e financiadas para atentar contra o Estado Democrático de Direito através da desinformação.

•

A constitucionalidade (ADPF nº 572): a legalidade desses inquéritos foi ratificada pelo Plenário do STF em junho de 2020, por 10 votos a 1 (vencido o então ministro Marco Aurélio Mello). A decisão estabeleceu o “poder-dever” da Corte de agir para sua própria preservação diante de ameaças reais à ordem constitucional. 20


Como mencionei, eu portava um tablet com tópicos que julgava importante apresentar como introdução – o que deveria levar cerca de 30 minutos. O delegado não se opôs a essa manifestação inicial e deixou claro que teríamos o tempo necessário. Inicialmente, agradeci pela maneira discreta e polida como fui intimado pelos dois agentes em minha residência e declarei que estava ali para cumprir uma intimação policial no âmbito de um inquérito instaurado pelo STF, o que não me parecia normal. Em seguida, perguntei em que condição eu seria ouvido, se a oitiva seria gravada e se eu receberia uma cópia do depoimento. O delegado me informou que, a princípio, eu seria ouvido como testemunha, o que me exigia o compromisso de dizer a verdade, sob pena de incorrer no crime de falso testemunho (art. 342 do Código Penal). Acrescentou que, caso ele julgasse necessário, eu poderia passar da condição de testemunha para a de investigado – momento a partir do qual poderia valer-me do direito constitucional de permanecer calado. Informou ainda que a oitiva não seria gravada e que eu não receberia, naquele momento, cópia do depoimento, em razão de o inquérito tramitar sob segredo de justiça. A oitiva concentrar-se-ia no período limitado entre o segundo turno das eleições e o meu último dia de comando. Dos assuntos que abordei naqueles minutos iniciais, o de maior relevância foi a posição que externei, como cidadão e ex-­comandante da Aeronáutica, sobre a abertura do Inquérito nº 4.781/2019, que deu origem a outros desdobramentos, como o Inquérito nº 4.874-STF, no qual eu estava sendo ouvido. Pontuei que a instauração do inquérito original se apoiou em interpretação ampliativa do art. 43 do Regimento Interno do STF, ao estender o conceito de “sede ou dependência do 21


Tribunal” para o ambiente digital. Mencionei que esse entendimento já havia sido objeto de discussão em reunião realizada em minha residência, em 24 de agosto de 2022, com a presença dos comandantes da Marinha e do Exército, do ministro Dias Toffoli e do então procurador-geral da República, Augusto Aras. A partir desse ponto, destaquei minha preocupação com os efeitos de tal hermenêutica. Argumentei que, se esse tipo de ampliação fosse admitido, poderia servir de base, por analogia, para que autoridades de polícia judiciária militar expandissem o conceito de “lugar sujeito à administração militar” (previsto no Código Penal Militar) para além do espaço físico das organizações militares. Em tese, isso permitiria a instauração de Inquéritos Policiais Militares em situações não originalmente contempladas pelo legislador, especialmente em casos envolvendo manifestações ou condutas no ambiente cibernético, ampliando indevidamente o alcance da jurisdição militar. Registrei, por fim, que, embora tivesse conhecimento de que a ADPF nº 572 havia reconhecido a constitucionalidade do inquérito inicial, mantinha minha posição técnica quanto aos riscos dessa interpretação. Passados mais de sete anos desde a instauração do Inquérito nº 4.781/2019 e, posteriormente, do Inquérito nº 4.874-STF, ambos permanecem em tramitação. Ao longo desse período, diversos juristas e estudiosos do direito registraram questionamentos quanto aos fundamentos e aos limites dessas investigações, inserindo o tema em um amplo debate jurídico e institucional, o que evidencia a complexidade da matéria e a persistência de diferentes interpretações sobre sua condução. Outro ponto que destaquei logo no início foi a possibilidade de imprecisões quanto a datas e fatos, dado o intervalo de quase um ano e meio entre os acontecimentos e a oitiva. 22


Esclareci que, embora portasse um extrato da minha agenda institucional, fornecido pelo Gabinete do Comandante e revisado pelos meus antigos assistentes, poderia não ter lembrança completa ou exata de todos os detalhes. O depoimento transcorreu em ambiente de tranquilidade, e seu inteiro teor encontra-se disponível na internet. A parte inicial da oitiva concentrou-se no processo eleitoral e na atuação das Forças Armadas na Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) e na Equipe das Forças Armadas para atuar nos procedimentos de Fiscalização e Auditoria do Sistema Eletrônico de Votação (EFASEV) – temas sobre os quais ainda pairam dúvidas e que serão tratados com maior profundidade em outro capítulo. Naquele momento, o ponto central foi minha convicção quanto à lisura do sistema eletrônico de votação, somada ao fato de não termos tomado conhecimento de qualquer irregularidade que comprometesse a confiabilidade dos resultados. Ressaltei, ainda, que o presidente Jair Bolsonaro foi constantemente informado sobre as atividades e conclusões dos trabalhos da CTE e da EFASEV. Pelas perguntas formuladas, ficou evidente que a Polícia Federal já dispunha de informações relevantes sobre a maioria dos fatos, possivelmente oriundas da colaboração premiada do ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid. Esse aspecto tornou-se particularmente claro quando fui questionado sobre as reuniões realizadas após o segundo turno das eleições, no Palácio da Alvorada, bem como sobre os participantes e as posições assumidas por cada um dos comandantes. Um episódio curioso ocorreu em relação à minha participação nesses encontros. Ao ser questionado se estive no Alvorada após o segundo turno, respondi afirmativamente, recordando-me de cinco ou seis ocasiões, nas quais utilizei tanto o carro oficial quanto meu veículo particular. 23


A partir dessa resposta, percebi certo desconforto na equipe da Polícia Federal. Fui informado de que haviam sido identificadas diversas entradas minhas no Alvorada. Solicitaram-me que indicasse as datas em que lá estive no mês de novembro, ao que informei: dias 1º, 2, 14, 22 e 24. Acrescentei que poderia ter ido em uma ou duas ocasiões adicionais, mas sem registro preciso, e que sempre estive acompanhado do ministro da Defesa e dos demais comandantes militares. Posteriormente, ficou claro que duas dessas entradas não haviam sido computadas, pois meu nome fora registrado na portaria como “Carlos de Almeida”, enquanto a busca fora realizada pelos termos “comandante da Aeronáutica” ou “Baptista Junior”. De todo modo, percebi que o interesse principal não era a quantidade de visitas, mas sim o conteúdo das conversas realizadas. Ainda hoje, mesmo após os esclarecimentos prestados nos depoimentos e nos processos das ações penais, persistem dúvidas e, não raro, versões imprecisas difundidas nas redes sociais. Diante do tempo decorrido, não foi simples reconstruir com precisão palavras, expressões ou posturas de cada um dos envolvidos naqueles momentos. Ainda assim, e em complemento ao que está registrado no Termo de Depoimento nº 603105/2024 e no vídeo do depoimento no âmbito das ações penais relacionadas a esse inquérito, considero oportuno apresentar alguns esclarecimentos adicionais.

Sobre o segundo turno Tendo em vista que o período de maior interesse da Polícia Federal compreendia o intervalo a partir do segundo turno da eleição presidencial, comecei por explicar que, diferentemente do que ocorreu no primeiro turno – quando Jair Bolsonaro acionou o ministro da Defesa, general Paulo 24


Sérgio Nogueira de Oliveira, e os comandantes militares para acompanharmos a apuração dos votos no prédio do Ministério da Defesa –, não recebi nenhuma convocação no dia 30 de outubro de 2022, data em que se realizou o segundo turno das eleições. Conforme informações veiculadas pela mídia, Bolsonaro votou no Rio de Janeiro e retornou imediatamente a Brasília, mantendo-se no Palácio da Alvorada pelo restante da tarde e da noite. Naquele dia, saí de casa por volta das 13 horas. Fui com a camisa da Seleção Canarinho, e Cristiane, com uma camisa verde e amarela, com a bandeira do Brasil na parte da frente – uma foto que, nas redes sociais, deu azo a todo tipo de interpretações, com elogios e agressões, marcas de uma sociedade radicalizada e politicamente imatura. Votamos em um colégio, na QI 11 do Lago Sul, e voltamos logo para casa. Após o almoço, montei uma planilha para acompanhar a apuração do pleito para presidente. Impulsionado por uma inclinação técnica – resquícios do “sangue de programador” que ainda guardo –, decidi atualizar os dados a cada 15 minutos e gerar um gráfico de tendência para submeter a uma análise racional a tese que o presidente Jair Bolsonaro vinha propagando desde o primeiro turno: a de que um suposto “algoritmo” teria sido acionado para reverter o resultado a favor de Lula. Naquela oportunidade do primeiro turno, a contagem se iniciou com Jair Bolsonaro à frente, com vantagem significativa sobre Lula. Com o avanço da totalização, essa diferença foi sendo gradualmente reduzida, até que Lula assumiu a liderança e a manteve até o final, vencendo com uma margem de aproximadamente 6 milhões de votos. Ao observar essa mudança de tendência, o presidente passou a sugerir, sem qualquer fundamentação técnica, que o resultado fora forjado. Minha planilha, contudo, serviu para demonstrar a 25


inexistência de qualquer anomalia – refutando a tese de fraude, que, ressalte-se, jamais foi comprovada por qualquer entidade fiscalizadora ou pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aqui, farei uma digressão para uma breve análise de características pessoais do ex-presidente Jair Bolsonaro. Jamais tive um convívio íntimo com ele ou sua família, mas minha relação institucional foi suficiente para compreender que muitas de suas posições eram oriundas de uma fé inabalável naquilo que dizia, por mais absurdo que pudesse parecer a um observador ponderado. Quando ele defendia, por exemplo, o uso do chamado “tratamento precoce” para combater o coronavírus, transparecia que ele realmente acreditava na sua eficácia – sabe-se lá por quais meios ou raciocínios ele havia chegado a tal conclusão. Para alguns, havia algo de temerário em suas posições; contudo, muitos brasileiros acabaram fazendo uso daqueles medicamentos na esperança de que, “se não faz mal, pode ajudar”. Situação semelhante ocorreu em relação às vacinas. Em determinado momento, mencionei a ele que muitos de seus próprios apoiadores estavam se vacinando, movidos pela esperança de proteção. Ainda assim, suas posições tendiam a se manter por períodos prolongados, o que, a meu ver, refletia um traço marcante de sua personalidade: a quase total impermeabilidade a opiniões ou dados externos que não fossem condizentes com as “verdades” que ele já havia consolidado como suas. O mesmo ocorria em relação às urnas eletrônicas. Pessoalmente, custo a acreditar que a desconfiança no sistema tenha sido construída de forma deliberada apenas como uma estratégia para, em caso de derrota, contestar o resultado das eleições. Essa dinâmica remete ao que ocorrera nas eleições de outubro de 1955, quando o questionamento da legitimidade do pleito levou o general Henrique Teixeira Lott 26


a liderar um contragolpe legalista – a Novembrada –, movimento essencial para assegurar a posse dos eleitos. No caso de Bolsonaro, contudo, minha análise aponta para algo além da estratégia: ele parecia nutrir uma crença genuína na vulnerabilidade do sistema. Essa postura, observada tanto no combate à pandemia quanto na desconfiança em relação às urnas, impedia qualquer diálogo que desafiasse suas convicções. O reflexo desse comportamento foi uma estrutura de crenças compartilhada com uma parcela considerável de sua base – fenômeno corroborado pelas pesquisas do AtlasIntel que destaquei na Introdução deste livro. É fundamental notar que esse contingente, embora expressivo e ruidoso, não representava a totalidade da nação. Ainda assim, foi essa parcela mobilizada que encontrou na narrativa de fraude a justificativa para defender uma ruptura democrática. Dada essa comunhão de ideias, arrisco-me a dizer que ele e muitos de seus seguidores não devem aceitar, até hoje, por crença, vergonha ou teimosia, o fato de terem perdido as eleições de 2022. De volta à análise do segundo turno, o gráfico registrou comportamento muito semelhante ao do primeiro: Bolsonaro saiu na frente, reflexo de uma concentração inicial de votos em localidades onde a apuração ocorre com maior celeridade. A ultrapassagem de Lula ocorreu à medida que os votos do Nordeste começaram a ser totalizados. Embora eu não possua mais o arquivo com o gráfico original, recordo-me de que a inversão na dianteira aconteceu quando aproximadamente 67% dos votos haviam sido computados. Assim como no turno anterior, não havia nenhuma indicação técnica ou estatística de que algum artifício eletrônico estivesse influenciando o resultado. Enquanto minha planilha confirmava a irreversibilidade dos números pela lógica matemática, o silêncio que emanava do Palácio da Alvorada era absoluto e perturbador. Às 19h57 daquele 27


domingo, o TSE confirmou oficialmente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele momento, com quase 99% das urnas apuradas, a reversão do resultado já era matematicamente impossível. Logo em seguida, o reconhecimento internacional foi célere: os líderes dos Estados Unidos, da Ucrânia, de Portugal e de diversos outros países parabenizaram o vencedor. Havia, entretanto, um contraste gritante: enquanto o mundo reconhecia o novo governo, no Alvorada as luzes pareciam se apagar. Bolsonaro mergulhava em um processo de isolamento e sofrimento pessoal que o manteria, por dias, afastado da condução cotidiana do país. Foi nesse vácuo de diretrizes e de liderança que o país mergulhou pelas 40 horas seguintes, até que fôssemos finalmente convocados.

Nossa primeira reunião no Alvorada Cheguei ao Palácio da Alvorada por volta de 14 horas do dia 1º de novembro de 2022, com o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, e os comandantes da Marinha e do Exército. Fomos convocados para uma reunião com o presidente Bolsonaro e, ao chegarmos, notamos a presença do advogado-geral da União, Bruno Bianco. Sua participação revelou-se de grande importância, ao trazer uma perspectiva civil e jurídica necessária para o que iríamos tratar. Sentamo-nos à mesa na biblioteca: Bolsonaro ocupava a cabeceira; à sua direita, Paulo Sérgio, Freire Gomes e Bruno Bianco; à sua esquerda, Garnier e eu. Já sabíamos que ele atravessava um período difícil – o que seria natural após uma derrota eleitoral –, mas, naquela tarde, ele não transparecia um abatimento fora do esperado. Estava vestido formalmente, com um terno preto e uma gravata listrada em tons de azul. De imediato, o presidente passou a palavra ao ministro da Defesa, que apresentou as conclusões da Equipe de 28


Fiscalização das Forças Armadas. Em um resumo objetivo, o ministro detalhou as etapas cumpridas em todo o processo eleitoral, com destaque para o “teste de integridade das urnas eletrônicas com biometria”, inserido naquele pleito por solicitação do Ministério da Defesa ao TSE. O resultado foi inequívoco: aprovação integral, sem qualquer divergência. Nenhuma fraude havia sido identificada. Em seguida, Bolsonaro passou a palavra a Bruno Bianco. O advogado-geral da União foi categórico ao informar que as eleições ocorreram de forma legal, dentro dos parâmetros previstos, e que não restava alternativa jurídica para contestar os resultados. Posso apenas imaginar o impacto dessas palavras no íntimo de Bolsonaro, ao processar, aos 67 anos, a primeira derrota eleitoral de sua vida. Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante. Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado. Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças. Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e por alguns parlamentares, o presidente sacou sua caneta BIC, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos: 29


Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro. Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir. A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade. Formamos diversas lideranças pelo Brasil. Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso. Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra. Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição. Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais. Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição. É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira. Muito obrigado.

As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas. No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. 30


Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena, “houve acomodação ao fato, mas não assimilação”. Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações a “indignação e sentimento de injustiça”, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia. Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira. Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia. 31


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