temas & educação
Nadja Hermann
Outra sensibilidade
Ética & Educação
COLEÇÃO
TEMAS & EDUCAÇÃO
Nadja Hermann
Ética & Educação Outra sensibilidade
Agradecimentos
Esta pesquisa foi desenvolvida com Bolsa de Produtividade concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Agradeço pelo apoio, indispensável para a realização da investigação. Agradeço a Luiz Carlos Bombassaro pela leitura atenta dos originais e pelas inquietantes perguntas.
PRÓLOGO
Espectros do outro
Other world/Outro mundo (1947), M. C. Escher (1898-1972)
A respeito desta obra, seu criador, o artista gráfico Maurits Cornelis Escher (1898-1972), assim se pronuncia: Esta gravura é a primeira de uma série que ilustra a relatividade da função de um plano como tema principal. Ela mostra o interior de uma estrutura cúbica. Em suas paredes, as janelas em arco abrem para três paisagens diferentes. Através do par de janelas da parte superior do cubo, avista-se o solo de uma perspectiva íngreme. As janelas centrais estão à altura dos olhos do observador e mostram o horizonte, e através das janelas na parte inferior veem-se as estrelas do alto. Pode parecer absurdo reunir o nadir, o horizonte e 11
o zênite em uma construção e, ainda assim, obter um todo lógico. Cada função que atribuímos a um plano deste edifício é relativa. O pano de fundo na parte central da imagem, por exemplo, exerce três funções: serve de parede em relação ao horizonte por trás dele; serve de piso em relação ao ponto de vista do alto, e de teto em relação ao ponto de vista de quem olha para cima, para o céu estrelado (Escher, 2010, p. 134).
O que pode parecer um absurdo deve-se justamente à imaginação lúdica do artista, que rompe com o habitual e propõe uma estrutura paradoxal, indicando o jogo entre ficção e realidade até que ambas se confundam uma na outra. A apresentação de um “outro mundo” traz uma radical estranheza, que nos surpreende. Essa surpresa de outro modo de ser provoca vertigem, confronta-nos com algo desconhecido e é aqui invocada como prólogo para demarcar o outro na ética, que se tornou mais contemporaneamente um tema ineludível. A herança metafísica compreende esse tema a partir da identidade do ser e tende a desconhecer aquilo que causa estranheza, até mesmo a excluir o que não se ajusta às estruturas de reconhecimento. Desse modo, cria amarras que dificultam uma dialética entre a identidade de si e o outro, em que o mesmo e o próprio possam estar impregnados pelo outro e pelo estranho. Há uma espécie de abismo metafísico entre o eu e o outro. Profundamente influenciada pelos dualismos presentes na herança metafísica, tais como corpo e alma, razão e desrazão, civilização e barbárie, a educação tende a ver o outro como tudo o que se opõe às idealizações: o bárbaro, o selvagem, o infiel. Transpõe, tanto para o cotidiano como para o âmbito das especialidades científicas e também para o âmbito cultural, 12
o peso interpretativo dessas oposições e influencia nossa compreensão, como se pode observar no educando que facilmente é identificado como o desviado, o desadaptado, o desobediente, o hiperativo, etc. Por trás dessas classificações há uma herança que deixa vestígios e que mantém uma íntima relação com a ética e suas bases fundadoras, sobretudo na dificuldade em reconhecer algo de estranho no cosmos, na razão, na cultura ou em nós mesmos. Nem sempre nossa experiência ética é orientada pela pretendida clareza do entendimento e pela autodeterminação individual, pois é o outro que nos atrai, nos perturba e nos convoca a acolhê-lo. Tornamo-nos quem somos pela resposta a essa convocação e também somos, muitas vezes, surpreendidos pelo outro que nos habita. Assim, a própria ética se constitui nas complexas respostas produzidas pela interação com o outro. Este livro pretende contribuir com o esclarecimento do outro para uma ética em educação, enfrentando as ambivalências geradas na relação com a alteridade, de modo mais ajustado à pluralidade do mundo contemporâneo e ao processo formativo, que só se constitui porque há um outro. Pretende-se, então, oferecer um marco categorial que possibilite à educação retomar a questão ética da alteridade, em que o outro possa ser reconhecido no seu movimento constitutivo, e dar visibilidade às exigências de um processo formativo que considere a diferença e a singularidade.
13
www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica