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A Escola do bem e do mal - Vol. 6 - O Único e Verdadeiro Rei

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Soman Chainani

Ilustrações: Iacopo Bruno Tradução: Lígia Azevedo


Copyright © 2022 Soman Chainani (texto) Copyright © 2022 Iacopo Bruno (ilustrações)

Esta edição foi publicada mediante acordo com a HarperCollins Children's Books, uma divisão da HarperCollins Publishers. Título original: The School of Good and Evil, vol. 6: Only True King Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

ilustrações

Flavia Lago

Iacopo Bruno

preparação de texto

capa

Bia Nunes de Sousa

Alberto Bittencourt

revisão

diagramação

Marina Bernard

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Chainani, Soman A Escola do Bem e do Mal: o Único e Verdadeiro rei / Soman Chainani ; ilustração Iacopo Bruno ; tradução Lígia Azevedo. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2022. -- (A Escola do Bem e do Mal ; v. 6) Título original: The School of Good and Evil, vol. 6 : Only True King. ISBN 978-85-8235-645-6 1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Bruno, Iacopo. II. Azevedo, Lígia. III. Título. IV. Série. 22-99472 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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www.editoragutenberg.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br


Ww Para todos os leitores, do Bem e do Mal.


Ww Na Floresta Primitiva Há duas torres erguidas Na Escola do Bem e do Mal, A Pureza e a Malícia. Quem nelas ingressar Não tem como escapar Se um Conto de Fadas Não vivenciar.


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W1 w O C OVEN

Doce velho

Algumas histórias já nascem erradas. Algumas histórias são podres por dentro. Como a que matou sua mãe, Hester pensou, enquanto corria pela floresta escura. A mãe estava cuidando da própria vida quando dois jovens vândalos comeram o teto da casa dela. Sozinha no berço, Hester tinha acordado de sua soneca e olhado para o rosto de duas crianças com aparência de ogro, as bochechas gordas cheias de doce e migalhas. Elas deram uma olhada na bebê que haviam acabado de tornar órfã e fugiram como covardes, deixando aquela família e aquele lar destruídos. E ainda tinham sido recompensados pelo feito, celebrados como heróis e lendas, enquanto a mãe dela queimara no forno. Desde então, sempre que Hester percebia uma injustiça, uma história que acabava mal, sentia cheiro de doce velho e azedo. Como agora.


12w A história em questão era curta, a declaração de um fato simples, mas o corpo todo de Hester se eriçou, como um gato entre cobras. Ela não sabia quanto tempo fazia que estava ali, na Floresta Sem Fim. Mas, depois de dias viajando pelo subterrâneo desde a Terra dos Gnomos, a mensagem de Lionsmane já a esperava quando ela emergiu.

O casamento do Rei Rhian e da Princesa Sophie será realizado conforme planejado, neste sábado, ao pôr do sol, no castelo de Camelot. Todos os cidadãos da Floresta estão convidados. Tinha sido escrito em dourado, como as outras mensagens do Rei Rhian, contrastando com as nuvens. Rhian era um mentiroso de carteirinha, e cada frase dele era uma armadilha. Mas aquela mensagem não tinha a mesma pompa das outras. Era direta e simples... só que, ainda assim, escorregadia de uma maneira que Hester não sabia definir. Uma sombra apareceu ao lado dela. “Isso é idiotice, Hester. Precisamos voltar agora”, disse Anadil, usando um capuz preto que escondia o cabelo branco e os olhos vermelhos. “Sophie nos traiu. Vai se casar com Rhian ao pôr do sol. De hoje. É o que a mensagem diz. E o sol está descendo rápido. Ou voltamos para Camelot e impedimos o casamento, ou vamos todos morrer.” Hester a ignorou, olhando para as luzes de Borna Coric, mais à frente. Quando ela e as amigas adentrassem o novo reino, precisariam ser cuidadosas. Como todos os cidadãos da Floresta, o povo de Borna Coric devia estar atrás de alunos da Escola do Bem e do Mal. Uma segunda sombra se colocou ao seu lado. “Ani está certa”, disse Dot, também de capuz preto. “Além do mais, não vamos conseguir entrar nas cavernas. É impossível. Se voltarmos agora, podemos entrar escondidas no trem Campo Florido em Ravenbow. Chegaremos a Camelot a tempo de impedir o casamento...” “E deixar Merlin?”, Hester disse. “Esta foi a tarefa que Reaper nos deu. Resgatar o feiticeiro das Cavernas de Contempo. Resgatar nossa principal arma. Nossa missão não tem a ver com o casamento. Não tem a ver com Sophie. Tem a ver com Merlin. E se tem uma coisa em que nosso coven faz é cumprir o prometido.” Ela seguiu em frente, mas Anadil bloqueou seu caminho.


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“O prometido vai perder o sentido se Rhian se tornar o Único e Verdadeiro Rei!”, exclamou a bruxa pálida. “Ele precisa de duas coisas: fazer com que todos os cem reinos queimem seus anéis e fazer de Sophie a sua rainha. Caso consiga ambas, vai poder reivindicar os poderes do Storian. Se o casamento vai ser realizado ao pôr do sol, isso significa que todos os anéis já se foram! O casamento de Rhian e Sophie é o último passo. Foi o que ela nos disse na Terra dos Gnomos. Quando ela for rainha, Lionsmane vai se tornar o novo Storian. Rhian vai poder escrever o que quiser e tornar realidade! Vai poder apagar reinos, matar nossos amigos, e inclusive a gente, com um golpe da pena! Será o fim da nossa história...” “Os anéis não podem estar todos extintos, porque Nottingham ainda tem um. O pai de Dot tem um”, Hester apontou, com frieza. “O xerife não queimaria seu anel pelo Rei Rhian. Ele o odeia mais do que nós. Mesmo que o xerife morresse, o anel iria para Dot. E iremos até os confins da terra para proteger Dot e o anel. Faremos o mesmo por Merlin.” Hester forçou passagem, puxando ainda mais o capuz na cabeça. “Ainda não entendeu? Sophie vai se casar com ele!”, Anadil exclamou. “Ou para se salvar, ou para ser rainha de Camelot...” “Acha mesmo que Sophie se casaria com Rhian?”, Hester perguntou, desafiadora. “Depois de nos ajudar a fugir dele?” “Foi o que Rhian escreveu!”, Dot argumentou. “É o que a história dele diz!” “A história dele”, repetiu Hester, olhando para o céu. “Tem algo estranho na mensagem. Até descobrirmos o que é, vamos nos ater ao plano. Além do mais, se tem uma coisa que aprendi sobre Sophie é que ela é uma bruxa melhor que a gente. Tenho certeza de que o rei está sob o controle dela.” “Hester, o sol vai se pôr em menos de uma hora...”, Anadil insistiu. “Mais um motivo para encontrarmos Merlin logo. Ele é nossa melhor chance de derrotar Rhian. Foi por isso que o rei o prendeu nas cavernas.” “E por que Rhian não matou Merlin? Até onde sabemos, ou ele já está morto, ou já usou seu Desejo de Feiticeiro, e estamos caminhando para a morte.” “Desejo de Feiticeiro?”, perguntou Dot. “É aquela coisa da Caverna de Aladim?” “Esse é o Desejo do Gênio, sua idiota. Não é à toa que foi reprovada na matéria da Lesso”, disse Anadil. “Todos os feiticeiros têm um desejo. Eles o usam para escolher como e quando morrer...” “De jeito nenhum que Merlin teria usado seu desejo conosco em risco”, Hester a repreendeu, aproximando-se dos portões de Borna Coric. “Ele está por aqui. E precisa da nossa ajuda.”


14w “Você não está pensando direito, Hester. Vamos dizer que ele esteja nas cavernas”, Anadil concedeu. “As Cavernas de Contempo são armadilhas temporais. Só alguns segundos dentro delas e a pessoa já sai anos mais velha. Merlin sumiu há semanas.” “Então voltem sem mim”, Hester as desafiou, atravessando os portões. Hester parou no lugar. Anadil e Dot também. O chão da floresta desapareceu, substituído pelo céu. As bruxas não estavam mais em um caminho de terra: estavam sobre o pôr do sol, uma tela em tons de roxo e cor-de-rosa. Em vez de lá no alto, a mensagem de Lionsmane agora estava aos seus pés. O anúncio do casamento do Rei Rhian era o único caminho. Conforme as bruxas avançavam por ele em um silêncio confuso, Hester voltou a sentir cheiro de doce velho e baixou os olhos para procurar a podridão nas palavras de Rhian. “Hester?”, Dot disse, olhando para cima. Hester piscou. Não era só o céu que havia virado de cabeça para baixo. Todo o reino de Borna Coric estava de cabeça para baixo. Ela sabia que aquela era uma terra de pernas para o ar, em que o mundo ficava dependurado, mas uma coisa era saber e outra bem diferente era ver com os próprios olhos. Ali, a terra ficava ancorada no céu, o caminho era o teto, enquanto o céu estava no lugar do chão. Pés de feijão-roxo brotavam para baixo a partir da terra no teto, estendendo-se até o chão plano de nuvens. Perto dos pés de feijão, havia chalés de ponta-cabeça, e neles os moradores também invertidos, assim como seus móveis e pertences, contrariando a lei da gravidade. Escadarias e polias de videiras roxas conectavam os pés de feijão como se fossem estradas, enquanto uma ponte de flores ligava o vilarejo à praça principal. As bruxas seguiram na direção do movimento e da série de lojas construídas em meio a estátuas, tudo de ponta-cabeça. Agora Hester via que eram estátuas reais, as cabeças de pedra do rei e da rainha de Borna Coric e de seus filhos viradas para o céu no chão, seus pés no alto do reino. De perto, Hester notou que o rosto esculpido do rei e o da rainha pareciam estranhamente jovens. Quase tão jovens quanto o dos filhos. “Bizarro”, Anadil murmurou. Enquanto as pessoas se alvoroçavam mais acima, e ao contrário, as duas bruxas se mantinham escondidas, à sombra das estátuas. “Vão notar a gente, Hester. Somos as únicas de cabeça para cima. Fora que dizem que as cavernas são cercadas por um mar venenoso. Não vejo nem água, quanto mais um mar.”


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“Deve estar atrás de tudo isso”, Hester disse, na ponta dos pés, mas vendo apenas lojas e estátuas adiante. “Temos que passar sem que ninguém nos reconheça.” “E, depois, cruzar um mar venenoso que nem sabemos onde está”, Anadil acrescentou. “Sem mencionar entrar em cavernas amaldiçoadas.” “Se estivesse com seus ratos, você seria útil, em vez de ser um peso morto”, Hester disse. “Um está morto. Um está desaparecido. O outro encontrou Merlin e disse a Dovey onde ele está. Meu rato é o motivo de estarmos neste lugar. Quem é peso morto aqui?”, Ani retrucou. Mas Hester já seguia em frente, esticando o pescoço por cima das lojas de ponta-cabeça. Dentro da Padaria Borna, clientes ao contrário enchiam as cestinhas com baguetes, brioches e bolos também ao contrário. Dentro do Costuras Invertidas, nuvens de mariposas roxas tiravam roupas remendadas dos cabideiros de cabeça para baixo e entregavam às pessoas que estavam esperando. Na porta ao lado, no Salão de Beleza da Sylvie, havia homens e mulheres sentados em cadeiras invertidas, folheando jornais e com o rosto perfeitamente normal, como se o corpo deles tivesse nascido para ficar naquela posição, enquanto sílfides cortavam o cabelo deles. “O mundo já não está de cabeça para baixo o bastante sem estar literalmente de cabeça para baixo?”, Anadil perguntou. “Talvez assim eles consigam ver as coisas com mais clareza”, Hester disse. “Hum, eu diria que esse pessoal é tão cego quanto o resto”, acrescentou Anadil. Hester seguiu os olhos da amiga até uma construção arruinada, pendurada à beira de um pé de feijão-roxo, como uma bola de Natal – Teatro Borna, dizia na fachada –, com a cúpula invertida e todo o público sentado de cabeça para baixo, assistindo a um feitiçocast da coroação do Rei Rhian, em tons de cinza. Enquanto a cena familiar de Rhian junto a Sophie, sua princesa, em um vestido cheio de babados era repassada, o público atentava a cada palavra dele, enquanto vendedores de ponta-cabeça empurravam souvenir do Leão: canecas, camisetas, bonés, broches... “É isso que eles fazem para se divertir? Assistem à coroação daquele canalha de novo e de novo?”, Hester perguntou, sem conseguir ouvir o discurso de Rhian à distância. “Deve passar a cada hora”, disse Anadil, inclinando a cabeça para ver melhor. “Mas é estranho. Não me lembro de terem transmitido a coroação por feitiço.”


16w Uma família de pele morena usando batas coloridas passou pelo caminho no céu, com a cabeça para cima, como as bruxas, olhando para o Teatro Borna e o restante do reino invertido. Turistas drupathis, Hester pensou, e ela e Ani forçaram um sorriso, que foi retribuído, mas seguido por olhares estranhos voltados para Dot. Dot, que espreitava logo atrás, comia melancolicamente folhas de videira transformadas em chocolate com um acender de dedo. “As pessoas vão notar seu brilho!”, Hester sibilou, levando-a mais para a sombra. “E chega de mau humor!” “É que... o que você disse antes...”, Dot começou a falar. “Se meu pai morrer, o anel de Nottingham não vem para mim. Ele mudou o testamento depois que libertei Robin Hood. E não acho que tenha mudado de novo.” Ela transformou mais folhas em chocolate, com o dedo erguido tremendo. “Se Rhian vai se casar com Sophie, talvez já tenha o anel do meu pai. Por minha causa. Porque meu pai não confiava em mim. O que significa que, por minha culpa, meu pai pode... pode estar...” Pela primeira vez, a fachada fria de Hester se abrandou. “Não é o que nosso coven acha”, ela disse, cobrindo o brilho de Dot com a mão e o abafando. “Foque em tudo o que fizemos para chegar aqui. Cada uma de nós fez sua parte. Os lobos não teriam nos ajudado se você não os tivesse subornado com neve de chocolate. O tapete mágico não teria nos levado através daqueles túneis se Ani não o tivesse ameaçado com um feitiço de desenrolamento. Continuamos vivas, Dot. Estamos quase chegando a Merlin. O que quer que seu pai pensasse de você quando alterou seu testamento, já não pensa mais. Ele te ama, Dot. O bastante para se unir a Robin Hood, o arqui-inimigo dele, para te manter a salvo. Onde quer que esteja, seu pai ia querer que você concluísse sua missão.” Dot pensou a respeito, olhando para os próprios sapatos, antes de inspirar fundo e jogar o chocolate longe. “Só para deixar claro: ainda acho que Sophie voltou para Rhian. Como a mensagem diz. Que nem quando ela voltou para Rafal. Ela passa tempo demais com Agatha e Tedros juntos, fica com ciúme e acaba beijando qualquer cara que aparece, ainda que seja um porco mentiroso e assassino.” “Poderia ser pior”, Hester disse. “Ela poderia beijar uma Cobra.” Dot riu, com desdém. Uma brisa soprou, fazendo as bruxas puxarem ainda mais os capuzes e estremecendo o feitiçocast no teatro. Então Hester sentiu algo nela... algo que deixou seus músculos tensos e fez sua tatuagem de demônio se contrair... “O mar”, ela disse, virando-se para as amigas. “Está próximo.”


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Ela as conduziu adiante, e as três avançaram pelo piso escuro do céu, como morcegos, tomando o cuidado de evitar a luz das lanternas invertidas que começavam a se acender nos pés de feijão. Hester guiou o coven, passando pelo Teatro Borna e ouvindo a voz de Rhian ficar mais alta, sentindo o cheiro do mar mais e mais forte... “Espera! Olha o vestido dela!”, Dot soltou. “Xiu!”, Ani sussurrou. “Não é o vestido que Sophie usou na coroação de Rhian”, Dot insistiu. “Tem certeza de que é uma reprise?” Hester parou na hora. Anadil também. Elas inclinaram a cabeça juntas, estudando o feitiçocast invertido, enquanto Rhian e Sophie apareciam em close, a imagem de ambos translúcida. “Cidadãos da Floresta, não esperava que um dia como hoje chegasse. Esta manhã, fiquei sabendo que Japeth de Foxwood, meu irmão, meu suserano, está mancomunado com Tedros e Agatha, e trama contra meu trono”, disse Rhian. “Pensei que meu irmão fosse a Águia do meu Leão. Em vez disso, é só outra Cobra. Mas o Leão sempre vence. Quando virem esse feitiçocast, Japeth já estará trancado na masmorra, para nunca mais ser visto. A Floresta está sitiada por rebeldes, e não podemos confiar nem no meu próprio sangue. Sou o único que pode nos proteger. Sou o único que pode punir nossos inimigos. Manterei a Floresta segura sozinho.” “Dot está certa. Não é a coroação”, Anadil disse. “É... agora.” “É o fim da Cobra”, Dot disse. “Pelo menos Rhian fez uma coisa certa.” Mas Hester continuava avaliando o rei: a frieza na voz, o vazio nos olhos, o movimento dos filetes de seu gibão, como escamas... Ao lado dele, Sophie tinha um sorriso neutro no rosto, como se fosse uma marionete. O rei a segurou com mais força. “Mas um traidor não pode impedir nosso reino de atingir a glória”, ele continuou. “E, embora tenha perdido um suserano, logo terei uma rainha. Meu casamento com meu verdadeiro amor procederá conforme o planejado, e transmitiremos por feitiçocast para que toda a Floresta veja. Prometo isso a todos. Com Sophie e eu juntos, tudo em nosso mundo será possível.” Ele olhou para Sophie, que manteve um sorriso perfeito no rosto e proclamou, olhando para a frente: “Vida longa ao Leão! Vida longa ao Único e Verdadeiro Rei!” A cena congelou antes que palavras se impusessem magicamente sobre ela.


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O Casamento do R ei R hian e da Princesa Sophie A transmissão por feitiçocast terá início em 30 minutos “Estávamos certas, viu?”, Dot sussurrou para Anadil. “Sophie vai mesmo se casar com Rhian!” Mas Hester estava concentrada na imagem congelada do rei, avaliando os buracos negros que eram sua pupila, a curvatura sinuosa de seus lábios... Devagar, ela passou a focar em Sophie, presa aos braços dele, a luz em seus olhos extinta, a bruxa morta e ausente. De repente, Hester voltou a sentir o cheiro. O cheiro azedo e enjoativo que sobrecarregava seus sentidos. De doce velho. “A Cobra é o Leão... O Leão é a Cobra...”, Hester percebeu, devagar. Anadil franziu a testa. “Hester?” “O que foi?”, Dot perguntou. A bruxa tatuada se virou para elas, com o rosto pálido. “O mundo está mesmo de cabeça para baixo.”


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A garota sem passado

Sophie não queria mais matar o garoto com quem estava prestes a se casar. Tampouco conseguia compreender por que em algum momento quisera matá-lo. Até onde podia ver, ele era lindo, eloquente e absolutamente seguro, como um rei deveria ser. E, logo, ela seria sua rainha. A rainha. Não que ela tivesse a menor ideia de como aquilo havia acontecido. O passado estava nebuloso, suas lembranças se esquivavam. A qualquer tentativa de acessá-las, se iniciava uma terrível dor de cabeça, como se um ferro fosse fincado em seu cérebro, e a única forma de não sentir dor era voltando para o presente, como se tivesse acabado de nascer, de novo, de novo e de novo. Esforços para recordar como chegara àquele ponto – uma garota sem passado – só levavam a mais dor, e não demorou muito para que ela desistisse de tentar acessar suas memórias. Tudo o que Sophie sabia era que havia acordado naquele vestido branco lindo e que naquela noite se casaria com o Rei Rhian, o Leão de Camelot, guardião de Lionsmane, salvador da Floresta


20w Sem Fim. Sophie ainda não havia tido um momento a sós com seu prometido: os dois só haviam ficado juntos para gravar o feitiçocast, que ela tivera dificuldade em compreender... algo sobre um irmão que se voltara contra ele e sobre rebeldes na Floresta, terminando com sua própria promessa de lealdade ao Leão, seu futuro marido, como Rhian havia instruído que fizesse. Mas já era o bastante para que ela soubesse que o amava, de corpo e alma. Sentada ao lado dele, sentira seu perfume gelado e se aquecera a seu brilho quase perfeito demais. Quando o feitiçocast terminou, ele passou os dedos frios pela bochecha de Sophie e abriu um sorriso ao dizer, com os olhos parecendo os de uma cobra: “Nos vemos no altar, minha querida”. Sophie sentiu um friozinho na barriga, como se ele fosse o príncipe encantado. Qualquer garota morreria para estar em seu lugar, ela pensou enquanto empoava o nariz no trocador da rainha e olhava no espelho para o reflexo de sua coroa de tranças douradas e o vestido branco intrincado que escondia quase todos os centímetros de sua pele. Sophie não sabia de onde o vestido tinha vindo ou quem o havia feito, mas, agora que estava prestes a encarar toda a imprensa da Floresta para responder a perguntas antes do casamento, desejava que ele fosse um pouco mais ousado, com alças em vez de mangas ou um pouco de cor na cintura... O vestido se alterou imediatamente, como se guiado por seus pensamentos, e as mangas se transformaram em alças finas sobre seus ombros, enquanto um toque de azul envolveu sua cintura, formando um cinto de borboletas de seda. Sophie não se abalou. A magia do vestido não a surpreendeu: era como se aquilo já tivesse lhe acontecido antes e ela só não conseguisse recordar quando. Sophie olhou para os próprios olhos no espelho e vislumbrou uma faísca, um brilho esmeralda, como uma luz no fim do túnel... Então sumiu, tão rápido quanto tinha vindo. “A imprensa está esperando pela princesa”, uma voz disse. Sophie se virou para o capitão da guarda, de pé à porta do quarto; o ouro em seu gibão estava manchado de sangue seco. Ele disse que seu nome era Kei, quando a havia despertado. Era muito bonito, com olhos de falcão e queixo quadrado, mas tinha uma expressão taciturna e torturada, como se fosse assombrado por um fantasma. Seguiram até o salão de baile, Kei sempre firme ao seu lado. Sophie notou que ele a olhava, como se esperasse que dissesse alguma coisa. Como se tivessem um segredo. Aquilo a incomodava. Um guarda entrou na frente deles, o cabelo ralo e o rosto cheio de cicatrizes. “Capitão, o mapa com a localização dos rebeldes foi totalmente queimado!”


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Kei contraiu levemente o maxilar. “Pode ter sido um criado ou um cozinheiro. Vou interrogá-los.” “Mas era o mapa do rei! Temos que contar a...” “Retorne a seu posto”, o capitão ordenou, voltando a guiar Sophie adiante. Ela não sabia do que se tratava, mas, o que quer que fosse, fez Kei parecer ainda mais azedo que antes. Ele percebeu que Sophie o olhava. Pela primeira vez, o rosto do capitão se alterou. Seu olhar parecia penetrar a mente dela... “Está aí?”, ele sussurrou. Sophie olhou em seus olhos grandes e escuros... então saiu de seu transe. “Claro que sim! Onde poderia estar?”, ela disse. “Agora pare de cara feia e olhares estranhos. Você é o capitão da guarda. É o novo suserano do rei. Aja de acordo, ou vou sugerir que sua majestade encontre alguém que aja.” A expressão de Kei se endureceu. “Sim, princesa.” “Ótimo”, disse Sophie. “E aproveite para limpar o gibão. A menos que haja um golpe se desenrolando no castelo, não há motivo para exibir seu sangue como parte do uniforme.” “O sangue de Rhian”, Kei explicou. “Como?”, perguntou Sophie, parando na hora. “É o sangue de Rhian”, Kei repetiu, de novo com aquele olhar penetrante. “Então devolva a ele, por favor”, Sophie retrucou, marchando em frente. Sophie sorriu, e seu vestido branco se abriu como a cauda de um pavão. Rhian ficaria orgulhoso dela. Já estava se adaptando ao papel de rainha. “Princesa Sophie, o que acha do aprisionamento do irmão do rei?”, perguntou alguém de cabelo azul com crachá da Folha de Pifflepaff. “Está confiante de que todos os traidores foram retirados do reino?” “Mal conhecia o irmão de Rhian”, Sophie respondeu, sentada em um trono elevado, sob uma enorme cabeça de leão. “Tenho plena confiança de que o Rei Rhian vai manter Camelot e a Floresta a salvo. Agora, se não se importam, estou aqui para responder a perguntas do casamento desta noite. É tudo de que desejo falar. O resto, deixo com o rei.” Enquanto os repórteres que atulhavam o Salão Azul tentavam fazer suas perguntas aos gritos – “Princesa Sophie! Princesa Sophie!” –, Sophie deu uma olhada para as duas mulheres idênticas escondidas nas sombras mais ao fundo, descalças e em roupas cor de lavanda. Elas lhe fizeram um breve aceno de cabeça, em aprovação. Com a testa grande e nariz comprido, as duas tinham o mesmo


22w sorriso satisfeito no rosto, como se tudo estivesse correndo de acordo com o plano. “Somos as Irmãs Mistrais”, elas haviam dito a Sophie antes de deixar os repórteres entrarem (“É só responder às perguntas”, dissera a que se chamava Alpa. “É só deixar as coisas correrem naturalmente”, completara a outra, chamada Omeida). A voz de um repórter cortou seus pensamentos. “E quanto às provas que o Rei Rhian entrou no Conselho do Reino para rejeitar o poder do Storian?”, perguntou um homem do Jornal dos Vilões da Floresta de Baixo. “Nossa reportagem sugere que, na semana passada, noventa e nove dos cem reinos fundadores destruíram seus anéis, e seus líderes rejeitaram o Storian e juraram lealdade ao Rei Rhian. O Rei Rhian acreditava na lenda do Único e Verdadeiro Rei? Pretende reivindicar os poderes do Storian? É por isso que os reinos estão queimando seus anéis pelo Rei Rhian?” “É óbvio que a Pena falhou com nossa Floresta”, Sophie respondeu, e os repórteres começaram a anotar furiosamente. “O Storian deveria contar histórias que nos inspiram e movem o mundo adiante. Mas, recentemente, está focado nos alunos de uma escola que se acomodou e se tornou obsoleta. Foi por isso que deixei o cargo de reitora. A Pena não representa mais o povo. É hora de o Homem ascender a seu lugar. Um rei. Alguém que possa dar a todos uma chance de glória.” As palavras saem sem qualquer esforço dela, como se tivessem vida própria. “O último anel pertence ao Xerife de Nottingham, que não é visto desde o ataque durante a execução de Tedros”, comentou alguém do Notícias de Nottingham. “Há alguma informação quanto ao paradeiro dele ou a segurança do seu anel?” “Não ficou sabendo? O xerife vai se casar com Robin Hood”, disse Sophie, com malícia. Toda a imprensa riu. “A princesa acredita no mito do Único e Verdadeiro Rei?”, perguntou o Flautista de Hamelin. “A lenda de que o Storian depende do equilíbrio do Homem e da Pena. Um equilíbrio protegido por nossos líderes e seus anéis. Desde que esses líderes os utilizem, Homem e Pena estarão sob controle. Cada um desempenha um papel equivalente na escrita do destino. Mas, se o Homem abandonar a Pena, se todos os cem governantes queimarem seus anéis e jurarem lealdade a um único rei... então esse equilíbrio será extinto. O Storian perderia seus poderes para esse rei.” “E já seria hora!”, Sophie retrucou. “Homens devem venerar um Homem. Não uma Pena.” “Mas o que vai acontecer se Rhian for mesmo o Único e Verdadeiro Rei?”, o Observador de Ooty perguntou. “Lionsmane se tornaria o novo Storian. A


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pena do rei Rhian. Com os poderes do Storian, ele poderia usar essa pena como uma espada do destino. Ele poderia escrever o que quisesse e fazer com que se tornasse realidade. Poderia apagar quem quer que o desafiasse. Poderia acabar com reinos inteiros...” “A única coisa com que o Rei Rhian talvez queira acabar é com repórteres intrometidos”, Sophie brincou, dando uma piscadela. “Além do mais, como você disse, ele tem apenas noventa e nove anéis, e não cem.” A imprensa riu de novo. “O que podemos esperar do casamento?”, uma mulher de dentes grandes da Podres do Castelo perguntou. “Ouvi dizer que dez mil lanternas flutuaram no ar no casamento de Rapunzel, e que Branca de Neve participou de um desfile com animais da floresta no dela.” Sophie sorriu. “O meu vai ser ainda melhor.” Ela se levantou do trono. “Dito isso, devo ir...” “Princesa Sophie, alguém comentário sobre o fato de que os rebeldes que saquearam os reinos não eram alunos da escola, mas mercenários pagos pelo Rei Rhian? E de que os ataques eram um plano do rei para fazer com que os líderes queimassem seus anéis?” O Salão Azul ficou em silêncio. Devagar, a multidão de repórteres se abriu, revelando uma adolescente que chupava um pirulito vermelho. Seu crachá era escrito à mão e pontuado com um coração.

“Diga a Agatha que Bettina mandou um oi”, a menina disse, com um sorriso. Sophie sentiu a ordem saindo de sua boca como uma flecha: “Prendam-na!” Kei e quatro guardas partiram para cima de Bettina, com a espada em punho... A jovem desapareceu, deixando apenas o pirulito vermelho para trás, que se estilhaçou ao cair sobre o piso de mármore. Os repórteres olharam uns para os outros, tensos, e uma brisa fria percorreu o salão. “Ao que parece, agora os jornalistas locais também são mágicos”, Sophie disse, sem se perturbar. “Vamos ver como nossa pequena feiticeira se sai quando ela e o resto da equipe do Courier forem presos por mentira e traição. Agora, se me dão licença, tenho que me preparar para o casamento.”


24w Sophie deixou o salão. No segundo em que pisou no corredor, as duas Irmãs Mistrais já estavam com ela, ladeando-a como sentinelas e levando-a de volta aos aposentos da rainha. Pouco a pouco, Sophie sentiu o andar relaxar, a cabeça ficar mais leve, o senso de direção e de propósito desaparecer. Tudo o que ela havia dito à imprensa lhe escapou, como fumaça saindo pela chaminé. De repente, Sophie não se lembrava de onde estava vindo ou para onde estava indo, como se o tempo tivesse sido reiniciado. Ela conseguia ouvir alguns comentários das irmãs: “repórteres vistos em Putsi”, “onde Bettina está”, “a menina usou um feitiço de desaparecimento”, “alguém deve estar ajudando”, “contar a Japeth”. O cérebro de Sophie faiscou. Japeth... Conheço esse nome... Mas a ideia desapareceu na névoa, com todo o resto. O que está acontecendo comigo? Sophie vasculhou a própria mente, atrás de uma âncora a que se agarrar. Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Um arrepio subiu pela espinha. Então seu nariz começou a formigar. Sentia cheiro de lavanda... e de pepino... Por um momento, via claramente, como se tivesse ido além da luz esmeralda que tinha vislumbrado... De novo, uma dor de cabeça esmagadora a atingiu, mas, dessa vez, Sophie lutou contra ela, arranhando as lembranças, tentando se agarrar a elas... “Aquela menina, Bettina. Do que ela estava falando?”, Sophie soltou. “Sobre Rhian ter planejado os ataques...” A dor irradiou por seus dentes e sua mandíbula. Sophie foi mais fundo. “E Agatha... Ela me mandou dar um oi para Agatha... Rhian mencionou o mesmo nome durante o feitiçocast... Agatha... Ela não é uma rebelde! É minha amiga...” As irmãs levantaram as mãos ao mesmo tempo, torcendo-as no ar, como se apertassem um parafuso. A dor de cabeça de Sophie explodiu, uma pontada tão profunda que seu corpo se dobrou, prestes a desmaiar. As Mistrais a ampararam e seguiram em frente com ela. “Você precisa descansar”, disse Alpa. “Foque no casamento, querida. Depois que tiver se casado com o rei, seu trabalho estará concluído.” “Você vai poder descansar para sempre”, disse Omeida. As irmãs trocaram um olhar sagaz. “Foque no casamento”, Alpa repetiu. O casamento, Sophie pensou. Depois posso descansar. Focar no casamento. A dor arrefeceu, e um alívio glorioso a inundou. Sim... o casamento resolveria tudo.


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