

ESCALANDO SONHOS GUSTAVO ZILLER
NO TOPO DO MUNDO O QUE SENTI

















GUSTAVO ZILLER
ESCALANDO SONHOS
O QUE SENTI NO TOPO DO MUNDO
Copyright © 2026 Gustavo Ziller
Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
Arnaud Vin
edição e preparação de texto
Samira Vilela
revisão
Cecília Castro
projeto gráfico
Diogo Droschi
ilustração de capa e mapas das páginas 34 e 82 Drilifyart
diagramação
Guilherme Fagundes
Todas as fotos deste livro são de autoria de Gustavo Ziller.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Ziller, Gustavo Escalando sonhos : o que senti no topo do mundo / Gustavo Ziller. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2025.
ISBN 978-65-6002-137-2
1. Espiritualidade 2. Everest, Monte (China e Nepal) - Descrição e viagens 3. Montanhistas 4. Realização pessoal 5. Superação 6. Viagens - Narrativas pessoais 7. Ziller, Gustavo I. Título.
25-324198.1
CDD-796.5220922
Índices para catálogo sistemático: 1. Montanhistas : Autobiografia 796.5220922
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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Pati Brandão
Para

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe. Oscar Wilde
Prefácio, por Ana Claudia Quintana Arantes 27
Introdução 31
PARTE 1: A EXPEDIÇÃO AO ANNAPURNA
capítulo 1: Como encontrei o montanhismo 37
capítulo 2: Antes da jornada 47
capítulo 3: A viagem ao Campo Base do Annapurna 57
capítulo 4: O projeto 7 Cumes 77
PARTE 2: A EXPEDIÇÃO AO EVEREST
capítulo 5: O ano interminável 85
capítulo 6: A morte simbólica 93
capítulo 7: A capital dos sherpas 101
capítulo 8: A primeira cerimônia budista 109
capítulo 9: O Memorial do Everest 115
capítulo 10: A cerimônia de Puja 123
capítulo 11: Os ciclos de aclimatação 129
capítulo 12: O último ciclo 141
capítulo 13: O ataque ao cume 155
capítulo 14: O topo do mundo 167
capítulo 15: A jornada de volta 173
capítulo 16: Novinho em folha 183
capítulo 17: Lições de amor e cuidado 187
PARTE 3: ANEXOS
Uma conversa com Shanker, o guia nepalês 193
Um pouco mais sobre os Ice Doctors 200
Fazendo a mala 202
Vida de montanha 205
Escalada em livros e sites 208
Três poderes para curtir a vida 213
Playlist para escalar sonhos 218
Posfácio, por Monja Coen 221
Agradecimentos 225
Referências 229
PREFÁCIO
O convite para escrever o prefácio deste livro que você tem nas mãos veio literalmente na véspera da maior aventura da minha vida: uma viagem de quatro semanas em um retiro de meditação e silêncio, seguida de mais três semanas em uma peregrinação imersiva na cultura Zen no Japão. Ao todo, seriam mais de sete semanas fora do “meu mundo”. Fiquei feliz pelo convite irrecusável, pela amizade e admiração que tenho pelo Gustavo, mas pensei que não poderia aceitar, já que havia urgência na escrita e essa palavra não faria parte do meu vocabulário por um tempo.
O que seria uma urgência, então? Descobri ali que, certamente, ler este livro.
Eu sabia que seria um texto intenso e que reviraria minhas profundezas existenciais, pois tudo o que trata de montanhas mexe muito com meus abismos internos. Não porque eu ainda tenha medo de altura (já entendi essa questão durante um sonho que rendeu várias horas de terapia), mas porque amo montanhas como se fossem parte do meu corpo, sangue do meu sangue.
É verdade que nunca escalei nada além de pequenas colinas, que certamente desafiaram meu desempenho cardiovascular, mas jamais representaram um risco real à minha vida. Não sei dizer se algum dia terei tempo para me dedicar a tamanha aventura que é a escalada, mas o que senti com este livro me
fez lembrar de uma palavra muito linda do budismo: mudita, que quer dizer “alegria empática”.
Mudita diz respeito a sermos capazes de sentir uma felicidade genuína e um perfeito senso de realização pessoal com as realizações de amigos e pessoas amadas. Saber que alguém que conheço e admiro escalou uma montanha e chegou ao topo me fez feliz como se eu mesma tivesse conseguido chegar lá. E Gustavo me deu mais do que isso. Pouco antes de viajar para a missão de escalar o Monte Everest, no dia 8 de abril de 2021, ele me enviou uma mensagem e contou que levaria consigo apenas um livro: o meu.
A morte é um dia que vale a pena viver parece uma escolha mais arriscada de se levar numa escalada do que a própria decisão de colocar a vida à prova numa grande montanha. Vida e morte são realidades muito presentes numa aventura como essa. Devo ter respondido à mensagem de Gustavo no final da madrugada (geralmente o horário que pego o celular antes de o despertador tocar, já que em geral acordo bem antes do aparelho). No final da conversa, calorosa como se fôssemos amigos de longa data, respondi a ele: “Eu vivi meu livro para escrevê-lo”.
Agora, Gustavo me devolve a mesma perspectiva face a face. Ele viveu o que escreveu neste livro. Aliás, deixou claro que precisou viver muito mais do que a escalada, o risco de morte e os desafios do preparo físico e emocional para escrever sobre tudo o que aprendeu no topo do mundo. As descrições deixam a gente sem fôlego, assim como ele ficou – nós, leitores, pela ansiedade de saber como termina a história, e ele, nas alturas e no frio, pelo ar rarefeito.
Li este livro pelo celular, no arquivo de texto que Gustavo me enviou, e muitas vezes precisei parar um parágrafo no meio por causa da agenda do meu retiro de meditação. Mas era perfeita a experiência desta aparente frustração: eu tinha de interromper a leitura e ficar uma hora inteira meditando
de frente para uma parede, com a mente tomada por um texto que eu não tinha terminado de ler, mas que precisava permanecer comigo durante aquele tempo. E aí, quando não sabemos como algo termina, prestamos atenção em como está acontecendo. Cada momento deste livro, eu vivi como se estivesse acontecendo sob meus olhos, e precisava esperar para ver a cena seguinte. Era como estar na escalada de uma história e, no meio dela, ser obrigada a pausar a caminhada por causa do mau tempo. E depois, quando eu voltava para o texto e terminava o capítulo, a sensação era de ter alcançado a vista linda no topo do mundo. Gustavo, obrigada por me esperar chegar. Sei que você demorou muito mais do que sete semanas para escrever tudo isso, mas minha experiência aqui foi como alcançar o topo do universo. E eu te levei junto.
A você, que está começando a leitura, aspiro que o céu no dia da vossa chegada esteja límpido como meus olhos estão depois de ver o que vi pelos olhos do autor deste livro.
Ana Claudia Quintana Arantes Médica especialista em cuidados paliativos e escritora
INTRODUÇÃO
A melhor saída é sempre seguir em frente. Robert Frost
A escalada é, sem dúvida, um esporte fascinante. Nesse vasto universo, há diferentes modalidades, como a escalada esportiva, a escalada em rocha e, é claro, o montanhismo. Nesta última vertente, percebo duas características fundamentais: em primeiro lugar, é a modalidade que engloba todas as técnicas da escalada em uma única expedição. Em segundo, é um duelo íntimo com a própria essência e com a natureza. No montanhismo, as variáveis que podemos controlar precisam ser dominadas. É uma dança delicada entre o controle e o desafio, o conhecido e o imprevisível.
Meu primeiro contato com o montanhismo foi em abril de 2013, quando me aventurei pela Cordilheira do Himalaia. Não comecei, no entanto, pela icônica trilha rumo ao Campo Base do Everest, mas por um trekking até a base do Annapurna, a décima montanha mais alta do mundo.
O que me levou a buscar essa experiência foi um diagnóstico de burnout em julho de 2012. No Annapurna, encontrei um caminho interior que se revelou inabalável: em vez de me entregar a um coquetel de medicamentos ou a intermináveis doses de uísque para esquecer dos problemas, optei por me
dedicar ao esporte e me conectar de forma profunda com a natureza. A minha jornada até o topo do mundo não foi um processo instantâneo. Foi algo que construí ao longo de quase dez anos, dia após dia, culminando na data em que parti rumo à montanha mais alta do planeta.
De 2013 a 2026, ano de publicação deste livro, estive em dezenove expedições, conhecendo mais de quarenta montanhas. Eu me dediquei intensamente a cada uma dessas jornadas, passando por treinamentos físicos incansáveis, dietas rigorosas, cursos de primeiros socorros e de aperfeiçoamento em fotografia. Durante esse período, adotei uma alimentação vegana, mergulhando assim em uma rotina ainda mais cuidadosa. Essas mudanças não apenas redefiniram minhas crenças, mas permitiram que eu estreitasse minha conexão comigo mesmo e interrompesse padrões nocivos de comportamento, passando a aceitar minhas vulnerabilidades e a acolher minhas imperfeições com mais serenidade e leveza.
Mas este não é um livro de psicologia. Eu o escrevi, na verdade, como uma ode ao nosso eterno complexo de inferioridade. Na Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai, o mestre Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para se referir ao sentimento de inferioridade dos brasileiros diante de tudo o que vem de fora. E, embora a expressão tenha surgido no contexto do esporte, hoje entendo que o “de fora” não se restringe apenas a outras culturas, mas a tudo o que não está resolvido dentro de cada um de nós.
Uso o vira-latismo aqui como uma metáfora deste sentimento que, vez ou outra, nos arrebata na jornada da vida: aquela sensação de que só quem vai às alturas vive o extraordinário, de que só quem pratica o montanhismo experimenta o verdadeiro êxtase de chegar ao topo.
Se pararmos para pensar, eu não realizei uma proeza comparável à de Edmund Hillary, Tenzing Sherpa e Reinhold
Messner, alguns dos mais incríveis montanhistas da história, que escalaram o Everest com equipamentos e tecnologias muito diferentes das disponíveis hoje. Mas garanto a você que experimentei exatamente o que eles sentiram lá em cima. Este livro é sobre entender que podemos sentir, no dia a dia, as mesmas emoções que alguém que alcançou o topo do mundo. As páginas que você lerá a seguir foram baseadas nos diários que mantive durante as expedições de 2013, no Annapurna, e de 2021, no Everest. Também trago relatos pessoais para ilustrar que a vida, quando sabemos aproveitá-la, pode ser tão emocionante quanto qualquer escalada.
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