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Doutrinados

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De Cape Cod, Massachusetts, é editora freelancer e membro da SCBWI (Sociedade dos Escritores e Ilustradores de Livros Infantis). É formada pela Universidade de Vermont em Assistência Social, com atuação em entidades de serviço social na área de proteção à infância e juventude. Acompanhe Trisha Leaver: www.trishaleaver.com /AuthorTrishaLeaver @tleaver @trishaleaver

m Sem saída e sem contato co e ar lul o mundo exterior – ce –, internet não funcionam am Dee, Luke e Mike encontr s apenas dúvidas e os vestígio l. de um terror inacreditáve

D e Chicago, Illinois, é formada pela Knox College e membro da SCBWI, da American Horror Writers Association, da YA Scream Queens e da OneFourKidLit, uma comunidade para escritores que estrearam em 2014. Acompanhe Lindsay Currie:

em Mas... uma sirene toca algum lugar lá fora. a Talvez a cidade não estej tão vazia assim... ISBN 978-85-8235-359-2

LINDSAY CURRIE

TODO PECADO SERÁ CASTIGADO...

“Ao entrar nas casas procurando abrigo, Dee começa a reviver traumas de uma infância conturbada e violenta, e sua única vontade é partir o quanto antes. Mas o frio a obriga a ficar, e ela acaba descobrindo que às vezes é melhor estar sozinha com seus próprios demônios.” Eric Novello,

autor do livro Exorcismos, amores e uma dose de blues

www.lindsaycurrie.com @lindsayncurrie @lindsayncurrie

TRISHA LEAVER

DOU TRINADOS

Li n d s a y Currie

a Parados no meio de um so estrada deserta, sem ga o lina e precisando de abrig , ee D contra o frio e a neve, Luke e Mike vão buscar aju a, da na cidade mais próxim ra nseguir combustível pa co de s en jov s do ça ran espe sabitado... Purit y Springs, a única vazias e o local parece de tão es jo are vil do as ru seguir viagem. Mas as cio que cararência quanto no silên ap na to tan s, ica nt idê do s As dezenas de casa nado, está tudo organiza do an ab r ga lu um ra pa e, gs, os três regam, são assustadoras as ermas de Purit y Sprin ru las pe o nd ca ris ar se o a ali. demais. Conforme vã ores da vida que se levav ad rb rtu pe ios díc in rem viajantes descob o de uzes sem nome? Que tip cr de rio ité m ce um tém em suas casas Que tipo de gente man de uma cidade tivessem es or ad or m os os tod e crença faria com qu um palmatórias, bisturis e ar livro sinist ro para dout rin r po s crianças e pecadore meio da dor e do flagelo?

TRISHA LEAVER LINDSAY CURRIE

Trisha Le a v e r

...É TARDE DEMAIS PARA SE ARREPENDER.

9 788582 353592


TRISHA LEAVER

LINDSAY CURRIE

tradução

Rodrigo Seabra


Copyright © 2014 By Trisha Leaver e Lindsay Currie Publicado originalmente por Flux. Direitos de tradução negociados por Taryn Fagerness Agency e Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os direitos reservados. Copyright © 2016 Editora Gutenberg Título original: Creed Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou em cópia reprográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora

capa

Silvia Tocci Masini

Carol Oliveira (Sobre as imagens de rudall30 e aleksandarvelasevic)

editores assistentes

Felipe Castilho Nilce Xavier

revisão

Pausa Dramática

assistentes editoriais

Andresa Vidal Branco Carol Christo

diagramação

Guilherme Fagundes Larissa Carvalho Mazzoni

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Leaver, Trisha Doutrinados / Trisha Leaver, Lindsay Currie ; tradução Rodrigo Seabra. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2016. Título original: Creed ISBN 978-85-8235-359-2 1. Ficção norte-americana I. Título. 16-00425

CDD-813

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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“Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá acompanhado” - provérbio africano Obrigada, Bri, pelos dezoito anos indo longe junto comigo. - Trisha Para meu marido e meus pequenos. Espero fazê-los sentir ao menos a metade do orgulho que vocês me dão. - Lindsay


UM

O carro parou no acostamento da estrada de terra. Soltei um palavrão, frustrada com o fato de ter deixado o casaco em casa ao invés de usá-lo para cobrir minha camiseta nova. A chuva que caía enquanto dirigíamos tinha rapidamente se transformado em gelo, o que deixava as margens da estradinha vicinal lisas e escorregadias. Estava muito frio e úmido lá fora, e agora eu teria de ir andando. Sem casaco. Luke tirou seus fones de ouvido e os jogou sobre o painel, forçando o câmbio automático para a posição P. Não que o carro fosse a qualquer lugar se deixado em D; afinal, ele tinha superaquecido e sofrido uma morte lenta. – Onde estamos? – perguntei já saindo do carro. Meu pé escorregou assim que o coloquei no chão e tive de me agarrar ao retrovisor para não cair. – Nem faço ideia – disse Luke, pisando no acelerador na tentativa de fazer o carro pegar de novo. – Provavelmente em algum lugar entre Watertown e Albany. – Belo jeito de ser específico – eu disse, abrindo o porta-malas na esperança de encontrar um suéter ou uma jaquetinha leve qualquer. – Isso quer dizer que você conseguiu andar direto por, talvez, uns 500 quilômetros? Me voltei para o irmão de Luke, Mike, pensando que ele talvez estivesse prestando mais atenção. – Onde nós estamos? Ele deu de ombros. – Sei lá, Dee. Sinto muito. 7


Dei um suspiro. Eu também não tinha prestado atenção nas placas. Já fazia uma hora, inclusive, que eu tinha enfiado a cara no livro de Espanhol e estava mais preocupada com a prova que teria na segunda do que em saber o caminho em que estávamos indo. Procurei dentro da minha sacola no porta-malas alguma coisa mais quente que pudesse vestir por cima da camiseta, mas eu realmente não tinha me preparado para nenhuma aventura. Tudo o que encontrei foi um par de botas com salto, uma calça jeans, uma coisinha de seda que mal servia de pijama e ninguém mais para pôr a culpa, a não ser eu mesma. Já tinha uns quatro anos que eu não fazia uma mala extra para qualquer eventualidade, e acho que fiquei com preguiça por causa disso. Ou me acomodei, talvez. Agora, meu castigo seria ter que lidar com a possibilidade de hipotermia. Abri a sacola de Luke e só consegui puxar lá de dentro uma cueca, uma escova de dentes e um pacote de camisinhas. – Sério que é só isso que você trouxe? – perguntei com uma risada enquanto enfiava os preservativos de volta na sacola, rezando para que Mike não os tivesse visto. No meu entender, a bagagem de Luke estava ótima daquele jeito mesmo. Luke deu um sorriso demonstrando mais malícia do que arrependimento. – Mas também você não me deu indicação nenhuma de para onde a gente ia ou o que estava planejando. O que eu ia pensar? Nada mesmo. Ele estava com toda a razão. – Se importa se eu pegar isso aqui? – perguntei, puxando um de seus uniformes de treino. Dei uma cheirada rápida e decidi que as manchas marrons eram só terra do campo de futebol americano. Terra seca. A camisa era até quentinha, o tecido estava macio como se tivesse sido lavado recentemente e cheirava apenas a Luke. Me afundei um pouco mais no agasalho. Aquela pequena parte de Luke em volta de mim fazia eu me sentir mais segura e menos tensa. – A que horas nós saímos? – Às duas, talvez duas e meia – Mike respondeu. – Por quê? – Por nada, não – eu disse, entrando no carro e me aninhando no ombro de Luke. Já passava das cinco e isso queria dizer que já estávamos na estrada havia pelo menos três horas. O show era às sete em Albany, então concluí que estávamos na metade do caminho. Mas tínhamos parado duas vezes. Uma foi porque o Mike tinha de fazer xixi, e a 8


outra porque meu estômago roncava mais alto que o motor. Imaginei que foram uns cinco minutos na primeira parada e um pouco mais na segunda, por causa da grande decisão no posto de gasolina entre comer um bolinho Twinkie ou um bolinho Ding Dong, e isso significava que nós tínhamos andado uns... Ah, quem eu queria enganar? Não tinha nem noção de onde estávamos. Me encostando um pouco mais em Luke, enfiei a chave de novo na ignição. Nem tive tempo de ver o ponteiro da gasolina se mexer antes que o motor parasse de fazer barulho outra vez, nos deixando em meio a um frio silencioso. – Como é que a gente parou naquela loja de conveniência duas horas atrás, comprou um quilo de Twinkies e nenhum de nós pensou em colocar gasolina? Luke esticou os lábios em um daqueles sorrisos sexy de um lado só, que geralmente o livravam de qualquer problema. – Nem olha pra mim. Eu sou o cara do mapa, lembra? Depois que a gente saiu da estrada principal, eu só fiquei prestando atenção na sinalização. Gasolina, suprimentos, Twinkies e todo o resto eram coisas pra você e pro Mike. Se abaixou no chão do carro e pegou o mapa todo embolado. A I-90 estava bastante engarrafada, de modo que tínhamos saído dela há mais de uma hora, na esperança de economizar tempo. Infelizmente para mim, o cara do mapa e o cara da gasolina não podiam ser a mesma pessoa. – Lembra que você me perguntou por que as universidades não permitem aquecedores elétricos de comida nos quartos do alojamento? – Mike provocou. – Lembro. O que tem isso? – Bom, é por sua causa. Pelejei para não sorrir enquanto via Luke pensar a respeito, tamborilando os dedos no joelho. Luke era brilhante e conseguia resolver qualquer problema de cálculo avançado com mínimo esforço. Conseguia lembrar de cada movimento de seus três últimos jogos e chegou à faculdade com um histórico de notas impecável. Mas coisas simples como conferir o marcador de gasolina ou programar o gravador da TV o confundiam. Aquele era um dos milhares de detalhes que eu amava nele. De algum jeito, era uma coisa que conseguia ser uma graça e incrivelmente irritante ao mesmo tempo. 9


– Se você quer dizer que um aquecedor daqueles representa mais perigo do que um ferro de passar ou uma vela, está enganado. Eu só consigo pensar que, estatisticamente... – Esquece, Luke – eu disse, cortando seu pensamento. – Se fôssemos pensar estatisticamente, seriam Mike e seu narguilé que tocariam fogo no alojamento. Luke olhou para mim com os olhos ternos ao reparar que eu estava tremendo. – Desculpa, Dee. Eu estava ouvindo música e me distraí. Nem pensei na gasolina. – Não é culpa sua – murmurei. Não era mesmo culpa dele, era minha. Era de se pensar que, depois de quatro anos vivendo com os Hoopers, eu já teria aprendido a sempre me assegurar de que o tanque de combustível estivesse cheio. Eles eram velhos o suficiente para serem meus avós, e isso significava que, toda vez que tiravam o velho Buick da garagem para andar três quilômetros até o bingo, ele voltava com o tanque cheio. Sem exceções. O Sr. Hooper teria me xingado de tudo quanto era coisa se soubesse que a gente ficou sem gasolina, e aí ele mesmo empurraria o carro até o posto e abasteceria. Eu ficaria com vergonha e Luke fingiria se sentir culpado, mas nenhum dos dois iria reclamar. Os Hoopers tinham me acolhido, uma órfã sob tutela do Estado, sem casa nem família, e me fizeram sentir como parte da família. Ninguém os forçou a fazer isso, e qualquer um sabia que aqueles míseros 450 dólares por mês que recebiam do governo nem começavam a cobrir as despesas que eu dava. Mas ainda assim me deixaram ficar. É só por isso que eu ficaria quietinha no meu canto enquanto eles falariam em nossos ouvidos até cansar sobre como era irresponsável da nossa parte ficarmos parados no acostamento por uma razão tão estúpida. Mike se inclinou sobre os bancos da frente. – Não é nada demais. Vamos chamar um reboque. Puxei meu celular do bolso e olhei bem para a tela. Sem sinal. Nem sei o que eu estava esperando encontrar; afinal, não tínhamos sinal nenhum desde o momento em que saímos da autoestrada. Estava escurecendo, não havia uma alma sequer à vista e nós não tínhamos nem ideia de onde estávamos. Ótimo. Agora só precisávamos de uma mocinha branquinha de biquíni, um sujeito enorme usando uma máscara de hóquei com uma serra elétrica e um xerife 10


transformado em zumbi para termos o filme de terror perfeito acontecendo ao nosso redor. – Sem sinal – eu disse, levantando o telefone para que Mike visse por si mesmo. – Tenta o seu. – Nada também – disseram os dois ao mesmo tempo. Ao limpar a fina camada de neblina que embaçava o vidro, olhei para fora e percebi como a luz do dia já se esvanecia. A não ser pelas plantações murchas de um metro de altura balançando suavemente com o vento, não consegui enxergar mais nada. Não ouvia nada também. – Olha, nós estamos perdidos no meio do nada em pleno estado de Nova York e são uns 80 quilômetros de caminhada até aquele posto pelo qual passamos – eu disse, chegando mais perto de Luke. – Precisamos rápido de um plano, ou então vamos perder... Parei no meio da frase porque não queria estragar a surpresa de Luke. Ele ainda não fazia ideia de para onde estávamos indo. Também não sabia que eu vinha juntando trocados nos últimos cinco meses para comprar ingressos do show para nós todos. – Perder o quê? – ele perguntou, me puxando para junto dele. Me deu beijinhos seguidos no pescoço, respirando pesada e docemente perto da minha orelha. Estava me chantageando, tentando fazer com que eu revelasse meu segredo. – Nada. Mas precisamos voltar pra estrada – respondi, me desvencilhando de seu abraço. Luke se recostou e assumiu aquela postura otimista que era tão própria dele. Tinha levado muito tempo até ele conseguir ficar daquele jeito comigo, ao reconhecer que havia medo na minha voz e entender que eu não era nada daquela menina insolente e endurecida pela vida que todo mundo achava que eu devia ser. – Relaxa, Dee. Vai ficar tudo bem. Luke apertou o blusão em volta de mim com os olhos fixos no número três – seu número – que ficava no peito e fez uma expressão de satisfação. – Isso fica melhor em você do que em mim. Na verdade, eu achava que ela ficava melhor embolada no chão ao pé da cama junto com meus tênis e a calça jeans, mas não falei nada. Mike estava logo ali no banco de trás e podia ouvir tudo. – Você fica aqui – Luke disse, calçando suas luvas. – Deve ter alguma cidadezinha aqui perto. Mike e eu vamos sair para procurar gasolina. 11


Olhei bem para ele enquanto minha cabeça percorria todos os cenários possíveis. Todos eles terminavam comigo sendo feita em pedaços por algum louco que morasse nas imediações. – Ah, tá... De jeito nenhum. Eu vou com vocês. Levantei o queixo e desafiei Luke a dizer que não. Ele apenas sorriu, tirou a jaqueta e a enrolou em meus ombros. Seus dedos se entrelaçaram com os meus e dei um suspiro, sentindo uma paz momentânea. Luke iria até o inferno por mim, se precisasse, e, considerando todos os obstáculos que criei e que ele teve que derrubar quando começamos a namorar, eu nunca tive razão para duvidar dele. Uma remota possibilidade de haver uma cidadezinha por ali surgia em meio à neve que derretia, na forma de luzes vagamente visíveis de onde estávamos. Mesmo que Luke tivesse razão e nós estivéssemos perto de outro posto de gasolina, duvido que conseguíssemos chegar lá antes de congelar até a morte. Me obriguei a abrir a porta de novo, com o vento lá fora me cortando como uma lâmina. Luke já estava vasculhando uma bolsa preta no porta-malas. Achou uma lanterna e a acendeu, ao que o pequeno facho de luz iluminou a margem da estrada. – Vamos – ele disse. – Quanto mais cedo a gente achar gasolina, mais cedo voltamos pra estrada. Olhei para Luke e percebi que ele segurava algo que parecia ser uma chave de roda na mão esquerda. – E você vai levar isso aí? – perguntei, já desejando que tivéssemos decidido ficar no carro, esquecer o show e pedir ajuda para a próxima pessoa que passasse por ali. – Com certeza – Luke respondeu. Balancei a cabeça e fiz um esforço para não rir. Não havia chance alguma de alguém nos ajudar daquele jeito. Digo, quem em seu juízo perfeito pararia para ajudar três garotos estranhos, especialmente se um deles estivesse carregando uma barra de metal? Voltei meu olhar mais uma vez para o carro, apreensiva com o fato de que ele já desaparecia atrás de nós. Mal tínhamos andado meio quilômetro e o carro já estava coberto de gelo. Peguei a mão de Luke e rezei para que a cidade estivesse mais perto do que parecia estar.

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DOIS

Definitivamente, a cidade não estava nem um pouco mais perto do que parecia. Meus pés doíam e minhas mãos estavam dormentes quando chegamos às cercanias. Eu provavelmente teria me sentado para descansar ali mesmo em qualquer amontoado de terra na beira da estrada se não fosse pelo som irritante de uma sirene que ecoava em meio ao silêncio. – O que é isso? – perguntei, já com a cabeça latejando junto com o toque de dois tempos. – Uma sirene – Mike respondeu. – Ah, sim, muito obrigada. Isso eu já tinha percebido – resmunguei. Me virei para Luke. – Pra que será que ela está tocando? Luke deu de ombros e fizemos uma varredura visual na área em volta, procurando um cogumelo atômico, um tornado em forma de funil ou um tsunami, qualquer coisa que pudesse explicar uma sirene de emergência. A não ser pela grossa camada de nuvens cinzentas ao fundo, o horizonte estava limpo. Não havia qualquer sinal de tempestade mortífera, do apocalipse ou de um ataque de zumbis. Absolutamente nada. E não era só isso. Até onde eu conseguia perceber, também não havia ninguém em volta para ser avisado do que quer que fosse. Algo que parecia um monte de carros estava adiante, mas todos parados, e nada de buzinas ou som de escapamento. Se não fosse pelos dois tratores que pareciam ser bem caros perto dali e pela trilha de pneus seminovos margeando a estrada, poderia jurar que a cidade estava abandonada. – Não se preocupe – Luke me disse. – Vamos parar no primeiro posto que virmos, comprar um pouco de gasolina e voltar à estrada 13


– completou, se inclinando para junto de mim, passando a mão pela minha nuca e me aproximando dele. – Talvez você queira me dizer agora que grande surpresa é essa. Eu poderia achar gasolina ainda mais rápido se tivesse a motivação certa... – Nada disso – eu disse, empurrando de leve. Ele se virou para Mike, certamente pronto para tentar conseguir alguma dica do irmão mais novo. Levantei a mão como que avisando Mike para ficar de bico calado. – Você nem pense em falar nada! Mike deu um tapa no ombro de Luke, já se preparando para o soco de retribuição que sem dúvida se seguiria. – Desculpa aí, mas sua patroa disse que não. A risadinha de Luke pareceu forçada, como se ele estivesse tentando deixar a conversa mais leve, ainda que a sirene soasse mais estridente a cada minuto. – Ah, é? E desde quando você faz o que ela manda? Mike sorriu, e um fulgor estúpido e travesso passou por seus olhos. – Eu não faço, mas nós todos sabemos que você faz. As paredes lá em casa são finas, sabe? Bem finas. – Ah, fica quieto! – falei alto, interrompendo a conversa. Havia algumas coisas em que eu preferiria nunca ter de pensar. Mike ouvindo Luke e eu juntos... É, era uma dessas coisas. O primeiro vulto de uma construção apareceu à nossa frente. A neve derretida fazia com que a parede de tijolos brilhasse de uma maneira tão gélida que trincava até minha alma. Parei em frente aos degraus e olhei para o alto, onde havia algo escrito sobre a porta: “Caixa de Depósitos e Investimentos de Purity Springs”. Ao lado do banco havia uma mercearia e, do outro lado da rua, uma lavanderia, um pequeno café e algo que parecia ser uma série de casinhas comunitárias revestidas de madeira que se estendiam até uma capela. Parei no meio da rua e puxei Luke para meu lado, parando-o também. A não ser pela sirene berrando sem dó em meus ouvidos, estava tudo parado. Morto. Nada de cachorros uivando, crianças chorando, nem carros correndo para longe do perigo iminente. Estremeci. A rua vazia, a tinta borrada na parede de concreto, as construções com ar antigo, tudo aquilo nos intimidava. Era assustador de verdade. Vasculhei minha bolsa atrás do spray de pimenta que eu sempre carregava comigo. Não que houvesse alguém em quem usar. O lugar era uma verdadeira cidade fantasma. 14


– Cadê todo mundo? – perguntei em voz alta. – Nem faço ideia – Luke respondeu também alto, tentando competir com a sirene. – E acho que eu não estou nem aí também – emendou, apontando para um ponto mais adiante na mesma rua. Tive de apertar os olhos para conseguir distinguir a placa pálida a quase meio quilômetro dali. Não foram as palavras escritas, mas sim os retângulos em formato familiar se projetando do chão que entregaram a resposta. – Um posto de gasolina! – gritei e comecei a correr. O sol já estava para se pôr, com suas luzes alaranjadas banhando as ruas fracamente. Por mais que o lugar fosse ermo como um cemitério, pude jurar que vi sombras. Não eram nada além de manchas pretas fugazes próximas aos prédios, mas eram reais. Meu lado racional sabia muito bem que era só o efeito da luz do sol poente mudando de posição. Mas o pensamento lógico nunca era páreo para minha imaginação, e assim me vi segurando com mais força o pequeno tubo de spray de pimenta, com a mão suada como que soldada junto à latinha. O Sr. Hooper tinha me dado aquilo logo na primeira semana quando fui morar com eles. Eu tinha acabado de fazer treze anos e não confiava em ninguém, incluindo eu mesma. Já não via meus pais havia mais de um ano, naquela época. O governo tinha finalmente me tirado da guarda deles em definitivo quando meu pai deixou de me ver como mero saco de pancadas e passou a querer algo mais. Naquelas alturas, eu já tinha passado por três casas de outras famílias adotivas e tinha sido expulsa de dois programas assistenciais quando os Hoopers aceitaram me dar uma “última chance”. Essa tal chance veio repleta de regras e incluía acompanhamento semanal por ordem de um juiz, mas no fim os Hoopers me amansaram e conseguiram me fazer conversar, mesmo quando tudo o que eu queria era só ficar escondida. O Sr. Hooper pôs o spray na minha mão no meu primeiro dia de aula e disse que o primeiro passo para superar meu passado era assumir o controle do presente. Eu aceitei, porque ter comigo aquela pequena arma me fazia sentir menos como uma vítima e mais como uma menina com a qual ninguém iria querer mexer. Desde então, o tubinho ia comigo pra todo lado. Me virei e procurei o Mike na rua. Tudo bem que ele só estava servindo de vela na viagem, mas ainda era o irmão do Luke e, no fim das contas, sempre servia para a gente dar umas risadas. Ah, e ele estava com os ingressos do show na carteira. 15


– Você está vendo o Mike em algum lugar por aí? – perguntei. Luke fez um movimento com a mão na direção em volta, apontando para tudo e nada ao mesmo tempo. – Ah, ele está bem. Está dando uma olhada por aí, a mesma coisa que a gente. Dei um suspiro e procurei mais uma vez pela rua vazia. Tínhamos de ficar juntos. Era burrice nos separarmos daquele jeito. – Relaxa, Dee. Não tem ninguém aqui – Luke disse. – Eles provavelmente evacuaram o local quando a sirene começou. E eu tenho certeza de que é alarme falso. Dei de ombros e continuei andando, na esperança de sair daquele lugar o mais cedo possível. A cidadezinha, com seu abandono perturbador e as ruas desertas, me fazia sentir vulnerável, como se eu estivesse sendo observada e... acuada. E eu odiava a sensação. Percebendo meu desconforto, Luke me pegou gentilmente pelo ombro e me parou, me fazendo olhar bem nos olhos dele. – Não vou deixar nada acontecer com você. Sorri e tentei dar a impressão de estar mais segura. Acreditei no que ele disse, ou pelo menos a maior parte de mim acreditou. O resto estava escaldado pelos 17 anos de coisas ruins que já tinham me acontecido. Ele passou o polegar pelo meu rosto com aquela expressão familiar de determinação bruxuleando nos olhos. – Dee, você acredita em mim, não acredita? – Acredito, mas é que o Mike... – e parei de falar. Minha garganta já estava ficando irritada. Se eu não tomasse cuidado, aquela constante competição com o barulho da sirene ia acabar me deixando surda e muda. A rua escura se alongava à nossa frente. Soltei o ar de uma vez, aliviada de ver a silhueta de Mike refletida na janela do posto ainda bem iluminado. O estacionamento estava lotado, com muitos carros parados lado a lado. Todos vazios. Luke bateu na porta aberta de um Ford azul de aparência genérica e eu vi que seu raciocínio certamente percorria o mesmo incômodo caminho do meu. Ele e eu já vivíamos na mesma cidade por quase quatro anos e sabíamos muito bem que, sempre que havia uma emergência, nem todo mundo dava ouvidos às recomendações. Sempre há alguns idiotas que ficam pra trás, acreditando serem mais fortes e mais espertos, e capazes de ludibriar a Mãe Natureza. Mas não ali. Aparentemente, todo mundo naquela cidade era temente a Deus e cumpridor das leis. 16


Luke pôs a mão no meu ombro. Provavelmente só estava querendo atrair minha atenção, mas aquilo me assustou pra cacete. Soltei um palavrão e me encolhi com um passo pra trás. – Calma, garota – ele disse com um sorrisinho. Começou a andar em direção às janelas do posto de onde Mike acenava para nós dizendo para nos aproximarmos. Dei um risinho nervoso quando o sininho em cima da porta balançou a acusou nossa entrada. Meio que esperava que aparecesse algum garoto coberto de graxa vindo nos perguntar o que desejávamos ali. Ao invés disso, fui recepcionada por nada mais do que corredores vazios. – Ah, graças a Deus! – resmunguei, destapando os ouvidos quando a porta se fechou e finalmente abafou o grito agudo da sirene. – Não tem telefone aqui, mas pelo menos achei um galão de gasolina – Mike disse, balançando orgulhosamente o recipiente vermelho e brilhante. – Só que ele está vazio. – Sem problemas. A gente enche – disse Luke. – Vou deixar uma nota de vinte no balcão e acho que isso vai cobrir a despesa. – Não vai ser assim tão fácil – Mike murmurou, batendo na campainha prateada sobre o balcão. Ninguém veio atendê-lo, mas ele insistiu assim mesmo. – Tudo bem que vai ter gasolina na bomba, mas a gente não vai ter como tirá-la de lá sem a ajuda de alguém que trabalhe aqui. Luke deu uma olhada mais ao fundo da loja. – Oi? Oooi? Precisamos de gasolina. Tem alguém aí? Se virou de volta, deu de ombros e checou mais uma vez as imediações do balcão. – Nada de telefone. Nada das chaves dos carros lá fora. Nada de frentista. O lugar está completamente vazio. Eu sou da opinião de a gente pegar o que precisa e só ir embora. Mike levantou a lata vazia e a esfregou na cara de Luke. – Esse é que é o problema. Não tem jeito de a gente pegar o que precisa. As bombas só funcionam se tiver alguém aqui para fazê-las funcionar. – Besteira – Luke disse, já tirando sua carteira e entregando a Mike o cartão de débito. – As bombas são automáticas. Passa meu cartão aí. – Já tentei isso – Mike disse. – Passei meu próprio cartão cinco vezes já e nada aconteceu. Eu sempre pensei que era só passar o cartão nas máquinas e... bem... era só isso e estava tudo certo. Mas, aparentemente, não era 17


assim. Mesmo em um fim de mundo miserável de Nova York, elas ainda precisavam de atendentes humanos. – Você trabalhou em um Seven Eleven – Mike disse, me puxando para a frente. – Vem ver se você consegue entender como funciona isso aqui. – Eu acho que alguém precisa autorizar o cartão – eu disse, indo para trás do balcão. – E eu só trabalhei lá por dois dias. Eles não tiveram tempo de me ensinar como operar as bombas. Reconheci alguns botões da registradora daquela minha breve passagem pelo mercadinho no verão anterior. Não tinha inteirado nem 16 horas de trabalho lá quando percebi que estava perdendo meu tempo e fui embora procurando alguma coisa menos entediante. Continuava procurando até aquele momento. – Tem uma tecla ou um código que a gente digita aqui ou algo assim. Tenho quase certeza de que tem mesmo a ver com a máquina registradora, mas não sei bem o que é – eu disse. Luke chegou ao meu lado, levitando os dedos sobre as teclas. – Você reconhece alguma dessas aqui? Sim, reconhecia. O problema é que, sem os quatro dígitos do código de segurança, ninguém ia ter acesso a bomba nenhuma. Apertei o enter só para ter certeza, na esperança de que o dono do lugar, quem quer que fosse, tivesse saído às pressas e esquecido de proteger as bombas. Tudo o que consegui foi uma tela azul com o cursor piscando e a confirmação do que já esperava: Digite o código para liberar as bombas. Senti o calor do braço de Luke em volta de mim e vi que ele estava tentando muito ser paciente naquela situação tão difícil. – Tente 1-2-3-4 – sugeriu. Tentei praticamente tudo o que me veio à cabeça, resmungando sempre que não conseguia nada a não ser o alarme da maquininha. – Esquece – Mike disse já em direção da porta. – Danem-se essas máquinas. Eu vou conseguir gasolina. – Espera. Luke correu até o irmão. Fui atrás, me perguntando se Mike planejava fazer a bomba funcionar aos chutes ou talvez sugar a gasolina dos carros parados. Nenhuma das duas coisas parecia muito promissora. Luke pôs a mão no vidro da porta e a abriu muito de leve com um empurrão. Foi o suficiente para uma lufada de ar gelado entrar, derrubando no chão uns pedaços amassados de papel que estavam sobre a lata de lixo. 18


– Fica aqui dentro, Dee. Pega algumas coisas pra gente comer no caminho – ele disse. – Está muito frio lá fora e, pelo jeito daquelas nuvens lá na frente, a garoa vai virar neve daqui a pouco. – Tudo bem, sem problemas – respondi, já dando uma olhada geral na lojinha, com especial interesse pelo corredor das batatas fritas. – O mínimo que essa cidade pode fazer por nós depois de tanto trabalho é providenciar uma comida. Me abaixei atrás do balcão e peguei uma sacola de papel que estava lá embaixo. Com duas passagens pelos corredores, já a tinha enchido com nossas guloseimas preferidas – uma Diet Coke para mim, mais Twinkies para o Mike e outro refrigerante e uns pretzels para o Luke. Fiquei de olho na caixinha de carne seca no balcão enquanto minha imaginação me levou de volta até em casa. Havia um belo corte de carne descongelando na geladeira quando saímos. A panela de cozimento lento já estava fervendo, e a Sra. Hooper tinha arrumado uma sacola com mais de dois quilos de maçãs prestes a serem descaroçadas. Torta de maçã. Ela iria fazer uma torta de maçã para a sobremesa, e eu com certeza estava um pouquinho arrependida de ter que sair justo naquela hora. Só uma tira de carne seca não ia chegar nem perto de aplacar minha imaginação salivante, então eu a voltei à gôndola e, ao invés dela, peguei um saquinho grande de M&Ms. Abri a carteira, fiz uma conta rápida e deixei uma nota de cinco, rabiscando um bilhete de “fiado” para os dez que faltaram. Quando estivéssemos longe dali, ficaria feliz de enviar um cheque para cobrir a diferença, mas é certo que eu jamais poria os pés naquela cidade de novo. A porta abriu e deixei a sacola cair no susto, quase entrando em pânico antes de perceber que era só o Luke. A expressão em seu rosto confirmava o que já era esperado, mas perguntei assim mesmo: – Conseguiu fazer a bomba funcionar? – Não. Estiquei o pescoço para olhar mais longe, pensando que veria Mike atrás dele. Luke percebeu que eu dei pela falta do irmão dele e riu daquele jeito meio debochado, o que me fez entender de imediato que, o que quer que Mike estivesse fazendo, Luke achava engraçado. – Ele está ali na esquina vomitando até a alma. Eu falei que era burrice tentar sugar a gasolina dos tanques, mas ele insistiu em fazer isso assim mesmo. 19


Balancei a cabeça em desaprovação, engasgando só de pensar no gosto. A imagem de Mike vomitando gasolina foi demais até para o meu estômago habitualmente de aço. – Ai, isso é nojento. Por que você deixou ele fazer isso? Luke deu outra risada. – Você conhece o Mike... É, eu conhecia. Vinha assistindo ao Luke sempre tentando livrar o Mike e sua língua comprida de brigas e confusões na maior parte dos últimos dois anos. Já tinha se tornado meio que nosso programa semanal das sextas à noite. – Não se preocupe. As chances de ele ter engolido o suficiente para fazer mal são muito pequenas ou nenhuma. Logo que sentiu o gosto ele começou a botar tudo pra fora. – Mas então o que a gente vai fazer agora? Vai escurecer logo e não tem gasolina nenhuma. – O que você quer fazer? – Luke perguntou com um tom de voz que, devagar, foi mudando de brincalhão para bem mais sério. Aquilo me deixou preocupada. – Por que a gente não pega um desses carros? Deve haver pelo menos uma dúzia parada aqui – sugeri. Luke assentiu, passando os olhos pela rua lá fora. – Tem mais ou menos isso mesmo, mas nenhum com chave. Olhei dentro de todos os carros no estacionamento enquanto Mike cuidava da história da gasolina. – E...? – eu disse, sem conseguir identificar qual seria o problema. Se tinha alguém que sabia como fazer ligação direta em um carro, certamente era o Luke. Ele era incrivelmente esperto. Talvez até pudesse dizer a composição química de cada fio no interior da parte elétrica. Conectá-los e criar a fagulha para ligar o carro seria fichinha. Luke riu. – Bom, em teoria, acho que eu até poderia te explicar como puxar os dois fios da ignição para esfregar, gerar a fagulha e explodir o vapor de combustível do jeito certo para ligar o motor. Mas fazer isso no mundo real... não dá. Me desculpa, Dee, mas eu não tenho a mínima ideia de como fazer ligação direta. Fiz menção de dizer alguma coisa, mas ele logo me cortou com um gesto. 20


– E, antes que você pergunte, o Mike também não sabe. Se soubesse, não estaria lá vomitando neste momento. – Então, como vai ser? A gente só vai ficar aqui e esperar até a hora em que alguém resolver voltar? – Não. Eu acho que seria melhor a gente ir mais pra dentro da cidade e ver se conseguimos encontrar alguém em alguma casa. Alguém que tenha um telefone. – Tudo bem. Quero dizer, é uma cidade bem pequena, e pessoas de cidadezinhas assim costumam ser legais, não é? – É isso aí – Luke disse com um sorriso estampado no rosto. – Mas não importa o que aconteça hoje à noite, quero te agradecer. Nem faço ideia do que você planejou para a gente, mas tenho certeza de que vai ser ótimo. Deu um beijinho na minha testa e bateu no vidro da loja para que Mike se apressasse. – Pronta para ir? – Estou – respondi, recolhendo os itens da minha sacola caída. Na verdade, estava com sérias dúvidas a respeito daquela história de vagar por aquela cidade à noite, mas a gente não tinha lá muita escolha. O tempo estava piorando e logo ficaria tudo escuro. Pelo menos ali, na lojinha do posto, estava mais aquecido, tinha muita comida que eu adorava e era bem mais calmo do que do lado de fora. Além disso, havia muitos lugares para a gente se esconder. Havia o balcão sob o qual eu poderia me enfiar. Os corredores que nos ocultariam se nos abaixássemos. Banheiros com tranca. Se teve algo que aprendi bem com minha infância difícil, foi o fato de que procurar jeitos de ficar invisível não era nenhuma covardia – era esperteza. – Talvez a gente devesse ficar aqui e ver se alguém aparece – eu disse. Luke viu o medo em meus olhos e pegou minha mão. – Te peço o seguinte, Dee: só meia-hora para a gente dar uma volta por aí. Se não encontrarmos uma casa ou outro posto de gasolina, a gente volta pra cá. Fiz que sim com a cabeça, temendo que, se eu falasse algo, minha voz fosse falhar e deixar claro o quanto eu na verdade estava assustada. Não tinha ideia do que iríamos encontrar, nenhuma noção de para onde aquelas ruelas desertas nos levariam, mas isso não importava. Afinal, não era como se houvesse qualquer pessoa nas redondezas, prestativa ou perigosa, que fosse nos perturbar.

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