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O dom da fúria

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TRADUÇÃO:

Jim Anotsu


Copyright © 2021 Mark Oshiro Publicado em acordo com o autor, representado por BAROR INTERNATIONAL, INC., Armonk, New York, U.S.A. Título original: Anger Is A Gift Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

design e ilustração de capa

Flavia Lago

Chris Koehler

editora assistente

adaptação de capa

Natália Chagas Máximo

Diogo Droschi

preparação

diagramação

Bia Nunes de Sousa

Guilherme Fagundes

revisão

Claudia Barros Vilas Gomes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Oshiro, Mark O dom da fúria / Mark Oshiro ; tradução Jim Anotsu. -- 1. ed. -São Paulo : Gutenberg, 2021. Título original: Anger Is A Gift ISBN 978-65-86553-84-0 1. Ficção norte-americana I. Título. 21-74244

CDD-813

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

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Para todas as mães que lutam por seus filhos.


1

P

rimeiro ele viu as luzes. Azuis e vermelhas, piscando num padrão constante. Muitas delas espalhadas pelo estacionamento ao sul da estação, e ele não conseguiu evitar. Moss tinha entrado no trem em São Francisco naquela tarde, esperando nada além do comum, apenas uma tarde com sua melhor amiga, Esperanza. O trem estava lotado, cheio de gente ansiosa para voltar para casa no fim da semana. Tiveram sorte de achar alguns assentos vazios perto de uma das portas. Moss tinha encostado sua bicicleta na parede do vagão e lutado para conseguir o assento ao lado de Esperanza. Mas, então, a sorte deles acabou. O trem agora estava imóvel, preso entre a estação Embarcadero e West Oakland, onde ambos estavam parados. Moss fechou os olhos e suspirou. – A gente nunca vai sair deste trem, te juro. Olhou para Esperanza, que tinha tirado o fone do ouvido esquerdo. Moss podia ouvir o sonzinho de Janelle Monáe quando removeu o próprio fone. Sua melhor amiga jogou a cabeça para trás, sobre o encosto do banco, frustrada. Tirou os óculos de armação grossa e começou a esfregar os olhos. – É isso aí – disse Esperanza. – É aqui que vamos ficar presos pelo resto da eternidade. – Bem, não dá pra ficar aqui para sempre – ele respondeu. – Eles vão fazer aquela coisa... aquilo de transferir a gente para outro trem. – Estreitou os olhos para ela. – Será que conseguem fazer isso aqui? Esperanza suspirou enquanto colocava os óculos de volta. – Não sei – respondeu. – Nunca fiquei presa nem no metrô. – Está me assustando – disse ele. – O que acontece se tiver um terremoto enquanto estivermos aqui? 7


Ela deu um tapinha de brincadeira no braço de Moss. – Nem diga isso! É praticamente pedir para acontecer! – Então isso aqui é bem parecido com o começo de todos os pesadelos apocalípticos que se prezem – disse ele. – Bem, é melhor a gente se acostumar a viver aqui, Moss. Não tem escapatória. Nossa vida como a conhecemos acabou! O que significa que precisamos começar a planejar como vamos decorar a nossa nova casa. Ela ficou de pé, sorrindo, com a blusa azul frouxa no corpo, e apontou acima das portas de trem ao lado dela. – Com certeza a gente vai precisar instalar umas cortinas aqui – explicou. – Estou pensando... em algo cinza. Para acentuar a desolação do lugar. Moss sacudiu a cabeça. – Sou um homem de gosto exigente – falou com o tom mais grandioso que conseguia. Esse era o jogo deles de sempre. – Não hei de repousar meu corpo nesta pocilga. – Fingiu estar em pensamento profundo antes de exclamar. – Já sei! Beliches. Economizam espaço e darão um ar de jovialidade. Esperanza fingiu desmaiar de volta ao assento. – Moss, você é cheio de boas ideias. Além do mais, isso retrata bem a realidade da situação: permaneceremos celibatários pelo resto da vida, porque duvido que eu vá encontrar umas garotas bonitinhas nesse trem. – Ei, fale por você – Moss disparou de volta. – Tenho certeza de que vi um cara bem gato com uma bicicleta vintage alguns vagões para trás. – Vai tentar a sorte no mercado hipster do trem, hein? Esperto, Moss, muito esperto. – Você acha? – Moss respondeu. – Sim, são jovens e ambiciosos. Muita renda para gastar. Estão prontos para gentrificar o seu bairro num assar de cupcake. Moss riu daquilo. – Bem, como não há nenhum cara bonitinho nessa cidade que eu consiga aguentar por mais do que cinco minutos, então aceito o que vier. – Isso certamente é uma tragédia – disse Esperanza. – Bem, sem contar ficar confinado num trem até esmorecer e morrer, mas é uma tragédia ainda assim. 8


Os dois ficaram em silêncio, como em geral Moss podia ficar na presença dela. Ela não esperava que ele ficasse conversando o tempo todo, deixava que ficasse quieto no seu canto. Moss voltou sua atenção para os olhares vagos e distraídos do trem, uma paisagem cotidiana no transporte urbano, não importa o dia. Já era fim da tarde, no entanto, e ele viu a exaustão nos rostos, na forma como arqueavam os corpos. Ele e Esperanza tinham passado a tarde num shopping no centro de São Francisco, fingindo ser compradores elegantes e ricos, construindo um guarda-roupas imaginário cheio de peças que eles provavelmente nunca poderiam comprar. Foram de loja em loja, Esperanza era uma poeta de sucesso em turnê para divulgar seu livro e Moss era um estilista mundialmente renomado a ajudando com as compras. Da última vez, Esperanza era uma das dançarinas de Beyoncé, e Moss tocava baixo nos shows dela, tinham parado em São Francisco durante uma turnê mundial, bebericando chá gelado despretensiosamente e usando os óculos de sol mais incríveis que encontraram. Fingir era bom. Era como se Moss tivesse outra vida, uma vida que ele mal podia esperar para viver. O ranger súbito nos alto-falantes o alarmou. – Pedimos desculpas pelo atraso – disse uma voz que parecia a da mãe de Moss –, mas há atividade policial na estação de West Oakland. Não sabemos ainda se iremos parar lá, mas aviso assim que tiver qualquer informação. Aguardem. Esperanza suspirou de novo, embora sua exasperação não fosse uma farsa desta vez. Moss esticou a mão e começou a mexer com a fita no guidão de sua bicicleta, a impaciência o afligia. Ele só queria ir para casa. Inclinou-se no ombro de Esperanza, grato por terem a mesma altura. – Não quero ir para escola amanhã – disse. – Eu sei, estou parecendo o adolescente mais clichê do mundo, mas estou horrorizado. – Moss fez uma pausa. – Já parou para pensar que deveriam ser dois dias de aula seguidos por cinco de folga? Essa, obviamente, é a melhor rotina de aprendizado. – Ah, de boa, não é tão ruim – Esperanza insistiu e repousou a cabeça em cima da dele. – A gente vai se dar bem. O trem, de repente, se impeliu adiante, e algumas pessoas bateram palmas. Moss viu um garoto alto, magricela, esticar a mão em direção 9


ao apoio logo acima de sua bicicleta. Quando, em vez disso, segurou no quadro da bicicleta, ele se desequilibrou e estremeceu. – Desculpa, desculpa – falou. – Só fiquei surpreso, só isso. – Tudo bem – respondeu Moss. – Sem problemas, cara. O cara correu a mão por sobre o quadro de novo. – Isso é aço? Moss assentiu e deu uma olhada mais longa para o garoto. O cabelo dele era raspado curto, a pele, marrom-dourada, e ele tinha aquele tipo de músculo esguio que algumas pessoas tinham a sorte de ganhar pela boa genética. Ele é gatinho, pensou Moss, mas deve ser tragicamente hétero. – Aço é uma boa escolha – disse o garoto. – Especialmente nos bairros mais ferrados. Moss estreitou os olhos ao ouvir isso, surpreso com o fato de que aquele cara parecia saber do que estava falando. – É, eu sei! Todo mundo quer uma dessas de carbono, mas aquelas coisas machucam, a menos que esteja numa estrada boa. – Né? – O cara estendeu a mão. – Javier. Moss a sacudiu. – Moss – disse ele. – E esta é Esperanza. Enquanto Javier sacudia a mão de Esperanza, ele olhava para Moss. – Que nome interessante – falou. – Tem alguma história por trás dele? O som que saiu de Esperanza foi uma mistura de latido e uivo. Moss olhou para a melhor amiga e tampou a boca dela com a mão. – Sim? – ele perguntou, recolhendo a mão. – Você tem alguma coisa a dizer, Esperanza? – Ah, por favor, posso contar? É tão fofinho. – Talvez o Javier aqui não queira escutar nada fofinho – disse Moss e lançou uma olhadela rápida para o rapaz. Todavia Javier já assentia. – Ô, com certeza quero escutar algo fofinho – falou, e, com essas palavras, foi como se aquele estranho tivesse despertado a verdadeira vocação de Esperanza. Moss viu o rosto dela se acender com animação; ele baixou a mão e ela colocou a dela diante do rosto. 10


– Imagina só – disse Esperanza. – Moss mais novinho... pode-se dizer que era um bebezinho lindo. – Sei lá – falou Javier. – Ele é bem lindo agora. Moss ficou de queixo caído e seu olhar foi de Javier, que sorria para ele, até Esperanza, que também sorria. – Hein, o quê? – Deixa pra lá – disse Esperanza. – Vocês podem ter um momento a sós daqui a pouco, prometo. Estou contanto uma história aqui, lembram? – Exatamente – disse Javier. – E quero saber qual é a dessa história! O coração de Moss saltou, batendo no peito. Foi pego desprevenido, mas Esperanza seguiu adiante e ele ficou grato por isso. – Imagina só – ela repetiu. – Moss está aprendendo a falar. Ele ouve os pais dizerem o nome dele de novo e de novo... Morris, Morris! – A garota se inclina para Moss. – E o Moss aqui fica tentando repetir, como qualquer criança estudiosa tentaria. Mas toda vez fica saindo sem aqueles erres cruciais. – Moss – disse Javier, como se experimentasse a palavra pela primeira vez. – Saquei! Cara, isso é fofinho. Esperanza ficou de pé e fez uma reverência. – É a minha história favorita, e agora vou deixá-los sozinhos porque isso aqui claramente é um daqueles momentos. Com isso, ela se afastou em direção à janela do outro lado do trem. Javier apontou para o assento agora vago. – Se importa se eu sentar? Outra explosão de energia ansiosa correu pelo corpo de Moss. – Sim – falou. – Quer dizer, não! – Soltou isso e, então, sacudiu a cabeça. – Por favor, senta – falou por fim, certo de que tinha se envergonhado além da conta. Javier se sentou, a boca curvada num sorriso. – Te deixei sem graça, né? – Não, não, tudo bem, eu só... – Você deve ser hétero – disse Javier, a derrota na voz. – Me desculpa, é só que... sei lá, apenas saiu. O queixo de Moss caiu pela segunda vez em questão de minutos. Então, a risada se seguiu e levou embora todo o terror da interação. 11


– Ah, meu bem – disse ele. – Eu não poderia ser mais gay. O abatimento que emoldurava o rosto de Javier desapareceu e foi substituído por um sorriso arteiro. – Bem, vai saber – disse Javier. – A gente precisa tomar cuidado de vez em quando. – Com certeza – disse Moss. – Ainda que eu nunca tenha dado em cima de ninguém em público desse jeito antes. Você é ousado. – Eu? Ousado? – Javier riu. – A minha mãe teria muita coisa a dizer sobre isso. – Você mora em Oakland? – indagou Moss e sentiu o trem ganhar velocidade enquanto percorria seu caminho pelo túnel sob a baía. – Isso, perto de Fruitvale. E você? – Próxima parada – disse ele. – West Oakland. Bem, supondo que a gente consiga chegar naquela estação. As luzes de fora preencheram o vagão à medida que ele emergia do chão e subia a pista elevada. Durante todo o tempo vivendo em West Oakland, Moss nunca se cansou daquela vista específica, então apontou para a janela. – Saca só – disse ele, e o porto de Oakland começou a passar ao lado deles. O sol já se punha além da costa de São Francisco, então os guindastes brilhavam com as poderosas luzes que iluminavam as estruturas. – Parece tão bobo – falou para Javier – mas eu adoro isso. São parecidos com brinquedos de criança. – Ou como se uma criança os tivesse construído. – Sabia que George Lucas modelou os AT-AT baseados neles? – Cai fora! Você também é fã de Star Wars? – Um tiquinho – admitiu Moss. – Menos a maior parte das prequelas. E você deve saber que dou moral para o Finn. – Mano – falou Javier. – Poe é o cara. Latinos no espaço! Conse­ guimos! – Isso é louco, mano. – Moss fez uma pausa e correu os olhos por Javier. – Está certo, Javier. Admito que não imaginava que minha tarde terminaria assim. – Bem, a minha está só começando. Estou indo para aquele protesto em West Oakland. O atraso deve ser por causa disso. 12


Moss deixou um instante passar e se preocupou se estava sendo óbvio demais. Sentiu uma pontada, aquela ansiedade familiar que ele tanto lutou para manter escondida. Um protesto? Isso só queria dizer uma coisa. – Pelo quê? – indagou Moss, tentando disfarçar sua reação. – Já ouviu falar em Osner Young? – Quando Moss sacudiu a cabeça ao ouvir isso, Javier continuou. – Irmão mais velho de um carinha que estuda na minha escola. Foi baleado e morto perto da estação e a polícia falou que ele tinha uma arma apontada para eles. – Javier meneou a cabeça. – Claro que estava desarmado. Em geral todos estão. – É – disse Moss, lutando para encontrar alguma coisa significativa para dizer, mas incerto de que poderia. Nem sei por onde começar a conversar com ele sobre isso, Moss pensou. – Então estou indo para dar o meu apoio – disse Javier. – Tenho alguns amigos que vou encontrar por lá. – Javier colocou a mão na perna de Moss, que desejou que tudo aquilo estivesse acontecendo num contexto diferente. – Você não quer vir? – Ah, sei não – respondeu Moss, baixando o olhar. – Ei, não quero interromper o xaveco de vocês – disse Esperanza, se aproximando dos dois –, mas, Moss... a gente precisa tomar cuidado ao descer na estação. – Por quê? – perguntou Javier. Esperanza olhou de Javier para Moss, que notou a preocupação cruzar o rosto da amiga. A expressão dizia tudo. Polícia, pensou. Deve ter policiais. Como ela sabe? – Tem alguma coisa acontecendo? – Javier se levantou, caminhou até a janela e então assoviou. Moss se ergueu lentamente. – É o que estou pensando? Esperanza assentiu. – Você vai ficar bem? Vou na sua frente se quiser. Moss respirou fundo. – Deixa eu ver o quanto está ruim – disse ele e atravessou o corredor, colando o rosto na janela. Tentou espiar além do trem conforme se aproximava da estação West Oakland, mas o ângulo não estava bom. Podia ver o próprio reflexo 13


melhor do que qualquer outra coisa do lado de fora, então colocou as mãos em concha contra o vidro para bloquear a luz de dentro do vagão. Foi quando viu os jorros de luzes azuis e vermelhas, e aí o pavor o preencheu, transbordou, apertou seu coração até que se tornasse pó. Suas mãos começaram a suar e Moss se afastou da janela, quase tropeçando em Esperanza. Ela agarrou seu braço direito para evitar que caísse. – O que foi? – perguntou Javier. Lá estava, no rosto dele. Preocupação. Confusão. – Nada – respondeu Moss. – Está tudo bem. – São muitos policiais – Javier falou, caminhando até a janela e cobrindo os olhos assim como Moss tinha feito. – Droga. O que aconteceu com o protesto? O trem diminuiu de velocidade ao se aproximar da estação, e Moss sentou-se no banco mais próximo da porta, respirando devagar e profundamente. Tinha aprendido essa técnica na terapia, para usar sempre que sentisse a ansiedade tomar conta. Tudo por causa de algumas luzes, pensou Moss. Apenas luzes vermelhas e azuis. É só o que elas são. Ele sabia disso. Mas não fazia diferença. O trem parou subitamente na estação West Oakland. A plataforma estava vazia em sua maior parte, um alívio. Isso significava uma saída mais rápida, e aquela era a única esperança a que Moss se permitia. Ficou ao lado de Esperanza, que aguardava perto da porta. – Estou aqui – disse ela, a mão na dele. – Vamos simplesmente baixar a cabeça e sair da estação o mais rápido que pudermos. Tudo bem aí? Ele assentiu, o coração na garganta. Moss queria ser capaz de enfiar a mão dentro do cérebro e cortar aquela parte que o atormentava. Em vez disso, tinha que lidar com aquilo todos os dias. Soltou Esperanza e pegou sua bicicleta, desejando que não a tivesse trazido, certo de que atrapalharia o caminho. Esperaram. E esperaram. E esperaram. Mas as portas não se abriram e uma insidiosa antecipação se infiltrou ali. E se eles ficassem presos? E se os policiais estivessem vindo para a estação? O suor ao longo da testa pareceu brotar do nada; Moss não se lembrava de estar suando antes. – Você está bem? – indagou Esperanza. 14


– Sim – respondeu, a voz fraca, presa pelo medo do desconhecido. – Só quero sair do trem. Moss percebeu que Javier observava os dois. E então viu escrito no rosto dele: pena. Está começando outra vez, pensou Moss. A luz laranja acima das portas brilhou, um toque curto soou em seguida, e então as portas se abriram. Apesar de ter pouca gente, um jovem entrou correndo no vagão, derramando metade da sua bebida sobre Javier. – Que droga! – gritou Javier, mas o cara nem olhou para trás. – Nossa, isso foi horrível – disse, sacudindo a frente da sua camiseta branca. Moss e Esperanza se juntaram a ele na plataforma. – Sempre dá para chamar de arte moderna – falou a garota. Javier deu uma risadinha. – Gostei dela, Moss. Dá para entender por que são amigos. – Ele está me ganhando – Esperanza falou. – Espero que já tenham pegado o contato um do outro. A gente precisa ir, Moss. Javier tira o telefone, mas Moss o interrompe com um gesto. – Vamos descer primeiro – disse. – Só quero sair da estação antes que... – Não terminou a frase. O que dizer? Como contar para ele? Em silêncio, tomaram o caminho até as escadas, as luzes vermelhas e azuis das viaturas policiais se refletiam nas paredes. Dois funcionários da estação estavam fora de suas cabines, os olhos fixos na cena da saída sul da estação. Moss se virou para se dirigir à saída norte, a bicicleta presa no ombro, mas Esperanza segurou seu braço livre. Havia uma multidão barulhenta com cartazes ao alto. Um deles trazia a foto de Osner Young e aquilo atingiu Moss em cheio: Osner era só alguns anos mais velho do que ele. Seu rosto aberto num sorriso alegre, e Moss reconheceu o lugar onde a foto foi tirada. A barbearia do Martin, perto de onde morava. Havia mais cartazes. parem de nos matar, dizia um. Havia um homem branco alto no canto direito, seu cabelo grisalho bagunçado, carregava um pôster que dizia: ainda preciso protestar contra isso? Moss fez uma careta, aquele pôster o deixou com a sensação de que o cara estava mais preocupado em ser engraçadinho do que solidário. 15


Circundando a calçada do lado de fora da estação e bloqueando o acesso até as catracas, havia um batalhão de choque da polícia. Estavam com seus cassetetes pendurados na cintura, os capacetes brilhando sob as luzes do estacionamento. Moss precisava sair o mais rápido possível. – Vamos – disse Moss, se virando para ir embora. – Por favor. Esbarrou em alguém. Moss pediu desculpas, mas o cara o examinou, olhando-o da cabeça aos pés. – Morris? – O cara o olhou do mesmo jeito de novo. Será que era alguém da barbearia do Martin? Como aquele homem sabia seu nome? – Aê, não te vejo há anos. Como você está? Moss se afastou. – Hum... acho que você me confundiu com outra pessoa – respondeu. – Não acho que a gente se conheça. – Talvez você não se lembre de mim – disse o cara. – A última vez... puxa, deve ter uns cinco anos. Você ainda era uma criança. Foi no protesto em frente da prefeitura! Por favor, agora não, pensou Moss. Ele se curvou e tentou ir na direção da saída, mas outra pessoa o deteve, um homem mais velho com uma coroa de cabelos grisalhos. Parece mais familiar, mas Moss não conseguia identificá-lo. – Ei, Moss – disse o homem, erguendo uma mão. – Você está aqui para o protesto? Moss tentou formar palavras, mas a escuridão veio. Começou pelas bordas da vista, se aferroou ao seu peito, e ele não conseguia ver uma rota de fuga. Esqueceu-se de Esperanza, de Javier, de qualquer outra coisa que não fosse a luz do dia brilhando além das catracas da estação. Enfiou a mão no bolso da frente e tirou o bilhete único, segurando com força. Mas tinha mais gente na frente de Moss, perguntando do protesto, perguntando de sua mãe, pedindo para ele ficar e protestar com os outros, fazendo perguntas demais, pedindo tanto dele, como sempre. Uma mulher com o cabelo trançado num padrão complicado e apertado na cabeça surgiu ao lado dele e gritou: – Ei, olha o filho de Morris Jeffries aqui! 16


Moss tentou focar no rosto dela, mas ele começou a borrar, a fugir para além da sua visão, e então parecia impossível respirar. – Por favor, só preciso sair daqui – balbuciou e, então, se perdeu, o pânico se espalhando por todo o seu corpo. Largou a bicicleta e ouviu-a cair no chão, o eco reverberando dentro da cabeça. Sentiu alguém agarrá-lo quando mergulhou em direção ao concreto cinzento da estação e esperou que a escuridão o consumisse.

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