O TRADUTOR: Flavio Fontenelle Loque é professor da Universidade Federal de Itajubá (Campus Itabira). Autor de Ceticismo e religião no início da modernidade (Loyola, 2012), publicou ainda a Conversa com o Senhor de Sacy sobre Epiteto e Montaigne e outros escritos, de Blaise Pascal (Alameda, 2014), e o Diálogo sobre o tema da Divindade, de François de La Mothe Le Vayer (Editora UFMG, 2014). Traduziu, em parceria com Loraine Oliveira, algumas obras de Pierre Hadot, como os Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga (É Realizações, 2014).
FILO “Como esse aviso é importante! Pois todos os arrebatamentos, toda a violência e toda a vaidade dos grandes decorrem de não conhecerem o que são: é difícil que aqueles que se vissem interiormente como iguais a todos os homens, e que estivessem bem persuadidos de que nada têm em si que mereça essas pequenas vantagens que Deus lhes deu acima dos outros, os tratassem com insolência. Para tanto, é preciso esquecer a si mesmo e crer que se tem alguma excelência real acima deles; nisso consiste essa ilusão que busco vos revelar.” Primeiro discurso sobre a condição dos grandes
BLAISE PASCAL Do espírito geométrico e Da arte de persuadir
BLAISE PASCAL, um dos principais filósofos franceses da modernidade, nasceu na pequena cidade de ClermontFerrand, em 1623, e morreu em Paris, em 1662. Desde muito cedo, revelou grande aptidão para a matemática, como se vê pela invenção e produção da máquina de calcular e pelos escritos sobre as cônicas, o triângulo aritmético e a cicloide. No campo das ciências, seguindo o caminho aberto por Torricelli, dedicou-se às pesquisas sobre o vácuo e o peso da massa de ar, além de ter elaborado uma reflexão importante sobre a noção de método. Ainda bastante jovem, em 1646, Pascal tornou-se adepto do jansenismo, mas somente depois de uma experiência religiosa marcante, ocorrida na noite de 23 de novembro de 1654, sua adesão ao cristianismo ganhou a intensidade e a centralidade que o levariam a compor as Cartas provinciais e os fragmentos que, coligidos postumamente, haveriam de formar os Pensamentos.
BLAISE
PASCAL
Do espírito geométrico e Da arte de persuadir
e outros escritos de ciência, política e fé
ISBN 978-85-513-0237-8
9 788551 302378
www.autenticaeditora.com.br
Organização e tradução Flavio Fontenelle Loque
É impossível definir em poucas palavras a filosofia de Blaise Pascal (1623-1662), porque ela ultrapassa em muito a reflexão apologética a que, frequentemente, tende a ser reduzida. Pascal foi um homem múltiplo, interessado por diferentes campos do saber e radicalmente envolvido com as grandes questões de sua época. Ao mesmo tempo, foi um homem que viveu na própria carne um conflito angustiante entre pretensões mundanas de fama e riqueza e aspirações religiosas que exigiam desapego ao próprio eu, como se percebe pela contraposição entre a Carta à Sereníssima Rainha da Suécia e a Oração para pedir a Deus o bom uso das doenças. É a essa pluralidade filosófica e também biográfica que a presente coletânea se dedica. Aqui se encontram, em escritos de juventude e de maturidade (se é que cabe aplicar essas categorias a um autor que morreu aos 39 anos), reflexões sobre método, geometria, física, política, espiritualidade e polêmica religiosa. Do célebre Do espírito geométrico e Da arte de persuadir ao inédito em português Escrito sobre a assinatura do formulário, o conjunto de dez opúsculos e cartas aqui reunidos é acompanhado de prefácio, introdução e notas, e foi integralmente traduzido a partir da edição crítica das Obras Completas elaborada por J. Mesnard.
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ANTIFILŌ A Razão Pascal Quignard
FILŌ
BLAISE
PASCAL Do espírito geométrico e Da arte de persuadir e outros escritos de ciência, política e fé
O R G A N I Z A Ç Ã O , I N T R O D U Ç Ã O , T R A D U Ç Ã O E N O T A S Flavio Fontenelle Loque P R E F Á C I O Jean-Robert Armogathe R E V I S Ã O T É C N I C A Luís César Guimarães Oliva T R A D U Ç Ã O D A S C I T A Ç Õ E S L A T I N A S Fábio Fortes
Copyright © 2017 Autentica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. coordenador da coleção filô
editora assistente
Gilson Iannini
Cecília Martins
conselho editorial Gilson Iannini (UFOP); Barbara Cassin (Paris); Carla Rodrigues (UFRJ); Cláudio Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUC-Rio); Ernani Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); João Carlos Salles (UFBA); Monique David-Ménard (Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind (UFF); Rogério Lopes (UFMG); Rodrigo Duarte (UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP)
revisão
Miriam de Carvalho Abões projeto gráfico
Diogo Droschi capa
Alberto Bittencourt (Sobre foto de David Monniaux de La pascaline, Blaise Pascal, 1642) diagramação
Larissa Carvalho Mazzoni
editora responsável
Rejane Dias
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pascal, Blaise, 1623-1662. Do espírito geométrico e Da arte de persuadir : e outros escritos de ciência, política e fé / Blaise Pascal ; organização, introdução, tradução e notas Flavio Fontenelle Loque ; prefácio Jean-Robert Armogathe ; revisão técnica Luís César Guimarães Oliva ; tradução das citações latinas Fábio Fortes. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Filô) ISBN 978-85-513-0237-8 1. Filosofia 2. Matemática - Filosofia 3. Raciocínio I. Loque, Flavio Fontenelle. II. Armogathe, Jean-Robert. III. Título. 17-04462
CDD-194
Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia francesa 194
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
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Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975
Sumário
07. Prefácio: Em direção ao verdadeiro Pascal Jean-Robert Armogathe
13. Pascal: o um e o múltiplo Flavio Fontenelle Loque
31. Nota sobre a tradução e a organização Flavio Fontenelle Loque
35. Do espírito geométrico e Da arte de persuadir 77. Excerto de um fragmento da Introdução à geometria 85. Carta ao Padre Noël 101. Prefácio sobre o tratado do vácuo 113. Carta dedicatória ao Senhor Chanceler e Aviso necessário 131. Carta à Sereníssima Rainha da Suécia 139. Três discursos sobre a condição dos grandes 153. Oração para pedir a Deus o bom uso das doenças 171. Comparação dos cristãos dos primeiros tempos com os de hoje 181. Escrito sobre a assinatura do formulário
Prefácio Em direção ao verdadeiro Pascal Jean-Robert Armogathe1
Como se pode dizer acerca de um autor que ele é “verdadeiro”? Quem é o “verdadeiro Pascal”? Está na moda afirmar que não se pode conhecê-lo, que um “texto” permanece hermético para todo outro leitor, exceto para seu autor. Parece-me, entretanto, que critérios simples permitem ler um texto e compreender seu autor. O primeiro critério é restituir o texto; eis aqui o primeiro mérito de Flavio Fontenelle Loque, o de ter recorrido, para suas traduções, à edição crítica dos escritos pascalianos estabelecida por Jean Mesnard. Depois de tantas leituras deficientes, o minucioso trabalho filológico do erudito francês permitiu conhecer o texto que o próprio Pascal escreveu. Essa é uma primeira conquista – e de monta! O segundo mérito é fornecer, por essa escolha de escritos, um quadro autêntico de Pascal. Com efeito, dois grandes textos hoje deslumbram o leitor: as Cartas 1
Professor emérito da École Pratique des Hautes Études. 7
provinciais e os Pensamentos, que são dois grandes clássicos da literatura francesa. Não era assim, todavia, em 1662. A “nota” que dá a conhecer o falecimento e convida a participar das exéquias menciona “o falecido Blaise Pascal, que em vida foi escudeiro”,2 e se estende longamente sobre os títulos de seu pai, o “finado Senhor Étienne Pascal, conselheiro de Estado e presidente da Cour des Aides de Clermont-Ferrand”, e de seu cunhado Florin Périer. Esse “pobre Pascal, o jovem”, como dirá o memorialista Tallemant des Réaux, era mais objeto de piedade que de admiração. Morto aos trinta e nove anos, Pascal havia sido afastado por sua frágil saúde – e por seu interesse pelas matemáticas – de uma carreira de jurista na tradição de sua família. Sabia-se que ele havia escrito alguns textos matemáticos, mas que rapidamente havia deixado de publicá-los: Christian Huygens escreve a seu irmão Louis, em 31 de agosto de 1662 (Pascal havia morrido dia 19 de agosto): “estou muito pesaroso com a morte do incomparável Senhor Pascal, embora há muito ele já estivesse morto para a geometria”.3 Ele havia participado de experiências barométricas para provar a existência do vácuo, construiu uma máquina de calcular engenhosa, mas bastante cara e No original, écuyer, que corresponde ao latim scutarius, como consta do epitáfio de Pascal atribuído a Proust de Chambourg por J. Mesnard (PASCAL, 1964, v. I, p. 532). Não se sabe ao certo se os avós de Pascal eram nobres, mas é certo que Étienne Pascal, pai de Blaise, sendo presidente da Cour des Aides, havia sido alçado à nobreza (a rigor, à pequena nobreza), o que lhe permitia portar o título de cavaleiro, com o qual às vezes se qualificava, e fazer de seu filho um escudeiro. “Outrora, os jovens da mais alta qualidade possuíam apenas o título de escudeiro até que fossem feitos cavaleiros com as cerimônias que se praticavam em casos desse tipo” (Dicionário da Academia Francesa, 4. ed., 1762). (N.T.) 3 PASCAL, 1992, v. IV, p. 1540. 2
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pouco difundida. Seu fervor religioso era conhecido dos amigos mais próximos; o milagre do Santo Espinho, pelo qual sua pequena sobrinha havia sido curada, tocou-o a ponto de ter adotado como carimbo um olho rodeado de raios luminosos. Contudo, o Memorial, que guardava a memória da noite de fogo, permanecia desconhecido escondido no forro de seu gibão, deixando seus próximos na ignorância dessa experiência desconcertante e decisiva. Sua participação nas Cartas provinciais ainda era anônima; a existência dos Pensamentos e de opúsculos maiores, ignorada. Tudo isso explica porque Nicole pôde, quinze dias depois de sua morte, exprimir do seguinte modo a avaliação comum de seus amigos: “ele será pouco conhecido na posteridade, o que nos resta de obras dele não é capaz de fazer conhecer a vasta extensão de seu espírito”.4 É esse Pascal que a coletânea de opúsculos que o leitor tem em mãos permite conhecer, um Pascal desconhecido para a maior parte de seus contemporâneos e, entretanto, autor de escritos da maior importância em domínios variados: geometria, física, técnica, moral, política, espiritualidade, teologia cristã. Do ponto de vista cronológico, o primeiro texto, que acompanha a máquina aritmética oferecida ao chanceler Séguier, data de 1645: Pascal tinha vinte e dois anos. O texto mais tardio, o Escrito sobre a assinatura do formulário, é datado por Jean Mesnard do início do inverno europeu de 1661-1662: Pascal tinha trinta e nove anos e morreria durante o verão. Todavia, essa grande diversidade de temas abordados não deve fazer perder de vista a dupla unidade que nele se encontra: a de um método e a de um estilo, de uma escrita. Carta de 3 de setembro de 1662 ao “Senhor de Saint-Calais” (PASCAL, 1992, v. IV, p. 1541).
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PREFÁCIO: EM DIREÇÃO AO VERDADEIRO PASCAL
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Um método, primeiramente, é o que Jean Mesnard chama de universalidade.5 É sem dúvida um ponto comum no século XVII a busca de um método válido em todos os domínios. No entanto, soluções diferentes foram propostas para o mesmo problema: considerando-se apenas Descartes e Pascal, pode-se dizer que em Descartes há um triunfo da análise. Trata-se de decompor os conhecimentos para alcançar as verdades elementares, principia, que permitirão extrair, por dedução, todas as outras verdades. O método de Pascal também é completamente geométrico, mas se engaja num caminho diferente. Descartes quer descobrir, Pascal quer provar: “O método de não errar é buscado por todo mundo. Os lógicos fazem profissão de a ele conduzir, somente os geômetras chegam a ele e, fora de sua ciência e do que a imita, não há verdadeiras demonstrações”.6 O método geométrico consiste, primeiramente, em colocar princípios, depois em deles deduzir as consequências, os efeitos. Sua aplicação na matemática é óbvia, mas sua extensão a outros domínios precisa ser justificada, como nas ciências da natureza, nas quais a experiência desempenha um papel de primeira ordem, e sobre as quais Pascal escreve: “[as experiências] são os únicos princípios da física”.7 Como explicar essa aparente contradição? A experiência autoriza uma hipótese da qual ela aparecerá como uma consequência. Ainda como observa Jean Mesnard,8 a experiência se estende para bem além da ciência. Ela toca o domínio
MESNARD, J. Universalité de Pascal. In: MESNARD, J. (Ed.). Méthodes chez Pascal. Paris: PUF, 1979. p. 335-356. 6 Do espírito geométrico, p. 74 do presente livro. 7 Prefácio sobre o tratado do vácuo, p. 108 do presente livro. 8 MESNARD, J. Universalité de Pascal. In: MESNARD, J. (Ed.). Méthodes chez Pascal. Paris: PUF, 1979. p. 341. 5
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do religioso (no qual a revelação, nova forma de experiência, fornece o critério de verdade). Ela também serve para persuadir, como lembra o início da Carta ao Padre Noël: “deixai-me vos relatar uma regra universal que aplico em todos os assuntos particulares em que se trata de reconhecer a verdade”.9 A reunião dos textos que o leitor tem em mãos permite compreender essa unidade de método em domínios variados. A outra unidade é a do estilo – e, todavia, ainda aqui, os textos reunidos são de gêneros literários bem diferentes: tratados científicos, ref lexões morais, opúsculos espirituais, texto polêmico e até o gênero epistolar. O estilo de Pascal foi caracterizado com muita precisão por Marc Fumaroli10: trata-se da eloquência galicana e, mais precisamente, da eloquência da advocacia que Pascal havia aprendido de seu meio familiar. Isso não é fácil de verter numa tradução, mas a perícia de Flavio Fontenelle Loque com a língua francesa do século XVII lhe permite traduzir em português as mais difíceis expressões – e as mais características – do estilo pascaliano. Esse livro que o leitor tem em mãos é, portanto, mais do que uma simples tradução de textos – alguns inéditos – para o português: a escolha dos textos é determinante para complementar o conhecimento de Pascal para além de seus dois principais escritos; a qualidade do estilo restitui o que havia de original na escrita de Pascal. Dar a conhecer desse modo o “verdadeiro Pascal” constitui uma dupla conquista que convém saudar com respeito e simpatia.
Carta ao Padre Noël, p. 88-89 do presente livro. FUMAROLI, M. Pascal et la tradition rhétorique gallicane. In: MESNARD, J. (Ed.). Méthodes chez Pascal. Paris: PUF, 1979. p. 359-372.
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PREFÁCIO: EM DIREÇÃO AO VERDADEIRO PASCAL
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