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Desventuras (quase) românticas de um festival

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4 histórias sobre rebeldia, poder feminino e K-pop


Copyright © Babi Dewet, Érica Imenes, Lyu Guedes e Paloma Ortega, 2021

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

revisão final

Flavia Lago

Claudia Vilas Gomes

editora assistente

ilustrações e capa

Natália Chagas Máximo

Stephanie Kim

preparação de texto

diagramação

Sofia Soter

Christiane Morais de Oliveira

leitura sensível

Patricia Baik

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Desventuras (quase) românticas de um festival : 4 histórias sobre rebeldia, poder feminino e K-Pop / Babi Dewet ... [et al.]. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2021. Outras autoras : Érica Imenes, Lyu Guedes, Paloma Ortega. ISBN 978-65-86553-92-5 1. Contos brasileiros 2. Ficção brasileira I. Guedes, Lyu. II. Imenes, Érica. III. Ortega, Paloma. 21-75423

CDD-B869.3

Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Literatura brasileira B869.3 2. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoragutenberg.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

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Paloma Ortega

TODA A SORTE DO MUNDO 9

Érica Imenes

5 ESTRELAS 57

Lyu Guedes

ROLETA-RUSSA 111

Babi Dewet

PARA SEMPRE 177


TODA A SORTE DO MUNDO Paloma Ortega


DIZEM QUE QUEBRAR UM ESPELHO É UM MAU PRESSÁGIO. Enquanto encaro meu rosto fragmentado no reflexo, apoiada na pia do banheiro, tento barganhar com quaisquer que sejam as divindades desocupadas responsáveis por traçar o azar na vida das pessoas. Levando em conta que o espelho não se quebrou de fato, e só rachou um pouco quando eu acidentalmente o acertei com a escova de cabelo durante meu show particular – ninguém pode me culpar por usá-la como microfone depois do banho –, talvez elas tenham pena de mim. Eu realmente espero que tenham. Não quero ter que acordar no dia seguinte e descobrir que o show do The Screaks foi cancelado porque Tom Hurley, o vocalista da minha banda preferida de emocore, magicamente foi internado com pneumonia de uma hora para a outra. Não que eu acredite nesse lance de mau presságio. Não sou supersticiosa nem nada, sabe? Mas, às vezes, é preciso tomar algumas precauções. Da última vez que passei debaixo de uma escada e me aventurei a cortar a franja no mesmo dia, seguindo um tutorial no YouTube e fazendo justiça com as próprias mãos, o corte amador em V me transformou em algo entre um cosplay da Ravena, de Os Jovens Titãs, e uma versão não vampiresca da Mavis, de Hotel Transilvânia. Saio direto para a sala, o braço rígido ainda segurando a escova de cabelo, os fios pretos curtos pingando nos ombros e 9


uma expressão perturbada no rosto, como se tivesse acabado de sair da cena de um crime. Liz, minha melhor amiga, que divide o apartamento comigo, não parece minimamente abalada pelo barulho do espelho quebrado. Ela já ouviu coisas piores vindo de dentro do banheiro, considerando que eu costumo tomar banho ouvindo e cantarolando o rock pesado que ela tanto odeia. Banguela, nosso gato preto, está dormindo pacificamente em cima das pernas dela. Ele não é banguela de verdade, mas recebeu esse nome porque se parece com o dragão do filme Como treinar o seu dragão. Eu queria um nome mais sombrio e místico, como Drácula, Anúbis ou Salem, mas é claro que Liz não aceitou bem a ideia. Eu me aproximo dela, aponto a escova de cabelo na direção da porta e digo: – Eu quebrei o espelho do banheiro. Ela continua esparramada no sofá com o notebook no colo. Sua coluna está curvada em um ângulo duvidoso, desafiando as leis da física e o perigo iminente de uma escoliose lombar. – Não tem problema, Becca – diz, mas não me olha por mais do que um ou dois segundos antes de voltar a digitar furiosamente no teclado. – A gente compra outro depois. – Não, você não entendeu. Eu quebrei o espelho. É sinal de azar. De repente, ela interrompe o movimento dos dedos nervosos e inclina a cabeça. – Também dizem que cruzar com um animal na estrada é sinal de azar, mas encontrei com a Camila na rua ontem e nada de ruim aconteceu. Eu me sento no braço do sofá, bem na beirada, e começo a pentear o cabelo. – Não fala assim da sua namorada – a repreendo de brincadeira e me preparo mentalmente para as cinco palavras que vêm por aí. 10


– Ela não é minha namorada. – Fala sério. Já faz cinco meses que vocês estão ficando enquanto fingem que se odeiam. Tá na hora de cair na real e acordar dessa síndrome de Orgulho e Preconceito – aconselho. Quando a escova engancha em um nó do meu cabelo e a puxo de volta, sem querer a deixo cair no chão. O barulho assusta Banguela, que dá um triplo mortal carpado e sai correndo em direção à cozinha. – Você cruzou a cidade no aniversário dela só pra comprar aquele mangá que ela tanto queria – digo. – Fica difícil te defender assim, amiga. Liz dá de ombros. – Ela fica silenciosa e quase humanamente decente quando tá lendo, ué. Que culpa eu tenho? Eu tento de novo: – Você passou o Natal na casa da família dela. – Em minha defesa, a avó dela faz um ótimo pernil assado – retruca Liz. E, bom, eu não tenho argumentos contra isso. – Tudo bem, vou aceitar essa desculpa porque todo mundo ama pernil. Ela sorri, satisfeita, porque acabou de encerrar a discussão, e volta a olhar para a tela do notebook. Como fui deixada de lado, torço o meu cabelo molhado em cima da cabeça dela como forma de protesto. Ela nem se importa, como sempre, mas se remexe desconfortavelmente em suas calças de pijama coloridas. A estampa é listrada e tem as sete cores do arco-íris. Liz e eu somos extremos opostos. Quem vê o quarto dela, com as paredes pintadas de rosa-choque e pôsteres supercoloridos, jamais imaginaria que ela pudesse ser a melhor amiga de uma pessoa como eu, que dorme em um ambiente com paredes escuras, um único pôster preto e branco do The Screaks e luminárias gêmeas de caveira, uma de cada lado da cama. Quando ando com ela e Camila na rua, é difícil 11


não me sentir a Docinho no meio das outras duas Meninas Superpoderosas, só que com a personalidade da Lindinha. A única coisa que temos em comum – fora o apartamento e os boletos para pagar – é uma bolsinha preta que compramos juntas na 25 de Março. As pessoas costumam comprar colares bregas combinando ou pulseiras iguais para celebrar a amizade. Nós compramos uma bolsa de camelô com cheirinho de naftalina. Assisto de cima à Liz navegar por um site de K-pop. A mistura de rosa forte e azul faz a minha vista doer, e eu reconheço imediatamente o blog de nome esquisito do qual ela vive falando. – Becca, saca só – diz e aponta para a tela. – Ele postou uma matéria nova. – Quem? – pergunto, só por costume. – Kevin Hwang. O cara gatinho que escreve para o Ko Ko Blog. É claro que sei o que é o tal do Ko Ko Blog. Liz fala dessa fanpage pelo menos vinte horas por dia. Enquanto almoça, enquanto se troca para o trabalho, enquanto escova os dentes – o que normalmente soa como Beu Deus, essa batéria tá esbetacular! – e até mesmo enquanto dorme. O site é, nas palavras de Liz (e também do subtítulo), “o maior e melhor portal de notícias e informações sobre a cultura Hallyu”. Às vezes, ela lê o texto das postagens em voz alta para mim, e eu finjo que entendo metade das coisas, porque ela também finge que entende quando eu falo sobre My Chemical Romance e Good Charlotte. – Esse é o nome de blog mais cafona já criado na face da Terra – digo, também por costume. Liz deita a cabeça no espaço livre do braço do sofá e olha pra mim. Ela está franzindo a testa. – Sim, tenho certeza de que já ouvi você dizer isso das últimas 37 mil vezes, obrigada, mas vou repetir mais uma vez em respeito à nossa amizade. 12


Ela apoia uma mão sobre o peito, tocando sobre o coração, e me encara através dos óculos. Dramática, como sempre. – Você só acha ruim porque não entende o conceito – insiste. – É uma referência a uma música do EXO, meu grupo de K-pop favorito, caso você não tenha percebido pelos pôsteres enormes no meu quarto, e não é cafona. É bem inteligente, na verdade. – Sobre o que é a matéria? – Sobre o festival de K-pop que eu vou amanhã. Aparentemente o primeiro dia de shows foi um sucesso. Ah, o Kpopalooza. Liz estava esperando ansiosamente por ele, quase tanto quanto eu estou esperando o show do The Screaks. Para mim, foram nove meses de frio na barriga, de madrugadas ensaiando as letras e minutos ociosos no banho bolando um plano infalível para chamar a atenção dos meus ídolos preferidos. Eu tenho tudo planejado: vou levar um cartaz enorme com uma fan art de autoria própria, vestir uma cópia do figurino que eles usaram no videoclipe de seu primeiro álbum e balançar o sabre de luz chamativo que roubei do meu irmão mais novo na semana passada. (Valeu aí, Star Wars!) Bom, pelo menos enquanto a pilha durar. Tínhamos combinado de ir aos dois shows juntas, para aprender um pouquinho sobre o gosto uma da outra, mas os ingressos do festival se esgotaram em apenas alguns minutos. Ela conseguiu um ingresso para o segundo e último dia do evento, felizmente, depois de criar 26 contas de e-mail e colocar todos os seus colegas de trabalho – e eu, é claro – para ajudá-la na missão. A data calhou de cair no mesmo dia e em horário quase idêntico ao show do The Screaks, então apenas decidimos ir sozinhas desta vez. – Deixa eu adivinhar – falo, encarando-a com olhos semicerrados e levando alguns segundos de contemplação para efeito dramático. – Alguém tirou a camisa e fez os fãs 13


surtarem? Algum idol falou alguma coisa em português e todo mundo achou uma gracinha? Um dos meninos fez uma apresentação de dança solo que ninguém estava esperando? Liz sorri, satisfeita. – Claro que sim! Não é um show de K-pop de verdade se ninguém fizer pelo menos uma dessas coisas. Ela se levanta, animada, se ajeita no sofá e dá batidinhas no espaço vago ao seu lado. E, assim como eu já suspeitava, começa a narrar a matéria em voz alta: – Depois de uma longa espera dos fãs, o Kpopalooza... Eu não demoro a me aconchegar do lado dela, é claro, porque ouvir alguém falar com entusiasmo de algo de que gosta é uma das coisas mais bonitas do mundo. A escova de cabelo fica esquecida no chão e, de repente, eu me esqueço do espelho trincado no banheiro e de todas as divindades desocupadas do mau presságio. Porque, afinal, eu me planejei por nove meses para aquele dia. Aquele único dia. Fiz listas e pesquisas, criei planilhas, costurei minha própria roupa e decorei a letra de todas as músicas. O que poderia dar errado?

Depois de uma noite de insônia consumida pela ansiedade, de uma manhã resumida a cabelos em pé e de três xícaras de café puro, o grande dia finalmente chega. Ainda de manhã, enquanto assisto à TV, vejo que uma matéria sobre o Kpopalooza está passando no noticiário. Os shows começaram às 10 horas da manhã e o último termina às 9 horas da noite. Liz deve ter acabado de sair para o trabalho, porque sua caneca de achocolatado abandonada pela metade ainda está quente na mesa de centro. Ela vai perder metade dos shows do dia, porque, aparentemente, eles estão 14


trabalhando em um projeto enorme na agência publicitária onde ela faz estágio, e Liz faz parte da porcentagem azarada da população que trabalha aos domingos. Hoje o dia parece... diferente. Até Banguela parece ter percebido que algo está fora de lugar. Com a correria mais intensa do que o normal, ele acabou se escondendo debaixo da cama de Liz quando me viu tropeçar para fora do quarto, toda descabelada, com a franja em V parecendo um ninho de mafagafos e carregando um cartaz de quase dois metros quadrados. Sinceramente, não posso culpá-lo. Nem todo mundo pode dar de cara com minha obra-prima do Tom Hurley fantasiado de vampiro e fingir que não se sentiu impressionado. As horas se arrastam como zumbis. Mas como os preguiçosos zumbis em putrefação dos filmes dos anos 1990. Hoje em dia eles correm, porque ter mortos-vivos andando lentamente para comer suas vísceras já não parece aterrorizante o bastante. Quem dera o dia tivesse passado assim, rápido e voraz, mas a verdade é que já fui ao banheiro cinco vezes na última hora. Felizmente, depois do quinto ou sexto xixi da bexiga ansiosa, o horário de pegar o ônibus até o metrô enfim chega. Antes de sair, pego minha bolsa preta sobre a mesa e a atravesso no corpo. Sei que é a minha porque Liz pendurou um chaveiro de lhama felpudo e cor-de-rosa na dela. No fundo, sei que foi só para me manter longe de pegar dinheiro emprestado de sua carteira, mas a tentativa foi, segundo comprovei mais tarde, como pendurar uma corrente de dentes de alho para afastar vampiros – totalmente ineficaz. De pé no vagão lotado do metrô, todo mundo me olha como se eu fosse uma aberração. Talvez sejam os tênis All Star com o quadriculado feito à caneta, o batom escuro ou o delineado preto ao redor dos olhos. Talvez seja o cartaz enrolado como um pergaminho gigante debaixo do meu braço 15


direito. Ou aquela única mecha pink no cabelo escuro, que Liz me obrigou a tingir depois que perdi uma aposta. Uma senhora faz o sinal da cruz com o terço da sua correntinha quando vê a capinha do meu celular. Ela é roxa, com teias de aranha e pequenos crânios que lembram muito o protagonista de O estranho mundo de Jack. A coisa mais bonitinha do mundo. Com um suspiro, eu abro o zíper da bolsa preta e coloco o celular lá dentro. Meus minicrânios não merecem isso. Mas, então, sinto dentes pontiagudos cutucarem minha mão. Quando olho para baixo, percebo que é a escova de cabelo da Liz. Que estranho. Por que estaria aqui? Encontro também seu estojo de maquiagem, o colírio, a caixinha vazia dos óculos e... o ingresso do show. Estou confusa. Tão confusa que, em um primeiro momento, penso na probabilidade insana de objetos conseguirem se teletransportar entre bolsas idênticas de camelô. Pego o voucher na mão, aproximo do rosto e olho, olho, olho, olho. É o ingresso de um show. Não há dúvidas quanto a isso. Exceto por um detalhe: não é o meu ingresso. Pânico se apodera de mim, e eu preciso me segurar na barra do metrô para não perder o equilíbrio. Procuro cegamente pela barra, mas não encontro, então estico a mão até a alça na parte de cima. Eu seguro em alguma coisa, provavelmente a alça. É mais quente e macia do que deveria ser, mas eu não tenho tempo para me preocupar com isso. Meu celular começa a tocar. Eu o alcanço com a mão livre. – Becca? Eu acabei de chegar em casa e... – soa a voz dela do outro lado da linha, trêmula e incerta. – Por acaso... assim, só por acaso mesmo, você já deu uma olhadinha na sua bolsa? – Liz, por favor, diz que isso é uma piada. 16


Um suspiro alto ressoa no meu ouvido. – Quem dera fosse, amiga – confessa, e quase posso vê-la andando em círculos ao redor da nossa mesinha da sala. Liz sempre dá voltas e voltas quando está ao telefone. Principalmente quando há problemas envolvidos. – Por que você tá com a minha bolsa? – É a minha bolsa. A sua bolsa tem aquele treco felpudo pendurado. – Ah – solta. A linha fica muda por alguns segundos. – Ah? – Eu tirei a Kátia da bolsa. Fiquei com medo de perder no festival. A lhama tem um nome. Kátia, a lhama. Que ótimo. – Nós temos que trocar – digo. – Onde você tá? – Rebecca, me escuta. Não dá tempo de trocar. O próximo ônibus da estação pra cá só passa daqui a duas horas. E, mesmo que você pegue um táxi, o engarrafamento deve estar uma loucura a esta hora – explica pausadamente, como se eu fosse uma criança do primário e ela, minha professora de português. – Lembra quando você disse que estava disposta a ir a um show de K-pop comigo pra tentar entender os meus gostos? E eu disse que iria a um show do The Screaks pra entender o seu? Esse é o momento perfeito pra gente colocar isso em prática. – Você tá maluca. Completamente maluca. – Não podemos desperdiçar o dinheiro dos ingressos – tenta de novo. Eu respiro fundo e tento não pensar no quanto sou azarada. Meus olhos estão começando a lacrimejar. As luzes dentro do metrô estão ficando embaçadas, então pisco várias vezes para recuperar o foco. Não posso chorar. Não vai ser nada legal se minha maquiagem começar a escorrer. A 17


senhorinha com o terço talvez saia correndo ou me recomende um bom exorcista. – É claro que eu lembro o que a gente combinou. Eu falei sério quando disse estar disposta a ir a um show de K-pop, mas a intenção era ir com você. Não vai ser especial se não formos juntas – murmuro e, a esta altura, estou quase choramingando, porque sei que não tem mais volta. – Eu esperei esse show por nove meses. Nove meses, Liz. É uma gestação. – Eu sei... – E eu não conheço nenhum daqueles artistas. The Screaks e o K-pop são como eu e Liz, de mundos totalmente diferentes. A única coisa que eles têm em comum são as calças coladas. – Eu sei – repete Liz. – Como você acha que eu estou me sentindo? Esperei tanto quanto você, e esse festival era, tipo, tudo que eu sempre sonhei. Mas se for você no meu lugar... Se for você, Becca, então eu não ficaria tão chateada. – Eu não sei as letras... – murmuro, já meio convencida. Para ser sincera, não sei se tenho outra saída. – O Ko Ko Blog fez um post há três meses com todas as informações do festival. Tem até as possíveis músicas que vão tocar no evento. Eles colocaram letra, tradução e tudo lá. Entra na fanpage pra dar uma olhada. Talvez dê tempo de aprender uma ou outra coisinha. – Ai, meu Deus. Se eu ouvir o nome Ko Ko Blog de novo acho que vou vomitar – brinco, e Liz ri do outro lado da linha. – Claro... É claro que o blog de nome ruim fez algo do tipo. – Eles são ótimos, tá? – Eles são péssimos. Todos eles, principalmente o tal cara gatinho que traduz as entrevistas. É uma mentira, claro, e eu nem sei por que estou dizendo isso, mas ocupar minha mente com alguma coisa é o melhor caminho para não pensar nos problemas. 18


– “Seis dramas coreanos para você maratonar enquanto almoça”? – insisto. – Sério mesmo? Essas séries não têm, sei lá, dezesseis episódios de uma hora? Quem almoça por dezesseis horas? Consigo ouvir Liz escondendo o riso ao telefone. Em vez de elogiar meu ótimo senso de humor, porém, ela apenas sopra uma risada curta e depois diz: – Tá, boa sorte com isso. Eu vou pegar o ônibus agora. Tenho uma banda de homens góticos com cabelo lambido e bandanas para assistir. – Era para eu estar vendo os homens góticos com cabelo lambido e bandanas! – Eu também te amo, Becca! Ela desliga. Eu aperto a alça do metrô com um pouquinho mais de força, descontando ali minha frustração, e alguém força uma tosse. Quando olho para o lado, vejo que, na verdade, estou segurando a alça da mochila de um cara. O rapaz tem uma linda pele acobreada-clara, com um cabelo escuro meio bagunçado e uma franja que cai de um jeito bonitinho na testa. E parece, por algum motivo curioso, muito familiar. – Desculpa – digo e afasto a mão como se ela estivesse queimando. Ele balança a cabeça, devagar, como se dissesse: “Sem problemas”. – Foi mal – responde, enfim. – Eu não disse nada porque você parecia bem concentrada aí. Por instinto, e também por vergonha (principalmente por vergonha), eu me afasto sutilmente. Bom, tão sutilmente quanto possível em um vagão lotado, pelo menos. Mais um passo e eu poderia acabar com a cara bem no meio dos peitões da senhorinha religiosa ou invadindo o espaço pessoal de um grupinho de adolescentes. Ou, ainda, com a maleta de algum funcionário administrativo cutucando as minhas pernas. 19


O metrô desacelera gradativamente até parar na próxima estação. É aqui onde eu deveria descer, antes de descobrir que meus sonhos foram destruídos, mas agora preciso esperar mais duas estações para pegar a linha amarela. Ainda me sinto devastada, exatamente como aquele meme diz. “Chocha, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente.” No entanto, depois que as portas se abrem, metade das pessoas sai, e o vagão esvazia. Respiro aliviada quando sobra mais espaço para mexer as pernas. O que também significa que tenho mais espaço livre para segurar o cartaz. Com terror internalizado, percebo que o papel está amassado na ponta. Não que ele seja de alguma utilidade agora. A menos que artistas do K-pop também gostem de ver o Tom Hurley com uma longa capa preta, colete vermelho, presas afiadas e a boca ensanguentada. Provavelmente, não. As portas se fecham outra vez, e olho de soslaio para ver se o rapaz ainda está ali. Vejo a silhueta da mochila com o canto dos olhos e percebo que, sim, infelizmente, ele está. Nossos olhares se cruzam, apenas por um segundo, e eu resmungo internamente. Por que preciso ser tão distraída? Para piorar, agora ele está sorrindo com o cantinho dos lábios. – Sabe – diz ele, de repente –, eu levei seis horas para escrever aquela postagem. – O quê? Pisco para ele. Uma fumaça imaginária se desprende dos meus ouvidos enquanto as engrenagens na minha mente giram, giram e giram. E, então, como um sopro camarada, eu percebo de onde o conheço. A boca de lábios cheinhos, os olhos brilhantes e o maxilar bonito. Aquelas sobrancelhas arqueadas e expressivas... Desço o olhar um pouco, desviando de seu rosto até a gola da 20


camiseta. Uma tatuagem tribal sobe pela clavícula e termina na lateral do seu pescoço. Eu já vi uma foto sua antes. Na internet. Mais especificamente, ao final de algumas matérias de uma tal fanpage muito famosa. Ko Ko Blog. – Ah... – solto, baixinho, e encaro meu reflexo nas janelas escuras. Eu pareço aterrorizada. E constrangida. E patética. Patética, Rebecca. Você é patética. Como não consigo articular mais do que isso, apenas seguro o cartaz mais perto do corpo, endireito as costas e caminho para a saída mais próxima. Os segundos parecem séculos enquanto espero que o metrô pare e as portas se abram. Quando acho que vou finalmente me livrar do constrangimento, o rapaz alto aparece como um fantasma no reflexo do vidro, de pé atrás de mim. Desço na estação seguinte. E ele, ainda com um sorrisinho travesso no rosto, passa por mim a caminho da escada rolante. Este dia não pode ficar pior.

Tem algo de curioso nas superstições. O simples ato de passar sob uma escada se transformou em sinônimo de azar por causa de alguns malucos do Egito Antigo. Quando encostada a uma parede, a escada forma um triângulo, figura que era considerada sagrada pelos egípcios. A Igreja Católica também se meteu no meio desse rolê. O triângulo, para os católicos, simboliza a Santíssima Trindade, então atravessá-lo seria uma ameaça direta ao equilíbrio entre Pai, Filho e Espírito Santo – e também à trindade dos deuses egípcios. 21


Se quebrar um espelho realmente dá sete anos de azar, como acreditavam os romanos, não vou me livrar dessa má sorte tão cedo. Sentada no metrô da linha amarela, decido pegar o celular para matar o tempo até a próxima parada, e o resultado é uma pesquisa bastante duvidosa e bem previsível sobre “sete maneiras de atrair boa sorte e dizer adeus ao azar”. Repasso a lista mentalmente, porque ainda tenho algum tempo. 1. Tenha um trevo de quatro folhas. Difícil, mas não impossível. A pergunta é: o que faço depois que ele murchar e morrer? Continuo recebendo a boa sorte? É algo a se pensar. 2. Sal grosso. Acessível. Dá para surrupiar um pouquinho do churrasco em família no domingo. Bônus: comer um pãozinho com linguiça, farofa e o vinagrete da tia Frida. 3. Queimar incenso. Misterioso, místico e cheiroso. É uma boa opção, e posso aproveitar para atrair dinheiro também. 4. Deixar as janelas abertas para o sol. O nível de dificuldade me preocupa. Moro em um prédio alto de uma região metropolitana. Não tem sol. 5. Ferradura atrás da porta. Acessível, se você morar na fazenda. Ou tiver um cavalo. Esse me deixa estranhamente pensativa e nostálgica. É como ter 11 anos de novo e assistir ao programa Art Attack na TV. Quase ouço a voz do apresentador. “Você vai precisar de materiais que você encontra em casa, como: papel, tesoura sem ponta, tinta guache, cartolina, cola branca e, pra finalizar... uma ferradura de cavalo!” 22


6. Deixar sua casa arrumada. Vamos desconsiderar essa. De todas as dicas, com certeza é a mais difícil. 7. Usar cristais. Nada que uma viagenzinha para a Terra Média não resolva, né? Quando uma voz feminina irrompe, anunciando a próxima estação, eu me preparo para sair. – Next station... – digo baixinho, tentando acompanhar a voz. Acho superchique metrô com anúncio bilíngue. Do lado de fora, as pessoas se espremem ao lado das portas, seguindo escada acima como uma manada de bois ansiosos. Lá em cima, mais à frente, vejo um grupo de cinco garotas um pouco mais novas que eu. Não é preciso ser um gênio para adivinhar que elas também estão indo para o festival. As meninas vestem camisetas iguais, com o logo de algum grupo de K-pop que eu obviamente não reconheço e carregam bastões que mais parecem o cetro branco e dourado de alguém da realeza. Respiro fundo, reúno coragem e enfio meu cartaz na primeira lixeira que aparece pela frente. E, então, sigo atrás delas.

Se carregar um cartaz gigante no metrô já parece ruim, espere até ver quatro garotas carregando uma barraca de acampamento aberta no meio da rua. Liz me contou sobre isso, e os canais de notícias também não param de tocar no assunto. Pessoas dormiram na fila durante semanas para entrar no local dos shows primeiro. O segurança careca 23


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