Skip to main content

Deste Lado Do Rio - O sonho da família Crespi

Page 1


DESTE LADO DO RIO

O sonho da família Crespi

ALESSANDRA SELMI

DESTE LADO DO RIO

O sonho da família Crespi

Tradução de Karina Jannini

Copyright © 2022 Casa Editrice Nord s.u.r.l.

Gruppo editoriale Mauri Spagnol

Publicado em acordo com Lorem Ipsum, Agenzia Editoriale Milano

Título original: Al di qua del fiume – Il sogno della famiglia Crespi

Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial

Arnaud Vin

editor responsável Eduardo Soares

preparação de texto Sonia Junqueira

revisão de texto Eduardo Soares

capa

Diogo Droschi (sobre tela de Carl Frithjof Smith, Dopo la Prima Comunione, 1892)

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Selmi, Alessandra

Deste lado do rio : o sonho da família Crespi / Alessandra Selmi ; tradução Karina Jannini. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2026.

Título original: Al di qua del fiume

ISBN 978-65-6002-138-9

1. Romance italiano I. Título.

25-322535.0

Índices para catálogo sistemático:

1. Romances : Literatura italiana 853

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

CDD-853

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

São Paulo

Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 São Paulo . SP

Tel.: (55 11) 3034 4468

www.editoravestigio.com.br

SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

Às minhas raízes dolorosas e ao exuberante jardim que elas geraram.

“Deem-nos dinheiro e nos deixem brincar.”

Peter Medawar, Prêmio Nobel de Medicina

PRIMEIRA PARTE

Boltiere, Bérgamo, janeiro de 1877

Os sinos da igreja dão sete badaladas, o som chega abafado pelas janelas fechadas. Carlo abre os olhos e sente os de Amalia, que o observam na escuridão. Há quanto tempo ela estará assim?

Do outro lado da copa que separa o quarto do restante da família, chega um acesso de tosse, depois um rangido de madeira e, logo em seguida, um breve rumor de passos. Todos já estão acordados. Apenas Emilia, na pequena cama encostada à parede, ao lado da deles, ainda dorme, emitindo um leve assobio.

No vidro fino da janela, o inverno desenhou flores de gelo. Amalia estica a mão para fora da colcha e estremece; depois, afaga o marido, lentamente. É seu bom-dia silencioso, o instante de intimidade dos dois antes que a casa ganhe vida novamente. Apoia o indicador nos lábios dele, e ele beija a palma da mão dela.

Tia Maria está mexendo na estufa, que, como sempre, não quer se acender. O perfume de madeira úmida e de fumaça se espalha no ar. Do outro lado da cortina que divide os ambientes, flutua a sombra de Renato, pai de Amalia. Ele abre a porta, comenta o frio com uma blasfêmia e sai para esvaziar a bexiga e ordenhar a vaca. De fora chega um mugido: Teresina o reconheceu. Dali a pouco, as irmãs de Amalia vão se levantar e encontrar leite quente, no qual amolecerão um pedaço da polenta que sobrou do dia anterior.

Carlo puxa para si o corpo miúdo da mulher, que se vira e se encolhe em seus braços. Ele a aperta com força e sente uma emoção indecifrável abrir caminho em seu coração. É um dia importante, embora não saiba por quê.

Faz oito anos que não vê o patrão. Deve ter envelhecido, pensa Carlo, embora os ricos envelheçam melhor. Tinham se despedido com um nó na

garganta; o patrão estava com os olhos vermelhos de choro, tinha prometido a ele que voltaria, mas, depois, desaparecera, e, no dia anterior, quando recebeu a mensagem, Carlo nem a esperava mais.

Meu bom amigo, se até agora você não recebeu notícias minhas é porque o andamento dos meus negócios não me permitiu escrever-lhe antes. Nossa separação foi longa e dolorosa, e a esperança de que ela termine em breve me consome.

Esta carta é para lhe dizer que, se Deus quiser, amanhã, às 11 horas, estarei no Fosso Bergamasco* com importantes novidades que envolvem sua pessoa. Portanto, mantenho a palavra que lhe dei e ficarei grato se puder fazer a gentileza de não se atrasar para nosso encontro.

Enquanto aguardo o momento feliz de voltar a abraçá-lo, fique com um forte aperto de mão do seu amigo

B. Crespi

P. S. Espero que você, sua esposa e sua filha estejam bem e com saúde.

Foi Emilia quem leu a carta para ele, lenta, mas segura de si, orgulhosa de poder mostrar ao pai o que havia aprendido. Também sabe fazer conta. Nesse verão, depois da escola, vai começar a trabalhar. Um primo dos Vitali, que tinge peças de tecido para um atacadista de Trezzo, prometeu a Carlo que a empregará.

Quando Amalia explicou a Emilia que, por ter nove anos, ela já é grande e que os grandes precisam trabalhar, os olhos da menina se encheram de água, mas ela não chorou: permaneceu imóvel, prendendo a respiração e fitando as costas da mãe, que voltava para sua lida na cozinha, como se nada mais houvesse a acrescentar. E, de fato, não havia.

Para sua única filha, por tanto tempo desejada, Carlo sonhava um destino diferente. Claro, Emilia tem sorte: quatro anos de escola são bem mais do que seus pais tiveram, ou seja, nada. Mas a menina tem uma inteligência

* Canal artificial na planície bergamasca que liga o rio Adda ao rio Serio e este ao rio Oglio. [N.T.]

vivaz, é curiosa, gosta de estudar: se pudesse continuar na escola, talvez fizesse algo melhor do que se matar de trabalhar mergulhando peças de tecido em tinas por toda a vida.

Uma mão invisível aperta as vísceras de Carlo; ele é tomado por uma felicidade inexplicável e não consegue conter um sorriso. Talvez seja uma premonição, ou apenas uma esperança. Não sabe o que o patrão quer dele – a mensagem não diz –, mas Cristoforo voltou. Manteve a promessa.

O corpo quente de Amalia adere perfeitamente ao seu, poderiam até ser uma única criatura. Com a mão, ele percorre a coxa dela, procurando o ponto no qual a camisola termina e começa a pele.

No cômodo ao lado, tia Maria ainda mexe na estufa, agora sem se preocupar em não fazer barulho. Na linguagem muda da família, isso significa que está na hora de se levantarem, embora ainda não ouse entrar no quarto para tirá-los da cama.

Amalia se agita um pouco, detém a mão de Carlo, que sobe por sua coxa nua e se encaminha para a altura do estômago. Experimenta aquelas cócegas que bem conhece, prelúdio do pecado, e, de repente, deixa de sentir frio; aliás, gostaria até de afastar as cobertas.

Na copa, tia Maria deixa cair uma panela. Significa que realmente já passou da hora. Dali a pouco, deixará o pudor de lado e entrará no quarto para abrir as janelas.

Carlo pensa que talvez ainda dê tempo de sentir o corpo de sua mulher se contrair de prazer junto ao seu. Mas algo se quebra de repente.

Amalia se retrai bruscamente e, irritada, afasta a mão dele; depois, vira-se para observá-lo, com reprovação. Na penumbra, Carlo não pode vê-la, mas sabe que está apertando os lábios até fazê-los desaparecer, atormentada entre a vergonha por ter arriscado ceder ao prazer e o ódio por ele, que teria lhe dado esse prazer de bom grado.

Como todas as criaturas frágeis, Amalia sabe ser muito forte, sobretudo quando deve punir a si mesma. Levanta-se bruscamente, abre as janelas, sem se preocupar em fechar os vidros; depois, permanece alguns instantes imóvel, sentindo o frio que penetra na sola dos pés, subindo do chão até paralisar suas pernas. Mantém os olhos fixos em um grande crucifixo pendurado em cima da cômoda.

Na pequena cama ao lado, Emilia se agita debaixo das cobertas; o frio deve tê-la despertado. Amalia é sacudida por uma espécie de soluço, que faz todo o seu corpo vibrar, como se voltasse a si após um pesadelo e se encontrasse ali, em pé, diante da janela aberta que dá para o pátio.

Carlo consegue perceber a perturbação dela, levanta-se da cama e vai abraçá-la, mas ela se desvincula e, cabisbaixa, corre para a copa.

– O que você está fazendo descalça? – repreende tia Maria.

Nesse instante, entra Renato. As irmãs de Amalia já estão brigando para saber quem usará o chapéu, pois há apenas um, e deve ser revezado.

Carlo fecha a janela, senta-se na cama de Emilia, cobre-a e lhe faz um longo carinho.

– Durma mais um pouco – diz. – Ainda é cedo.

Espera que ela adormeça de novo, depois, pega a roupa de domingo, embora não seja domingo. O compromisso é às 11, mas decide sair imediatamente, sem comer nada. Despede-se da família com um aceno de cabeça, inclina-se sobre Amalia e beija sua face.

Ela o agarra pelo casaco, como se estivesse agarrando a própria vida. Não vá, não me deixe!, implora com o olhar. Ele lhe sorri. Apesar de tudo, acha-a muito bonita, sobretudo nesse momento, em que seus cabelos pretos estão soltos sobre os ombros, e as faces, inflamadas de vergonha.

Só que o patrão o convocou, e Carlo sente que, dessa vez, vai dar certo. Não sabe por quê, nem o quê, nem como, mas, quando sai, sente-se feliz. Da porta, Amalia o vê desaparecer em meio à neblina; depois, ouve-o assobiar ao longe.

A escada de serviço é estreita e íngreme; os degraus, consumidos por milhares de passos, rangem sob o peso de Fredo, que se apoia na parede para não cair. A portinha se abre com um lamento para o pequeno pátio interno, úmido e sombreado. O rapaz estremece, olha para cima, na direção das janelas que conhece bem, esperando ver uma sombra ou, pelo menos, uma cortina sendo movida, indício de uma presença, de um aceno, a esperança de uma mudança de opinião. Nada.

Fredo imagina o vaivém de empregados, o mordomo com a bandeja do café da manhã, a ajudante de cozinha com o balde de carvão, a cozinheira mergulhando o dedo no molho. A vida continua como antes lá em cima, mas sem ele.

Encolhe-se no sobretudo e parte de cabeça baixa, com os punhos cerrados nos bolsos e os dentes apertados para conter o choro.

Milão

Esse deveria ser um dia especial, o dia em que daria adeus à vida de antes e passaria para o outro lado. Parecia o momento oportuno: tudo estava no lugar certo, como se o destino tivesse preparado tudo para tornar a passagem fluida. Fredo tinha encontrado o terreno ideal, convencido os vendedores, negociado o preço, azeitado as dobradiças da máquina burocrática. O patrão não poderia jogar na sua cara que não tinha feito seu dever, que o estava abandonando na metade da obra. Não, senhor, estava tudo perfeito, tudo planejado com a máxima precisão, como sempre.

Desceria a escada da casa do patrão com passos leves, enfrentaria a cidade de cabeça erguida, subiria na carruagem com um belo salto e, no momento oportuno, olharia bem para a cara do patrão e diria a ele que estava tudo acabado, que procurasse outro secretário porque ele, Alfredo Malberti, estava com os bolsos cheios.

Era para ser assim.

Fora do palacete, a neblina é densa como nata, não há ninguém na rua, não se enxerga nada a um palmo diante do nariz. Fredo vira à esquerda, atravessa uma pequena ponte, depois segue em frente, caminhando rente aos muros. Conhece o caminho de cor. Um pouco mais adiante, o canal se abre em uma lagoa escura, tão profunda que, de vez em quando, um bêbado cai nela e não é mais encontrado.

A igreja de São Marcos bate oito badaladas. Fredo ouve a vibração dos sinos até nos ossos, enquanto um pensamento se amplia como um buraco em seu coração. A que distância estará a água?

Dá um passo, depois outro, prendendo a respiração. No dia anterior, ele estava no teatro La Scala, em uma galeria, apreciando a ópera. Era uma pessoa feliz, com um futuro radiante pela frente, bem-estar, entretenimento, amor; ou, pelo menos, era o que acreditava.

Deixa escapar uma risada amarga. Mal se passaram doze horas, e seu mundo virou do avesso: tudo o que tem pela frente nesse momento é um cais e nenhuma perspectiva melhor que a morte. Dá outro passo.

Alguém sentiria sua falta? Chegariam a procurar por ele?

Fredo torna a pensar em seu grande amor, naquilo que parece ser nesse instante: uma ilusão, um divertimento que o fez dar as costas para todo o restante. A humilhação arde com tanta força que corta sua respiração.

O pensamento volta para sua família, para aqueles que acreditaram nele, que por ele se sacrificaram e que ele traiu, para a casa de colono em Trezzo sull’Adda, não distante do rio que alimenta os canais à sua frente.

Se cedesse ao chamado do fim, se se deixasse cair na água, seria um pouco como voltar para casa ou nunca ter ido embora.

Mais um passo, talvez dois, e seu pé encontrará apenas o vazio. Ele cairá como uma pedra. Encharcadas, suas roupas o puxarão como um ímã para o fundo, tornando-se seu caixão. Alguns instantes de desespero, depois, nada: um minuto, o mais longo de sua existência, o último.

Fredo cerra os dentes e avança mais um pouco. De resto, esse é o único fim que está disposto a aceitar. Como poderá voltar para a vida de antes?

Antes da ópera e dos palcos do La Scala, dos jantares tarde da noite e das comidas exóticas, das roupas luxuosas, das carruagens cobertas, dos serviçais. Nem se lembra de como era antes de tudo isso.

Ou melhor, lembra-se, sim. E como se lembra.

Os poucos meses de liberdade não foram suficientes para apagar a lembrança.

A vida de antes era feita de mentira, de vergonha e de rejeição. Um esforço enorme para fingir e até mesmo provar que era diferente: Fredo não queria mentir para as pessoas que amava, só que não podia decepcioná-las com a verdade. Não pode dizer que não tentou, mas, bem lá no fundo, sempre soube que fracassaria. A vida de antes era apenas uma encenação patética, um roteiro escrito por alguém que não era ele e que mergulhou a caneta no tinteiro do medo, da desconfiança e do desgosto.

Poderá voltar a essa vida? Fredo balança negativamente a cabeça e dá outro passo.

Em seguida, tudo acontece em um instante. Alguém chega, caminhando a passos rápidos, e certamente não imagina que vai esbarrar em um jovem de coração partido que quer acabar com a própria vida. Os dois batem crânio contra crânio, e a dor sentida por Fredo é tão concreta que quase lhe faz bem. O desconhecido xinga, empurra-o, levanta-se e vai embora deixando um rastro de insultos.

Deitado no asfalto úmido, Fredo estica a mão para tatear ao redor de si: pouco depois do cais há o vazio e, mais abaixo, a água. Faltou pouco para realmente ser o fim de tudo.

Um líquido quente e viscoso escorre de seu nariz, e Fredo sente na boca um sabor de ferro que lhe lembra a vida. Enquanto tenta estancar o sangue com a manga da camisa, pensa no pai, com seu pescoço de touro encaixado entre os ombros largos, a pele rosada e a testa curta. Nas últimas palavras que trocaram. Quer bem a ele, só nesse momento percebe isso, embora nunca tenham se entendido.

De repente, a ideia de morrer lhe parece ridícula. Aliás, enche-o de terror. Teria mesmo feito isso? Dá-se conta de estar agarrado a essa coisa dolorosa que é a vida, de não estar pronto para jogar tudo fora, de ainda ter pequenas e mesquinhas esperanças em relação ao futuro.

Respira fundo. O patrão o está esperando na estrada para Bérgamo; há semanas não faz outra coisa a não ser lhe repetir o quanto essa oportunidade é importante, que talvez seja a última que a vida lhe oferece, e logo começa sua ladainha de velho falido.

Nesse dia, Fredo não poderá pedir as contas, mas ainda está vivo.

3

Brembate, Bérgamo

A pensão fica à esquerda, logo depois da ponte. Tem uma placa pintada de verde, já enferrujada e toda descascada, impossível de perceber em meio à neblina. Todos conhecem a Pensão do Brembo: é a única da região, e, para quem precisar ir de Boltiere a Capriate ou vice-versa, esse é o único ponto em que poderá atravessar o rio sem precisar passar por suas partes mais rasas. Ali, os Doneda fizeram fortuna com a história da velha ponte, desde que o território era da República Vêneta e a família servia, indiferentemente, a policiais e a contrabandistas.

Há alguns anos, Cesare não aparece mais na cozinha. No verão, fica na soleira da porta do estabelecimento, sentado na cadeira de palha, examinando as pessoas que entram e saem, e no inverno, como agora, não desgruda os pés da estufa. Deixou a gestão do local para a filha Margherita e o marido dela, Luigi, verdadeiro motor do negócio. É ele quem acorda antes de todo mundo e arruma tudo, reorganiza, limpa, empilha, põe as mesas, serve, tira as mesas, faz as contas e a lista de compras, encomenda os produtos e, às vezes, até cozinha. Pensando bem, deveriam chamá-la de “Pensão do Agazzi”, mas Doneda não quer saber: pode até não dar o ar da graça, mas a pensão ainda é sua, e o dinheiro também é seu. Não se cansa de repetir ao genro que tudo aquilo ali lhe pertence, e Agazzi não dá um pio.

Carlo Vitali entra e permanece por um instante na soleira, tentando tirar a umidade do corpo. O local está vazio. Agazzi pôs as cadeiras em cima das mesas e varre o chão, de cabeça baixa. Está adiantado, essa manhã. Do gancho da lareira pende o caldeirão de cobre, onde a polenta cozinha, borbulhando, enquanto a lenha assobia e estala. Da cozinha chega um aroma de sopa.

Carlo dá um passo à frente, e somente então Agazzi o percebe. O que esse aí está querendo?, pensa. Dali a pouco tem um compromisso importante; só lhe falta um cliente para fazê-lo perder tempo. Cumprimenta-o com um aceno de cabeça e faz sinal para se sentar.

Carlo escolhe um lugar perto da lareira. Andou muito pelos campos, onde a colheita dorme sob a neve. Estava tomado por uma energia quase dolorosa, suas pernas pareciam não querer parar mais. Quando chegou à pensão, por pouco não colidiu com ela, perdido que estava em pensamentos. Não sabe por quanto tempo vagou assim, mas nesse momento está cansado e se deixa cair na cadeira.

O gerente da pensão se materializa à sua frente. Carlo não come desde a noite anterior, e o aroma de cebola refogada desperta repentinamente seu apetite. Então aponta para a cozinha.

– Tem sopa de legumes – explica Agazzi.

Quando é ele quem a prepara, também coloca pele de porco. Certa vez, o velho Cesare percebeu e ficou furioso. Disse que a pensão não é lugar para senhores: desde que comam, as pessoas nem notam a diferença. Notam, sim, e como!, pensa Agazzi. Com a pele de porco é outra história. Se lembra ao sogro que os clientes satisfeitos voltarão mais vezes, este ri na sua cara.

– Ora, vejam só! Chegou ontem ao meu estabelecimento e quer me ensinar o meu ofício! Logo a mim, que construí um império, e sem pele de porco!

O velho sempre repete que construiu um império, mas Agazzi não acha que é grande coisa. Claro, os Doneda têm um restaurante e estão melhor que muitos lavradores que se matam de trabalhar nos campos para depois morrer de fome se a colheita vai mal, mas seu patrimônio não passa de uma velha pensão depois da ponte, na qual não se investe nem uma lira sequer se não for absolutamente indispensável, onde sempre servem as mesmas coisas e o vinho é batizado. Se a pensão fosse sua, a primeira coisa que Agazzi faria seria refazer a placa, pois já de fora dá para perceber se o lugar é respeitável ou não.

– Vai querer a sopa? – pergunta a Carlo. – Fiz com pele de porco. Carlo faz que sim com a cabeça. Não tem muito dinheiro, mas quer estar forte para o encontro com o patrão.

– E um copo de vinho, por favor.

Agazzi se vira rapidamente e vai para a cozinha. Sua mulher, Margherita, está trabalhando junto ao fogão.

– Chegou um cliente que quer sopa – diz a ela.

Ela levanta os olhos do caldeirão.

– Sopa? A essa hora? – pergunta, incrédula.

O marido dá de ombros. O boato de que ele põe pele de porco na sopa deve ter se espalhado.

– Pode cuidar disso, assim vou me arrumar para mais tarde?

Tira o avental e faz menção de sair, mas Margherita permanece imóvel, de braços cruzados.

– Por favor! – suplica ele.

– Tem mesmo de ir?

Agazzi sente como se uma flecha tivesse atravessado seu coração. Desde que ele recebeu a mensagem, ela está de cara amarrada. Nem queria ter contado a ela, poderia ter inventado uma desculpa, dizer que tinha algumas encomendas para fazer. Mas ficou tão feliz que não conseguiu se segurar. E, em pouco tempo, todos os Doneda ficaram sabendo.

Claro que tenho, queria responder. Mas, então, começariam a brigar de novo: ela perguntaria se ele não estava bem ali, qual a necessidade de voltar a trabalhar para o padrão se tinha uma atividade sua para administrar; e o chamaria de ingrato, depois de tudo o que o pai dela havia feito por eles.

Em seguida, acabariam discutindo de novo sobre ter filhos, sobre a razão de não os ter, embora já estivessem casados havia cinco anos; afinal, nesse meio-tempo, todas as suas irmãs já tiveram três ou quatro cada uma, mas ela, que está vendendo saúde, não tem nenhum, e queria ao menos um para chamar de Cesare, como o avô.

O sino da igreja de São Vítor bate nove horas. A viagem ao Fosso Bergamasco leva ao menos uma hora, mas Agazzi não quer chegar todo ofegante e, sobretudo, não quer chegar irritado. Põe a cabeça para fora da cozinha e dá uma olhada no cliente que, no salão, tamborila no tampo da mesa.

Agazzi bufa, contorna o corpanzil da mulher, pega um prato fundo e o enche até a borda, sob o olhar zangado dela; depois, corta duas fatias espessas de pão e as enfia no prato com tanto ímpeto que um pouco da sopa transborda e queima sua mão. Esforça-se para permanecer impassível. Por fim, tira do armário o garrafão de vinho reservado à família, aquele que não é batizado, e enche um copo grande, que bebe de um só gole, olhando para ela com ar de desafio. Enche-o de novo e leva tudo para o salão.

Carlo o recebe com um sorriso satisfeito. A sopa tem um aroma delicioso, e o gerente não economizou no pão. Essa bela refeição o manterá satisfeito até o dia seguinte.

– Quanto lhe devo? – pergunta.

– Ah, nada – responde Agazzi, elevando a voz para ser ouvido na cozinha. – Hoje é oferta da casa.

Carlo olha para ele, incrédulo. Quer insistir, mas o gerente já partiu. A sopa está bem quente, mas é muito saborosa, e a pele de porco a deixa densa e encorpada.

O quadrado da janela captura um pedaço de céu, finalmente azul. Do lado de fora, Carlo percebe a silhueta magra do gerente da pensão, que, vestido de maneira impecável, caminha rapidamente, de cabeça baixa, indo sabe-se lá para onde.

Ele também tem de ir, não há tempo a perder. Termina às pressas sua refeição e bebe o vinho até a última gota. Da cozinha, tem a impressão de ouvir os soluços de uma mulher.

Deixa na mesa algumas moedas, levanta-se e encaminha-se para a saída.

4

Fosso Bergamasco

Agora que é dono de tudo aquilo, depois do esforço e dos sacrifícios que fez para se apossar de tudo, parece-lhe quase insignificante. Base vezes altura dividido por dois, pensa Cristoforo. Pode uma fórmula matemática conter toda a ambição humana?

Bate os pés na terra, e Silvio levanta os olhos para ele.

– Estão atrasados – diz o menino.

Mas são eles que chegaram antecipadamente. Partiram de Milão à luz pálida da madrugada, sem acordar ninguém; parecia até que estavam fugindo. O cocheiro ainda estava com os olhos inchados de sono. Alfredo Malberti apareceu na estrada, caminhando de um lado para outro como um cão preso à corrente, com as mãos nos bolsos e os lábios pálidos; saltou para a carruagem com toda a energia dos seus vinte anos.

O patrão fez a ele um aceno que queria dizer: “Está tudo em ordem, Fredo?”.

“Sim, senhor Crespi. Tudo em ordem.”

Pode-se confiar em Alfredo, é um sujeito inteligente.

Durante todo o tempo, não abriram a boca, até para não acordar o menino, que dormia encolhido como um filhotinho, enquanto a carruagem abria passagem em meio à neblina. Cristoforo olhou para fora sem ver nada além da própria imagem refletida: um homem já de certa idade, com a testa

enrugada, na qual as preocupações haviam escavado sulcos profundos, mas olhos vivazes que se recusam a envelhecer. O sol indolente de janeiro apareceu quando já estavam fora da cidade, perto dos campos embranquecidos pela neve a perder de vista, e ao longe se via o perfil delicado dos montes, que pareciam flutuar no ar.

Cristoforo se inclina e pega o filho nos braços. Seu corpo quente lhe infunde serenidade.

– Olhe – diz.

Juntos, olham ao redor. No horizonte, a vegetação imóvel no gelo desenha um semicírculo, sobre o qual estão acomodadas nuvens que anunciam mais neve. O terreno onde surgirá o estabelecimento fica um pouco mais abaixo, quase em um buraco, em uma depressão tomada por arbustos.

– É tudo meu. – Depois, corrige-se: – Nosso. – É pelo menino que está fazendo tudo aquilo. – Está vendo ali no fundo, onde o rio Brembo desagua no rio Adda?

Silvio aperta os olhos e faz que sim com a cabeça. Talvez não tenha visto de verdade, mas não quer decepcionar o pai.

– De lá até onde estamos agora, é tudo nosso.

O menino fica boquiaberto.

– Tudo?

Acabou de completar oito anos, e aquilo lhe parece imenso.

Cristoforo sorri e se enche de orgulho.

– Tudo.

Um triângulo de terra, base vezes altura dividido por dois, um total de 85 hectares. Mas o terreno não valeria nada sem a água.

– E está vendo ali? – Crespi aponta para o rio Adda, na altura do ponto onde nasce o canal da Martesana. Acabou de obter do governo a concessão para desviar seu curso por noventa anos. – De lá partirá o canal artificial que levará a água até a central, bem aqui embaixo. A central será o motor da fábrica, que moverá os maquinários do cotonifício: cinco mil fusos, para começar. Mas o estabelecimento será tão grande que poderá conter pelo menos o dobro, com janelas no telhado que farão a luz entrar pelo alto; assim, vamos poder trabalhar até tarde. Uma construção moderna, térrea, arejada, salubre... Mas, sobretudo, este lugar será bonito: os edifícios serão decorados com ornamentos de estrelas de oito pontas e rosáceas de terracota; os homens serão rodeados pela beleza e terão prazer em vir trabalhar aqui. Não existem fábricas assim na Itália. Crespi só as viu no exterior, onde estão adiantados nessas questões.

– Ao lado do depósito serão construídos os palasocc, três edifícios de quatro andares cada um, que abrigarão os operários e suas famílias – continua, falando para si mesmo. – Nesse mundo, os homens não precisarão vir de longe, desperdiçando energia e tempo precioso no trajeto; viverão aqui, e a fábrica será sua segunda casa. Também haverá um empório e um hotel, estábulos e todo o necessário.

Desde quando cultiva esse sonho? Imaginou-o tantas vezes que, se fechar os olhos, consegue ver a longa alameda de árvores que margeia o estabelecimento e a chaminé de tijolos que se erige no céu como um estandarte. Pode ouvir o som do apito que dá vida à fábrica, os operários que passam pelos portões e entram falando alto, o barulho ensurdecedor dos maquinários, trens repletos de tecidos destinados a todos os lugares do mundo. E a marca da empresa, Benigno Crespi, que atravessa o oceano e chega às Américas.

Há momentos, como esse, nos quais o medo se afasta e abre espaço para a confiança. Em um instante, a imaginação se enche de esperança e voa longe: Cristoforo imagina as mulheres agrupadas no lavadouro, as crianças brincando na rua, diante de uma fileira de casinhas ordenadas, e talvez uma escola, a enfermaria, a igreja... Uma pequena comunidade coesa e autônoma, na qual os limites entre o trabalho e a vida familiar se fundem. Daquele ponto elevado, sente-se bem mais do que um empresário da indústria algodoeira: sente-se quase um deus benevolente que dispõe da vida de seus operários. Certamente precisará de mais de sete dias, mas o que pretende criar é um mundo inteiro.

Em seus braços, Silvio se inclina e olha para baixo, como se tudo aquilo que o pai acabou de descrever fosse real.

– Mas não tem nada! – exclama, confuso entre o espanto e a decepção. De repente, Cristoforo se sente desconfortável. E se não conseguisse?

E se fracassasse de novo? E se sua família tivesse razão?

Coloca o menino no chão e alisa o próprio sobretudo, como para se assegurar de que não está nu. Olha de esguelha para Fredo. O rapaz está impassível a seu lado, olhando para o chão e com os pensamentos distantes, perdidos sabe-se lá onde. De vez em quando, suspira e funga. Deve estar com a cabeça em alguma moça, pensa o patrão com uma ponta de inveja daquela despreocupação que já não lhe é concedida, das oportunidades que Fredo ainda pode aproveitar, de todos os erros que ainda pode se permitir.

– Ainda não – murmura Cristoforo. – Primeiro temos de construí-lo.

Olhando ao redor, vê-se apenas o campo. Fredo gira o olhar: em meio à vegetação despida pelo inverno, despontam os campanários e alguns telhados das cidadezinhas reunidas ao redor do corpo sinuoso do rio Adda, que rasteja placidamente rumo à planície: são as terras que o viram nascer e crescer – crescer demais – e que agora lhe parecem estreitas. Atrás dele se encontra Trezzo, com as ruínas do castelo e, mais abaixo, a casa dos pais: os avós, a mãe, o pai e uma porção de irmãos e irmãs, todos amontoados em dois cômodos com chão de terra batida e uma estufa que produz mais fumaça que calor.

Os Malberti são uma família de camponeses. São feitos de carne, suor e miséria. Começam a trabalhar tão logo conseguem ficar em pé e, em pé, morrem trabalhando, mas nem por isso conseguem melhorar sua situação. É assim desde sempre, uma tradição de família.

Contudo, fizeram Fredo estudar. Os filhos que vieram depois dele tiveram de pagar pelo privilégio que coube ao primogênito. Mas ele é um sujeito esperto, valia a pena; na escola, mostrou o próprio valor: além de inteligente, era movido por uma determinação feroz. Assim, enquanto seus irmãos se matavam de trabalhar nos campos para adormecerem na companhia dos apertos da fome, ele podia dedicar-se aos estudos e, em sua sopa, sempre boiava um pedacinho de carne. Mas ai de quem jogasse isso em sua cara! De resto, não era um presente. Quando muito, um empréstimo: sobre ele pesava toda a responsabilidade de um dia arrastar toda a família para fora do pântano da miséria.

Fredo sente um nó de arrependimento subir pelo esôfago e parar na garganta. Deglute, mas o sentimento de culpa permanece preso ali.

Foi embora de casa sem olhar para trás. O patrão procurava um empregado que se ocupasse de uma questão importante, e seu pai o incentivou a se apresentar: ofereciam um bom salário e um quarto no andar de cima da sede da empresa, em Milão. Foi fácil conseguir o cargo.

Em poucos meses, a cidade o consumiu. No início, escrevia e mandava dinheiro com regularidade, quase todo o seu salário. As cartas, que endereçava ao pároco, eram breves romances vibrantes de espanto e entusiasmo.

Caro papai, cara mamãe, caríssimos irmãos e irmãs...

Sua mãe sempre ouvia, encantada.

– Releia aquela parte em que ele fala das roupas...

Seu Fredo era realmente muito bom para descrever as roupas e os tecidos, as joias das senhoras, os sapatos, as estolas, as mãos cobertas por luvas, os penteados da moda sob os chapéus... Era tão bom que, às vezes, Luigia não entendia, e o padre tinha de lhe explicar. Talvez ela também, um dia, pudesse permitir-se um pequeno chapéu. Desde que Fredo começou a trabalhar no escritório do patrão, os Malberti podiam conceder-se o luxo da esperança.

De resto, para que servia o dinheiro? Fredo trabalhava o dia inteiro, muitas vezes também à noite, sem turnos de descanso, sempre junto ao patrão ou indo de um lado a outro, cuidando sozinho das tarefas e, quando voltava para seu quartinho no andar de cima da sede da empresa, adormecia sem nem ter forças para comer algo.

Depois, conheceu o marquês. Foi uma epifania atroz.

Fredo ouve um rumor de passos e levanta a cabeça, como um cão que detectou a presa. Observa um ponto impreciso no matagal, farejando o ar parado. Por alguns instantes, nada acontece, e Cristoforo pensa que, dessa vez, seu sabujo se enganou. Mas, de repente, da curva que se perde entre as árvores sai um homem. Não é muito alto, mas tem musculatura maciça, pescoço taurino, cabeça afundada entre os ombros, pele rosada, mãos enormes e testa curta.

Os olhos de Fredo são atravessados por uma centelha de terror.

– Oreste – diz Cristoforo. – Você veio.

O patrão o escolheu porque é o maior trabalhador que já conheceu. Faz o trabalho de três operários e aguenta turnos de doze, quinze horas sem falhar, não faz perguntas, não se queixa e nunca pede nada.

No entanto, Oreste nem chega a olhar para ele, está inteiramente concentrado no rapaz.

– Pai – diz Fredo.

Não esperava encontrá-lo ali; aliás, não era o que planejava. Aquele deveria ser o dia em que diria ao patrão que tinha encontrado algo melhor. Ao ver o pai, algo se move dentro dele. Queria correr, abraçá-lo, admitir que errou, pedir perdão, mas, sobretudo, apoio.

Oreste o examina da cabeça aos pés, com ar severo. O rapaz usa um sobretudo de lã, sob o qual se entreveem as lapelas de seda do smoking e o peitilho da camisa branquíssima. São as roupas da noite anterior, as que seu rico amante lhe comprou para levá-lo consigo a um evento social sem causar má impressão e com as quais o pôs para fora de seu palacete pela manhã.

Com o valor da gravata-borboleta que guarda no bolso, os Malberti comeriam por um mês, pensa Fredo, mas seu pai não parece impressionado.

Fita com desgosto os sapatos engraxados e cospe no chão um grumo de saliva escura de tabaco.

Alfredo se encolhe no sobretudo e engole as lágrimas.

– Senhor Crespi – diz Oreste apertando a mão do patrão.

Cristoforo empurra o menino para a frente.

– Cumprimente – ordena.

Silvio agita a mão.

Oreste faz uma reverência atrapalhada, depois intercepta o olhar de Fredo, que mal consegue segurar uma risadinha. Se estivessem sozinhos, Oreste faria passar essa sua vontade de rir.

Parecem dois galos prestes a se desafiar, pensa Cristoforo.

Talvez eu não devesse ter convocado todos ali. Poderia ter mandado chamá-los ou explicar tudo por carta. Agora teme tornar-se ridículo com essa pequena encenação. Seja como for, é tarde demais para mudar de opinião, e repetir o encontro está fora de questão.

Agazzi chega com passo saltitante e, assim que percebe que não está sozinho, para, como certos animais pegos de surpresa em meio ao matagal. Já conhece aqueles homens por ter trabalhado com eles no passado e porque, no fundo, todos se conhecem um pouco na região, mas sua decepção é evidente: achou que ali estariam apenas ele e o patrão – de resto, não é o que pensavam os outros? –; no entanto, não será ele o protagonista dessa ópera.

E não o será nem mesmo Carlo, que se une ao grupo pouco depois, também mal escondendo a decepção. Envelheceu, pensa Cristoforo e, nesse mesmo instante, sente sobre si mesmo o peso de todos os anos transcorridos, dos insucessos passados, das promessas não mantidas.

Os homens se examinam uns aos outros, confusos entre a curiosidade e a desconfiança recíproca, fingindo desenvoltura. Cá estão eles, meus melhores ex-operários, pensa Cristoforo, os mais fortes, entusiastas e fiéis. Caberá a eles a tarefa de dar substância ao sonho: escavarão o canal e construirão a central, o estabelecimento, os depósitos e as moradias. Esses homens são os alicerces do vilarejo.

O que estão para construir não é apenas o primeiro vilarejo industrial da Itália. Quando esses homens não existirem mais, quando também Cristoforo tiver morrido, assim como seus descendentes e os descendentes dos descendentes, o vilarejo ainda existirá. E estará ali para sempre, naquele triângulo de 85 hectares, inserido entre os rios Brembo e Adda, lembrando a todos o nome dos Crespi.

Cristoforo preparou um longo discurso, mas, nesse momento, não se lembra de nenhuma palavra. Sente todos os olhos voltados para si e o pânico que o toma e corta sua respiração. Silvio olha para ele sem entender; não pode suspeitar que seu herói esteja com medo.

No entanto, é isso que Cristoforo sente nesse momento. Medo.

Gostaria de dizer a seus homens que investiu tudo o que tem nesse sonho e até mais; gostaria de falar das dívidas que tiram seu sono e da família que lhe cobra cada lira concedida. Gostaria de dizer que teme decepcionar todos: seu pai, seus irmãos, sua mulher, mas, sobretudo, seus filhos, e mais ainda Silvio. Gostaria de falar de sua alma dividida em duas, do desejo de ser bem-sucedido e do medo de fracassar, do irresistível chamado do desafio e do terror do insucesso, do sonho e do pesadelo. Gostaria de dizer a eles que essa é a última possibilidade que lhe resta, pois, aos 43 anos, a vida não concede outras tentativas a ninguém.

Gostaria, mas não pode. Aqueles homens, assim como seu filho, esperam dele coragem, lucidez, determinação e otimismo; querem certezas, encorajamento, apoio, uma direção a ser tomada e indicações precisas. Cristoforo não duvida de que estejam dispostos a se matar de trabalhar e até a sacrificar a própria vida, mas a mão que os guia nunca deve hesitar.

O patrão não pode ser um homem, não pode ter medos e incertezas, não pode mostrar a ninguém a própria vulnerabilidade. Mesmo cercado por mil operários, o patrão sempre estará sozinho.

Crespi respira fundo. Se não pode revelar a verdade, então interpretará opapel que sua função lhe impõe; dará a eles o que esperam e terá em troca oque precisa.

Endireita os ombros, ergue o queixo e começa a falar.

A neblina que flutua sobre a neve endurecida enche de mistério todos os lugares. Por todo o trajeto, Oreste teve a sensação de ser seguido por um espectro; virou-se várias vezes, sem ver nada além da própria respiração condensada. O latido de um cão chega abafado a seus ouvidos, como se tivessem enfiado um pedaço de pano na garganta do animal; depois, de novo o silêncio.

Depois de ter mostrado o terreno e descrito o projeto com todos os detalhes, o patrão quis descer com eles, pisar a terra onde surgirá o vilarejo.

www.vestigioeditora.com.br www.twitter.com/vestigio_editora www.facebook.com/vestigioeditora

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook