“A vida é uma sucessão de provações, aflições e perdas. E também uma sucessão de alegrias, felicidades e encantos. A maneira como enfrentamos os primeiros influencia como recebemos os últimos. Por isso devemos prestar atenção em nossas desolações, e por isso as ©Céline Nieszawer/Le extra/L'Iconoclaste
consolações, autoconsolações e consolações coletivas
Christophe André é psiquiatra, um dos maiores especialistas da França em psicologia das emoções. Trabalhou a maior parte de sua carreira no Hospital SainteAnne, em Paris, em uma unidade de psicoterapia comportamental e cognitiva especializada no tratamento e na prevenção de ansiedade e depressão. É autor de vários best-sellers internacionais. Em seus livros, Christophe André tem o dom de trazer à tona temas às vezes invisíveis na psicologia, como autoestima, sentimento de culpa, imperfeições e meditação.
são importantes. A consolação é o curativo colocado sobre a ferida dos desapegos impostos pela vida.”
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este livro, Christophe André, um dos maiores psiquiatras franceses da atualidade, fala sobre a necessidade de sabermos pedir ajuda, a capacidade de aceitar o apoio do outro e a habilidade de consolar quem está ao nosso redor. Diante de uma adversidade, não podemos exigir de nós mesmos uma recuperação rápida e indolor: é importante reconhecer essa dor, respeitar essa tristeza, entender que isso faz parte da vida. Também não podemos prometer aos amigos e à família que a vida vai ser fácil, que tudo vai dar certo, mas podemos garantir que enfrentaremos juntos o que quer que seja, com um pouco de fraternidade, empatia e esperança. O autor faz um chamado para não nos abatermos, para enfrentarmos a resignação, sacudirmos a poeira e darmos a volta por cima. Este livro nos ajuda a encontrar fontes de encorajamento para lidar com as tristezas do passado e com as adversidades do futuro, redescobrindo assim a graça da vida. vida
ISBN 978-65-86551-81-5
9 786586 551815
C
om décadas de experiência em psicoterapia, o renomado psiquiatra francês Christophe André sabe reconhecer quando seus pacientes enfrentam dores e desolações. A todos eles, mais do que o tratamento e um conforto temporário, Christophe oferecia uma forma de consolá-los e ajudava-os a conviver com as tempestades do cotidiano. Então, quando ele mesmo descobriu que tinha uma doença grave, percebeu o quanto o afeto e a empatia são importantes no caminho para transformar a ferida em cicatriz. Toda desolação, grande ou pequena, é como uma parada brusca numa vida que avançava tranquilamente, uma vida na qual cada dia continha a promessa dos dias seguintes, cada ocasião perdida era desimportante, porque haveria outros amanhãs e outras oportunidades de recuperá-la. O papel da consolação, nesses momentos, não é reparar o que foi quebrado, mas ajudar a enfrentar as provações subsequentes e as incertezas futuras. Ao se deixar consolar pela beleza dos momentos simples da vida, podemos nos sentir reconfortados pela doçura do mundo e nos preparar para enfrentar as tristezas do passado e as adversidades do futuro.
TRADUÇÃO
Julia da Rosa Simões
Copyright © 2022 Éditions de l’Iconoclaste
Título original: Consolations: Celles que l'on reçoit et celles que l'on donne
Esta edição é publicada mediante acordo com Éditions de l'Iconoclaste em conjunto com seus agentes devidamente constituídos Books And More Agency #BAM, Paris, França, e Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, Rio de Janeiro, Brasil. Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
capa e projeto gráfico
Arnaud Vin
Diogo Droschi
edição e preparação de texto
diagramação
Bia Nunes de Sousa
Christiane Morais de Oliveira Guilherme Fagundes
revisão
Aline Sobreira de Oliveira Alex Gruba
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
André, Christophe Deixe a vida te consolar : lições de um terapeuta para enfrentar as adversidades / Christophe André ; tradução Julia da Rosa Simões. -- São Paulo, SP : Vestígio, 2022. Título original: Consolations: Celles que l'on reçoit et celles que l'on donne. ISBN 978-65-86551-81-5 1. Adversidade 2. Autoconhecimento 3. Desenvolvimento pessoal 4. Empatia 5. Saúde mental I. Simões, Julia da Rosa. II. Título. 22-115036
CDD-158.1 Índices para catálogo sistemático: 1. Adversidades : Psicologia aplicada 158.1 Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
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Para Édith.
“A cinza só consegue me provar a existência da chama.” Victor Hugo, “Les enterrements civils”.1
Uma imensa necessidade de consolação................................11 CONSOLAÇÕES..................................................................17 O que é a consolação............................................................19 A beleza da consolação..........................................................22 DESOLAÇÕES.....................................................................29 As três inevitabilidades da condição humana........................31 Desolações do luto...............................................................37 Violência e loucura do mundo.............................................41 O que é ruim sempre pode piorar........................................43 Adversidades comuns...........................................................45 Tristezas sem razão...............................................................50 A continuidade de nossas desolações....................................52 Os mecanismos de nossas desolações...................................54 Perigos das desolações e riscos da inconsolação....................57 Nossa necessidade de consolação..........................................59 O QUE NOS CONSOLA: A CRIAÇÃO DE VÍNCULOS..............................................63 O vínculo com o mundo: a vida que recomeça.....................65 O vínculo com os outros: consoladoras e consoladores.........74 O vínculo interno: consolar a si mesmo................................84 CONSOLAR O OUTRO......................................................95 Como consolar?....................................................................97 Tentativas de consolação.....................................................106 Falta de jeito e regras simples..............................................111 O dom da consolação.........................................................116
RECEBER E ACEITAR A CONSOLAÇÃO......................125 Receber a consolação..........................................................127 Os inconsoláveis.................................................................135 Consolar é amar. E aceitar ser consolado é aceitar ser amado..............................................................139 Aceitar a consolação: uma atitude existencial......................142 OS CAMINHOS DA CONSOLAÇÃO..............................147 A natureza, grande consoladora..........................................149 Ações e distrações...............................................................156 A arte da consolação...........................................................161 Meditação, consolação do momento presente.....................175 Acreditar no destino e entregar-se a ele?..............................182 As perigosas consolações da busca de sentido......................185 A fé que consola.................................................................192 A presença dos anjos: ilusões e consolações.........................200 LEGADOS DA DESOLAÇÃO E DA CONSOLAÇÃO........................................................205 A desolação pode nos tornar mais fortes?............................208 Três legados (possíveis) de nossas desolações.......................212 Três legados (possíveis) de nossas consolações.....................225 Nada acaba para sempre.....................................................232
Bibliografia comentada.........................................................235 Agradecimentos....................................................................241 Notas....................................................................................243
Uma imensa necessidade de consolação
Por muito tempo estive cego à consolação. Como psiquiatra, contentava-me em tratar; como escritor, em explicar e encorajar; como ser humano, em reconfortar. Um dia, fiquei doente, gravemente doente, e pensei que minha existência talvez fosse acabar mais rapidamente do que havia previsto. Não fiquei ansioso, mas triste por ter de deixar a vida antes de me cansar dela. A tristeza não me fechou em mim mesmo, ela me fez olhar para o mundo com mais atenção. Como todas as pessoas ameaçadas pela morte, percebi a beleza da vida. E como muitas delas, descobri em mim mesmo uma necessidade enorme de consolação: em minha grande fragilidade de corpo e mente, o mais tímido sorriso, o mais suave canto de pássaro, o mínimo gesto de bondade ou beleza me causavam um bem infinito. Quando voltei para casa depois da hospitalização, coloquei meus papéis em ordem (nunca se sabe…). E, ao selecionar velhos livros de psiquiatria para doação, deparei-me com um pequeno marcador de páginas com a dedicatória de um antigo paciente de Toulouse, um homem atormentado, toxicômano, bipolar, de quem eu gostava bastante. Tinha sido muito difícil tratá-lo e estabilizá-lo, mas ele não aceitava se consultar com mais ninguém e quase sempre voltava para os atendimentos, mesmo quando estava em péssimo estado. Às vezes ele desaparecia por um tempo, quando ficava com vergonha demais de si mesmo para me ver. No marcador de páginas, encontrei as seguintes palavras: “Caro doutor André, obrigado pela paciência comigo e pela grande confiança que o senhor me inspira quando estamos juntos. Philippe”. Philippe* acabou se suicidando algum tempo depois de me mudar de Toulouse; fiquei sabendo através de seu companheiro. Naquele momento, repassando nossas sessões de terapia, pensei que não conseguira curá-lo (é verdade que ele não ajudava muito), mas que quase sempre conseguira consolá-lo. Sem saber. * Todos os nomes próprios citados neste livro foram modificados. 11
Quando era difícil curar meus pacientes, acontecia de me perguntar por que eles ainda voltavam, fielmente, e por que, apesar de tudo, pareciam felizes com nossos encontros. Eu me dizia que, no lugar deles, provavelmente teria procurado outro médico. Na época, estava cego para a consolação, convencido de que um bom médico só podia se satisfazer com a cura. Ainda não tinha entendido que, junto com a ciência e a boa vontade, podia oferecer outras coisas para ajudar e consolar meus pacientes: delicadeza, fraternidade, sinceridade, espiritualidade. Talvez oferecesse um pouco dessas coisas, ao menos em parte, mas sem saber. Focado no bem que não conseguia proporcionar (curar), não reconhecia aquele que conseguia fazer (consolar). No fim, apesar da doença, continuo aqui. A morte me pegou em suas mãos, depois me devolveu à vida. Como explicar o fato de não ter ficado traumatizado e ansioso com esse episódio, mas em paz e ainda mais feliz por viver? Talvez com minha descoberta da consolação, que, muito mais que um reconforto passageiro, é uma maneira de viver com as tempestades, uma declaração de afeto, uma canção bonita que reconecta com o mundo, o mundo inteiro, com suas belezas e adversidades. Como um fio condutor, a consolação acompanha nossa vida, do nascimento à morte. Estamos sempre a seu lado e precisando dela: abertamente, quando somos crianças; secretamente, quando nos tornamos adultos. Consolação é tudo que esperamos, ou que oferecemos, quando a realidade não pode ser reparada. É o que nos levanta e nos afasta por um instante de nossos desesperos e de nossas resignações, e que nos devolve suavemente o gosto pela vida. Que este possa ser não apenas um livro sobre a consolação, mas também um livro consolador.
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Não sei se poderei consolá-la
Bom dia, Marie, Sinto muito por ter de conhecê-la em condições tão dolorosas. Obrigado pela confiança que deposita em mim ao compartilhar seu sofrimento. Não sei se poderei consolá-la. É muito difícil consolar: não podemos reparar nada, mudar nada do que faz o outro sofrer, sabemos que nossas palavras só podem proporcionar um conforto passageiro, ou mesmo nenhum conforto, e às vezes ainda mais sofrimento; porque elas são inábeis, impotentes, porque elas chegam na hora errada. Mas não podemos nos contentar com isso, em dizer que não há nada a dizer para aliviar o sofrimento de uma mãe que perdeu a filha. Então vou lhe contar, humildemente, o que eu tentaria fazer se fosse atingido pela mesma dor terrível que a senhora. Quando somos engolidos pelo sofrimento, submergidos pelos redemoinhos de tudo o que esse sofrimento (ressentimento, desespero, culpa, medo, inveja, raiva…) carrega consigo, acredito que possamos tentar seguir duas grandes direções. Primeiramente, da melhor maneira possível, manter nosso vínculo com o mundo, não nos fechando em nós mesmos, não nos retraindo em nossa dor e em nossa
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infelicidade. Ainda que esse vínculo nos faça sofrer, porque só conseguimos ver a ausência da pessoa amada, é ele que aos poucos nos ajuda a reviver, suavemente. Depois, dar-nos o direito, justamente, de reviver. Onde quer que Lucie esteja, ela ainda a ama e sempre a apoiará. Ela lhe devolverá o gosto de voltar à vida, de olhar para o Sol e para o céu, para as flores que se abrem e para as crianças que riem, sorrindo apesar de tudo. Apesar da tristeza. Da tristeza que nunca a abandonará. Mas que aos poucos será mais doce e que um dia lhe trará paz. Ela lhe permitirá pensar em todas as alegrias que viveu com Lucie, sem que isso a faça chorar ou suspirar, apenas sorrir ligeiramente: a senhora pode de fato se sentir feliz por ter tido uma filha como ela, capaz de palavras tão belas, de tanta generosidade, a senhora pode se sentir feliz por todas as alegrias vividas ao lado dela, feliz que ela tenha amado a vida com tanta força. É muito importante nunca se esquecer dessas alegrias; também é importante nunca espantar a tristeza e o sofrimento que às vezes virão obscurecê-las, como as nuvens que ocultam o Sol. Deixe suas emoções se manifestarem, mas nunca se esqueça de pensar, regularmente, em todas as alegrias que Lucie lhe proporcionou, mantenha-as vivas em sua alma. Abra os olhos também para os pequenos fragmentos de felicidade que aos poucos voltarão a seus dias, sem que no início a senhora perceba, como flores na beira desse caminho hoje tão difícil e doloroso. Não dê ouvidos às pessoas que lhe pedirem para “fazer seu luto” (não lhes queira mal, tampouco): a senhora percorrerá esse caminho em seu próprio ritmo, ninguém pode forçá-la a ir mais rapidamente, e ninguém pode avançar em seu lugar. Leve o tempo que precisar, mas olhe para a frente, olhe para o céu e para as estrelas, o máximo possível. Não é uma metáfora: 14
olhe de fato, com frequência, respirando, pensando em Lucie, sorrindo para ela. O lema de sua filha, que a senhora citou na carta para mim – “A felicidade consiste em tornar os outros felizes” –, é maravilhoso em sua simplicidade, generosidade e inteligência. Sua filha era maravilhosa. Sua filha é maravilhosa. Mantenha-a viva em seu coração, continue a falar com ela, a compartilhar com ela todas as belas coisas que cruzarem seu caminho. Cuide-se bem, meus pensamentos estão com a senhora. Um abraço fraterno, Christophe André Carta a uma mãe que perdeu a filha, assassinada pelos terroristas do Bataclan, em 2015, e que me escreveu na época em que eu trabalhava no hospital Sainte-Anne, em Paris.
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CONSOLAÇÕES
O que é a consolação?
Consolar é tentar aliviar um sofrimento. Cada palavra importa: • tentamos (não podemos ter certeza do resultado), • aliviar (não podemos apagar o que faz sofrer), • um sofrimento (termo que designa todas as adversidades com impacto emocional). A consolação é ao mesmo tempo aquilo que consola – o afeto de nossos familiares, a ação que nos surpreende e a vida que nos distrai, quando a adversidade é menor – e o caminho, o processo que nos faz passar do sofrimento à lembrança do sofrimento, da dor aguda à dor surda, da desorientação à compreensão, da solidão ao vínculo, da ferida à cicatriz. De maneira um pouco mais minuciosa, poderíamos dizer que a consolação é: • tudo o que oferecemos (palavras e gestos), • a uma pessoa que vive um sofrimento, uma adversidade, uma tristeza, uma mágoa, • para que ela se sinta bem, para aliviá-la (agora), • e para ajudá-la a continuar a viver (no longo prazo). *** 19
Qual a diferença entre reconforto e consolação? Reconfortar é aliviar no momento presente, e já é algo maravilhoso e precioso. Mas o objetivo da consolação costuma ser mais abrangente, mais elevado, mais distante no tempo. A consolação tem algo mais amplo que o reconforto, parcial e limitado. O reconforto também visa, como seu nome indica, tornar mais “forte”, fazer a pessoa em sofrimento voltar à ação e à sociedade, ao passo que a consolação visa menos à eficácia e mais às feridas da natureza humana. Nesse sentido, o reconforto pode ser entendido como uma consequência – preciosa – da consolação. Ou como uma consolação voltada para a ação, mais do que para a emoção. A consolação não é uma busca de soluções. Ela não tem a pretensão de modificar a realidade (como uma “solução” faria), mas de aliviar a sensação de sofrimento. Ser consolado não significa ser ajudado, no sentido estrito, por um auxílio que mude a situação e nos permita modificá-la. A consolação não foca na adversidade que entristece, mas na pessoa triste: ela é um auxílio interno, não externo. Quando conseguimos agir, a consolação passa a ter um papel secundário (mas ainda assim um papel). Quando uma pessoa cai, eu a ajudo a se levantar (solução) em vez de me contentar em consolá-la enquanto ela continua no chão. Mas, depois de levantá-la, também posso verificar se ela precisa ser consolada (de seu medo, de sua humilhação, de sua dor…). VOVÔ CAIU
Lembro-me da primeira queda de meu avô na minha frente. Eu devia ter 20 anos, já era estudante de Medicina. Ele tropeçou num improvável canto de calçada e caiu. Corri em sua direção para verificar se não tinha quebrado nada, mas ele já estava se levantando, com simples arranhões. Eu temia um machucado físico, mas logo entendi que a dor era psíquica: cair na rua, como um velhinho, na frente de todo mundo e, acima de tudo, na
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frente do neto que o admirava. Então, da melhor maneira que pude, e intuitivamente, tentei consolá-lo desviando sua atenção de sua fraqueza e de sua fragilidade e levando-a para mim (“Ai, ai, ai, vovô, como você me assustou!”), para a calçada (“Que irresponsabilidade deixarem buracos desse tamanho, um monte de gente vai cair nesse lugar”), para seus sapatos (“Você devia usar calçados esportivos, eles firmam melhor o pé”). Consolá-lo, naquele momento, era fazê-lo se esquecer de sua fraqueza, e não lembrá-lo de que ele era uma pessoa idosa e frágil.
A consolação é uma alquimia, de processos às vezes misteriosos e resultados às vezes incertos, mas nos caminhos consoladores que seguiremos quase sempre veremos, em graus variados, quatro dimensões, quatro indispensáveis letras A: • Afeto: mesmo quando não formulada de maneira direta, toda consolação é uma expressão de afeto pela pessoa em sofrimento. • Atenção: o que nos consola desvia nossa atenção da dor; mesmo transitório, mesmo superficial, mesmo trivial, esse efeito é benéfico, pois qualquer suspensão do sofrimento faz bem àquele que sofre e lhe permite recuperar o fôlego. • Ação: mais do que palavras e conselhos, o convite à ação e, melhor ainda, à ação comum e compartilhada é que permite às pessoas em sofrimento voltarem ao movimento da vida. • Aceitação: aceitar uma adversidade não significa se alegrar com ela ou se submeter a ela, mas reconhecer que ela aconteceu. A aceitação representa uma etapa indispensável de todo processo de reconstrução; no entanto, é mais uma consequência e um benefício da consolação do que uma exortação a demonstrá-la abertamente. É um objetivo no horizonte, para o qual as pessoas que consolam visam levar suavemente as pessoas a serem consoladas. 21
A beleza da consolação
Há palavras mais fortes que outras pelo que despertam em nós, palavras que cantam e que prometem, palavras musicais que ativam um conjunto de imagens e recordações. É o que faz a consolação: ela evoca a infância e as pequenas mágoas, mas também a morte e o luto, todas as dores humanas – e todas as mãos estendidas, todos os afagos, todos os gestos de afeto e compreensão. A consolação é frágil e incerta Consolar é saber (e aceitar) que nossas palavras só podem aliviar o sofrimento de maneira imperfeita; mas também é desejar que o sofrimento não seja vivido solitariamente. A consolação é um ato de presença amorosa, ainda que às vezes impotente. Quando consolamos, não sabemos como a situação se desenrolará. Às vezes, a incerteza pode ser ainda maior e mais bonita: podemos consolar mesmo quando nós mesmos estamos sofrendo. Como nas narrativas de prisioneiros e deportados que consolam uns aos outros; ou como todo ser humano que passa por uma adversidade e tenta apaziguar a dor do próximo. Consolar quando estamos numa situação enevoada e temendo por nós mesmos é sem dúvida a mais comovedora forma de consolação: de um desventurado a outro desventurado, de um ameaçado a outro ameaçado, de um desesperado a outro desesperado. A consolação não parece resolver nada E isso não é um problema: a consolação não é um auxílio material, não exige força ou poder, podemos oferecê-la mesmo quando 22
somos – ou quando nos sentimos – fracos e vulneráveis. Pois, para além de sua dimensão concreta (palavras e gestos), ela também é, acima de tudo, um esforço imaterial: uma presença, uma intenção, uma humanidade compartilhada. “Na ordem material, só podemos dar o que temos; na ordem espiritual, podemos dar o que não temos.”1 A frase de Gustave Thibon nos lembra que a consolação é uma iniciativa cuja força pode estar, em grande parte, subterrânea e invisível. E que ela depende, por um lado, da espiritualidade – a dimensão de nossa mente em que nos aproximamos dos mistérios da vida e da morte, do bem e do mal. Essa é outra diferença em relação ao reconforto, que costuma se ater aos aspectos materiais; para reconfortar uma pessoa, é preciso ter mais força que ela; para consolá-la, não. A consolação é humilde, sabe que seu poder é limitado Ela sugere, murmura, não eleva a voz, não revigora; a consolação é prudente, nunca conhece a extensão exata das dores internas. Por isso a ternura e a simplicidade de suas palavras. As palavras, aliás, não são as únicas que consolam; entra em jogo toda a alquimia do vínculo e da história que existe entre consolador e consolado, do momento escolhido e, por fim, das palavras escolhidas. Elas precisam ser simples, claras e breves – pois o sofrimento embaralha a escuta, e não se deve escrever uma tese sobre a vida de quem sofre –, e ditas com sinceridade e compaixão. Com humildade também: aquele que consola não o faz em nome de um saber ou de uma experiência, aos quais seria preciso se submeter, mas em nome do amor e da fraternidade. Simplicidade e prudência: as discretas qualidades da consolação As certezas, aqui, não são bem-vindas. Na delicada alquimia da consolação, é preciso haver carinho por parte do consolador e aceitação por parte do consolado. É preciso haver paciência e humildade dos dois lados. É preciso haver dúvidas, pois, quando existe certeza – na pessoa desolada, certeza da raiva ou do 23
desespero; na pessoa que oferece sua ajuda e seu amor, certeza de que é preciso apagar a dor –, não há espaço para a consolação. É preciso haver brechas, fissuras, para que entre a luz da consolação. É preciso haver muitas coisas misteriosas, que nos escapam, mas, mesmo com toda essa névoa, precisamos nos esforçar para consolar o sofrimento, não importa o que aconteça, porque o outro está ali, com sua dor, imensa e intimidadora algumas vezes, minúscula e desconcertante em outras. A sinceridade é necessária à consolação? Nunca devemos oferecer palavras de consolo nas quais não acreditamos? Não necessariamente: não se trata de acreditar nas palavras, mas de acreditar que elas possam fazer bem. A consolação quer produzir esperança, ela quer que o consolado se afaste das certezas do sofrimento e da dor, para que ele possa imaginar, apenas imaginar, que seguir em frente vale a pena. A consolação quer restaurar um pouco da esperança, esperança não se sabe em quê, mas uma esperança que alivie a dor. A esperança é a confiança dos fracos e oprimidos – que é o que somos quando mergulhamos na desolação –, a esperança é a confiança daqueles que não têm mais força nem vigor para reparar o passado ou construir o futuro. Para consolar, a sinceridade que mobilizamos é a da intenção, e não a da certeza. Às vezes precisamos dizer a uma pessoa que vai morrer o que ela quer ouvir: que tudo se resolverá da melhor forma, que a vida recomeçará, que logo estaremos juntos e rindo como antes. Não é errado: levamos amor a uma situação de desolação; não podemos sofrer ou morrer no lugar da pessoa, mas podemos acompanhá-la da melhor maneira possível. Não é uma mentira, mas um desejo profundo e irrealizável. Existem momentos belos e trágicos na consolação. Quanto maior o sofrimento, mais a consolação demora para encontrar seu caminho Às vezes, só depois de anos é que nos lembramos de uma palavra ou de um gesto que nos consolou e nos recolocou nos trilhos. 24
Outras vezes, algumas palavras de consolo funcionam como mantras – fórmulas curtas e simples destinadas a proteger e ajudar, que repetimos para nos impregnarmos delas. Lembro-me de pacientes contarem que minhas palavras de consolo, pronunciadas à porta do consultório na hora da despedida, serviram-lhes de apoio para atravessar momentos de turbulência, como um amuleto mágico contra as adversidades. Notei que essas mensagens consoladoras raramente eram conselhos técnicos; na maioria das vezes eram simples palavras de reconforto, que poderiam ser ditas por qualquer pessoa; formuladas na hora certa, no entanto, com simplicidade e sinceridade, tinham produzido um efeito muito maior que elas mesmas. Há quatro momentos na vida de uma palavra de consolo: • quando ela é dita e ouvida, • quando ela é lembrada e refletida, • quando ela some da consciência dos consolados, mas segue seu caminho reparador e benéfico, • quando ela finalmente decanta no fundo da memória dos consolados, no cofre das lembranças e dos recursos, que confirmam – quando duvidamos – que a vida vale a pena e que as adversidades podem ser atravessadas. No início, o efeito da consolação pode ser insignificante E a consolação pode parecer uma pequena distração; ela funciona um pouco, por algum tempo, depois há um lento retorno da tristeza e do sofrimento, uma inexorável sensação de inconsolabilidade. No início, a dor sempre vence, sempre volta, arrastando o desânimo atrás de si. Por isso é bom a consolação não ser um apoio pontual, mas um acompanhamento de longo prazo. Sabemos que as pessoas de luto, acompanhadas nos primeiros momentos, com frequência se veem sozinhas pouco depois; os outros, consoladores precoces, já começaram a esquecer suas dores. É normal, cada um tem a própria vida; mas a necessidade de consolação permanece. 25
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No belo ensaio L’Inconsolable [O inconsolável], o filósofo André Comte-Sponville diz: “Filosofia da consolação, sempre necessária e sempre insuficiente”.2 É exatamente isso: sem a consolação, a dor nos faz naufragar; com a consolação, a dor continua, mas não nos faz naufragar, sentimos que talvez possamos aguentar. A consolação não é uma reparação mágica, ela é como uma luz que penetra a escuridão e nos permite perceber as formas ainda turvas de um mundo futuro e habitável, simplesmente habitável.
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E duas vezes a primavera o repintou com flores Desde que não és mais, o campo deserto Sob dois invernos perdeu seu manto verde, E duas vezes a primavera o repintou com flores, Sem que nenhuma palavra sua dor console, E que nem a razão nem o tempo que voa Possam secar suas lágrimas.
Malherbe, “Aux ombres de Damon”.3
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