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daNdARa e a fa l a n g e fem i n i n a d e
PALMARES
leonardo chalub Autor de Palmares de zumbi , vencedor do Premio Jabuti 2020
xilogravuras de
LUIS MATUTO
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dandara e a fa l a n g e fem i n i n a d e
PALMARES
© Editora Nemo 2021. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução. Copyright © 2021 Leonardo Chalub Todos os direitos reservados à Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editor responsável
ilustrações de capa e miolo
Arnaud Vin
Luis Matuto
editor assistente
diagramação
Eduardo Soares
Waldênia Alvarenga
preparação
projeto gráfico
Diogo Droschi
Sonia Junqueira revisão
Eduardo Soares
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Chalub, Leonardo Dandara e a falange feminina de Palmares / Leonardo Chalub ; xilogravuras de Luis Matuto. -- 1. ed. -- São Paulo : Nemo, 2021. ISBN 978-65-86128-79-6 1. Brasil - História - Ficção 2. Brasil - História - Palmares, 1630-1695 3. Ficção biográfica - Literatura juvenil 4. Negros - Brasil - Condições sociais 5. Quilombos - Brasil - História 6. Dandara - Literatura juvenil I. Matuto, Luís. II. Título. 21-80322
CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático: Dandara e o Quilombo dos Palmares : Ficção biográfica : Literatura juvenil 028.5 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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leonardo chalub
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Dedico este livro a todas as mulheres que, em um mundo tão machista, precisam se transformar em verdadeiras guerreiras para sobreviver.
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A
té os dias de hoje, milhares de artefatos africanos estão na posse de países europeus, expostos em museus ou sob a propriedade do governo, após terem sido contrabandeados durante a colonização, que terminou na segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial. A maior parte desses objetos não tem data para ser devolvida a seus legítimos donos.
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Capítulo 1
A falange
27
Capítulo 2
Engenho PoCo Largo, 1670
39
Capítulo 3
mestre Rio
53
Capítulo 4
ENgENHO CACHOEIRA ALTA, 1672
63
Capítulo 5
PiEdAdE
71
Capítulo 6
Luanda, 1673
87
Capítulo 7
A Selva
99
Capítulo 8
jimbulu
115
Capítulo 9
genilda e Tiburcio, 1664
129
Capítulo 10
TANdA
141
Capítulo 11
O SErmAO dA BRUXA
149
Capítulo 12
Estrada do desespero
167
Capítulo 13
A ASCENSAO dA FALANgE, 1676
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Capítulo 1
A
fa lange D
andara já havia apanhado bastante em sua vida até aquele momento, mas pela primeira vez sentia que seus dentes estavam prestes a cair. Pendurada de cabeça para baixo, com o rosto inchado pela surra que havia levado e pelas picadas de abelhas com as quais havia sido torturada, passava a língua nos molares, conferindo se ainda estavam no lugar. Ela era a primeira mulher a receber os treinamentos de guerra do mocambo mais militarizado do Quilombo dos Palmares, e, embora o chefe de Subupira, um homem chamado Macalê, nutrisse por ela certa afeição, sua coragem para candidatar-se àquela disputa não lhe sairia barato. Muitos já haviam desistido, e, ao lado de Dandara, só restavam quatro candidatos. Todos estavam amarrados, como bichos prontos para serem esfolados vivos. Os tambores ecoavam. O ritmo frenético acelerava ainda mais 13
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a mente e o coração daqueles que haviam se disposto a suportar todos os tipos de dores para provar seu valor. A disputa valia nada menos que um posto de capitão de uma das guarnições do mocambo. Em geral, os agrupamentos militares de Palmares se formavam por laços familiares. Era comum os guerreiros mais velhos liderarem seus irmãos, filhos, sobrinhos e primos. Esses grupos organizavam guarnições sob o comando do chefe do mocambo. Em alguns casos, quando a liderança de um grupo de guerreiros não era incontestável, qualquer um podia se candidatar a capitão na época da criação de uma nova tropa. A guarnição em disputa era muito diferente das demais, e sua associação foi bastante peculiar. Formada pelas primeiras mulheres guerreiras treinadas por Subupira, que reivindicaram junto ao chefe do mocambo o reconhecimento de seu agrupamento como uma falange independente, possuía um vínculo único que unia suas integrantes: todas eram órfãs e haviam sofrido preconceito por serem mulheres, desde o primeiro dia de treinamento. Para muitos, só o fato de Dandara ter sido escolhida por elas como sua líder já bastaria para elegê-la capitã. Entretanto, como nunca houvera antes uma mulher com patente tão alta em Subupira, sua indicação foi extremamente contestada por alguns soldados que aspiravam ao posto. Todos tinham a intenção de assumir o cargo e dissolver a formação exclusivamente feminina do grupo, incluindo homens na guarnição. Dandara tentava manter os olhos abertos. O suor escorria em suas vistas e o gosto de sangue persistia em sua boca. Um dos homens ao seu lado desmaiou e foi excluído da competição. Não demorou muito para o sol raiar. A disputa, que havia começado no dia anterior, parecia infindável. Vendo 14
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que nenhum dos competidores desistiria, Macalê ordenou que eles fossem desamarrados. Os participantes receberam um gole de água cada, e Dandara apenas conseguiu usá-lo para limpar o gosto de sangue da boca. – Suncê não tem paciência. Suncê não tem paciência – pensou ter ouvido alguém falar. O primeiro turno de treino coletivo dos soldados de Subupira mal tinha começado quando os quatro candidatos restantes foram submetidos a mais um teste. De todos, o mais penoso para Dandara havia sido aquele em que os soldados haviam desferido socos repetidamente no rosto dos candidatos. O chefe do mocambo só mandou parar quando já havia eliminado mais da metade dos concorrentes. Já as abelhas, para ela, não foram nada. Um dos homens, entretanto, teve uma reação alérgica fulminante e morreu. Os candidatos foram alinhados e atrás de cada um se posicionou um homem empunhando um pedaço de madeira. Quando Macalê deu o sinal, os homens começaram a desferir golpes nas costas dos aspirantes ao posto de comandante da guarnição. Logo na segunda rodada um dos homens caiu no chão, ajoelhado, e o chefe fez um sinal para que ele fosse retirado da competição. Os golpes de madeira voltaram a acertar as costas dos competidores, e Dandara cerrou os dentes para não gritar. No quinto golpe, outro homem desistiu, e no sexto, mais um. Dandara sabia que seria eliminada se demonstrasse fraqueza, então forçou seus pensamentos a voltarem ao dia em que havia chegado em Subupira. Na época, ainda era uma menina muito magra, e suas roupas eram bastante largas. Havia fugido do mocambo onde morava e vagado pela mata, tentando seguir os passos 15
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deixados pela tropa de Aqualtune, a Senhora de Palmares. Dandara havia matado o próprio pai, ao defender a mãe de um estupro. E a mãe havia se suicidado poucos dias depois. A dor que vivenciara na infância não se comparava às simples pauladas que estava levando. “Não se esqueça da recompensa que há para nossos esforços.” Dandara ouviu Aqualtune em seus pensamentos. Ela já sabia, entretanto, que alguns esforços poderiam facilmente conduzi-la à morte, se mal empreendidos. – Não há vara que não quebre quando enverga além do ponto. – Que ponto? – Dandara perguntou a Macalê, enquanto ele torturava um homem em busca de informações sobre o paradeiro do neto de Aqualtune que havia sido sequestrado na infância. – Até o ponto de quebrar – respondeu Macalê, virando o dedo do homem para trás até produzir um estalo. Dandara voltou a si quando Macalê, vendo que só restavam dois competidores, mandou que acelerassem os golpes. Um, dois, três... Dandara prendeu a respiração e então sentiu que o tempo havia diminuído seu ritmo – quatro, cinco... seis, sete... Seu adversário caiu no chão, sem ao menos conseguir se defender da queda, batendo com a cara na terra. Dandara ajoelhou-se e começou a chorar, tremendo de dor e de pavor. Não sabia se as pancadas que havia recebido nas costas poderiam ser curadas. A dor era tanta que ela ficou onde estava, tentando respirar e pedir ajuda, mas não conseguiu abrir a boca. Prontamente as mulheres que agora estavam sob seu comando a retiraram dali e a levaram para a cabana de Sabina, a responsável local por cuidar dos doentes e feridos. 16
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Deitada de bruços, Dandara ainda sentia o gosto de sangue na boca. Seu corpo inteiro doía, mas parecia que as costas nunca mais voltariam a se curvar. Ela tentava respirar com calma. Independentemente do que acontecesse, sabia que tinha feito tudo ao seu alcance para manter unidas suas companheiras. Sabina ficou perplexa ao ver o estado das costas da jovem, mas não fez nenhuma observação. Havia criado a menina desde pequena, e cuidou dela como sua própria filha, apesar de Dandara nunca tê-la chamado de mãe. Primeiro mandou lavar as costas da jovem com água e sal grosso. Depois fez um emplastro com plantas medicinais e serviu uma bebida para Dandara, que rapidamente começou a ter leves alucinações, antes de cair em sono profundo. – A senhora está demorando demais a prestar atendimento aos outros soldados. Muitos aqui estão a ponto de perder suas vidas, mas parece que… – Eles sabiam que o teste para capitão poderia lhes custar a vida – interrompeu Sabina, com um raro tom de rispidez em sua voz. – Eles tinham o direito de participar – retrucou Macalê. – Então, que suportem as consequências – finalizou Sabina. Estava disposta a fazê-los sofrer por terem entrado no caminho de Dandara, e nem mesmo Aqualtune, sua mãe e comandante do Quilombo dos Palmares, a faria mudar de ideia. Há muito tempo Sabina havia parado de tentar controlar Dandara. Ao contrário, ela de certa forma estimulava a rebeldia da jovem, que nunca se sujeitava às antigas convenções do mocambo de Subupira, que colocava as mulheres sempre em segundo plano. 17
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Dandara há muito protagonizava as batalhas de Palmares, tendo alcançado grande destaque em diversas lutas e, assim, chamando muita atenção para si. Despertava a inveja e o ódio dos mais fracos e débeis e, nos mais fortes, a atração e o desejo. Muitos desses já haviam declarado abertamente sua pretensão de se casar com a moça, mas ela simplesmente os ignorava. Quando acordou, no outro dia, Dandara sentia as costas latejarem. Sua visão estava embaçada e a cabeça doía mais que as costas. – Você tem sorte, menina. Todos os outros estão com febre – disse Sabina, tentando conter um dos homens, que gritava de dor. Dandara virou a cabeça para o outro lado e fechou os olhos, mas o sono havia sumido. Escutou gemidos e gritos por muitas horas antes de conseguir dormir novamente. Acordou no meio da noite com um pesadelo terrível, no qual era arrastada por um jacaré para dentro de um rio. Com o susto, ela se virou e caiu da maca, sentindo as costas queimarem. Quando Sabina chegou, já estava sentada. – Eu só quero um chá – disse. Sabina lhe serviu uma mistura de ervas, e ela bebeu calada. Uma das guerreiras e amigas de Dandara, Hadiya, estava de prontidão na porta da barraca e veio perguntar se ela queria algo. Dandara apontou para uma pequena garrafa feita de cabaça que a outra levava amarrada no cinto e foi atendida. Tomou um gole e sentiu a bebida arder na garganta. – Amanhã já estarei de pé, diga às outras que os treinamentos começarão ao raiar do sol. Hadiya ouviu as palavras de Dandara, mas não acreditou que a jovem pudesse realmente estar falando sério. Para 18
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sua surpresa, no outro dia, antes de o sol nascer, Dandara pôs-se de pé com o auxílio de uma espécie de muleta e acompanhou todo o treinamento conjunto dos soldados de Subupira. Cada dia um dos capitães do mocambo era responsável por treinar todas as guarnições. No período da tarde, cada guarnição realizava suas atividades separadamente e, antes de anoitecer, geralmente todas as tropas se reuniam para mais um treino em conjunto. Dandara fez questão de comandar o treino de sua guarnição. Naquele dia, fez suas comandadas correrem por horas em volta do mocambo e não permitiu que elas tomassem nem um gole de água. Quando o treino acabou, as guerreiras foram enfileiradas e Dandara disse a elas que dali em diante os treinos seriam sempre naquele ritmo. – Se vocês acham que aqui está difícil, saibam que lá fora vai ser bem pior. Se recomponham! Amanhã tem mais. Apesar de cansadas, as mulheres ficaram felizes por fazerem parte de um grupo com o qual se identificavam e por não terem mais que responder a ordens de capitães pelos quais não tinham nenhuma admiração. No outro dia, Dandara já vestia seu traje de guerra, sem, no entanto, a proteção das costas, o que deixava à mostra os emplastros que ainda usava para ajudar na cicatrização dos ferimentos. Ela mesma havia feito uma mistura com flor-de-coral, uma planta altamente cicatrizante que rapidamente criou uma casca em suas feridas. Apesar dos movimentos limitados, ela praticou arco e flecha, acertando o alvo todas as vezes. Suas habilidades com essa arma eram conhecidas por todos os cantos do quilombo. Aqualtune chegou escoltada por um grande contingente de soldados. Seu filho mais velho, Ganga Zumba, com um semblante grave e selvagem, liderava os guerreiros. 19
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Seus feitos na guerra eram incomparáveis aos de qualquer guerreiro de Palmares. Ele havia liderado o exército do quilombo em tantas vitórias que seu nome já era conhecido pelo Rei de Portugal e temido pelos melhores generais lusitanos. O centro do mocambo de Subupira foi tomado por uma grande quantidade de pessoas. Aqualtune trazia, junto com sua companhia, uma tribo indígena que havia sido expulsa pelos portugueses do local em que viviam. A presença da líder de Palmares fez com que todos no mocambo se reunissem em torno dos recém-chegados. Aqualtune cumprimentou Macalê e desceu de seu cavalo. Tinha um sorriso sereno no rosto. Abraçou o chefe de Subupira e lhe apresentou Kauan, o cacique da tribo refugiada. – Subupira é da Senhora! – disse Macalê. Aqualtune fez um gesto com a cabeça e falou algo com o chefe indígena, que prontamente fez um sinal para o homem que estava ao seu lado. – Os parentes vão cuidar de tudo – disse Kauan, saindo. Prontamente, os homens e mulheres da tribo correram para a mata, e em menos de uma hora buscaram material suficiente para iniciarem a construção de uma grande oca. Trabalharam juntos e também dormiram juntos, embaixo da construção inacabada. No outro dia, continuaram a trabalhar, cantando suas músicas. Dandara via uma grande felicidade naquele povo, que, mesmo expulso de suas terras, continuava a apreciar a natureza e brincar uns com os outros. À tarde, Aqualtune mandou chamar Dandara, que ainda não havia ido visitá-la por vergonha de seus ferimentos. – Deixe-me ver isso aqui – disse Aqualtune, em tom maternal. 20
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Dandara virou as costas; apesar de parte das feridas já estar quase cicatrizada, um líquido purulento corria do machucado, dando sinais de infecção. Aqualtune pediu para chamarem o Cacique Kauan, que trouxe consigo uma curandeira. A mulher fez uma expressão de horror ao ver o estrago que havia sido feito nas costas da jovem. – Ela quer saber quantos anos você tem... – Aqualtune traduziu para Dandara a pergunta da curandeira. – Quinze – respondeu a jovem. Quando recebeu a resposta em sua língua, a mulher fez uma cara de reprovação e ralhou: – Você não deveria estar se metendo nessas disputas. Isso é bobagem de homens. Ela disse que você já deveria estar pronta para cuidar de seus filhos – traduziu Aqualtune. Dandara deu um sorriso, compreensiva, pois sabia que, em muitas culturas, as mulheres não podiam fazer outra coisa senão cuidar da casa e da prole. Apesar disso, casar e ter filhos era algo que não estava nos seus planos naquele momento. Sua família era composta apenas por mulheres: Aqualtune, Sabina e suas guerreiras. Por elas, daria a vida. A curandeira iniciou a cerimônia soprando uma densa fumaça nas costas de Dandara, que havia relutado em aceitar o tratamento até receber uma ordem expressa de Aqualtune para ficar parada e submeter-se ao ritual. A jovem arregalou os olhos quando um dos auxiliares da curandeira trouxe uma jararaca e a aproximou do caldeirão onde a mulher cozinhava ervas. – Vocês não vão colocar o veneno desse bicho aí, né? – Dandara berrou, sendo repreendida por Aqualtune. A capitã estava inquieta. Suas mãos suavam, e ela tentava secá-las esfregando-as compulsivamente nas pernas. 21
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Uma nuvem de fumaça tomou conta da cabana, e Dandara começou a sentir-se tonta. Quando a curandeira despejou em suas costas a mistura quente, Dandara soltou um grito tão forte que foi ouvido do outro lado do mocambo. Ela xingou todos os palavrões que conhecia e pediu que jogassem água no machucado, sem ser atendida. Entretanto, em poucos instantes começou a sentir o efeito anestésico da mistura. Suas costas pararam de doer e ela sentou-se. Quando se acalmou, a curandeira se aproximou com um sorriso e ofereceu-lhe uma bebida em uma cumbuca. – Ela disse que você vai ficar boa agora, minha filha – Sabina traduziu as palavras da mulher. Diversos tambores começaram a tocar do lado de fora da cabana. Os exercícios haviam se encerrado, e os guerreiros começavam a comemorar o fim da semana de treinamentos, quando todos se reuniam para beber e realizar jogos e disputas de todos os tipos. Pouco tempo depois de ter ingerido a mistura, Dandara começou a sentir-se leve. Depois sentiu uma vontade imensa de rir e dançar. Foi a primeira vez que participou da tradicional festa de encerramento do ciclo de treinos de Subupira. Seus sentidos estavam mais aguçados, e os problemas haviam desaparecido de sua mente. No outro dia, quando a dor retornou, ela lutou contra a vontade de pedir mais uma dose da poção. Sabia que não poderia depender de uma mistura de ervas para realizar suas atividades, nem esperar que sua mente estivesse repleta de positividade e empolgação para cumprir com suas obrigações e alcançar seus objetivos. Apesar de a lei do mocambo proibir treinamentos no dia seguinte às festas, Dandara pegou seu arco e flecha e foi para a mata praticar, com a justificativa de que iria caçar. 22
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Sua vontade de entrar para a tropa pessoal de Aqualtune levava Dandara a buscar ultrapassar todos os seus limites. O posto de capitã da falange era apenas um degrau para sua meta. Sabia que só os melhores guerreiros faziam parte do grupo que protegia a Senhora de Palmares, então não se dava o direito de descansar. Ela fez mira em uma árvore por alguns segundos, e sua flecha cravou na madeira. Caminhou lentamente, sentindo que sua ferida estava completamente cicatrizada. Havia se formado, sobre sua pele, uma grossa casca que dificultava os movimentos. Quando arrancou a flecha da árvore, reparou em duas indígenas caçando juntas. Elas pisavam tão suavemente no chão que seus passos eram imperceptíveis. Uma delas mirou na direção da copa das árvores. Dandara reparou que o arco da mulher era bem menor que os utilizados pelos guerreiros de Palmares, embora extremamente resistente. O disparo foi tão forte que Dandara pensou ter visto sair fumaça do atrito da flecha com a madeira do arco. Poucos segundos depois, uma grande ave caiu no chão, bem perto das mulheres. Dandara aproximou-se e gesticulou, tentando fazer-se compreender. Queria saber qual tipo de madeira havia sido usada na confecção das armas. Sem conseguir entender o que a capitã queria exatamente, uma das mulheres ofereceu-lhe o arco, empurrando o objeto para Dandara, que ficou olhando perplexa para a arma, enquanto as indígenas se foram falando em uma língua que ela não entendia. Dandara examinou o arco com as mãos e em seguida puxou uma flecha. Apontou para o alto, somente para testar a capacidade do equipamento. Teve que fazer bastante força para puxar a corda para trás, e quando a 23
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soltou, sentiu o ar vibrar ao seu lado enquanto a flecha disparava em direção ao céu. Jamais havia visto um arco tão leve e potente. Não demorou para entender que armas como aquela poderiam ser um ponto de virada nas batalhas que Palmares travava, além de proporcionar um raio de alcance muito maior. Finalmente, Dandara tinha esperança de levar vantagem sobre as grossas armaduras que boa parte dos portugueses, principalmente os de alta patente, usavam para se proteger. No outro dia, logo que acordou, mandou suas guerreiras participarem do treinamento comum. Uma das vantagens de ser capitã é que ela podia escolher quando treinar ou não. Foi andar pela região onde a tribo de nativos se reunia e procurou pelas mulheres que havia encontrado no dia anterior. Tentou achá-las de todo jeito, mas só quando mostrou o arco foi que um homem apontou, com certo desprezo, a localização das jovens. Dandara viu as mulheres construindo, sozinhas, uma cabana. No mesmo instante, percebeu que a tribo as havia rejeitado. Seja qual fosse o motivo, não interessava a Dandara. Toda a sua falange era composta por mulheres que haviam sido abandonadas, desprezadas e diminuídas durante toda a vida. Ela demorou algumas horas para convencê-las a conhecer suas guerreiras. Com a ajuda de Elewa, a mais jovem da falange, que entendia o tupi-guarani, pediu que elas confeccionassem um arco para cada uma de suas guerreiras. “Aiyra e Kaolin”, responderam as duas mulheres, quando Dandara pediu a Elewa que perguntasse seus nomes. A relutância inicial logo passou, e as indígenas se tornaram muito prestativas. Dandara as acompanhou à mata fechada, e uma delas escalou uma árvore altíssima, cortando diversos galhos. Elas passaram a noite toda 24
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podando-os e orientando as guerreiras de Dandara, que as ajudavam. A confecção dos armamentos, entretanto, foi muito demorada. Levou mais de uma semana para o primeiro arco ficar totalmente pronto, e, quase dois meses depois, quando Macalê solicitou que Dandara liderasse a libertação dos escravos de um engenho na região de Recife, apenas metade das guerreiras da falange já portava os poderosos arcos.
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Brasil,
1670. Enfrentando o preconceito e a
desconfiança dos homens, Dandara luta para se tornar capitã de uma das guarnições de Subupira, o mocambo mais militarizado de Palmares. Em uma disputa mortal, a jovem arrisca sua vida para reivindicar a liderança do primeiro agrupamento de mulheres guerreiras do quilombo. Destacando-se constantemente nas batalhas travadas contra a Coroa Portuguesa e senhores de engenho da região, Dandara recebe ordens do Rei Ganga Zumba – filho da princesa Aqualtune e tio de Zumbi – para uma missão tão honrosa quanto difícil: recuperar a coroa e o cetro do Rei do Congo (pai de Aqualtune), morto em batalha contra as tropas portuguesas. Os objetos, porém, se encontram a um oceano de distância: expostos em uma capela católica adjacente a uma base militar da Coroa Portuguesa em Luanda, Angola. Com a preciosa ajuda de guerreiras indígenas e a companhia de um estranho casal português, a falange feminina de Palmares enfrentará ataques de feras selvagens e a ira de um general lusitano; mas os cuidados e a inspiração de uma bruxa misteriosa, bem como a lealdade de suas comandadas serão trunfos determinantes na missão mais difícil da vida de Dandara, nesta vibrante releitura da história da jovem guerreira. ISBN 978-65-86128-79-6
9 786586 128796
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2020 1º LUGAR Juvenil