Correspondência entre
ESPI NOSA e OLDEN BU RG
Tradução, apresentação, estudo, preparação do texto latino e notas:
Samuel Thimounier Ferreira Revisão técnica:
Homero Santiago
FILOESPINOSA
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Gilson Iannini
Duarte (UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP)
coordenadores da série filô espinosa
editoras responsáveis
André Menezes Rocha, Ericka Marie Itokazu, Homero Santiago
Rejane Dias Cecília Martins
conselho editorial
revisão
Gilson Iannini (UFOP); Barbara Cassin (Paris); Carla Rodrigues (UFJR); Cláudio Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUC-Rio); Ernani Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); João Carlos Salles (UFBA); Monique DavidMénard (Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind (UFF); Rogério Lopes (UFMG); Rodrigo
Júlia Sousa
coordenador da coleção filô
capa
Alberto Bittencourt diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Espinosa, Bento de, 1632-1677 Correspondência entre Espinosa e Oldenburg / Bento de Espinosa, Henry Oldenburg ; tradução, apresentação, estudo, preparação do texto latino e notas Samuel Thimounier Ferreira. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Filô : Espinosa). ISBN 978-65-86040-90-6 Edição bilíngue Idioma original: latim 1. Correspondências 2. Filosofia holandesa 3. Oldenburg, Henry, 1619-1677 – Correspondência 4. Espinosa, Bento de, 1632-1677 – Correspondência I. Oldenburg, Henry 1619-1677. II. Título. III. Série. 21-39031 CDD-199.492 Índices para catálogo sistemático: 1. Spinoza : Filosofia holandesa 199.492 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
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Para meus pais, Angela e Dalmy. Samuel Thimounier
Sumário
9. Apresentação 13. Espinosa e Oldenburg, correspondentes 17. Primeiro período (1661-1663) 39. Segundo período (1665) 67. Terceiro período (1675-1676) 103. Conclusão: Quid erat demonstrandum? 115. O texto e a tradução 123. Bibliografia
131. Cartas 285. Notas de tradução
309. Anexos 311. O texto e a tradução 315. As cópias de Leibniz
Apresentação
[...] ningem lhe pode fallar bocalmente, nem p escritto, nen darlhe nenhun favor, nen debaixo de tecto com elle, nen junto de cuatro covados, nen ler papel feito ou escritto por elle. (Parte final do herem contra Espinosa, decretado em 27 de julho de 1656, pela comunidade judaica de Amsterdã.)
A correspondência entre Espinosa e Henry Oldenburg1 (ca.16171677) perfaz vinte e oito cartas das oitenta e oito que completam o epistolário espinosano, quase um terço do que é conhecido. Sabe-se, a partir de conteúdos citados e não encontrados, que algumas cartas se perderam. De todo modo, daquelas sobreviventes, identificam-se onze de Espinosa para Oldenburg e dezessete de Oldenburg para Espinosa, todas trocadas entre 1661 e 1676. Nesses quinze anos, contudo, o comércio entre os dois missivistas sofreu dois marcados hiatos. Assim, em nossa análise, adotamos uma partição em três períodos: o primeiro, de agosto de 1661 a agosto de 1663; o segundo, de abril a dezembro de 1665; e o terceiro, de junho de 1675 a fevereiro de 1676. A correspondência tem início no mesmo ano em que tomam conhecimento um do outro. Em 1661, Oldenburg, passando de viagem pela Holanda, visitou cidades como Amsterdã, Leiden e Outras formas do nome são: Henry Oldenburgh, Heinrich Oldenburg e a alatinada Henricus Oldenburgius. A forma anglicizada do prenome “Henry” foi possivelmente adotada com sua mudança para a Inglaterra.
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Haia, a fim de encontrar amigos e personalidades, e tratar de alguns assuntos. Nessa ocasião, ficou sabendo de Espinosa e não perdeu a oportunidade de visitá-lo no vilarejo onde morava. Naquele momento, Espinosa tinha vinte e oito anos, enquanto seu visitante já ultrapassava os quarenta. De fato, embora jamais tenham voltado a se falar de viva voz, Oldenburg tornou-se a personalidade que mais longamente se correspondeu com Espinosa – e por isso, talvez, a mais importante. A importância vem, sobretudo, da rica problemática contida no conjunto de cartas resultante, que conta com uma fortuna crítica proporcionalmente extensa. Em primeiro lugar, devemos citar o livro Agnostos theos: Il cartegio Spinoza-Oldenburg (1675-1676), publicado por Omero Proietti em 2006, que, embora se detenha apenas no último período temático, é, até onde encontramos, o único integralmente dedicado a essa correspondência. Por outro lado, abundam sobre ela livros, teses, artigos e abordagens indiretas. Aqui, vale destacar a recente leitura empreendida, com grande profundidade sobre o segundo período da correspondência, por Fernando Bonadia de Oliveira, em sua tese de doutorado intitulada Coerência e comunidade em Espinosa (Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015), que nos orientou em muitas de nossas conclusões. Também é imprescindível citar duas obras monumentais de que somos muito devedores. A primeira – e não poderia deixar de ser – é A nervura do real (1999), em seus dois volumes; a opus magnum de Marilena Chaui tem o mérito, talvez exclusivo, de perpassar criticamente toda a correspondência entre Espinosa e Oldenburg, motivo pelo qual a esquadrinhamos ao longo de todo o nosso estudo. A outra obra é a coletânea The Correspondence of Henry Oldenburg (1965), editada e traduzida pelo casal Alfred Rupert e Marie Boas Hall. Os treze volumes que a compõem, por meio de cartas trocadas entre Oldenburg e outros correspondentes, elucidaram vários assuntos tratados com Espinosa, favorecendo e enriquecendo nossas discussões. A relevância e a qualidade do conjunto de cartas aqui traduzido e analisado devem reluzir, de pronto, a autoridade das palavras de Goethe (1749-1832): “sua correspondência [de Espinosa] é o livro mais interessante que se pode ler no mundo de sinceridade e de 10
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filantropia”2 (citado por Bach, 1923, p. 36). Ora, uma vez que as cartas trocadas com Oldenburg representam a parte mais expressiva desse corpus epistolarum, não seria menos lícito partilhar com elas o mesmo estatuto do todo. Sem dúvida, constituem um documento interessantíssimo e apaixonante, que carrega um conteúdo filosófico de primeira ordem, capaz de verter luz reveladora sobre aspectos importantes da gênese, do debate e da formulação do pensamento de Espinosa. * Este livro se estrutura em duas partes: um estudo introdutório e as traduções anotadas das cartas, estas acompanhadas dos textos originais. Dizemos “as traduções”, porque, como veremos adiante, há um conjunto principal e outro extra de cartas apresentadas e traduzidas. Na parte intitulada Espinosa e Oldenburg, correspondentes, apresentamos um estudo introdutório – não só uma sobreposição de relatos das cartas – da correspondência entre os autores, discutindo aspectos fundamentais dos principais assuntos tratados e, assim, expondo a sua relevante contribuição ao entendimento de certos aspectos da filosofia de Espinosa. Em meio às discussões, especificamente também quisemos responder a questões atinentes aos interesses de ambos, que envolvem, por exemplo: como, quando e onde se encontram pela primeira vez; por que iniciam um comércio epistolar; por que este sofre duas interrupções, por que é retomado nas duas vezes; e por último, por que perpassa tantos anos. Para isso, seguimos uma tripartição da correspondência em períodos cronológicos, analisando cada um deles em subcapítulos distintos, intitulados: i) “Questionamentos sobre a metafísica espinosana” (1661-1663); ii) “Interlúdio temático, intercâmbio de informações” (1665); e iii) “Divergências sobre o cristianismo” (16751676). Ao fim das três análises, na conclusão, buscamos arrematá-las com uma síntese interpretativa de toda a problemática envolvida, articulando o que foi discutido para responder a uma questão que, para No original: [...] sein Briefwechsel sei das interessanteste Buch, was man in der Welt von Aufrichtigkeit und Menschenliebe lessen könne.
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Apresentação
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nós, mostra-se nuclear e definitiva, a saber: é possível traçar um fio condutor pelos três períodos? Concluído nosso estudo, apresentamos nossas traduções anotadas, divididas em duas partes. A primeira e principal, intitulada Correspondência entre Espinosa e Oldenburg, é composta pela tradução dos vinte e oito textos supérstites, alguns deles representando cartas inteiras; outros, parciais; outros, fragmentos identificados em cartas fora da correspondência mútua. Aqui, para cada página traduzida, vimos importante oferecer ao leitor, de maneira espelhada, o respectivo texto original em latim. A segunda parte, por sua vez, intitulada As cópias de Leibniz, oferece, precedida de uma breve apresentação, o texto original latino e a tradução das cópias de três cartas obtidas e comentadas pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), a saber, as Cartas LXXV, LXXVIII e LXXIII. Por fim, vale esclarecer o uso que fizemos das notas de tradução: lugar não só de citações, mas também de explicações e discussões, por meio delas transmitimos parte da própria análise das cartas. Tal estratégia, ainda que fosse um risco à comodidade da leitura da tradução, pareceu-nos ser a mais adequada à construção de um texto naturalmente guiado e esclarecido a seu tempo.
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FILŌ ESPINOSA
Espinosa e Oldenburg, correspondentes
O caráter variado do estudo se justifica pela vastidão de assuntos abordados pelos autores em suas cartas mútuas, nas quais se podem encontrar discussões de metafísica, filosofia natural e teologia, bem como observações sobre o cenário histórico, político e de produção intelectual da época. O conjunto de cartas pode ser disposto, como já dito na Apresentação, em três períodos separados, que se confundem com contextos históricos e temas bem distintos, que também vão e vêm. Na tabela a seguir, constam esquematicamente informações relativas às cartas de cada período. Notamos nela as três numerações distintas apresentadas: a primeira, com números corridos para as vinte e oito cartas hoje conhecidas; a segunda, com números corridos para as vinte e cinco cartas publicadas em 1677 nas editiones principes, Opera Posthuma e Nagelate Schriften; e a terceira e canônica, estabelecida em 1883 pelos editores Johannes van Vloten e Jan Pieter Nicolaas Land, no segundo volume da edição Benedicti de Spinoza opera, quotquot reperta sunt, sob o critério exclusivamente cronológico considerando a correspondência completa de Espinosa. Trataremos mais detalhadamente dessas edições mais à frente em O texto e a tradução. 13
N.º das Cartas Período
1º
2º
3º
N.o de ordem
O. Posthuma e N. Schriften
Van Vloten & Land
Autor
Data
1
I
I
Oldenburg
16/26 de agosto de 1661
2
II
II
Espinosa
--
3
III
III
Oldenburg
27 de setembro de 1661
4
IV
IV
Espinosa
--
5
V
V
Oldenburg
11/21 de outubro de 1661
6
VI
VI
Espinosa
--
7
VII
VII
Oldenburg
--
8
VIII
XI
Oldenburg
3 de abril de 1663
9
IX
XIII
Espinosa
17/27 de julho de 1663
10
X
XIV
Oldenburg
31 de julho de 1663
11
XI
XVI
Oldenburg
4 de agosto de 1663
12
XII
XXV
Oldenburg
28 de abril de 1665
13
XIII
XXVI
Espinosa
--
14
Não consta
XXIX
Oldenburg
--
15
Não consta
XXX
Espinosa
--
16
XIV
XXXI
Oldenburg
12 de outubro de 1665
17
XV
XXXII
Espinosa
20 de novembro de 1665
18
XVI
XXXIII
Oldenburg
8 de dezembro e 1665
19
XVII
LXI
Oldenburg
8 de junho de 1675
20
XVIII
LXII
Oldenburg
22 de julho de 1675
21
XIX
LXVIII
Espinosa
--
22
XX
LXXI
Oldenburg
15 de novembro de 1675
23
XXI
LXXIII
Espinosa
--
24
XXII
LXXIV
Oldenburg
16 de dezembro de 1675
25
XXIII
LXXV
Espinosa
--
26
XXIV
LXXVII
Oldenburg
14 de janeiro de 1676
27
XXV
LXXVIII
Espinosa
--
28
Não consta
LXXIX
Oldenburg
11 de fevereiro de 1676
Nos três capítulos que se seguem, fazemos remissão às cartas com muita frequência. Para facilitar o acompanhamento do leitor, visto que a numeração de Van Vloten & Land não resulta contínua para este conjunto em específico, decidimos sempre justapor o número romano da carta ao número de ordem contínuo, em algarismo 14
FILŌ ESPINOSA
indo-arábico, dado na tabela anterior. Assim, por exemplo, ao citarmos a Carta XXV, redigimos “Carta XXV(12)”, de modo que se possa identificar de pronto que esta é a décima segunda carta na sequência cronológica do conjunto Espinosa-Oldenburg. Ademais, sobre as passagens das obras de Espinosa e da Bíblia citadas em nossa análise, cumpre explicitar de antemão que, exceto aquelas que traduzimos por nossa conta (em geral, do Tratado da emenda do intelecto, do Tratado teológico-político e de outras cartas), lançamos mão das meritórias e cuidadosas traduções aqui listadas: a) do Breve Tratado: ESPINOSA, B. Breve tradado de Deus, do homem e do seu bem-estar. Tradução: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso e Luís César Guimarães Oliva. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. b) da Ética: ESPINOSA, B. Ética. Tradução: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. c) dos Princípios da filosofia cartesiana: ESPINOSA, B. Princípios da filosofia cartesiana e pensamentos metafísicos. Tradução: Homero Santiago e Luís César Guimarães Oliva. Belo Horizonte: Autêntica, 2015b. d) da Bíblia: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Espinosa e Oldenburg, correspondentes
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