Skip to main content

Cor de Defunto

Page 1


Cami di Malta Cor de Defunto

Cami di Malta

Cor de Defunto

Copyright © 2026 Cami di Malta

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Contemporânea

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editores responsáveis

Rafaela Lamas

Schneider Carpeggiani preparação

Sonia Junqueira revisão

Cecília Castro

projeto gráfico da capa Diogo Droschi

capa e ilustração de capa Beatriz Belo

diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Di Malta, Cami Cor de Defunto / Cami Di Malta. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Contemporânea, 2026.

ISBN 978-65-5928-669-0

1. Ficção brasileira I. Título.

25-322504.2

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura brasileira B869.3

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

CDD-B869.3

A AUTÊNTICA CONTEMPORÂNEA É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

São Paulo

Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP

Tel.: (55 11) 3034 4468 www.grupoautentica.com.br

SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

Para Suely e Bila, é tempo de brincar.

Na certa mereceria um dia o céu dos oblíquos onde só entra quem é torto.

Clarice Lispector

Grata pela compreensão

Quando Mainha morreu, eu fiz um pudim. A morte me deixou com a boca ansiando pelo gosto de caramelo. Nunca havia feito pudins e não sabia o que levavam, como bater, como assar, se era assado. Achei um vídeo da receita e sentei no chão da cozinha pra assistir, meu luto que ainda era morte crua pairando sobre os anúncios de carro e iogurte pro intestino a cada dois minutos. Só tinha dois ovos e não sabia que diferença iria fazer no meu pudim, deixar ele mais seco ou com menos gosto de pudim. Tive que assistir o mesmo vídeo muitíssimas vezes, não porque a receita fosse uma sentença matemática, mas porque gostava de ver a senhorinha de nome que já não me lembro misturar todos os ingredientes com destreza, as mangas do vestido balançando junto com as pelancas do braço. Ficava imaginando como seria bom ser filha dela e poder enfiar a cabeça no meio daqueles peitos macios e gigantes e chorar até suar o buço, além de ter pudim pronto em casa pra merendar todo dia. Na minha cabeça ela se chama Dona Dorinha porque eu nunca vi uma manchete de jornal dizendo Idosa responsável pelo assassinato de 3 pessoas é identificada como Dona Dorinha, porque Doras são sempre pessoas cheias de afeto. Mainha nunca fez pudim, nem gostava tanto. Comi quente mesmo, fazendo fafafafa enquanto mastigava,

a calda queimando meu céu da boca, deixando pedacinhos de pele soltos. Percebi que só gosto de pudim gelado e senti raiva de Mainha por morrer assim sem aviso prévio. Eu poderia ter me programado e ter tido um pudim gelado pra comer. Mesmo assim, deixei o pudim fora da geladeira, em cima do balcão da cozinha. Tirava uma colherada de hora em hora, assim que o gosto rançoso de morte surgia na boca. O açúcar queimado atraiu e reuniu moscas e formigas que tentavam roubar um pedaço e ficaram grudadas na cena do crime. Comia minhas colheradas mesmo assim, sentindo os pedaços crocantes na boca que pareciam cristais de açúcar. Quando amanheceu, vesti meu uniforme amarrotado do chão do quarto e fui pra escola com cheiro de dobras. Fui direto na sala da diretora e entreguei um papel dobrado,

Sra. Diretora,

Gostaria de comunicar que a mãe da aluna faleceu na noite passada, portanto a aluna se encontra incapaz de entregar as atividades desta semana. Grata pela compreensão.

A letra era minha, a assinatura de Mainha estampada pelo meu pulso. O ato de escrever bilhetes e assinar em nome de Mainha já me era automático, só percebi a gafe quando vi as sobrancelhas finas e ralas da diretora num misto de perplexidade, pena e confusão me olhando cheia de aspas, talvez querendo perguntar se Mainha se matou, mas não sem antes avisar a escola, cheia de gratidão pela compreensão do corpo docente. Fui dispensada, voltei pra casa e a última fatia deformada de pudim continuava ilhada, cheia de alas no balcão da cozinha, com uma barata francesinha que se debatia na calda movediça caramelizada. Enfiei tudo na boca e joguei o prato de vidro no lixo.

Enquanto a morte não vem

Hoje vendi 3 funerais. Um casal nos seus quarenta e poucos anos escolheu um caixão simples de carvalho com forro de cetim. Enquanto eles estavam sentados olhando o catálogo, a moça mandava mensagens no celular e o rapaz folheava as páginas laminadas. Nenhum dos dois chorava nem usava preto. Quando aparece mais de uma pessoa, quase sempre fica claro ver quem é o novo órfão ou viúvo, é sempre a pessoa que tem os olhos mais molhados. Mas quando aparece um grupo assim, que nem esses dois, fica difícil dizer, mas depois de tantos anos eu já consigo identificar. Os enlutados têm os ombros pesados, a postura corcunda, as mãos indecisas, a pele com textura de asfalto velho. O luto é um acento circunflexo.

Como balas de iogurte enquanto eles discutem entre si. Tento despregar um pedaço no dente de trás quando a moça pergunta se damos desconto se pagarem à vista. Fico com vontade de dizer que o luto não vai ser mais curto só porque não está esmiuçado nas faturas do cartão, mas só digo que sim, damos 6%. Vão levar. Enquanto eles saem sem dar tchau, eu preparo a papelada pro Marcinho levar o caixão até o salão do funeral pra que comecem os preparativos. Eu gosto da funerária porque é um lugar desprovido de normas sociais. Ninguém se cumprimenta, nem diz

obrigada, por favor, um tchauzinho na saída. A morte fresca é o maior passe livre que existe; tudo se releva e se perdoa, dos dois lados. Não dou tchauzinho pra ninguém, fui contratada por causa do meu laconismo. Meu chefe disse que prefere alguém que fale menos que o necessário do que quem é um poço de empatia, porque eles se intrometem, querem perguntar, abraçar os clientes, e a maioria dos clientes não quer condolências de um desconhecido que está fazendo parte da pior experiência de compras que alguém pode ter. Deus me livre abraçar uma cambada de desconhecidos todos os dias. Ainda mais os que vêm sozinhos, desesperados, os olhos encharcados, as narinas trêmulas e úmidas, prontas pra babar catarro nos meus ombros.

Tudo também é mais quieto. Quem chega já entra sussurrando, como se existisse um funeral ali mesmo, entre os caixões expostos com etiquetas de preço. Eu encorajo. Mantenho minha voz baixa, quase um sopro. É a mesma coisa quando não temos clientes. Como de costume, ninguém fala comigo. Fico chupando balas de iogurte esperando meu horário ou a morte, o que vier primeiro.

Suor cigarro álcool rua gordura cachorro molhado naftalina peixe graxa

A primeira lembrança que tenho Dele é de um domingo à noite, a casa tomada pelo cheiro de gordura e Ele ao pé do fogão, bebendo cerveja e cozinhando maria-isabel. Puxando uma das banquetas de plástico da mesa que usávamos pra comer, Ele a colocou perto do fogão, entre Ele e a panela fumegando, e me colocou em cima. A panela soltava bolhas cremosas do arroz cozinhando junto com os restos de galinha do almoço, uma gororoba de pés, pelancas e cartilagens, Isso aqui é a comida do pobre criativo, Lilá, tem um monte de gente que passa fome porque não sabe usar a criatividade, joga fora os restos de comida ou dão pro cachorro pé-duro, ao invés de fazer um banquete desses.

Quando Ele se virou pra pegar a latinha de cerveja que descansava na pia, me desequilibrei e só não caí em cima da panela pelando porque consegui usar o depurador pegajoso pra me empurrar pro lado e caí ao lado do fogão, por cima das tampas de pote de margarina com bolacha e veneno pra rato.

Eu detestava maria-isabel, assim como Mainha e Corrinha, e na hora de comer, eu copiava Mainha em sua tática de engolir os pedaços de galinha sem respirar, bebendo copos inteiros de água pra não engasgar, acenando com a cabeça e soltando hummmmms entre

colheradas sebentas. Eu detestava tudo naquela casa. Detestava a garrafa de coca-cola de 2 litros sem rótulo que usávamos como jarra de água que tinha sempre gosto de cebola crua. Detestava o forro da parede mofado, fofo, despelando e deixando a casa com vitiligo. Detestava as catitas que, depois de comer as bolachas envenenadas, cambaleavam até minha gaveta de calcinhas pra morrer no meio de elásticos frouxos e corrimento. Ele eu ainda não detestava, mas a Corrinha sim, ela já tinha acumulado ódio em todas as suas entranhas. Dele eu só tinha pavor. Todas as quintas, quando Ele saía de casa sem dizer palavra, sabíamos que os próximos 4 dias seriam de paz até a hora do Fantástico, quando Ele voltava pra casa com a barba por fazer, o cabelo e as roupas fedendo a suor cigarro álcool rua gordura cachorro molhado naftalina peixe graxa, pronto pra assumir seu posto. Assim que Ele batia o portão toda quinta depois do jornal das 6 da tarde, a Corrinha corria pro quarto de Mainha e começava seus longos discursos persuasivos na tentativa de fazer com que Mainha trocasse as fechaduras de casa e Ele batesse com a cara fedendo a suor cigarro álcool rua gordura cachorro molhado naftalina peixe graxa no portão. Socorro, minha filha, não é assim que funciona, um dia você vai se apaixonar e vai me entender, Mainha argumentava, seus olhos de parênteses pairando nas armadilhas pras catitas.

Muitas cabeças pra uma mortadela

Quando comecei nesse trabalho, eu corria pro banheiro assim que chegava em casa, desesperada em tirar os germes de morte do meu corpo, como se as pessoas que vinham escolher caixões trouxessem seus mortos juntos. Só me permitia usar minhas roupas uma vez, o cesto de lavar sempre abarrotado e eu precisando pendurar calcinhas, calças e camisetas na grade atrás da geladeira. Nessa época, ainda não precisávamos usar uniforme. Podíamos vestir qualquer coisa desde que fosse branca e cobrisse os joelhos e os ombros. Entrava em casa, tirava a roupa e as meias já no tapete da entrada, ligava a TV no volume 6 e ia tomar banho. Escovava e esfoliava cada milímetro do corpo, até embaixo de cada unha dos pés e das mãos, como se eu tivesse arranhado a morte. Hoje a morte é parte de mim, eu não tenho mais como me lavar dela. Chego em casa, confiro se o freezer está ligado e funcionando e coloco a TV no volume 6.

Demorei muito tempo pra encontrar o volume perfeito da TV. Descobri que 6 era o ideal, baixo suficiente pra que fosse ininteligível e alto o suficiente pra que desfizesse o silêncio que eu trazia comigo e me fazia ouvir coisas que eu não queria ouvir. Nunca assisti nada de fato, acho insuportáveis as notícias horrendas nos jornais alternando com as novelas e seus vilões de

www.grupoautentica.com.br www.twitter.com/grupoautentica www.instagram.com/autentica.contemporanea

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook