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Confissões

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KANAE MINATO

CONFISSÕES U M C R I M E B R U TA L UM PLANO DIABÓLICO U M A V I N G A N Ç A I M P L A C ÁV E L


KANAE MINATO

CONFISSÕES U M C R I M E B R U TA L UM PLANO DIABÓLICO U M A V I N G A N Ç A I M P L A C ÁV E L

2a edição

t r a d u ç ã o: Rogério Bettoni


KOKUHAKU © 2008 Kanae Minato. Publicado originalmente no Japão, por Futabasha Publishers Ltd., Tokyo, em 2008. Direitos de tradução obtidos junto a Futabasha Publishers Ltd. através de Japan UNI Agency, Inc., Tokyo, e SEIBEL PUBLISHING SERVICES LTD. Copyright desta edição © 2019 Editora Gutenberg

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

capa

Rejane Dias

Diogo Droschi (sobre imagem de Lipik Stock Media / Shutterstok)

assistente editorial

Andresa Vidal Vilchenski

diagramação

preparação

Guilherme Fagundes

Sonia Junqueira revisão

Eduardo Soares Júlia Sousa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Minato, Kanae Confissões / Kanae Minato ; tradução Rogério Bettoni. -- 2. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2019. Título original: Kokuhaku ISBN 978-85-8235-573-2 1. Ficção japonesa 2. Ficção policial e de mistério (Literatura japonesa) I. Título. 18-22200 CDD-895.63 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura japonesa 895.63 Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310 - 2312 Cerqueira César . 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoragutenberg.com.br

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500


capítulo 1

Santidade

Q

uando terminarem o leite, por favor, levem a caixinha de volta para o lugar certo. Não se esqueçam de colocá-la no compartimento com o número de chamada, depois voltem para a carteira. Parece que todo mundo está quase acabando. Como hoje é o último dia de aula, também será o último dia da “Hora do Leite”. Agradecemos a todos os participantes. Escutei o murmurinho de alguns querendo saber se o programa vai continuar no ano que vem, e por ora digo que não. Este ano, o Ministério da Saúde escolheu nossa escola como projeto piloto para a campanha de laticínios. Cada um de vocês deveria tomar uma caixa de leite por dia, e quando o novo ano letivo começar em abril, vamos realizar os exames médicos anuais e ver se vocês superaram a média nacional de peso e crescimento. É claro, vocês podem achar que foram usados como cobaia, e tenho certeza de que este ano não foi muito agradável para quem é intolerante a lactose, ou simplesmente não gosta de leite. Mas a escola foi escolhida aleatoriamente, e cada turma recebeu uma quantidade diária de leite e os armários para guardá-las, com um escaninho específico identificado com o número de chamada de 5


vocês. É verdade que estamos verificando quem tomou o leite e quem não tomou. Mas por que fazer careta agora se há poucos minutos vocês estavam felizes, cada um tomando o seu? O que há de errado em ter que tomar um pouco de leite todo dia? Vocês estão entrando na puberdade. O corpo de vocês vai crescer e mudar, e o leite ajuda a ter ossos fortes. Quantos aqui tomam leite em casa? Além disso, o cálcio faz bem não só para os ossos; vocês precisam de cálcio para ter um bom sistema nervoso. Níveis baixos de cálcio podem deixar vocês inquietos e nervosos. E não é só o corpo de vocês que está crescendo e mudando. Eu sei o que aprontam, conheço as histórias.Você, Sr.Watanabe, sua família é dona de uma loja de eletrônicos, e eu sei que você descobriu como remover quase todo o mosaico da censura de filmes pornográficos. E esses filmes estão circulando entre os rapazes. A mente de vocês muda rápido, igual ao corpo. Acho que não dei o melhor exemplo, estou querendo dizer que vocês estão entrando no que chamamos de “período rebelde”. Os garotos e as garotas tendem a ficar sensíveis, a se ofender e se magoar com as mínimas coisas, e se deixam influenciar facilmente pelo ambiente. Começam a imitar a tudo e a todos, tentando descobrir quem são. E se forem honestos, muitos dirão que já perceberam essas mudanças. Vocês acabaram de ter um ótimo exemplo: até poucos minutos atrás, a maioria achava que o leite era um presente. Mas agora que falei que é um experimento, todos mudaram de opinião rapidinho. Estou errada? Mas não tem nada de estranho nisso, é da natureza humana mudar de opinião, e não só na puberdade. Na verdade, os professores dizem que o comportamento de vocês é mais calmo e melhor que o das outras turmas. Talvez graças ao leite! Tenho uma coisa mais importante para dizer a vocês.Vou parar de dar aulas no final do mês. Não, não vou trabalhar em outra escola, pedi demissão como professora.Vocês são meus últimos alunos, e vou me lembrar de vocês para o resto da vida. Acalme-se, gente! Fico feliz com a reação de vocês, principalmente de quem parece ter ficado chateado com a notícia... Como? 6


Está se aposentando por causa do que aconteceu? Sim, acho que sim, e vou aproveitar para falar com vocês sobre isso.

Agora que pedi demissão, andei pensando sobre o que significa para mim ser professora. Não entrei nessa profissão pelos motivos mais comuns – porque tive uma professora maravilhosa que mudou minha vida, ou coisa do tipo. Talvez eu possa dizer que me tornei professora simplesmente porque nasci numa família muito pobre. Desde que eu era pequena, meus pais me diziam que não tinham condições de me mandar para a faculdade, e que seria um desperdício pagar os estudos de uma menina, mas acho que isso me fez querer estudar ainda mais. Eu adorava a escola e era boa aluna. Quando terminei o ensino médio, ganhei uma bolsa de estudos – talvez porque eu fosse muito pobre –, e me inscrevi na universidade local. Estudei Ciências, a área de que eu mais gostava, e comecei a dar aulas num cursinho antes mesmo de me formar. Eu sei que todos vocês reclamam dos cursinhos hoje em dia, porque precisam sair correndo da escola, ir pra casa jantar, e depois sair correndo de novo para ter mais aulas até tarde. Mas sempre achei que vocês eram sortudos por terem pais que se importam o bastante para dar a vocês essa oportunidade. Bem, quando cheguei no último ano de faculdade, resolvi abandonar a graduação, que tinha sido minha primeira escolha, e arrumar emprego como professora. Eu gostava do fato de ter uma carreira estável, com salário fixo, mas tinha outro fator mais importante: o contrato da minha bolsa de estudos dizia que se não me tornasse professora, teria de retornar todo o dinheiro das mensalidades. Então, sem pensar demais, fiz a prova para obter a licença. Alguns de vocês podem questionar meus motivos para me tornar professora, mas posso garantir que sempre tentei dar o melhor de mim neste trabalho. Muita gente passa a vida inteira reclamando que não conseguiu descobrir sua verdadeira vocação. Mas a verdade é que a maioria de nós provavelmente não tem nenhuma vocação. 7


Então o que há de errado em escolher aquilo que está bem na nossa frente e se dedicar de corpo e alma? Foi o que fiz, e não me arrependo de nada. Alguns de vocês devem estar se perguntando por que escolhi o ensino fundamental e não o médio. Acho que eu queria estar na “linha de frente”. Queria dar aulas para quem ainda estivesse na metade dos estudos obrigatórios. Quem está no ensino médio tem a opção de abandonar os estudos, e, por isso, tem a atenção meio dividida. Eu queria trabalhar com alunos que ainda estivessem comprometidos com os estudos, que não tivessem escolha – e isso, para mim, era o mais perto que eu poderia chegar de uma vocação. Talvez vocês não acreditem, mas houve uma época em que eu era apaixonada por esse trabalho. Sr.Tanaka e Sr. Ogawa, não tem nada de engraçado nessa parte da história! Eu me tornei professora em 1998, e meu primeiro cargo – meu treinamento, na verdade –, foi na Escola M. Dei aulas lá durante três anos, depois tirei um ano de licença e vim dar aulas aqui na Escola S. Descobri que gostava de ficar um pouco afastada das grandes cidades, e aqui é um lugar bem tranquilo para trabalhar. É meu quarto ano nesta escola, então trabalhei como professora durante sete anos no total. Sei que estão curiosos para saber como é a Escola M. Masayoshi Sakuranomi dá aulas lá, vocês devem tê-lo visto na televisão ultimamente... Por favor, se acalmem. Ele é muito famoso? A senhora o conhece bem? Nós trabalhamos juntos esses três anos, então acho que sim, eu o conheço bem, mas naquela época ele não era uma celebridade. Depois que começou a ser visto como um superprofessor, aparece na mídia com tanta frequência que vocês devem conhecê-lo muito melhor do que eu. O que foi? Você não conhece a história, Sr. Maekawa? Não assiste TV? Tudo bem, vou lhe contar. Sakuranomi era líder de uma turminha no ensino médio, e quando estava no segundo ano, agrediu um professor. Foi expulso da escola, saiu do país e, durante alguns anos, vagou pelo mundo, se envolvendo nos maiores 8


perigos e confusões.Testemunhou a guerra e outros conflitos violentos, viveu no meio de pessoas na extrema pobreza. Por causa dessas experiências, ele entendeu como tinha errado na vida e se arrependeu de seu passado violento.Voltou para o Japão, fez uma prova de supletivo e conseguiu entrar numa universidade muito prestigiada. Depois de se formar, começou a dar aulas no ensino fundamental. Dizem que escolheu essa faixa etária porque queria ajudar os alunos a evitar erros como os que ele cometeu na mesma idade. Há alguns anos, começou a passar a tarde nos fliperamas e nas livrarias, lugares onde os alunos costumam arrumar encrenca depois das aulas. Ele se aproximava de cada um, falava sobre amor próprio e oferecia uma chance de começarem de novo. Ele era tão insistente que ganhou o apelido de Sr. Segunda Chance, e fizeram até um documentário na televisão sobre ele. Começou a escrever livros e ampliou o campo de seu trabalho para tentar alcançar mais alunos... Como? Você viu tudo isso na televisão semana passada? Ah, peço desculpas a quem já sabe da história... O quê? É verdade, deixei passar um ponto importante. No final do ano passado, quando Sakuranomi mal tinha completado trinta anos, o médico lhe disse que ele tinha apenas mais alguns meses de vida. Mas em vez de lamentar, ele decidiu dedicar o tempo que lhe restava aos alunos. Então deram a ele um novo apelido: o Santo.Você parece saber mesmo de tudo, Sr. Abe. Como? Se eu admiro o Sakuranomi? Se quero ser como ele? Essas perguntas são delicadas. Acho que eu queria aprender com a vida dele – mas só com a segunda metade. Entendo a impressão que ele causa em alguns de vocês, e isso me faz pensar que talvez eu não tenha sido muito boa em alguns aspectos, principalmente se me compararem a alguém dedicado como ele. Como eu disse antes, ao me tornar professora, quis dar o melhor de mim no trabalho, sempre. Se um aluno ou uma aluna tinha algum problema, eu deixava de lado o plano de aula e tentava fazer toda a turma resolver aquele problema. Se alguém saía da sala, mesmo que fosse no meio da aula, eu ia atrás. Um dia percebi que ninguém é perfeito – pelo menos, eu não era. E quando a gente fala alguma coisa para um jovem, com toda a 9


autoridade de uma professora, corremos o risco de aumentar o problema. Comecei a achar que era muito comodista e imprudente impor minhas opiniões aos alunos. Por fim, comecei a me culpar por talvez ser arrogante com as pessoas que eu deveria respeitar e tentar ajudar. Então, depois da minha licença, quando comecei a trabalhar aqui na Escola S., estabeleci duas regras básicas para mim mesma: primeiro, resolvi que sempre trataria meus alunos educadamente e usaria Sr. e Srta. antes dos nomes; segundo, eu os trataria como iguais. Parecem coisinhas pequenas, mas vocês ficariam surpresos se vissem como muitos alunos perceberam na mesma hora. Você quer saber o que eles perceberam? Acho que descobriram a sensação de serem tratados com respeito. Ouvimos tanta gente falar de famílias abusivas que corremos o risco de achar que todas as crianças são maltratadas em casa. Mas a verdade é que a maioria das crianças hoje em dia é paparicada e mimada. Os pais imploram e só faltam ajoelhar para que os filhos estudem, comam ou o que for. Talvez por isso os filhos demonstrem tão pouco respeito pelos pais e falem com os adultos no mesmo tom que usam para conversar com os colegas. E muitos professores entram no jogo – acham uma honra ganhar um apelido ou serem tratados de maneira informal pelos alunos na sala de aula. Afinal, é isso que veem na televisão, em todos aqueles programas sobre professores descolados que são “amigões” dos alunos. Vocês sabem muito bem do que estou falando – um professor popular tem problema com uma turma, mas do meio do conflito surge uma relação de profunda confiança. E quando sobem os créditos finais, o resto da escola e as outras turmas do professor desaparecem, como se ele existisse apenas para aquele grupinho de bagunceiros. E o professor da televisão fala de sua vida pessoal até na sala de aula e mergulha nos sentimentos mais íntimos dos alunos.Vocês querem mesmo ouvir a história toda? Mas é claro que querem. Algum aluno mais sério resolve então perguntar qual é o sentido da vida... e a tagarelice continua. Na cena final, esse aluno mais sério acaba se desculpando com o bagunceiro por ter sido tão insensível, o que 10


pode fazer todo sentido na TV, mas e na vida real? Algum de vocês aqui já teve um problema pessoal tão grave a ponto de interromper a aula para conversar sobre o assunto? Eles dão muita ênfase às ovelhas negras e às desgarradas. Eu tenho muito mais respeito pelo aluno sério, que nunca dá problema para ninguém. Mas esses garotos nunca conseguem o papel principal, nem na TV, nem na vida. Já basta fazer com que o aluno bem-comportado duvide do valor de seus esforços.

As pessoas costumam falar sobre a confiança que se desenvolve entre aluno e professor. Quando meus alunos começaram a usar telefone celular, passei a receber mensagens do tipo “Quero morrer”, ou “Não tenho motivo nenhum para viver” – gritos pedindo ajuda. Eu recebia essas mensagens no meio da noite, duas ou três da manhã, e não vou negar que minha vontade era de ignorá-las. Mas é claro que eu não podia. Eu estaria traindo esse “espírito de confiança”. É claro, os professores também começaram a receber mensagens muito mais maliciosas. Um dia, um jovem professor recebeu uma assim: A menina que escreveu disse que uma amiga estava em perigo e pediu para ele se encontrar com ela na entrada de um hotel barato no centro da cidade. Vocês podem até achar que ele devia ter tomado mais cuidado, mas ele era jovem, cheio de energia, e correu para ajudar – mas o objetivo de tudo era fotografá-lo junto com a garota naquele lugar comprometedor. Os pais dela apareceram na escola no dia seguinte, a polícia entrou no meio e o caso tomou uma proporção enorme. Os outros professores, é claro, sabiam que o colega tinha sido enganado. A gente sabia porque ele tinha contado que era transgênero – que nascera no corpo de um homem, mas na verdade era uma mulher. Mesmo naquela situação, não vimos motivo para contar a verdade. Ele mesmo estava determinado a defender sua honra de professor e acabou contando para os alunos e para os pais dos alunos. E toda essa tragédia, que teve um resultado desastroso para o professor, começou por causa 11


de uma bobagem: uma menina que estava magoada porque ele a mandara parar de conversar durante a aula. Como? Se a menina foi punida? Claro que não. Ao contrário, o professor e a escola foram responsabilizados – como podiam expor alunos tão jovens a essas aberrações sexuais.... ou a gays... ou a mães solteiras, como eu? Os pais ignoraram o que a filha fez, colocaram a culpa na escola e acabaram ganhando – embora eu não ache apropriado falar em vencedores e perdedores numa situação como essa. O professor? Ele foi transferido no ano passado e hoje leciona em outra escola, como mulher. Eu sei que é um exemplo exagerado, mas esse tipo de acusação acontece o tempo todo, e quando envolve professores, e não professoras, é muito difícil provar o contrário. Depois desse incidente, instituímos a regra de mandar sempre uma professora no lugar de um professor quando ele tiver de se encontrar com alguma aluna, e vice-versa. É por isso que temos dois professores e duas professoras para cada série. Se algum rapaz dessa turma quisesse se encontrar comigo em algum lugar, eu entraria em contato imediatamente com Tokura-sensei da Turma A para pedir que ele fosse no meu lugar; e se acontecesse a mesma coisa envolvendo uma aluna da Turma A, Tokura-sensei entraria em contato comigo. Entenderam? A gente nunca falou sobre isso, mas todo mundo achava que vocês acabariam descobrindo. Agora os rapazes provavelmente estão se perguntando se valeria a pena me procurar quando tivessem algum problema, sabendo que Tokura-sensei apareceria no meu lugar. O que foi, Sr. Hasegawa? Sim, eu me lembro de quando você teve aquele problema na aula de educação física.Você me disse que era sério, mas no quadro geral, era algo bem simples. Na verdade, duvido que precisem de mim mais do que duas ou três vezes no ano.Tenho certeza de que quando me mandam uma mensagem dizendo que querem morrer, vocês realmente acreditam de alguma forma que “a vida não tem sentido”, como gostam de dizer. E tenho certeza de que, nessa cabecinha egoísta, vocês acham que estão completamente sozinhos nesse mundo gigantesco, e que seus problemas são avassaladores. Preciso dizer que pouco me interessa responder aos caprichos adolescentes 12


de vocês; estou mais preocupada em vê-los crescer para um dia serem capazes de pensar no sentimento dos outros – por exemplo, no sentimento de quem recebe essas mensagens irresponsáveis no meio da noite. Para ser honesta, duvido que uma pessoa deveras desesperada, que esteja realmente pensando em fazer alguma coisa drástica, mande um e-mail contando o fato para a professora.

Agora vocês devem estar imaginando que nunca fui aquele tipo de professora que pensa nos alunos vinte e quatro horas por dia. Sempre houve alguém mais importante para mim – minha filha, Manami. Como sabem, eu fui mãe solteira. Descobri que estava grávida pouco antes de eu e o pai de Manami decidirmos nos casar. Ficamos um pouco decepcionados com o “casamento às pressas”, como dizem, mas na verdade estávamos maravilhados com a possibilidade de termos um bebê. Comecei com o cuidado prénatal, e achamos que faria sentido se meu noivo fizesse um exame geral. A gente não esperava, mas os exames revelaram que ele tinha uma doença terrível, e então paramos de falar no casamento. Se foi por causa da doença? Sim, foi esse o motivo. Se foi difícil para ele aceitar? Com certeza, Srta. Isaka. É claro que alguns noivos se casam mesmo quando alguém está doente. Escolhem encarar o problema juntos. Mas o que vocês fariam numa situação dessas? O que fariam se descobrissem que seu namorado ou sua namorada estivesse infectado com HIV? HIV, vírus da imunodeficiência humana, mais conhecida como aids. Mas a maioria aqui já deve saber do que se trata, por causa do romance que leram para fazer o trabalho do trimestre passado. Tantos alunos disseram no relatório que choraram com o final, que eu mesma resolvi ler o livro. Para quem escolheu o outro livro, vou resumir a história: é sobre uma garota que contrai HIV enquanto trabalha como prostituta, acaba desenvolvendo aids e morre. Como assim? Você não acha que a história é simples assim? Acha que a heroína do livro desperta mais compaixão do que deixei transparecer? Entendo o que diz, mas se vocês sentiram tanta 13


simpatia pela garota do livro, por que muitos se sobressaltaram na cadeira quando ouviram o que aconteceu com meu noivo? Se vocês têm tanta simpatia por alguém com aids, por que chegaram para trás quando descobriram que a professora aqui na frente transou com uma pessoa infectada com HIV? Você parece particularmente incomodada, Srta. Hamazaki, sentada aí na primeira fila, mas não precisa prender a respiração. O HIV não é transmissível pelo ar. Na verdade, ninguém pega aids com aperto de mão, por causa de uma tosse ou um espirro, nem por compartilhar o banheiro, a piscina, por usar o mesmo prato, nem pela picada de um mosquito ou pelo contato com animais. Em geral, nem pelo beijo se transmite HIV. Ninguém pega aids por ter um contato mais próximo com uma pessoa infectada, e nunca ninguém pegou por simplesmente estar na mesma sala que uma pessoa infectada, embora eu saiba que no livro não se fala de nada disso. Me desculpem por fazer tanto suspense, mas eu também não estou infectada. Não fiquem tão chocados. É verdade que a relação sexual é um dos modos de transmissão do HIV, mas nem todo ato sexual resulta numa infecção. Fiz um teste durante a gravidez e o resultado foi negativo, mas como era quase inacreditável, repeti o teste várias vezes. Foi só depois, quando descobri a verdadeira taxa de infecção através do sexo, que entendi por que escapei, mas não vou falar das estatísticas porque sei muito bem como vocês se deixam influenciar por elas. Se quiserem saber, fiquem à vontade para procurar sozinhos. Meu noivo contraiu o vírus no exterior, numa época em que ele não se importava muito com a própria vida. Acho que era difícil aceitar que ele tinha feito algumas loucuras no passado. Foi um choque horrível descobrir que o homem com quem eu planejava me casar estava infectado com HIV, e apesar dos meus exames darem negativo, eu continuava preocupada. Mesmo depois de ter certeza que eu não tinha nada, passava noites e noites acordada pensando na criança no meu ventre. Embora eu nunca tivesse desrespeitado meu noivo, não vou negar que às vezes eu 14


o odiava pelo que tinha feito. E acho que ele sentia isso. Ele me pedia desculpas o tempo inteiro e implorava para que eu tivesse o bebê. Mas confesso que a ideia de terminar a gravidez nunca me passou pela cabeça. Apesar do que os outros falam, para mim, aborto é assassinato. Também preciso dizer que meu noivo não teve pena de si mesmo depois de descobrir que tinha aids. Ao contrário, parecia acreditar que estava simplesmente sofrendo as consequências de suas ações, e sempre teve o cuidado de diferenciar sua situação da de hemofílicos e outras pessoas que contraíram o vírus sem ter culpa nenhuma. Mesmo assim, não consigo imaginar o desespero que ele devia sentir. Com o tempo, vi que eu estava agindo errado – em parte porque eu queria muito que meu bebê tivesse um pai – e disse a ele que deveríamos nos casar, pois, agora que entendíamos a situação, descobriríamos juntos uma forma de encarar o problema. Mas ele era teimoso e não aceitou, havia decidido terminantemente que a felicidade da criança estava acima de qualquer coisa. O preconceito com portadores de HIV no Japão é terrível – e se quiserem uma prova, basta se lembrarem de como prenderam a respiração agora há pouco, pensando que eu estava infectada. Mesmo que a criança não tivesse o vírus, como seria tratada quando todos soubessem que o pai tinha aids? Se fizesse amigos, será que seus pais os deixariam brincar com ela? Quando tivesse idade escolar, será que as outras crianças, ou até os professores, a tratariam mal e a obrigariam a sair da lanchonete, da aula de educação física ou de algum outro lugar onde pudesse ocorrer algum problema? É claro, uma criança sem pai já enfrenta algum preconceito, mas os desafios são muito mais simples, e no final é muito mais fácil ser aceita. De todo modo, decidimos cancelar o casamento. Eu cuidaria sozinha da minha filha. Quando Manami nasceu, os exames mostraram que ela também não tinha HIV. Vocês não fazem ideia do quanto fiquei aliviada. Me convenci de que seria a melhor mãe do mundo para ela, que a protegeria a todo custo, e depositei todo meu amor na minha filha. 15


Se me perguntassem quem era mais importante, meus alunos ou minha filha, eu teria respondido sem pestanejar que minha filha era muito mais importante. O que, obviamente, era natural. Manami me perguntou só uma vez sobre o pai. Eu disse que ele trabalhava muito, que trabalhava tanto que não conseguia visitá-la. O que, no fundo, não era mentira. Depois de abdicar do direito de ser o pai de Manami, ele se afundou no trabalho como se o resto de sua vida dependesse disso. Mas o sacrifício dele acabou não fazendo sentido nenhum. Manami não está mais com a gente.

Quando Manami completou um ano de idade, eu a coloquei numa creche e voltei a lecionar. Nas grandes cidades, as creches cuidam das crianças até anoitecer, mas aqui no interior, o horário máximo é seis horas. Consultei uma agência de empregos para senhoras que procuram emprego de meio período e encontrei a Sra. Takenaka. Ela mora bem atrás da piscina da escola. Sim, isso mesmo, aquela casa com um cachorrão preto chamado Muku. Eu sei que alguns de vocês já deram as sobras do lanche para Muku, passando pela cerca. Às quatro horas, quando a creche fechava, a Sra.Takenaka pegava Manami e ficava com ela até eu sair do trabalho. As duas ficaram bastante apegadas. Manami adorava a Sra. Takenaka e a chamava de vovó, e também adorava Muku, e tinha orgulho das vezes em que a Sra. Takenaka a deixava alimentá-lo. Esse esquema durou três anos, mas no começo desse ano, a Sra. Takenaka adoeceu e foi internada no hospital. Como éramos muito próximas, não me senti confortável em procurar uma substituta simplesmente por ela ficar de cama algumas semanas, então decidi que eu mesma buscaria Manami na creche enquanto a Sra.Takenaka melhorava. De modo geral, tudo funcionou muito bem, pois a creche se dispôs a ficar com Manami até as seis, e nesse horário eu costumava já ter acabado meus afazeres na escola. Mas a reunião de professores às quartas durava até mais tarde, então nesse dia eu pegava Manami às quatro e a deixava esperando 16


por mim na enfermaria. Srta. Naitō e Srta. Matsukawa, vocês costumavam brincar com ela nesses dias, não é? Muito obrigada, de verdade. Ela adorava aquelas tardes. Uma vez ela me contou que vocês disseram que ela se parecia com o personagem predileto dela, o Coelhinho Fofo. Ela ficou felicíssima. Por favor, não chorem, meninas. São boas lembranças. Manami adorava coelhos e adorava tudo que era macio e peludinho. Então é claro que gostava do Coelhinho Fofo, mas não era diferente da maioria das meninas no Japão, até as do ensino médio. Tudo que ela usava – a mochila, o lencinho, os sapatos, até as meias – tinha a carinha do coelho. Ela pulava no meu colo toda manhã com as presilhas de coelhinho e me pedia para prender o seu cabelo, e nos fins de semana, quando íamos ao shopping, ela sempre via algum produto novo do Coelhinho Fofo que enchia os olhos dela de brilho. Cerca de uma semana antes de Manami morrer, nós fomos passear no shopping. Havia uma vitrine cheia de chocolates, incluindo uma variedade enorme de embalagens especiais, provavelmente para meninas que quisessem presentear outras meninas, e não para os garotos. Manami correu até a vitrine e logo viu um Coelhinho Fofo – uma barra de chocolate branco na forma do coelhinho, que vinha dentro de uma pochete felpuda também na forma do coelhinho. É claro que ela quis que eu comprasse, mas tínhamos uma regra: ela só podia comprar um produto quando fôssemos ao shopping, e eu já tinha comprado um moletom do coelhinho – aquele cor-de-rosa, que ela estava usando no dia em que morreu. Falei que compraria o chocolate da próxima vez que fôssemos ao shopping e comecei a afastá-la da vitrine. Normalmente, ela me seguiria sem reclamar. Mas, por algum motivo, naquele dia foi diferente. Ela se sentou no meio da loja e começou a chorar, dizendo que não queria o moletom e que era para eu comprar o chocolate. Mas regras são regras, e eu não ia deixar ela se dar bem com esse tipo de comportamento. Pensei comigo mesma que compraria o chocolate depois, quando estivesse sozinha, e daria para ela no Valentine’s Day, 14 de fevereiro. Eu a lembrei da 17


nossa regra e disse que ela precisava se comportar. Como mãe, eu teria de aprender que havia uma diferença muito clara entre amar nossos filhos e mimá-los. Mas, nesse instante, o Sr. Shitamura por acaso apareceu do nada. Acho que você estava observando tudo, porque surgiu de repente e deu sua opinião sem que ninguém pedisse. Deve ter pensado que eu estava sendo irracional por negar a Manami uma coisa que custava apenas 700 ienes. Felizmente, Manami ficou com vergonha quando você a viu sentada no chão dando um chilique, acalmou-se e se levantou.“Tudo bem”, ela disse, enchendo as bochechas de ar e fazendo aquele biquinho. “Mas da próxima vez eu vou querer com certeza”. Depois sorriu pra você, acenou e fomos embora. É claro que me arrependi de não ter comprado o chocolate naquele dia. Quando o Valentine’s Day chegou, Manami já tinha partido. A reunião de professores acabou antes das seis naquele dia. As enfermeiras da escola participaram da reunião, por isso a enfermaria estava vazia. Mas várias alunas tinham a bondade de cuidar de Manami até a escola fechar, às seis, então ela reclamava por ter ficado sozinha ou entediada, e estava sempre me esperando quietinha quando eu saía da reunião. Naquele dia, no entanto, ela não estava na enfermaria. Olhei no banheiro, mas ela também não estava lá. As atividades da escola estavam quase acabando, e pensei que ela poderia ter saído para procurar as meninas em alguma sala. Comecei a procurar em todas as salas, sem me preocupar muito com a situação. Encontrei a Srta. Naitō e a Srta. Matsukawa, e vocês me disseram que foram brincar com Manami na enfermaria por volta das cinco horas, e como não a encontraram lá, acharam que ela não tinha vindo para a escola naquele dia. E se juntaram a mim na busca por ela. Já estava escuro, mas ainda havia algumas pessoas na escola – todos começaram a procurar. Sr. Hoshino, foi você que a encontrou depois da partida de beisebol.Você disse que a tinha visto naquele dia vindo da direção da piscina, e foi comigo até lá procurá-la. O portão estava fechado por causa do inverno. Tivemos que escalar a cerca e pular, 18


mas como a corrente do portão estava folgada, uma criança pequena como Manami passaria facilmente pela fresta. A piscina estava cheia, mesmo que não houvesse mais aulas de natação até o fim do ano. A água estava escura e turva, mas ninguém esvaziava a piscina por motivo de segurança: a água podia ser usada em caso de incêndio. Encontramos Manami boiando na superfície. Nós a retiramos da água o mais rápido possível, mas o corpo dela estava gelado, e o coração tinha parado. Mesmo assim, continuei chamando seu nome, tentando reanimá-la. Apesar do choque de ver o corpo de Manami, o Sr. Hoshino saiu correndo para chamar os outros professores. Já no hospital, Manami foi dada como morta por afogamento. Como não havia marcas de agressão, a polícia concluiu que ela caiu na piscina por acidente. Já estava escuro quando encontramos Manami. Como eu estava perturbada, não havia motivo para perceber isso, mas eu me lembro de ver o focinho de Muku farejando entre a cerca que separava o jardim da Sra.Takenaka da piscina da escola. Os policiais encontraram pedacinhos de pão naquela área, do mesmo tipo que a creche serviu para Manami naquele dia. Vários alunos disseram ter visto Manami na área da piscina, e concluímos que ela tinha o hábito de ir até lá toda semana. Os vizinhos cuidavam de Muku enquanto a Sra. Takenaka estava no hospital, mas não havia como Manami saber disso, e talvez tivesse pensado que o cachorro morreria de fome se ela não desse pão a ele. Deve ter ficado com medo de eu brigar se descobrisse, então ela sempre ia sozinha e evitava que a vissem. Segundo os alunos que viram esses pequenos passeios, ela nunca ficava por lá mais do que dez minutos. Obviamente, eu não sabia de nada disso. Quando perguntava o que tinha feito enquanto me esperava, ela se virava para mim com os olhinhos travessos e dizia que estava brincando com as garotas. Eu devia ter percebido que estava escondendo alguma coisa e pressionado um pouco mais. Se eu tivesse feito isso, talvez ela não fosse à piscina naquele dia. Manami morreu porque eu deveria estar cuidando dela e não fui vigilante o suficiente. Também lamento muito o choque que 19


isso causou na escola toda. Já se passou mais de um mês, e ainda estico o braço no futon toda manhã na esperança de encontrar Manami aninhada comigo. Quando íamos dormir à noite, ela sempre encostava o corpo no meu, para garantir que estivéssemos nos tocando de alguma maneira; se eu me afastasse um pouco, ela se encostava em mim de novo. Quando eu cedia e segurava-lhe a mão, ela relaxava e caía no sono. Toda manhã eu choro quando estico o braço e percebo que nunca mais sentirei as bochechas suaves dela, ou seu cabelo macio. Quando pedi minha demissão ao diretor, ele me perguntou se era por causa do que tinha acontecido com Manami – exatamente o que vocês pensaram hoje, Srta. Kitahara. É verdade que resolvi sair por causa da morte de Manami. Mas também é verdade que se a situação fosse outra, provavelmente eu continuaria lecionando para expiar minha culpa, distrair minha mente. Então por que pedi demissão? Porque a morte de Manami não foi acidente. Ela foi assassinada por alguns alunos desta turma...

Fico pensando quantos de vocês sabem sobre os limites de idade que a sociedade impõe a certas coisas, e como se sentem em relação a esses limites. Por exemplo, quantos anos vocês precisam ter para comprar bebidas alcoólicas? Sr. Nishio? Isso mesmo, vinte anos. Fico feliz que conheçam essas regras. No Japão, as pessoas são consideradas adultas perante a lei quando completam vinte anos, e todo ano os jornais mostram na televisão um monte de novos adultos se embriagando e passando ridículo no Réveillon, quando comemoram a maturidade. Pode parecer esquisito que esses jovens todos se esbaldem, como que seguindo uma deixa, exatamente nesse momento da vida, e é claro que o fato de estarem sendo filmados pela televisão tem alguma coisa a ver com isso. Mas também é verdade que esse espetáculo todo nunca aconteceria se não tivéssemos uma regra que proíbe as pessoas de beber antes dos vinte anos. O fato de a 20


sociedade permitir o consumo de álcool a partir dos vinte não significa que ela aconselhe as pessoas a beber, ou a ficarem bêbadas. Mesmo assim, o limite legal para beber ajuda muito a promover a ideia de que estarão perdendo alguma coisa se não beberem quando ficarem mais velhos, mesmo que não sintam vontade nenhuma de usar álcool. Mas acho que o limite de idade tem um propósito – sem ele, alguns de vocês poderiam aparecer bêbados aqui no meio da aula. E imagino que alguns de vocês não dão a mínima para o que diz a lei e já começaram a beber, talvez incitados por um tio ou um amigo mais velho. Acho que é muito idealista achar que as pessoas desenvolvem sozinhas seu senso de ética. Acho que estou sendo muito vaga e que vocês não entendem o que estou querendo dizer. Ou talvez estejam tão ocupados pensando na identidade dos assassinos que não conseguem pensar em outra coisa. Devem estar com medo de estar na mesma sala que alguém capaz de cometer esse crime, mas imagino que a curiosidade esteja controlando todos vocês agora. Também vejo no rosto de vocês que alguns já desconfiam dos assassinos, e outros até já sabem quem são. Mas o que me choca mesmo é ver os assassinos sentados aí, calmamente, enquanto conto toda essa história. Talvez “chocar” não seja o verbo exato; acho que não estou nem um pouco chocada. Porque também sei que um dos dois assassinos na verdade queria que tudo fosse descoberto. Já o outro, que ficou pálido há poucos minutos, quando falei que sabia o que fizeram, parece até que vai desmaiar. Mas não se preocupem. Não vou revelar o nome de vocês agora, na frente da turma inteira. Todos devem saber alguma coisa sobre a Lei Juvenil, não é? A lei se baseia na ideia de que adolescentes ainda são imaturos e estão no processo de se tornarem adultos, então, quando necessário, o Estado, no lugar dos pais, deve encontrar a melhor maneira de reabilitar jovens infratores. Quando eu era jovem, isso significava que o adolescente que cometesse algum crime antes dos dezesseis anos, mesmo que fosse um assassinato, era atendido pela Vara da Família e muitas vezes nem ia parar nos centros para jovens infratores. 21


A Lei Juvenil mudou completamente na década de 1990 quando adolescentes de quatorze e quinze anos começaram a cometer os crimes mais horrendos. Vocês eram novinhos, mas tenho certeza de que muitos devem ter ouvido falar do que aconteceu em Kōbe, onde um rapaz, uma criança ainda, matou várias crianças e decapitou uma delas. Sei que vocês saberiam do que estou falando se eu mencionasse o nome que o assassino usava nos bilhetes de ameaça que escrevia. Esse caso e outros parecidos deram início a um debate sobre a necessidade de mudar a Lei Juvenil. Em abril de 2001, o governo aprovou uma nova versão que reduzia a maioridade penal de dezesseis para quatorze anos. Mas a maioria aqui tem treze anos. Então o que significa a idade, exatamente? Acho que devem se lembrar de um caso mais recente, a história do envenenamento de uma família inteira, no ano passado. A menina que cometeu o crime era da idade de vocês, e estava no sétimo ano. Durante as férias de verão, ela começou a misturar um tipo de veneno no jantar da família e a escrever num blog as mudanças que observava nas vítimas. Mas parece que ficou decepcionada com os efeitos do veneno. Então uma noite acabou misturando cianeto de potássio no curry e matou os pais, a avó e o irmão pequeno, que ainda estava no jardim de infância. Vocês devem se lembrar da última coisa que ela escreveu no blog: “O cianeto deu certo!”. Os jornais e a televisão só falaram nisso durante semanas. Isso mesmo, Srta. Sonezaki, foi o caso da Luna, como ficou conhecido, vocês se lembram bem desse nome. Na mitologia romana, Luna representa a lua ou a deusa da lua. O adjetivo “lunático” passou a significar “louco”, “psicótico” e até “inconstante”. A TV e os jornais escolheram a palavra porque ela a usou no blog, e muita gente especulou que ela devia ter dupla personalidade – o que mais explicaria uma menina tranquila e séria se transformar numa lunática desequilibrada? O caso todo se transformou num espetáculo midiático. E talvez algumas pessoas aqui na sala saibam o que aconteceu com ela, qual foi a punição que recebeu. Apesar da publicidade e do nome 22


extravagante do caso, como ela era menor de idade, seu nome nunca foi divulgado, e nenhuma fotografia de seu rosto apareceu na imprensa. Só vimos relatos exagerados do crime e conjecturas vagas sobre o estado mental da garota, até que a história foi desaparecendo junto com todo o conhecimento da verdade. Mas esse tipo de reportagem e de informação pública é mesmo necessário? A única coisa que a imprensa fez foi plantar na cabeça das crianças a existência desse tipo de crime desumano, e encorajar uma minoria risível de pessoas parecidas que admiram ou idolatram esse tipo de crime irracional. Se querem saber minha opinião, já que vamos esconder o nome e a imagem desses menores criminosos, também deveríamos evitar a divulgação dos apelidos chamativos que eles usam para anunciar seus crimes. Ela se chamava de “Luna” no blog, mas como só podia ser identificada na imprensa como “Srta. A”, talvez devessem inventar algum apelido humilhante para o nome que ela usava no blog. Poderiam cobrir com uma tarja a palavra “Luna”, ou substituí-la por “Fracassada” ou “Imbecil”. Digo o mesmo para o caso da decapitação em Kōbe, a gente devia ter rido dos desenhos ridículos e dos sorrisinhos que aquele garoto patético usou para assinar os bilhetes. Que imagem surge na cabeça das pessoas quando tentam imaginar o rosto da garota Luna? Pensem por um momento. Uma garota jovem e bonita chamaria a si mesma de lunática? Se a lei proíbe a imprensa de divulgar a imagem de menores assassinos, por que nos deixa imaginar alguém bonito? Divulgam uma imagem falsa em vez de uma lunática abominável, de sorriso arreganhado e cara de demônia. Por que não mostrar exatamente o que se parece esse tipo de ser humano? Se em vez disso optamos por mimá-los e paparicá-los, não estamos apenas alimentando seu narcisismo? E não haveria ainda mais crianças tolas no mundo para idolatrálos? Afinal de contas, quando uma criança comete esse tipo de crime, não deveria ser responsabilidade do mundo adulto lidar com a questão da forma mais discreta possível e fazer o criminoso entender com muita clareza a gravidade do que fez? Essa menina Luna vai passar alguns anos em algum centro de infratores, talvez 23


escreva um pedido de desculpas e depois será solta e reintegrada à sociedade sabendo que escapou impune. Vocês provavelmente não sabem, mas a maior crítica durante esse caso não foi à garota em si, mas ao seu professor de Ciência do ensino médio.Vou chamá-lo de T para proteger sua identidade, mas todos sabiam que a seriedade de T como professor era um pouco fora do comum – ele só se preocupava com a realização acadêmica dos alunos, e reclamou muitas vezes que o currículo de ciências era tolhido por causa da obsessão com a segurança, e por causa disso os professores só podiam realizar em sala de aula os experimentos simples e inofensivos. Se eu o conhecia? Na verdade, tive a chance de conversar com ele na Feira Nacional de Ciências poucos dias antes de o incidente acontecer. A garota disse a T que havia esquecido o caderno na sala e perguntou se podia entrar para pegar. Ele estava no meio de uma reunião de pais e, como era uma aluna estudiosa e comportada, entregou a ela todo seu chaveiro sem pensar duas vezes. A polícia descobriu que ela comprava a maioria dos produtos de seu coquetel de veneno na farmácia local ou pela internet, mas conseguiu o cianeto de potássio no laboratório da escola, e T foi condenado por todo mundo por ser relaxado demais com uma substância tão perigosa. E não parou por aí. Surgiram boatos horrorosos, e falsos, de que ele teria seduzido a garota, e T acabou sendo obrigado a largar o emprego. Ele sofre até hoje as consequências, mesmo que a atenção da imprensa tenha acabado. A esposa dele, que não conseguiu lidar com as calúnias infindáveis, está internada no hospital com esgotamento nervoso, e o filho mudou de escola e foi morar com uma tia em outra região. Hoje ele não tem mais o sobrenome do pai, só o da mãe. Pouco tempo depois, todos os professores de ciências receberam uma circular da secretaria de educação exigindo um inventário periódico de todos os produtos químicos controlados ou potencialmente nocivos. Para ser sincera, ninguém precisa de cianeto de potássio no laboratório da escola, e por mais que T tivesse seus motivos para 24


manter a substância, entendo perfeitamente a razão de questionarem o fato de ele ter entregado as chaves com tanta facilidade. Embora a gente não tenha cianeto de potássio aqui na escola, temos outras coisas que poderiam ser usadas para matar alguém. Guardamos a chave do armário de produtos químicos numa gaveta à qual os alunos não têm acesso, mas e se o vidro fosse quebrado por algum aluno... como prever o que aconteceria? Mesmo que eliminássemos todos os produtos perigosos, ainda restariam as facas da lanchonete, ou as cordas de pular no ginásio, que poderiam muito bem ser usadas para enforcar alguém. E se vocês trazem um canivete para a escola, nenhum professor tem direito de confiscá-lo. Vocês poderiam entrar aqui com um canivete já dispostos a matar alguém, mas se disserem que só estão tentando se proteger de algum ataque no caminho para a escola, não podemos fazer nada. Se reclamamos com nossos superiores, eles dizem para “ficarmos mais atentas”. Só se vocês usarem o canivete para machucar alguém, ou se acontecer algum acidente, é que temos o direito de tirá-lo de vocês – mas aí é tarde demais, e com certeza alguém vai nos criticar por não termos evitado uma tragédia, já que sabíamos do canivete. De quem é a culpa nesses casos? De professores negligentes? Será que a morte de Manami foi mesmo minha culpa? O que eu deveria ter feito?

O velório de Manami foi privado e muito tranquilo. Sei que muitos de vocês queriam ir, e sinto muito por não poder convidar ninguém. Uma parte de mim queria que todos pudessem se despedir dela, mas achei que a presença do pai dela era mais importante. Eles só tinham se encontrado uma vez, no final do ano passado. Eu não sabia de nada, e só me dei conta quando estava assistindo televisão com Manami certa noite e ela apontou de repente para a tela. “Conheci esse moço ali”, disse ela. Achei que meu coração ia parar. Perguntei o que tinha acontecido, e ela disse que ele estava do outro lado da cerca na creche, olhando ela brincar no balanço. 25


Quando os dois se viram por acaso, ele acenou para que ela fosse até a cerca. Manami não entendeu como ele sabia o nome dela, e ele perguntou se ela estava feliz. Ela disse que sim, e ele sorriu. “Que bom!”, disse ele, e foi embora. Tive quase certeza de que esse homem era o pai dela. A segurança da creche foi reforçada recentemente, e até os moradores da vizinhança são questionados quando ficam parados muito tempo perto da cerca. Mesmo assim, o pai de Manami dificilmente levantaria alguma suspeita. E mesmo se alguém o abordasse, ele poderia inventar alguma desculpa, e quando fosse reconhecido, seria convidado para entrar por ser um professor famoso. Depois de ouvir a história de Manami, fiquei imaginando como devia estar a saúde do pai dela, e pela primeira vez desde que nos separamos – pela primeira vez em cinco anos –, eu telefonei para ele. Foi quando descobri que ele já estava sofrendo dos sintomas da aids. A personagem do livro que vocês leram adoeceu rapidamente, mas na verdade o período de incubação do vírus varia de cinco a dez anos. No caso dele, demorou quase quatorze anos, um tempo bem longo. Bem, eu não soube direito o que dizer quando ele me contou, mas antes mesmo de responder qualquer coisa ele me prometeu, com uma voz triste, que nunca mais tentaria ver Manami. Não havia nenhum sinal do homem cheio de energia que aparece na televisão. Perguntei se ele gostaria de viajar com a gente nas férias de inverno para algum lugar. Não ofereci por ter pena de um homem que estava morrendo – eu só queria passar alguns momentos com ele como se fôssemos uma família. Ele recusou com o mesmo tom de voz. A primeira vez que ele abraçou Manami foi depois que ela já tinha morrido. Ele velou o corpo junto comigo naquela mesma noite. Abraçou-a, chorou e pôs a culpa pelo ocorrido em seu próprio passado cheio de faltas. Dizem que quando as lágrimas acabam a gente para de chorar, mas parece que isso nunca aconteceu conosco. Nós dois nos vimos nutrindo a vã esperança de que as lágrimas acabassem, e nos arrependendo amargamente de nunca termos passado um momento juntos, a três. 26


Acho que já falei demais dos meus arrependimentos para vocês. Depois do funeral, muitas pessoas foram até minha casa para oferecer seus sentimentos, inclusive as professoras da creche e os coleguinhas de classe. Pedimos para que ninguém levasse dinheiro para contribuir com as despesas, como manda a tradição, então todos levaram coelhinhos de pelúcia e doces, e colocaram na frente da foto de Manami. Acho que ela descansa mais tranquila cercada dos coelhinhos que tanto amava, ou pelo menos é o que digo para mim mesma. A Sra.Takenaka foi me visitar na semana passada assim que saiu do hospital, exatamente um mês depois da morte de Manami. Ela se ajoelhou diante do meu altar, chorou e pediu desculpas ao espírito de Manami. Ela leu nos jornais que Manami tinha ido até a área da piscina para alimentar o cão, e foi consumida pela sensação de ter sido um pouco responsável pela morte de Manami. Como o incidente ocorreu dentro da escola e eu estava exausta, pedi para o diretor verificar as matérias para mim antes de serem publicadas, mas quando soube que a Sra. Takenaka havia lido tudo, me arrependi. Aí estão eles de novo – mais arrependimentos. A Sra.Takenaka juntou todas as coisas que Manami tinha deixado na casa dela e levou para mim numa sacola de papel. Uma muda de roupas e uma calcinha, os pauzinhos e a colher, bichos de pelúcia e alguns brinquedinhos. Mas no meio desses objetos que eu tanto conhecia, hoje transformados em lembranças dolorosas, havia um que não me era familiar: uma pochete no formato da cabeça do Coelhinho Fofo, feita de um tecido aveludado e macio. Exatamente a pochete que Manami queria, a pochete que me recusei a comprar. Por que havia uma delas na sacola da Sra. Takenaka? Manami sempre me contava quando a Sra. Takenaka ou outra pessoa lhe dava alguma coisa, mesmo que fosse um pedacinho de doce. A pochete, disse a Sra. Takenaka, apareceu na casinha de Muku, o que explicaria o fato de ela estar um pouco desgastada em alguns pontos. Mas ela achou que Manami poderia sentir falta, então levou para colocar no altar junto com as outras coisas, apesar dos estragos. 27


Agradeci por ela ser tão bondosa com Manami e por me visitar depois de recuperada, e a levei de carro até sua casa. Muku estava brincando com uma bola de beisebol no quintal coberto de grama. Segundo a Sra. Takenaka, a bola tinha vindo da escola, mas achei improvável que até o melhor batedor do time pudesse acertar uma bola e fazê-la ultrapassar as redes, a piscina e cair no quintal. Ela explicou que às vezes via alguns alunos limpando a piscina depois da aula e brincando no deque com algumas bolas – provavelmente aquela devia ser deles. A punição para pequenas infrações na escola era a tarefa de limpar a piscina ou o ginásio de esportes, e eu tinha me esquecido de que alguns alunos desta turma tinham recebido essa punição nos últimos meses. Será que Manami estava sozinha na piscina naquele dia? De repente, comecei a duvidar disso. Quando cheguei em casa, examinei com cuidado a pochete de coelhinho. Ela era mesmo de Manami? Se sim, quem havia comprado para ela? Segurando-a na mão, senti que estava pesada demais. Abri o zíper e encontrei por baixo do tecido fininho do forro uma espécie de circuito. Lutando contra uma suspeita horrível, vim para a escola no dia seguinte e chamei dois alunos para conversar separadamente... Pelo barulho lá fora, parece que as outras turmas estão saindo. Se algum de vocês tiver alguma atividade agora, algum curso depois da aula ou simplesmente quiser sair, pode ir embora. Sei que o assunto é desagradável e que estou falando disso há muito tempo. O que tenho para falar agora é ainda mais desagradável – se não quiserem escutar, podem sair. Ninguém? Vou concluir que estão ficando por livre e espontânea vontade. A partir de agora, vou chamar os dois assassinos de A e B.

Não havia nada em A que me chamasse a atenção em seus primeiros meses aqui na escola. Pelo que parecia, ele tentava impressionar os outros meninos da sala, mas eu não sabia disso e só comecei a notá-lo melhor depois das provas do primeiro trimestre. Ele tirou dez em tudo, e como foi o único da série inteira a 28


conseguir essa proeza, não só vocês aqui na sala souberam das notas dele, mas as outras turmas também. Sei que a maioria aqui sentiu orgulho por ele, mas descobri que alguns alunos das outras turmas não gostaram muito disso. O comentário de um outro aluno, que vou chamar de C, chegou até mim. Aparentemente, C já havia estudado com A, e disse que A tinha uma vantagem injusta porque fazia “experimentos com animais vivos”. Fiquei muito preocupada quando ouvi isso e chamei C para conversar comigo no laboratório de ciências. Ele só concordou em falar do que sabia se eu não contasse para ninguém. E então ele me falou que, no sexto ano, A inventou um dispositivo que chamava de Máquina Mortífera: pegava gatos e cachorros da vizinhança e os torturava até a morte. C começou a falar com tranquilidade, de cabeça baixa e olhando para a mesa, mas aos poucos foi ficando agitado. “Ele fotografava os bichos mortos e postava no site dele!”, concluiu C, como se descrevesse uma descoberta própria, e eu me lembro de sentir arrepios por notar o quanto ele admirava o que A tinha feito. Fiz ele me contar qual era o site antes de ir embora, depois corri até o computador na sala dos professores para dar uma olhada. Não havia nada lá, apenas uma mensagem escrita com uma fonte macabra: “Nova máquina em desenvolvimento. Aguardem”. Não havia nada mencionando esse fato nos documentos que recebemos da escola onde A estudou antes, mas, por precaução, telefonei para o professor conselheiro da turma dele de sexto ano.“Não, nunca ouvi nada disso. Ele era um aluno excelente e tirava notas ótimas”, ele respondeu, sem nenhum interesse na minha ligação. Nas semanas seguintes, fiquei de olho em A, mas, como já disse, ele é um garoto sério que parece se comportar muito bem na escola e na vida em geral – um aluno exemplar, na verdade –, e em pouco tempo eu já não prestava atenção nele.Vocês podem até me chamar de ingênua, mas eu estava ocupada demais com outras coisas na escola. Um dia, mais ou menos em meados de junho, eu estava sozinha no laboratório preparando um experimento para a turma do nono ano quando A veio até mim. Ele observou o experimento com muito interesse, depois me perguntou o que eu tinha estudado na faculdade. 29


Quando disse que havia me formado em química, ele perguntou se eu entendia de dispositivos elétricos. Eu tinha estudado física também, mas quando me lembrei que o pai de A era dono de uma loja de eletrônicos, respondi que ele devia saber muito mais do que eu. Nesse momento, ele pegou um porta-moedas pequeno, feito de couro sintético, com um zíper. Uma bolsinha que não tinha nada de mais, era do tipo que a gente compra em qualquer lugar. Perguntei o que era aquilo e ele esticou a mão para mim. “Abra”, disse ele. “Tem uma surpresinha aí dentro”. Eu sabia que era algum truque e peguei a bolsinha com todo cuidado. Parecia pesada demais para o tamanho que tinha, e imaginei que devia haver alguma coisa dentro. Torcendo para não levar um susto com um sapo ou uma aranha, segurei a ponta do zíper e levei um choque. De início, pensei que pudesse ser eletricidade estática, o que seria impossível num dia chuvoso do mês de junho. Enquanto olhava para a bolsinha e para os meus dedos, A me disse: “Muito legal, não é? Demorei mais de três meses para fazer”. Ele parecia orgulhoso de si. “Mas o choque nem foi tão forte assim, achei que seria maior”. Mal consegui acreditar no que tinha escutado. “Quer dizer que você estava me usando de cobaia?” “O que é que tem?”, disse ele, rindo, na maior tranquilidade. “Vocês não ingerem substâncias ou levam choque o tempo todo fazendo experimentos de química e biologia? É só controlar a quantidade.” Lembrei-me do que C tinha me dito e do site que falava sobre uma nova máquina em desenvolvimento. “Por que você criou uma coisa perigosa desse jeito?”, perguntei.“O que está planejando fazer? Matar animais pequenos?” Meus dedos ainda latejavam por causa do choque. A deu um showzinho exagerado como se estivesse surpreso, parecia um comediante imitando uma pessoa perplexa. “Por que você ficou tão irritada?”, disse ele. “Não acredito que você não achou legal. Deixa pra lá, vou mostrar pra quem goste.” Depois puxou a bolsinha da minha mão e saiu. 30


Na reunião de professores daquela semana, contei que A tinha feito um porta-moedas que dava choque, expliquei como aquilo podia ser perigoso, e também relatei o que ele fazia no sexto ano, de acordo com o que C havia me contado. Mas eles acharam que eu estava falando do equivalente a um choque de estática... o diretor mandou darmos a ele uma advertência mais severa e vigiar seu comportamento. Eu também telefonei para os pais de A, não para acusá-lo, mas para que soubessem que os experimentos do filho podiam ser perigosos, e pedir que ficassem de olho no que ele estava fazendo. A mãe dele não foi muito gentil comigo. “Impressionante você me ligar para falar disso... deve estar muito à toa mesmo”, ela disse, cuspindo ironia.“Principalmente por você ter sua própria filha para cuidar.” Comecei a visitar o site de A todos os dias. Quando ele disse que mostraria a bolsinha “para quem goste”, achei que ele postaria na internet. Mas o site continuava com a mesma mensagem de antes. “Aguardem.” Na semana seguinte, A apareceu de novo com a bolsinha, uma pasta e um documento, pedindo que eu assinasse. Era o formulário de inscrição da Feira Nacional de Ciências, que estava anunciada num cartaz afixado no fundo da sala, e o prazo de inscrição terminava no final de junho. Como faltava pouco tempo, eu mencionei a competição rapidamente em sala de aula. Jamais pensaria que A quisesse se inscrever com aquela bolsinha. No espaço do título, ele tinha escrito: “Porta-moedas que dá choque”. Em “Objetivos”, ele escreveu:“Para proteger seu dinheiro dos ladrões”. Todo o formulário estava preenchido, menos o espaço com o nome e a assinatura do professor responsável. Ele havia aprimorado o projeto, e na descrição dos materiais mencionava uma trava de segurança que o dono podia usar para abrir a bolsinha, mas quem tentasse puxar o zíper sem acionar a trava, levaria um choque. Também havia uma descrição detalhada do projeto e da fabricação, com ilustrações muito bem-feitas. No final, ele escreveu sobre os problemas pendentes, principalmente o fato de o zíper dar um único choque. Propôs continuar 31


trabalhando no protótipo quando entrasse para a faculdade e tivesse conhecimento técnico suficiente, e concluiu com o que considero um floreio infantil proposital:“Vou continuar melhorando a minha invenção até que minha avó possa usá-la sem se preocupar”. O formulário estava preenchido à mão, mas eu sabia que A tinha um computador em casa, e notei que havia se esforçado para parecer um aluno bem aplicado. “Sei que você não me ajudou com o projeto”, disse A depois que olhei rapidamente o formulário. “Mas alguém precisa assinar, e você é a professora conselheira e ainda dá aulas de ciências. Por favor...” Olhei para a folha de papel, sem saber o que fazer, e ele continuou: “Fiz com a melhor das intenções, para proteger as coisas das crianças. Mas você falou que é perigoso. Deixa os jurados decidirem então”. Parecia uma afronta, quase uma declaração de guerra. No fim, ele ganhou e eu perdi. O “Porta-moedas que dá choque” ganhou o Prêmio Regional, que era a primeira etapa, e foi exibido na competição nacional. O projeto foi elogiadíssimo e recebeu menção honrosa, o equivalente a terceiro lugar no país.

Chamei A até o laboratório para descobrir a verdade sobre a morte de Manami. Naquele momento, achei que estava fazendo a coisa certa, mas na verdade eu estava tentando lidar com minha própria culpa. Ao meio-dia, depois das aulas da manhã, ele entrou no laboratório com um sorriso inocente aberto no rosto. Mostrei para ele a pochete do Coelhinho Fofo. “Abra.Tem uma surpresinha aí dentro”, falei, repetindo o que ele havia me dito, mas, é claro, ele se recusou a tocar na pochete. Uma vergonha, de verdade. Ele havia melhorado a invenção, aumentado a potência, igualando à de uma arma de choque. Nada muito difícil. Com uma pesquisa básica, qualquer pessoa conseguiria fazer isso, mas a pergunta é por que alguém gostaria de fazer isso. Quando percebeu o motivo de eu o ter chamado, A começou a contar a história num tom de vitória, como se estivesse esperando aquela 32


oportunidade há muito tempo. Como eu suspeitava, o porta-moedas que ele tinha mandado para a feira de ciências era o protótipo de sua nova Máquina Mortífera. Quando terminou de fazer o primeiro modelo, testou nos colegas com quem jogava videogame. Eles ficaram impressionados, mas não o suficiente para satisfazer A – ele não tinha criado uma simples caixinha de surpresas. Como os garotos não entenderam o que ele havia criado, A resolveu mostrar para alguém que poderia realmente gostar. Foi quando a trouxe para mim. Minha reação não foi das melhores, mas ele entendeu errado. Eu não tinha me assustado com a bolsinha, mas sim com ele, e com o seu jeito de ver o mundo. Mas ele se convenceu de que eu estava assustada por causa do porta-moedas e me provocou de propósito antes de sair, achando que eu ia falar da sua perigosa invenção para os outros professores e colegas de classe. E se enganou de novo. Eu falei do caso na reunião, como já disse, mas ninguém deu a mínima. Ele até pensou em colocar a invenção no seu site, mas teve medo de ninguém entender, então resolveu mostrar para quem pudesse de fato lhe dar o devido valor. Daí veio a ideia de participar da Feira de Ciências. Quase todos os jurados eram professores renomados nas universidades, e A esperava que os especialistas ficassem estarrecidos com a inscrição de um instrumento letal e descrevessem tanto a bolsinha quanto ele como uma ameaça. Assim ele conseguiria a atenção que tanto queria. Mas ele não queria que o projeto fosse rejeitado na primeira etapa, por isso floreou todo o material de inscrição para dar a entender que a motivação do projeto era um senso de justiça infantil – quer dizer, compatível com uma criança de treze anos. Aparentemente funcionou, e tanto ele quanto sua invenção receberam muitos elogios durante todo o concurso. Um dos jurados da etapa nacional, um professor famoso que já apareceu em programas de perguntas e respostas na televisão, se aproximou de A enquanto ele exibia o protótipo na exposição e falou do quanto tinha ficado impressionado. “Eu jamais teria pensado numa coisa dessas”, disse ele, aparentemente. O porta-moedas 33


que impedia furtos chamou atenção por ser algo diferente no meio de tantos tipos de robôs-ajudantes. Mas A entendeu mal mais uma vez. Achou que estava sendo elogiado por suas habilidades técnicas, equívoco comum no entendimento das crianças. Para A, faltava o reconhecimento como o vilão perigoso que ele desejava ser, embora tenha se sentido lisonjeado com as entrevistas que concedeu para os jornais locais. Quando vi sua fotografia e li sobre seu sucesso, me senti aliviada. Achei que ele só queria um pouco de reconhecimento e atenção, e que agora seguiria um caminho mais positivo. Concluí que havia me preocupado sem necessidade e que, no fim, tudo acabaria bem. Um dia, no final das férias de verão, o jornal local publicou uma longa matéria sobre o projeto de A e a feira de ciências. Mas, naquele mesmo dia, o crime de Luna veio à tona, e as primeiras páginas só falavam dessa história. Nos dias que se seguiram, a televisão e as revistas semanais praticamente não falaram em outra coisa. A conquista de A foi mencionada na cerimônia de volta às aulas diante de todos os alunos e professores, mas não se mencionou o elogio que ele recebeu do famoso professor nem a reportagem no jornal. Só se falava no caso de Luna. De que valia para A se tinham falado coisas boas sobre ele? Ninguém havia notado. E o que havia de tão grandioso no caso de Luna? Cianeto de potássio? Ela não tinha descoberto nada, qualquer pessoa poderia usar veneno para matar alguém. A tinha inventado sua própria arma mortal, que merecia muito mais atenção. Quanto mais a imprensa fazia alarde com o caso de Luna, mais A sentia ciúme, e mais se envolvia no aprimoramento de sua Máquina Mortífera.

Desde que entrou para a escola, B era uma criança amigável e sociável. Um garoto gentil e educado, exatamente o que se espera de alguém criado com tanto cuidado pelos pais e pelas duas irmãs, um pouco mais velhas que ele. Quando terminei minha conversa com A, telefonei para B, que já estava em casa, e pedi que se encontrasse comigo junto da piscina. É claro, pela escolha do lugar, 34


ele deve ter imaginado o que eu queria, e pediu que eu fosse até a casa dele. Quando cheguei, B perguntou se a mãe dele poderia participar. Ela pareceu surpresa com minha visita repentina, o que me levou a concluir que ela não tinha a menor ideia do que o filho havia feito. Respondi que ela poderia acompanhar a conversa, e começamos a falar sobre os experimentos de B desde o início do sétimo ano. Ele havia entrado para o Clube de Tênis no primeiro trimestre. Queria praticar um esporte qualquer e achava que tênis era “legal”. Mas quando as aulas começaram, B descobriu que havia uma divisão injusta entre os alunos. Os garotos de séries anteriores que já jogavam tênis podiam ir jogar nas quadras direto, mas quem nunca tinha jogado era relegado a aulas de treinamento físico, e mesmo depois de muitas semanas ele mal havia encostado numa raquete. B estava no último grupo, mas não ficou tão chateado assim, pois mais da metade das crianças estavam com ele. Depois de alguns meses de treinamento, começou a jogar e adorava andar para cima e para baixo na escola carregando a raqueteira nas costas. No início das férias de verão, o treinador de tênis, Sr. Tokura, dividiu de novo os alunos em três grupos, de acordo com suas habilidades, e definiu uma prática para cada um. O primeiro trabalharia habilidades de ataque, o segundo, de defesa, e o terceiro era o de treinamento físico. B foi colocado de novo no terceiro grupo. O pior é que os outros grupos tinham seis membros, e no de habilidades físicas só havia mais dois alunos: D, que parou de frequentar as aulas assim que houve a divisão, e E, um garoto menor, mais esguio, conhecido pelo apelido de “Fracote”. Dia após dia, B e Fracote corriam em volta da escola. Convencido de que sua capacidade física não era pior que aquela dos garotos dos outros grupos, B ficou cada vez mais frustrado. Um dia, uma menina de outro clube perguntou por que ele corria o tempo todo se fazia aula de tênis. Sentindo-se mais do que humilhado, B foi até o treinador Tokura e pediu para mudar de grupo. O treinador perguntou se ele estava reclamando da corrida ou do fato de 35


correr ao lado de Fracote. É claro que era a segunda opção, mas B não ia admitir. “Se você sempre se preocupar com o que os outros pensam, nunca vai ganhar força”, disse o treinador. “Na semana que vem acabam as práticas em grupo, aguenta mais um pouco”. No dia seguinte, a mãe de B telefonou para a escola dizendo que ele não participaria mais do Clube de Tênis, e ele começou a fazer um cursinho noturno, já pensando no vestibular. As notas de B nunca foram muito acima da média, mas quando as férias acabaram ele começou a subir nas classificações da turma. No meio do trimestre, suas notas já tinham subido quase quinze pontos em relação ao primeiro trimestre. No cursinho, onde havia cinco turmas divididas de acordo com as notas, em dois meses ele passou da Turma 5 para a Turma 2. F, que tirava mais ou menos as mesmas notas que B, se matriculou no mesmo cursinho em novembro, entrando para a Turma 4. A puberdade é um período em que as habilidades de vocês – sejam elas voltadas para o intelecto, o esporte ou a arte – podem se desenvolver com muita rapidez. Esse sucesso repentino pode criar na criança uma autoconfiança para aquela área, o que acaba encorajando um esforço maior, e aumentando as conquistas. É claro que, em muitos casos, as crianças superestimam suas capacidades e acham que podem fazer muito melhor – ou, como um campeão que se vê numa derrota, desenvolvem suas habilidades muito rápido e atingem um patamar em que o nível de sucesso começa a cair. O que acontece depois é que realmente interessa. Algumas crianças, achando que já desenvolveram todas as suas habilidades, param de se esforçar e se deixam escorregar na rampa da mediocridade. Outras continuam se esforçando tranquilamente, quaisquer que sejam os resultados, e conseguem se manter naquele nível. E ainda há outras que vão à luta, superam os obstáculos e acabam passando para o próximo nível. Nós, que damos aula para quem está se preparando para entrar no ensino médio, costumamos ouvir os pais dizerem que os filhos teriam sucesso se “tentassem”. Mas quase sempre eles estão falando das crianças desse primeiro grupo, que 36


atingiram o limite e agora começam a cair. Em vez de continuar tentando, abandonam o jogo. B chegou exatamente nesse ponto. Poucos dias antes das férias de inverno, suas notas pararam de melhorar e começaram a baixar um pouco. No início do terceiro trimestre, o professor do cursinho chamou a atenção dele na frente de toda a turma – uma cena digna de novela: “Você comemorou cedo demais! Foi só tirar algumas notas acima de noventa para começar a cair para oitenta e até sessenta!”. Para B foi muito humilhante. Que direito aquele homem tinha de rebaixá-lo na frente de todo mundo só porque suas notas caíram um pouco? Mas o pior não foi isso. Quando o professor divulgou a classificação geral, B continuava no segundo nível, enquanto F foi direto para o primeiro. Ele ficou furioso. Quando a aula acabou, foi direto para o fliperama extravasar a raiva e gastar o dinheiro que tinha recebido no fim do ano. B estava totalmente concentrado numa máquina quando, de repente, se viu cercado por vários alunos do ensino médio. Eles tentaram pegar sua carteira, ele resistiu, até que um policial notou a confusão e o levou para a delegacia de menores. O delegado ligou para minha casa às onze horas da noite. Telefonei imediatamente para o Sr.Tokura, o treinador de tênis. É claro que B levou um susto quando o viu chegar em vez de mim, sua professora conselheira. Ele perguntou por que eu não tinha ido, e Tokura lhe disse que é porque eu era mulher. B entendeu que eu não pude ir por causa da minha situação em casa – concluiu que, por eu ser mãe solteira, minha filha era mais importante que meus alunos. No carro a caminho da casa de B, o Sr. Tokura continuou o sermão que havia começado durante a aula de tênis. “O professor do cursinho te deixou com vergonha na frente da turma e você foi correndo para o fliperama.Você se preocupa demais com o que os outros pensam. Quando terminar os estudos, vai ter de aprender a lidar com muitas coisas piores do que um sermãozinho.” A reação de B à reprimenda do treinador foi tipicamente infantil; eu já fiquei surpresa pelo modo como o Sr. Tokura avaliou a situação e deu o conselho certo para B. 37


Enquanto contava a história na sala, a mãe de B suspirava e murmurava solidária aos probleminhas do seu “pobrezinho”.A estupidez dela me causou repulsa, mas ao mesmo tempo senti um ciúme terrível por ela ainda ter um filho em quem podia despejar todo aquele afeto exagerado. De todo modo, por mais que B tenha sido um pouco vítima desse incidente, nossa escola proíbe terminantemente que alunos frequentem fliperamas, independentemente da circunstância. Como punição, B recebeu a tarefa de limpar o deque da piscina e o vestiário depois do horário de aula por uma semana.

No início de fevereiro, A conseguiu triplicar a voltagem da descarga elétrica no zíper do porta-moedas e estava louco para testá-lo. Mais ou menos na mesma época, ele viu B, que se sentava perto dele na sala, escrevendo “Morra! Morra! Morra!” no caderno. Depois da aula, A se aproximou de B e perguntou se ele estava a fim de ver um filme pornô. B tinha ouvido falar dos filmes que o colega conseguia e concordou na mesma hora. Poucos dias depois que os dois começaram a andar juntos, A perguntou se B tinha vontade de “punir” alguém. B ficou meio confuso, então A lhe contou da bolsinha e disse que tinha conseguido aumentar a potência do choque. “Inventei uma coisa para sacanear quem é mau, então precisamos de alguém para testar”. É claro, B sabia do protótipo e do sucesso de A na feira de ciências. Ele havia ficado impressionado, como todas as outras crianças da sala. Mas agora que tinha a chance de ver como funcionava, falou o primeiro nome que lhe veio à cabeça: Sr.Tokura. A discordou na mesma hora, demonstrando o quanto é covarde. Ele não teria coragem de agir sem se esconder por trás de sua invenção, e se recusava a escolher alguém tão forte quanto o Sr. Tokura. B então sugeriu meu nome, acho que ainda estava com raiva por eu ter enviado o Sr. Tokura para a delegacia no meu lugar. A também discordou, imaginando que eu não cairia duas vezes no mesmo truque. Ou pior, ele sabia que eu não faria alarde nenhum sobre o novo porta-moedas, e ele queria atenção. 38


Nesse momento, B se lembrou de que tinha visto Manami perto da piscina enquanto limpava o deque. “E a filha de Moriguchi?”, perguntou, ao que A finalmente concordou. A sabia que eu levava Manami para a escola toda quarta-feira à tarde. B acrescentou os detalhes importantes: que Manami ia até a piscina sozinha dar comida para o cachorro e que tinha me implorado para eu comprar uma pochete do Coelhinho Fofo no shopping. A palavra “pochete” chamou a atenção de A. Na quarta-feira seguinte, quando a escola liberou os alunos, A e B se esconderam no vestiário perto da piscina e esperaram Manami. Eles a viram chegando no deque, tirando um pedaço de pão da jaqueta e dando para Muku através da cerca. Eles chegaram até ela e B falou primeiro: “Olá”, disse ele. “Você é Manami, não é? Nós somos alunos da sua mãe, outro dia eu te vi no shopping com ela”. Manami ficou um pouco arredia no início.A percebeu que ela estava com medo de eles me contarem que a viram na piscina, então ele disse com a voz suave: “Você gosta de cães, não é? Eu e ele também. É por isso que de vez em quando a gente vem aqui, para dar comida.” Depois de ouvir que aqueles garotos mais velhos também iam até o deque para alimentar Muku, Manami relaxou e baixou a guarda. Foi então que A pegou a pochete do Coelhinho Fofo escondida nas costas. “Sua mamãe não comprou pra você, não é? Ou comprou depois?” Manami balançou a cabeça.“Ela pediu pra gente comprar pra você! Toma, é um presente da sua mãe.” A esticou os braços e colocou a alça da pochete em volta do pescoço de Manami, que pareceu animadíssima com o presente. “Pode abrir”, disse A. “Tem chocolate aí dentro.” Manami encostou os dedinhos no zíper e caiu no chão na mesma hora, imóvel. A abriu um sorriso de satisfação. B ficou em estado de choque, sem acreditar no que via. “Te peguei!”, sussurrou A. “O que aconteceu?”, perguntou B com a voz trêmula, segurando no ombro de A.“O que você fez? Ela não está se mexendo!” “Então vai chamar alguém!”, disse A, retirando a mão de B do seu ombro. Em seguida, saiu com ar de satisfação. 39


Sozinho, B concluiu que Manami estava morta. Mas ele tremia de medo, e em vez de olhar para ela, fitava os olhos do Coelhinho Fofo, cuja cabeça dava forma à pochete mortal. Se alguém descobrisse que aquela coisa tinha matado Manami, diriam que ele havia sido cúmplice de assassinato. Evitando olhar para o coelhinho, tirou a pochete do pescoço de Manami e a jogou pela cerca, o mais longe que podia. Depois pensou num plano. Ela podia ter se afogado na piscina. Então pegou o corpo de Manami e jogou na água fria e escura. Depois saiu correndo de lá o mais rápido que podia. Quando chegou no final da história, B acrescentou que se lembrava muito pouco dos fatos porque ficou transtornado na hora, mas achava que tinha sido honesto comigo por me contar a verdade. E foi assim que Manami realmente morreu.

A e B continuaram vindo à escola normalmente, apesar de eu saber toda a verdade. Nada dava a entender que a polícia entraria na nossa sala. A pensou nisso, na verdade; quando terminou de me confessar o crime, com aquele olhar quase maravilhado, ele me perguntou por que eu não tinha falado da minha suspeita para a polícia. Respondi a ele que nada tinha mudado, que a morte dela continuaria sendo um acidente e que eu não tinha nenhuma intenção de transformar a história num caso de assassinato sensacionalista, como ele queria. Depois tinha a mãe de B, que ouviu a confissão do filho com uma expressão atônita e vazia no rosto. Eu disse para ela que, como mãe, minha vontade era matar A e B. Mas, como também era professora, e embora reconhecesse meu dever de relatar o crime para as autoridades e garantir que os dois recebessem a punição adequada, eu tinha o dever de proteger meus alunos. Como a polícia concluiu que a morte de Manami havia sido um acidente, eu disse que não tinha a menor intenção de reabrir o caso e gerar confusão.Vocês podem imaginar o quão nobre esse meu discursinho soou. Fui para casa e recebi um telefonema do pai de B assim que cheguei, pois ficou sabendo de tudo quando chegou do trabalho. 40


Ele queria saber se poderia me dar algum dinheiro como compensação, mas eu não quis nem ouvir a proposta. Se eu aceitasse o dinheiro dele, B sentiria que tudo estava resolvido. Mas eu queria que ele refletisse sobre o que havia feito e que levasse uma vida melhor daqui em diante, sem jamais se esquecer desse crime. E se o pai de B achasse necessário apoiar o filho quando o passado lhe pesasse demais nas costas, melhor que isso seria impossível. Agora vocês me fazem uma pergunta muito razoável: por que deixei os dois saírem ilesos, mesmo sabendo que A poderia matar de novo? Com certeza vocês estavam prestando atenção, coisa que devem ter aprendido a fazer jogando no computador. E reconheço que é difícil entender por que vocês ficaram tão nervosos enquanto eu falava sobre HIV e agora ouvem a história de um assassinato com a maior tranquilidade do mundo. Mas vocês se enganam se pensam que A poderia matar “de novo”... Porque A não matou Manami. Quem a matou foi B. Naquela noite, depois que a Sra. Takenaka foi embora, voltei para a escola, remontei o circuito da pochete e medi a voltagem. Não vou entrar em detalhes, vou dizer apenas que a potência do choque era baixa demais para matar uma senhorinha com problemas de coração, que dirá uma menina de quatro anos de idade.Testei e posso garantir que a dor foi muito menor do que quando levei um choque no fio desencapado da minha máquina de lavar. Concluí que Manami estava apenas inconsciente. Como disse antes, a causa da morte de Manami foi afogamento. No dia seguinte, quando os noticiários disseram que ela tinha sido encontrada na piscina, A procurou B para perguntar por que ele tinha se intrometido e feito uma coisa tão desnecessária. Acho que eu quis fazer a mesma pergunta, mas por razões diferentes. Mesmo que estivesse apavorado demais para pedir ajuda, por que simplesmente não saiu correndo? Se tivesse feito isso, Manami ainda estaria viva!

Eu não quero ser santa. Não estou sendo nobre ao manter a identidade de A e B em segredo. Não contei para a polícia porque não acredito que 41


a lei os possa punir. A queria matar Manami, mas no fim não provocou a morte dela; B não tinha desejo nenhum de matar, mas a levou à morte. Se eu os entregasse à polícia, é provável que os dois nem fossem condenados a algum centro de menores infratores; ficariam em liberdade condicional e o caso seria esquecido. Pudera eu eletrocutar A e afogar B, como fizeram com minha filha. Mas nenhuma das duas punições traria de volta minha Manami, nem faria os dois se arrependerem, já que estariam mortos. Eu queria que entendessem o valor e o peso terrível da vida humana, e, depois de entenderem, que percebessem as consequências do que fizeram e vivessem com isso. Mas como eu poderia fazê-lo? Conheço uma pessoa que vive com esse peso nas costas e encontrei nele certa inspiração. Comecei a aula de hoje falando sobre deficiência de cálcio, mas não é só de cálcio que precisamos. No passado, os japoneses tinham um paladar muito refinado e sutil, mas dizem que hoje em dia é cada vez maior a quantidade de crianças que não conseguem notar a diferença entre um curry apimentado e um suave, problema supostamente causado por uma deficiência de zinco. Nessas horas, fico pensando: será que o paladar de vocês é tão sensível assim? E o de A e B? Parece que todos tomaram o leite, mas alguém notou um gosto estranho? Meio ferroso, talvez? Pois então, eu injetei sangue na caixinha servida para A e B hoje de manhã. Não o meu. O sangue do homem mais nobre que conheço – o pai de Manami, Santo Sakuranomi. Pela reação de vocês, vejo que a maioria entendeu. Não tenho certeza se minha experiência vai surtir efeito rapidamente, mas aconselho A e B a fazerem um exame de sangue daqui a alguns meses. O período de incubação do vírus HIV costuma ser de cinco a dez anos, então vocês terão bastante tempo para valorizar a vida. Espero que entendam a atrocidade que cometeram e que peçam perdão ao espírito de Manami. Quanto ao resto da turma, vocês continuarão na mesma classe no ano que vem, então espero que vigiem esses dois e cuidem deles. Duvido que vão mandar 42


para o novo professor aquelas mensagens fúteis que vocês adoram sobre o valor da vida. Ainda não decidi o que vou fazer a partir de agora. Talvez eu nem tenha liberdade para decidir. Mas se alguma coisa acontecer comigo, espero que demore o bastante para que eu veja os resultados do que fiz hoje. Como? Se os resultados nunca aparecerem? Nesse caso, sugiro que A e B prestem muita atenção ao atravessar a rua. Estou planejando passar o recesso da primavera com o pai de Manami. Nós estamos morando juntos desde o “acidente”, e embora ele não tenha um futuro muito longo, decidimos passar juntos e em paz o que tempo lhe resta. Espero que suas férias sejam agradáveis e produtivas, e quero muito agradecer a todos vocês por esse ano de convivência aqui na escola. Vocês estão dispensados.

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