Bianca
Briones
Bianca
Briones
Copyright © 2016 Bianca Briones Copyright © 2016 Editora Gutenberg
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora
revisão
Silvia Tocci Masini
Andresa Vidal Branco Maria da Graça Barros Câmara
editoras assistentes
Carol Christo Nilce Xavier
capa
assistente editorial
diagramação
Andresa Vidal Branco
Larissa Carvalho Mazzoni
Diogo Droschi (sobre ilustração de André Dias)
preparação
Carol Christo Silvia Tocci Masini
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Briones, Bianca Como se fosse magia / Bianca Briones. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2016. ISBN 978-85-8235-396-7 1. Ficção brasileira I. Título. 16-05879
CDD-869.3 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.3
A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoragutenberg.com.br
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975
Para Eva e Enzo, que sua vida seja sempre encantada.
Capítulo 1
Eva
I messed up tonight I lost another fight Dusting myself but I’ll just start again I keep falling down I keep one hand on the ground I’m always scared I’m not seeing what’s next1 “Try Everything” – Shakira
E fim. Olho para a tela preenchida pelas letras, enquanto lágrimas escorrem pelo meu rosto e se perdem em uma gargalhada que mistura emoção e alívio. Terminei o livro no último dia do prazo. Empurro a cadeira para trás e inicio a minha dancinha da comemoração, erguendo os braços para cima e rebolando sob o olhar de Lois Lane e Clark Kent, meus gatos. Parece loucura, mas sou só uma escritora que conseguiu concluir um projeto que estava travado e tinha ultrapassado todos os deadlines possíveis. E confesso que faço essa dancinha toda vez que termino um livro novo. Clark pula da poltrona e começa a se esfregar nas minhas pernas. Me abaixo para pegá-lo e o rodopio no ar. Ele fecha os olhos e o aninho em meu peito, caindo no sofá. Ele corre para longe, visivelmente indignado com minha petulância. Lois me encara fixamente como se me desafiasse a fazer o mesmo com ela. Não sou nem doida! Me levanto para procurar meu celular, para ligar para o meu agente, mas não o encontro sobre a mesa e nem entre as almofadas do sofá. 1
Eu fiz besteira esta noite/ Perdi outra luta/ Tiro a poeira do meu corpo e começo de novo/ Eu continuo caindo/ Mantenho uma mão no chão/ Sempre temo não ver o que virá em seguida. 7
Minha visão fica um pouco turva e me sento. Deve ser o cansaço das últimas semanas. Onde já se viu escrever mais de 400 páginas em menos de um mês? Aperto a cabeça entre as mãos e Lois se aproxima, sorrateiramente. O que essa gata está tramando? Uma buzina estridente toca e olho ao redor assustada. Espera... por que tem uma mesa de escritório no meio da minha sala? O que está acontecendo? Ah, não. Não pode ser! A música do despertador começa a tocar num volume insuportável e me ergo na cama, de repente. – Não acredito que era sonho! – murmuro, dando um tapa na testa. – Por quê? Por quê?! Acordar significa que despertei para o meu pesadelo da vida real chamado: “tenho um livro para escrever e não sai nem uma única palavra da minha cabecinha”. – Por favor, Deus... me ajuda? Nunca te pedi nada... – minto descaradamente e resolvo acrescentar –, hoje. Não te pedi nada hoje. – Entrelaço os dedos e faço biquinho para o teto do meu apartamento, como se ele fosse se abrir e a luz da inspiração pudesse pousar no meu cérebro inútil. Tenho que dar um jeito de romper esse bloqueio, mas primeiro preciso descobrir quem é esse cara roncando na minha cama. Observo o estranho atentamente. Não me lembro o nome dele, mas sei que o conheci na noite passada, quando fui com o Thiago em um barzinho na rua Augusta. Por que é que eu trouxe ele para cá? Não namoro ninguém há um ano e de vez em quando o Thiago me convence a sair. A última vez já tem três meses. Mas eu nunca trago ninguém para o meu apartamento. Se a gente tomasse juízo em vez de tequila, nada disso aconteceria. As lembranças da noite anterior se amontoam em minha mente. – Tenho mesmo que ir? – Tentei desistir do programa antes mesmo de começar, enquanto ainda estávamos no táxi. – Você não devia me forçar a ir onde não quero. Você é meu melhor amigo, poxa. Eu estava apelando e sabia disso. Ninguém me forçaria a nada se eu realmente não quisesse. – Sou seu único amigo, garota – ele respondeu, mexendo no celular sem nem olhar para mim. Que belo (único) amigo eu tenho. 8
– Mas que desnecessário dizer isso. – Te chamar de garota? – Ele ergueu o olhar e balançou a cabeça, confuso. – Não, não isso. – Apesar de eu ter 30 anos nas costas e não ser mais uma garota. – A outra parte. – Que sou seu único amigo? – É, isso aí. – Cruzei os braços. – Estou mentindo, por um acaso? – Não, mas... – Sem mas... O motivo de eu ser seu único amigo é justamente você ficar enfiada em casa todos os dias. Você é uma escritora, não uma eremita. – Não ligo que você seja o único. Gosto muito disso, na verdade. E, bem lembrado! Tenho um livro para escrever. Preciso trabalhar – digo, tentando me justificar. – Não me venha com essa. Mesmo quando entregou o anterior, você se enfiou na Batcaverna e não saiu de lá. – Ele começou a se referir assim ao meu apartamento, desde a primeira vez em que fiquei um mês sem sair com ele. – Caramba, teve a turnê e depois eu precisava descansar. Você precisa entender que eu tenho um compromisso às sextas-feiras, sábados e domingos e levo isso muito a sério. Não sou obrigada a sair. – Compromissos com a Netflix não contam, Eva! – O Netflix. O! Eu sei que o pessoal que cuida das redes sociais disse que a Netflix é menina, mas ela mudou de sexo. É menino agora e vamos nos casar. E é lógico que esses compromissos contam. Você quer que eu vá a bares pra quê? Pra ficar com um desconhecido? – E isso é ruim? Queria eu ter a sua facilidade pra encontrar alguém. – Às vezes é bom, admito. – Você precisa se abrir mais. Precisa se dar outra chance de se apaixonar. Há homens legais no mundo e não apenas os babacas que já passaram pela sua vida. Ainda que dê errado depois, pelo menos você vive um pouco. Não aguento mais ver você se fechando. Sem contar que isso é péssimo para os livros. – Ele volta a atenção para o celular, abrindo o e-mail. – Você não está falando sério! – Claro que eu estou! Além de ser seu melhor amigo, sou seu agente. Sempre que você sofre por amor, ganhamos um best-seller, e desde que você parou de namorar, há um ano, você não escreveu nada 9
novo. Partiram seu coração e cadê meu livro? Entenda, não quero que sofra muito. Só o suficiente para o livro sair. – Ele me provoca. Foi uma barra quando tudo aconteceu, mas hoje em dia fazemos graça com aquilo. É assim entre nós, melhor rir do que chorar, certo? – Idiota. – Não fiquei brava. Nós brincávamos com isso o tempo todo. Não há dúvida de que já escrevi livros maravilhosos enquanto sofria loucamente. Que tragédia... – Vem cá. – Ele me puxou para um abraço e beijou minha testa. – Você sabe que eu te amo, Eva. Não posso deixar você se esconder do mundo. – Eu sei. – Me aconcheguei em seu abraço. – Eu tenho você e ainda acho que não preciso de mais ninguém. Mas vamos para esse bar, então, escolher a dedo o cara com quem vou ficar só pra ele se mostrar um belo idiota e me magoar. – Ah, para de tentar prever o futuro. Quando menos esperar, o cara certo vai cair na sua cama. – Caras certos não existem, Thi. – Suspiro, sentindo o perfume cítrico dele. – Os caras certos são casados ou gays, como você, o que os torna errados para mulheres solteiras. – Existem, sim. Não perca a fé. Você escreve sobre eles o tempo todo. – Exatamente. Eles estão nos livros. E nenhum deles vai sair de lá e aparecer na minha vida. É mais fácil os idiotas continuarem chegando. E aqui estou eu, olhando para o cara em questão, que até que é bonitinho, devo confessar. Mas não tem nada a ver com os personagens dos meus livros. Até porque meus meninos são deuses do sexo e esse cara foi bem mediano... pra menos. Estico o dedo indicador para tocar seu peito e tentar acordá-lo, mas depois desisto. Deixo-o dormir e vou preparar uma xícara de café. Abro a porta do quarto. Clark semicerra os olhos e me encara, me julgando por deixá-los dormir do lado de fora. Só Deus sabe onde está Lois. Ela fica uma fera quando não dorme no meu quarto e passa o dia se escondendo pelos cantos. – Hummmm... – murmuro, fazendo Clark me seguir até a cozinha. Ele sabe que vou dar seu patezinho. Normalmente, Lois também viria, mas vai demorar para passar a raiva. Então coloco o patê para ela num potinho no canto da sala e volto para a cozinha com Clark atrás de mim. Coloco o pó e a água na cafeteira e sinto um calafrio. Estou vestindo só uma regata e calcinha. Uma rajada de vento entra pelo 10
apartamento, fazendo com que a embalagem de café, que eu tinha deixado aberta, tombe sobre a pia e derrame quase todo seu conteúdo no pelo cinza claro do Clark, que bufa, me olhando contrariado. Dou um pulo e corro para fechar a janela. É o tempo que Clark leva para sair como um raio da cozinha e correr para o meu sofá branco. Quero morrer quando vejo o estrago. Lois pula de cima da estante e juro que posso vê-la sorrindo. – Saiu do esconderijo só para vir caçoar, né? – Ela se deita na parte limpa do sofá e me olha, zombeteira. – Não te adotei para receber esses olhares não, viu, mocinha? – Tem alguém aí? – O cara aparece vindo do quarto. – Você tá falando com seus gatos? – Ele parece surpreso de verdade. – E alguém que tem gatos não fala com eles? – respondo sem me virar, enquanto tento limpar o pó de café do sofá e do Clark. – É meio maluco. – Não acho. – Me ergo e o encaro. Ele está nu na minha sala. Decididamente, não é como um dos meus personagens e não foi abençoado pela natureza nas partes baixas. Ainda bem que tinha muito álcool envolvido na noite passada. – Já que a chance de rolar outra vez é mínima, estava querendo dar uma rapidinha antes de ir embora. Topa? Minha vontade é perguntar: “Meu filho, eu pareço bêbada?”, mas apenas nego com a cabeça e volto minha atenção para o sofá imundo. Vou ter que chamar alguém para limpar essa porcaria. Lois encara o idiota e depois dirige o olhar a mim, como se dissesse: “Foi por isso aí que eu dormi aqui fora?”. E é assim que começa esse sábado: 1 x 0 para a minha gata.
11
www.editoragutenberg.com.br twitter.com/gutenberg_ed www.facebook.com/gutenberged