

CINE KILLER RENNÉ FRANÇA

CINE KILLER RENNÉ FRANÇA
Copyright © 2026 Renné França
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editora responsável Flavia Lago
editora assistente Natália Chagas Máximo
preparação de texto Laís Varizi
revisão
Claudia Vilas Gomes
capa Diogo Droschi (sobre ilustração de Vito Quintans)
diagramação Guilherme Fagundes Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
França, Renné
Cine Killer / Renné França. -- 1. ed. -- São Paulo: Gutenberg, 2026.
ISBN 978-85-8235-859-7
1. Ficção policial e de mistério (Literatura brasileira) I. Título. 25-324568.0
CDD-B869.93
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção policial e de mistério : Literatura brasileira B869.93
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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Aos meus pais, que me ensinaram a ver filmes.
À minha irmã, que assistiu a muitos comigo.
E ao cinema, sempre.
* Nota do autor: Pedro, o narrador desta história, pensa em cinema o tempo inteiro, com uma escrita repleta de referências. Para contextualizar o leitor sobre todas essas obras, preparamos um Glossário em que as produções e alguns nomes citados – que aparecem com asterisco na primeira menção – podem ser encontrados ao final do livro.
“O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência?
É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência!”
Zé do Caixão em À meia-noite levarei sua alma
“Um diretor não tem que sofrer para mostrar sofrimento. Você só tem que compreender. Você não tem que morrer para filmar uma cena de morte.”
David Lynch
“O horror... o horror.”
Coronel Kurtz em Apocalypse now
A lua redonda e pálida que parecia flutuar na escuridão era na verdade um enorme cadáver de costas. A luz das lanternas passeava sobre o corpo como uma sonda espacial buscando onde pousar, até encontrar o rosto caído sobre o prato de comida. Mãos e pés amarrados. Comida podre sobre a mesa. Embaixo dela, um balde nojento. Alguém precisava olhar o que tinha dentro…
O telefone tocou. Eu apertei o pause no controle remoto.
A careta de Brad Pitt paralisada na tela. Seven* não era o tipo de filme que se deve parar no meio, mas eu já tinha assistido o suficiente para me permitir esse tipo de… aham… pecado. Eram tantas opções na TV e no streaming que optei por um velho conhecido naquela segunda-feira de folga. Às vezes isso acontece comigo: excesso de oferta me faz escolher o de sempre.
A luz do telefone piscava na sala escura, com as janelas cuidadosamente fechadas para que nenhum reflexo atrapalhasse o jogo de luz e sombra do filme. Parecia madrugada, mas era quase hora do almoço – não que eu estivesse com fome depois daquela cena. Lá fora o sol brilhava o máximo que São Paulo permitia.
Mesmo assim, senti um arrepio com o telefone tocando. Hoje eu poderia dizer que era um prenúncio de tudo que viria a partir dali, mas a verdade é que desde O chamado* sempre acho sinistro telefones que tocam durante ou depois da exibição de um vídeo. Qualquer vídeo.
Silvana saiu do quarto, cabelo bagunçado parecendo a Anna de Frozen*. Ela mesma uma mistura de Nicole Kidman com Audrey Hepburn e Sandra Bullock, tente imaginar. Não éramos namorados nem nada do tipo. Também não éramos exatamente amigos… Às vezes passávamos meses sem nos falar, às vezes nos encontrávamos por acaso na noite… E era isso.
Silvana escrevia para o Youniverse , um gigantesco portal de notícias. Ela cobria cinema e às vezes algo de música. Diferentemente de mim, era convidada para sets de filmagem e pré-estreias internacionais. Já tinha entrevistado grandes astros e diretores premiados. E tinha sido minha veterana na faculdade.
– Cena com telefone tocando – ela disse com voz de sono.
A gente tinha essa brincadeira: desafiar o outro a falar o nome de um filme a partir de um contexto específico. Depois da primeira resposta, a outra pessoa precisava lembrar o título de um outro filme com o mesmo tema ou cena, mas de uma década anterior ou posterior. E assim por diante, até que um dos dois desistisse. Nem lembro como isso começou, mas era sempre divertido. Ok, talvez fôssemos amigos.
– Pânico*
– Sério? Pânico? Esperava mais originalidade de você.
Olhei para o telefone tocando. Era o número da redação do jornal em que eu trabalhava.
– Não vai atender? – Silvana se esticava enquanto se espreguiçava, como se estivesse em uma lente olho de peixe.
– Melhor não. E você tá tentando ganhar tempo.
– Munique*
Caraca, uma das melhores cenas que o Spielberg já dirigiu. Como pude me esquecer dessa?
– A estrada perdida*.
– Esse é o Pedro que eu conheço…
Silvana apertou os olhos como sempre fazia quando tentava pescar alguma referência na memória. O telefone
parou de tocar, mas eu já estava irritado: era claro que me incomodariam no meu dia de folga. “Onde está o texto tal?”, “Qual o telefone de fulano?”, “Como é mesmo o nome daquele ator?” Fazia menos de um mês que eu cobria as férias de Ronald Nessa, o maior crítico de cinema do país. A grande referência de todo mundo. A minha grande referência.
Mal acreditei quando o conheci uns dois anos antes, em uma “cabine” de exibição para a imprensa. Eu, um iniciante escrevendo para meu próprio site, ele já uma sumidade da crítica nacional. Foram poucas palavras trocadas ali, alguma coisa que nem me lembro mais sobre o pão de queijo murcho oferecido pela assessoria de imprensa do filme. Mas a crítica de cinema em São Paulo é um ovo. Todo mundo se vê todo dia porque todo dia tem exibição de filmes para os críticos, e de repente a cidade mais populosa do país vira uma Bedford Falls* cheia de conhecidos. Não por acaso foi em uma dessas exibições que reencontrei Silvana depois da faculdade. E, com o passar dos dias, meses e anos, troquei muito mais do que poucas palavras sobre pão de queijo com o Ronald. Nunca nos tornamos amigos, nunca nos encontramos fora do cinema, nada disso. Mas sempre batíamos um papo descontraído antes de o filme começar. E aí, há uns dois meses, veio o convite: ele ia sair de férias e queria me indicar para substituí-lo no Jornal de São Paulo Eu sei, jornal impresso já não vende lá essas coisas, mas era o Jornal de São Paulo! Que meu pai lia quando eu era criança! Para substituir o maior crítico de cinema do Brasil! Claro que aceitei. E no primeiro dia todo mundo foi legal, até… até começarem a exigir mais do que o combinado. Ah, não é só crítica, tem também as entrevistas. Ok. Ah, não tem tantas estreias esta semana, você podia cobrir a inauguração da exposição X ou o lançamento do disco Y. É tudo Cultura, não é mesmo? Por isso me irritava tanto ligarem no dia de folga.
– Por um fio*. O filme em que me apaixonei por Colin Farrell – Silvana disparou na mesma hora em que o telefone tocou pela segunda vez.
Pensei em não atender. Mas passaria o resto do dia me perguntando o que queriam comigo. Minha curiosidade sempre foi um defeito.
– Que horas ela volta?* Vou atender – suspirei desanimado.
– Poxa, nem chegamos no meu preferido…
– Qual?
– Disque M para matar*. Atendi o telefone.
– Alô.
– Pedro. Camila aqui… Você… Pedro, precisamos que você venha aqui na redação.
– Hoje é minha folga.
– Não, sim! Claro, é sua folga. Mas… aconteceu uma coisa…
Eu estava pronto para apelar, para fazer um discurso sobre os direitos trabalhistas bem no estilo Eles não usam black-tie*, quando ela disse o tipo de coisa que faz qualquer um ficar em silêncio.
– …e a polícia quer falar com você.
“Polícia”? Ela disse mesmo “polícia”? Comigo? Eu tentava pensar em tudo e ao mesmo tempo não pensava em nada. Meu cérebro parecia o do Johnny Mnemonic*, buscando no HD todas as possíveis situações em que já me envolvi e que pudessem ser consideradas criminosas. Para meu alívio, e também um pouco para minha decepção, não consegui achar nada.
– Pedro, tá aí?
– Sim. Sim, o quê… Por que a polícia quer falar comigo?
– É melhor você vir aqui. Pra gente conversar pessoalmente.
Todo o meu instinto, todas as partes do meu corpo me diziam para não ir. Eu não queria ir. Se a polícia quisesse, que viesse até minha casa. Com um mandado – isso os filmes me ensinaram.
– Me conta, Camila.
– Pedro…
– Eu só vou se você me contar.
Percebi que ela colocou a mão no telefone para abafar a voz enquanto falava com alguém, provavelmente um policial. Achei que eu tinha piorado a minha situação. Eles acabariam invadindo meu minúsculo apartamento, arrombando a porta e lançando gás lacrimogênio.
– Pedro… o Ronald morreu.
Por alguns segundos não respirei, não pensei, não senti nada. Era como se eu não existisse. Depois foi como se eu caísse. De um lugar muito alto. E muito rápido. Então meu corpo respondeu. Minhas mãos começaram a tremer e senti meu rosto ficando mais quente.
Silvana voltava do banheiro, rosto lavado, cabelo arrumado. Devia estar linda como sempre, mas a verdade é que só me lembro de como ela me encarou preocupada. Eu devia estar fisicamente abalado.
Olhei para o telefone para conferir se era mesmo o número da redação. Olhei para a careta de Brad Pitt me encarando da televisão. Ainda lembro como se fosse hoje aquele choque. Aquela sensação de estar perdido, sem lugar. Eu não era obrigado a ir. Eu não devia ter ido. Provavelmente alguém viria outro dia pegar um depoimento, ou me intimariam para uma delegacia. Ou até ficaria por isso mesmo, e eu nem teria que falar com a polícia. E então tudo seria diferente. Eu devia ter ficado em casa, mas naquela hora só consegui erguer o celular e balbuciar: – Tô indo.
Quinze minutos de metrô e mais cinco caminhando. Sinceramente, não me lembro de nada do caminho de casa até o jornal naquele dia, só que Silvana me acompanhou até a terceira estação e pediu que eu me cuidasse. Eu achava que ela se importava comigo de verdade, mas também sentia que ela estava ansiosa para chegar ao Youniverse e escrever sobre a grande notícia que eu tinha acabado de dar em primeira mão: a morte de Ronald Nessa.
O que me lembro bem foi de entrar no prédio, o arcondicionado gélido como sempre fazendo minhas narinas doerem. Andei até o elevador sem fazer contato visual com ninguém. Eu não queria conversar – o que é complicado quando você foi ali só para falar com a polícia. Para minha sorte, ninguém entrou no elevador até que ele chegasse ao andar da redação.
Durante aqueles segundos, um pensamento mesquinho dominou minha cabeça por completo: será que irão me contratar definitivamente como crítico do jornal? Não queria ser egoísta, mas acho que é da natureza humana pensar no que você vai ganhar com a morte de alguém… Odiei ter aquele pensamento, mas eu sabia que não estava virando nenhum O senhor das armas*. Só queria poder viver vendo film…
Cá estou eu fazendo isso de novo… Você já deve ter percebido. Meus amigos riem e meus pais criticam. Dizem que tudo que vejo na minha frente são filmes. Tenho a mania de usar o cinema para descrever situações (“A casa depois da
festa estava nível Ensaio sobre a cegueira*”), relacionamentos (“Terminamos, estávamos mais pra Garota exemplar* do que pra Diário de uma paixão*”) e… qualquer coisa para ser sincero (“Pedi o bife malpassado, mas veio Anakin Skywalker”). Não é algo planejado. Sou assim. Tenho boa memória no geral. Mas para filmes… é uma supermemória. Disso me orgulho, apesar de que a única vantagem que ela me dava até então era ganhar algum quiz sobre cinema. De resto, todo mundo pode saber o mesmo que eu com uma busca rápida no Google. Bom, tenho tentado me controlar e evitar essas comparações cinéfilas constantes. Parece irritar as pessoas.
Quando o elevador abriu, todo mundo olhou para mim como se eu fosse… Melhor me segurar um pouco mesmo com as comparações cinéfilas. Prometo tentar.
Quando o elevador abriu, todo mundo olhou para mim. Não porque estavam me esperando, mas porque nessas situações todo mundo parece querer alguma resposta de algum lugar, mesmo que seja de um elevador. Respirei fundo e entrei na redação.
Todos estavam estranhamente em silêncio. Nem Luiz Carlos, fotógrafo falastrão das antigas, disse algo ao me ver. Apenas rabiscava um bloco de notas, pensativo. Camila se aproximou, olhos vermelhos de quem tinha chorado há pouco tempo. Mas antes que ela falasse alguma coisa, a voz de trovão do meu editor de Cultura ressoou por todo o andar. – Pedro! Aqui.
João Odílio era uma mistura de Richard Attenborough* com Ney Latorraca, e era sinônimo de cultura em São Paulo há pelo menos duas décadas. Foi repórter, editor, depois secretário de Cultura e agora editor de novo. Apesar da voz potente, tinha uma fala mansa, como se estivesse eternamente com uma taça de vinho na mão em um jantar chique. Mas não naquele dia. Nesse dia João Odílio estava com cara de que teria que pagar a conta do jantar sozinho.
Ele estava na sala da nossa editora-chefe, Sônia Menezes. Mas ela não estava ali. A sala era a mais reservada da redação, com uma porta que podia ser fechada quando um assunto mais delicado precisasse ser discutido. João reforçou o chamado fazendo sinal com a mão para que eu me aproximasse. Atravessei a redação como se os ossos das minhas pernas tivessem se transformado em doce de mocotó. Lembrei que não tinha almoçado ainda. João me deu dois tapinhas nas costas e apontou a cadeira para que eu me sentasse em frente à mesa.
Ele estava sozinho ali na penumbra, como um personagem de Poe* fotografado por Gordon Willis*. Percebi que nunca tinha entrado naquela sala antes. Claro, apenas editores se reportavam à editora-chefe, mas às vezes eles iam acompanhados por algum jornalista que tratava de um caso mais explosivo ou delicado, normalmente o pessoal de Polícia ou Política. Acho que crítica de cinema não é uma área muito delicada.
Eu me sentei de frente para a mesa vazia, de costas para a porta. João colocou as duas mãos suadas sobre meus ombros, sem jeito. Apertou a boca com uma careta, balançou a cabeça positivamente como se tentasse me dar alguma força. E saiu da sala. Parecia em choque como os outros. Foram anos convivendo diariamente com o Ronald, muito mais do que eu. Na verdade, eu era praticamente um desconhecido ali para eles. Um novato. O namorado recente que de repente precisa acompanhar a garota ao velório da avó sem conhecer ninguém.
Fiquei sozinho olhando cada certificado dos prêmios do jornal ao longo de seus mais de oitenta anos de história. Todos pendurados na parede atrás da mesa, contornando a janela de vidro fechada que dava para o rio Pinheiros. Em cima da mesa, mais alguns prêmios, estatuetas pequenas que serviam como peso para os papéis de Sônia Menezes. Bem no centro da mesa havia um envelope pardo aberto.
De dentro daquela boca marrom era cuspido um intrigante pedaço de uma fotografia. Só conseguia ver uma janela quebrada.
Sem pensar, me aproximei e puxei o restante da foto para fora. A velha curiosidade que me fazia ler tudo que encontrava sobre um filme depois de assisti-lo e que me deu uma formação única em cinema. A curiosidade que me fez cursar jornalismo. E que agora me colocava no centro de uma trama assustadora.
A fotografia era na vertical. No topo, o que parecia ser o segundo andar de um prédio pequeno, com a janela quebrada. Mas “quebrada” não dá a dimensão do que eu via: a janela estava arrebentada, a estrutura de metal de sua borda entortada por algum tipo de impacto. Abaixo, na escadinha que dava para a entrada do prédio, um corpo caído, vestido com calça e camisa preta, deitado sobre uma poça de sangue.
Tentei olhar mais de perto, mas não consegui reconhecer o Ronald. Foi então que ela entrou. A primeira coisa que notei foi o cheiro do café.
– Vejo que resolveu se adiantar – ela disse, calma.
Soltei rápido a foto e olhei depressa para trás. A investigadora entrou na sala segurando um copo de papel com café, seguida de seu parceiro, que fechou a porta ao passar. Ana Paula Bretas era baixa e magra, cabelo amarrado para trás. Taís Araújo com um jeito Jodie Foster em O silêncio dos inocentes*. Já André Campos, alto e forte, barba impecavelmente feita. Reynaldo Gianecchini no corpo de Jason Momoa. Imaginei que ela tivesse uns 30 anos e ele, um pouco mais do que isso.
– Você deve ser o Pedro – André afirmou distraído, enquanto colocava a fotografia de volta no envelope.
– Você esqueceu o envelope aqui? – Ana Paula o repreendeu quase num sussurro, sentando-se na cadeira de Sônia Menezes, ainda sem olhar diretamente para mim.
– Achei que o café ia sair mais rápido, antes de alguém voltar aqui. – André sentou ao lado dela.
Finalmente os dois me encararam. Ele sorrindo, ela séria. Mas então ela sorriu, e ele ficou sério. O que era isso?
Máquina mortífera*? 48 horas*? Tango & Cash*? Memórias de um assassino*? Com qual tipo de filme com duplas policiais eu estava lidando?
– Pedro, eu sou a Ana. Ele é o André. Por favor, se apresente. Conte a sua história.
Eu contei. Contei a vida no interior, o interesse pelo cinema. A vontade de assistir a filmes que se transformou em vontade de fazer filmes. A frustração em constatar que não conseguiria fazer filme algum, o que me levou a escrever sobre eles como um prêmio de consolação. O que me levou à faculdade de jornalismo na capital. Que me levou a um site de críticas como trabalho de conclusão de curso. Que me levou às exibições para a imprensa. E ao Ronald.
André anotava tudo em silêncio. Ana não tirava os olhos de mim. Parecia o Exterminador do Futuro avaliando cada pulsação, cada piscada de olho, cada mínimo traço que meu rosto e minha voz pudessem demonstrar.
– O André coleciona filmes, acho – ela disse sem tirar os olhos de mim.
– Eu? – André ainda anotava, olhando para baixo. – Ah, não mais. Agora é até difícil achar um Blu-ray ou DVD pra comprar. E rodar. – Ele riu e finalmente olhou para mim. –Mas deve ser bom. Ganhar dinheiro pra ver filmes. Melhor do que o nosso caso, que é pra ver morto.
Fiquei em silêncio. Não sabia quanto tempo já tinha se passado ali dentro daquela sala. Os dois olhando fixamente para mim. Os olhos de Ana como holofotes escuros me atingindo, os de André relaxados como se estivessem escorados em uma parede de onde me julgavam. Até que Ana perguntou se eu já havia estado na casa do Ronald. Respondi a verdade, que não. Não éramos tão próximos assim.
– Você percebeu algum traço de depressão ali? Ele alguma vez te disse ter interesse em tirar a própria vida ou algo do tipo? – André soltou aquelas perguntas de uma vez, direto como um filme editado para TV
– Não. Ele sempre me pareceu bem alegre.
– Tem certeza? – agora foi Ana quem insistiu. Fiz que sim com a cabeça. – E você tem alguém que possa confirmar seu paradeiro nesta madrugada?
Engoli em seco. A morte de Ronald foi suicídio ou assassinato? Eu era considerado suspeito?
– Sim… Uma amiga.
– Pode me passar o nome e contato dela? – André deslizou seu bloco em minha direção. Uma página em branco. Me passou a caneta como quem dá cartas de um baralho. Anotei o nome de Silvana e seu número de WhatsApp.
– Era ele? Na foto. Era o Ronald, não era? – Eu e minha curiosidade…
– Você olhou bem a foto? – André olhou fixamente para mim. – Gostou de ver o sangue?
Ana pareceu incomodada com a pergunta do parceiro, mas não o interrompeu. Senti o coração disparar. Ele estava achando que eu tinha feito aquilo?
– Hein? Você parecia bem interessado na fotografia quando entramos. Quase… deliciado – André continuou. – O que te atraiu tanto ali? É desses curiosos que gostam de ver acidentes? Ou estava apreciando a própria obra?
– Detetive! – Ana finalmente interveio. Achei engraçado ela o chamar assim, “detetive”, como se fosse uma dupla de filme. – Estamos apenas colhendo depoimentos aqui hoje, e o senhor Pedro foi gentil em sair de casa e vir nos encontrar.
– Claro. – André sorriu. – Perdão, estava apenas curioso pelo motivo de ele olhar daquele jeito pra foto.
– Padre Karras – falei sem pensar. Um dos meus defeitos além da curiosidade. – Eu olhava atento a foto porque o… corpo… me lembrou o padre Karras.
Ana franziu a testa. André arregalou os olhos.
–Padre? Do que você está falando, Pedro? – Ela pareceu muito interessada.
– O exorcista*. Sabe? O filme. – Eu sentia meu rosto queimando, o coração na boca. Me sentia ao mesmo tempo inteligente e ridículo. – O padre… o padre que vai fazer o exorcismo. Ele morre… Ele se atira da janela e cai na escada. Foi como se o ar da sala desaparecesse. Ana se ajeitou na cadeira e André voltou a anotar. Ela puxou o envelope e o abriu devagar, descrente. Fez que ia tirar a foto dali de dentro, mas desistiu.
–Você… você anotou isso?
–Sim – André respondeu enquanto guardava sua caneta no bolso e fechava seu bloquinho.
–Você não devia ter visto aquela foto, Pedro. – Ana se levantou e andou até mim. Agachou-se ao meu lado. Seu perfume lembrava aquele cheiro de amanhecer sobre a serra. – Estamos no início da investigação de um suposto suicídio. Não queremos sensacionalismo, apesar de a vítima trabalhar em um jornal. Seria mais respeitoso com ele e com a família se evitássemos alguns detalhes, entende? Isso que você falou… do filme. Podia ficar entre nós, não é? – Ela sorriu como se fosse uma velha amiga. – Se você comenta isso com seus colegas… Imagina a comoção se no jornal de amanhã temos a notícia de que um famoso crítico de cinema se inspirou em um filme pra se matar? Isso iria apagar toda a trajetória de sucesso desse profissional que, tenho certeza, vocês todos querem honrar. Concorda?
Concordei, é claro. Era apenas mais uma das minhas irritantes comparações com filmes. Não era algo digno de falar para mais alguém. Ana se levantou e deu um tapinha no meu ombro. André saiu sem se despedir. E eu fiquei ali, encarando os prêmios do Jornal de São Paulo, sozinho, com a imagem aterrorizante daquela fotografia na memória.
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