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Céu de fundo de mar e outras memórias

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ão simplesmente por causa das laranjeiras enfileiradas dos dois lados da rua principal. Nem apenas pelo sempre perfume de laranja madura. Tampouco pelas fumaças, fugidas dos tachos, que se exibiam à frente dos turistas, puxando os olhares para as janelas com legendas: Doce de Laranja. Não era por nada disso, mas existia mesmo uma estranha e mágica névoa alaranjada naquele lugar.” E foi dentro dessa névoa alaranjada que Carolina e seu irmão Zezin viveram os desacontecimentos dos dias, junto com o filhote de dragão que tinha espírito de formiga, enquanto o quintal poderia virar um mar cheio de peixes e os garotos da escola voavam por dentro das histórias, puxados pelo colega que não se chamava Albano, até um céu de fundo do mar.

ISBN 978-85-8217-568-2

Esta obra foi selecionada pela Bolsa Funarte de Criação Literária

Janaína Michalski Ilustrações

9 788582 175682

www.grupoautentica.com.br

Aline Abreu


Copyright © 2015 Janaína Michalski Ilustrações © 2015 Aline Abreu Copyright © 2015 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. edição geral

Sonia Junqueira capa, projeto gráfico e diagramação

Christiane Costa revisão

Danielle Oliveira Renata Silveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Michalski, Janaína Céu de fundo do mar e outras memórias / Janaína Michalski ; ilustrações Aline Abreu. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2015.

ISBN 978-85-8217-568-2

1. Literatura infantojuvenil 2. Poemas em prosa I. Abreu, Aline. II. Título. 15-01521

CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Prosa poética : Literatura infantil 028.5 2. Prosa poética : Literatura infantojuvenil 028.5

Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar . Funcionários 30140-071 . Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214 5700

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I . 23º andar, Conj. 2301 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

Televendas: 0800 283 13 22 www.grupoautentica.com.br

Esta obra foi selecionada pela Bolsa Funarte de Criação Literária.


Janaína Michalski Ilustrações

Aline Abreu


Não simplesmente por causa das laranjeiras enfileiradas dos dois lados da rua principal. Nem apenas pelo sempre perfume de laranja madura. Tampouco pelas fumaças, fugidas dos tachos que se exibiam à frente dos turistas puxando os olhares para as janelas com legendas Doce de Laranja. Não era por nada disso mas existia mesmo uma estranha e mágica névoa alaranjada naquele lugar.

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li, uma borboleta amarela guiou um casal cego de amor, e um menino inventou as primeiras santidades. Um homem que pintava com as duas mãos ao mesmo tempo trocava desenhos por suspiros, e senhoras doceiras buscavam açúcar direto da fonte: o coração de uma menina lilás. Em Verdinópolis aconteceu o velório mais comovente do planeta: o velório do gambá. Foi ali também que uma garota virou poça depois de se apaixonar por um ribeirão, e um garotinho chorou azul anil por causa de um pezinho de maracujá que não vingou. Havia um hospital de cardiologia onde os doentes eram atendidos por zeladores, e na escola éramos recebidos por um especialista em coração. Esse doutor foi o grande descobridor da diferença entre coração apaixonado e coração com paixonite. Também tratava de coração gripado, estraçalhado, despencado, aos pulos, aberto, fechado, reprovado ou em recuperação. Antes de se chegar ao final da rua principal, numa ladeira à direita, ainda mora o pior homem mau de todos os piores homens maus do universo. Caminha-se duzentas e vinte e três casas antes de chegar à dele: um sobrado verde limbo. Sete mil sombras moram com ele. Todos sabem dessas sombras, nessa casa, desse homem. Mas ele pode ser o que quiser. Pode sentir, pensar e fazer as piores maldades do mundo porque ninguém o vê, mesmo quando ele caminha pela rua. Ninguém se lembra dele, mesmo sabendo que ele existe. A maternidade da cidade é muito antiga. As únicas evidências sobre sua origem indicam que foi Deus quem a construiu. Primeiro, porque a pintura rosa bebê da fachada se mantém brilhante como tinta fresca, sem nunca ter sido restaurada. Segundo, pelo fato já comprovado de que em Verdinópolis ninguém acredita em Deus. Ele é quem acredita em todo mundo.

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Seguindo pela rua principal, um pouco depois da ladeira, à esquerda, há uma rua que toca flauta. Mas apenas beijo de amor verdadeiro pode escutar. Quem se beija nessa rua pega um encanto de sonhar com a pessoa amada todas as noites, pro resto da vida. Mesmo que o namoro termine. Não apenas pela estranha magia, nem tampouco pelo alaranjado que paira no ar, mas Verdinópolis me causa até hoje uma misteriosa e perfeita sensação de bem-estar.

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oda terça íamos à feira. A mãe dizia que só lá eles tinham um afrouxador de riso que durava a semana inteira. Voltávamos pra casa pelo caminho mais longo pra encontrar o vento na dobra da esquina. A mãe gostava do descabelo que o vento dava. Eu ficava colada na quentura da cozinha escutando os amansos dela: “Salada de fruta picada miudinha areja o coração.” “Zezin gosta de salada de fruta com uma só laranja espremida.” “Bananas penduradas chamam os anjos.” “Melhor lavar de uma vez as mangas, porque Zezin, quando chega, vai logo pegando.” Em uma tigela, eu casava mel e manteiga. A mãe era a madrinha e abençoava: mélange. Batíamos um bolo só pra vê-lo crescido. “Ano que vem, você também vai pra escola.” A mãe comprava pão todo dia. Achava que no pão morava um segredo que ela ainda ia descobrir. Contava o dia pro Zezin porque ele gostava de ouvir. Toda noite, falava de uma coisa que tinha feito pela primeira vez na vida. Mesmo que tivesse andado pelos lugares de sempre. Emendava com história antiga, porque ele continuava escutando. “Outro dia levo você pra conhecer lá, Zezin. Vai adorar.” Zezin sabia que não ia nunca. Mas dormia de mão dada comigo dizendo acreditar. De manhã, a mãe dizia que tinha ficado com arrepio frio na barriga a madrugada toda. Era falta do pai. Enquanto ele não voltava, Zezin dava jeito na cerca pras galinhas do vizinho não entrarem no quintal. No sábado o pai chegava. A mãe fazia peixe. Eu picava o cheiro verde e depois limpava a ponta dos dedos na saia dela. Cheiro de coentro combinava com a mãe. 14


O pai ia pro quintal, e Zezin grudava nele. Eles ficavam bolando um tapador de buraco de cerca que durasse a semana inteira. Falavam de serventias: “Primeiro tem que desentortar o arame pra depois entortar melhor.” “Tábua macia dura mais.” “Serrote cego é bom pra cavar.” Às vezes, Zezin entrava chispado em casa pra buscar uma ferramenta pro pai. Às vezes, o pai vinha buscar água pra eles. Caminhávamos até a praça no domingo. O pai era mais de olhares que de palavras. Ficávamos abraçados nele. Quando a gente acordava daquele enroscado, ele já tinha ido. Era segunda-feira. E a mãe passava o dia todo esperando a terça chegar.

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