Cezar Migliorin
Cartas sem resposta A internet, a educação, o cinema e o Luciano Huck
Coleção Alteridade e Criação
Alteridade e Criação
Adriana Fresquet Esta coleção constitui um espaço para o diálogo da educação com experiências criativas. Um estreitamento com as artes, de modo geral, e, em particular, com o cinema. As artes provocam, atravessam, desestabilizam as certezas da educação, perfuram sua opacidade e instauram algo de mistério no seu modo explícito de se apresentar, ao menos, no espaço educativo. Se nas escolas e universidades as artes se constituem como um “outro” pela diferença radical entre criar e transmitir, elas são, também, um “outro” em relação aos professores e estudantes, espelhando-nos com seu olhar, devolvendo nossa própria imagem com outras cores e formas. As artes também se revelam uma janela para descobrir um mundo inacabado, ávido de transformações e de memórias para projetar futuros. Um mundo inclusivo, sensível, atento à produção de subjetividade e à criação de laços, para além das redes. Desse modo, a cultura se torna a matéria-prima para a criação 9
de significados numa troca poética de experiências intelectuais e sensíveis. No gesto de habitar os espaços educativos com arte, imprime-se uma enorme responsabilidade na reinvenção de si e do mundo com o outro. A presente coleção reconfigura saberes e práticas que emergem da potência pedagógica da cultura visual. Novos desafios para pensar a educação como experiências de alteridade e criação. Neste livro, Cezar, ao escrever cartas para outros como se cada um deles fosse um amigo, nos aproxima, em uma relação de certa intimidade, de uma crítica respeitosa e quase afetiva, desvendando pressupostos políticos e subjetivos invisíveis de programas de TV, filmes, matéria de jornal, e até um diálogo no café com um grande amigo e produtor cultural. O que Cezar consegue é nos colocar numa relação horizontal e questionadora do outro, com o próprio cinema, a TV, a internet, personalizando a conversa, humanizando-a, desnaturalizando, assim, o estatuto de verdade atribuído nas mídias onde circulam. Em outras palavras, sua escrita atrevida nos convida a atrever a olhar, ler, ouvir crítica e construtivamente o outro, a nos sentir igualmente cidadãos, e a dialogar, por que não, com apresentadores da TV, jornalistas das mais qualificadas revistas, cineastas, produtores culturais. Em cada carta habitam 10
perguntas acerca dos processos subjetivos contemporâneos mediados pela escola, pela televisão, pelo cinema, pela internet, pela políticas públicas, pelas tecnologias, pela universidade, pelo consumo... Seis cartas que, partindo de situações concretas, friccionam nosso pensamento na própria vida como “processo de diferenciação, de defasagem em relação a si. O movimento, a variação, a diferença, não é assim uma diferença de algo em relação a algo, ou o movimento de alguma coisa; a diferença é uma coisa em si, inseparável do que constitui a vida”. Por isso, estas cartas continuam sem resposta...
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Prólogo
Fazer a opção pela carta foi a forma de buscar uma distância adequada para uma conversa. Algumas dessas cartas pediam uma resposta que nunca chegou. Mas cada uma delas foi fruto de uma conversa, de um texto ou de um filme que me provocou, e a carta acabou sendo a maneira de organizar uma reflexão provocada com o outro. Em alguns casos a carta me protegia também, é verdade. Com a carta fui obrigado a escrever como se o outro amigo fosse, o que muito me ajudou na busca dessa distância possível e adequada. A carta permitiu ainda um trânsito entre assuntos muito amplos, mas que, apesar das digressões, podem ser conectados por uma pergunta acerca dos processos subjetivos contemporâneos; mediados pela escola, pela televisão, pelo cinema, pela internet, pela políticas públicas, pelas tecnologias, pela universidade, pelo consumo, etc. De alguma maneira, todas essas mediações atravessam as cartas. 13
A primeira carta, para o apresentador Luciano Huck, surge de um zapping televisivo e de um incômodo com o que eu via em um de seus programas que operam propondo uma intervenção direta no real. Até hoje a carta não foi respondida. A segunda carta, para o cineasta Newton Cannito, funciona como uma crítica ao seu filme Jesus no Mundo Maravilha. Um filme que traz diversos problemas para as relações que o cinema estabelece com o outro. Até hoje a carta não foi respondida. A terceira carta, dirigida ao escritor Bernardo Carvalho, é uma resposta a um artigo publicado na revista Piauí. Na carta, critico uma certa nostalgia das centralidades discursivas e dos parâmetros estáveis para olharmos as produções culturais. Depois de escrever a carta, enviei-a à Piauí, que retornou com elogios e dizendo da impossibilidade de publicá-la por conta do espaço. Eles propunham então que a carta fosse publicada com cortes no site. Em uma atenta leitura, me devolveram o texto com os cortes. Eu os aceitei, mas pedi que no final da carta houvesse o link para o blog onde a carta havia sido originalmente publicada. A resposta da revista foi objetiva: “O link deve ficar de fora, por conta de nossa política editorial”. Ao não colocar o link do blog, a política da revista acaba sendo a da manutenção da centralidade que critico na carta e que, nesse sentido, 14
a Piauí se filiava ao que o Bernardo Carvalho defendia. A carta não foi publicada. A revista nunca mais respondeu. O autor também não. A quarta carta, dirigida a Maria Clara Escobar, não pedia resposta – pelo menos não dela – e foi lida em uma mesa de debates durante o Festival de Cinema de Tiradentes em 2013, em presença da cineasta. Nela continuo uma reflexão sobre o documentário e sobre os gestos dos realizadores. A carta ali foi uma forma de possibilitar o meu encontro com o filme e com os impulsos da cineasta. A quinta carta, ao meu amigo Marcus Faustini, também não pedia resposta. Ela teve muito mais a intenção de fazer render uma longa conversa de bar sobre política, como sempre. A sexta carta é dirigida a muitos colegas universitários. Não pedia resposta, mas eu adoraria tê-las recebido. Nesse caso também, a carta é uma maneira de prolongar uma conversa surgida durante um congresso. Apesar de não ser dirigida a um professor específico, as discussões sobre o mercado e o papel da universidade tiveram uma fala do cineasta e professor Giba Assis Brasil como referência. Colocar essas cartas juntas em um livro é mais uma tentativa de continuar esses encontros e torcer para alguns novos. 15
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