DOMÍCIO PROENÇA FILHO Dionísio esfacelado (Quilombo dos Palmares)
DOMÍCIO PROENÇA FILHO
Dionísio esfacelado
(Quilombo dos Palmares)
2ª edição revista
Não te verá não mais a praia ensolarada a maresia o iodo e o sol de Ipanema tua ilu-aiê querida. Não te verão as plateias do mundo desejadas fome alerta ao fruto apenas semeado. Não te verá a palavra-energia plantada nos teus textos jovens levemente anunciados teu evangelho florindo Liberdade acalentada à seiva dos teus dezoito anos. Não roçarão teus lábios os beijos da amada intemporal e o teu sêmen acrisolado não cumprirá os desígnios divinos. Não sofrerás as dúvidas da existência-pedra e a luta de tantos pela vida. Não sofrerás
a presença do Mistério e a expectativa amarga dos amanhãs. Teu dia se faz de ontens e lembranças. Teu dia luminoso se agasalha no coração da gente órfãos no deserto convivas de uma sede sem vésperas de oásis sem rios cachoeiras oceanos chuvas e garoas ou torneiras alertas. Cumpriu-se o teu destino Ocu saruê! (Pena que não tão cedo) pleno de luz e radiosidade. Só nos resta uma lenta e dorida aprendizagem e os olhos abertos para a tua presença reinaugurada e eterna no efêmero do percurso. Não choraremos mais a partida assim tão de repente. Tua mensagem nos traz tua certeza e se faz oxigênio e soro
em nossa alma tão mísera e pequena na dimensão de tua livre eternidade. Dorme, filho, descansa. Um dia, certo como o Sol na praia de Ipanema, despertaremos na Madrugada do Encontro. Este livro é teu, Flavinho.
Porque houve Cam o esposo bem-amado e Eloá porque o deserto o verde e os dóceis campos da terra de Ararat porque bantos zulus congos angolanos minas cafres antigos agomés nagôs e jejes e tapas e sentys e hauçás porque o mar e os tumbeiros e as parcas porcas no porão a terra verde a madeira brasa e aqueles homens alvos como luas nuas porque rebenques argola tronco e asa fraturada e grito aprisionado e os dentes martelados 12 | 13
e a cirurgia fria dos alicates unhas descarnadas e o arrancar a pele a sangue-frio a morte entre formigas assanhadas a sombra de uma cruz abençoada porque houve ladinos e mães pretas e virgens estupradas ventre alerta porque houve rosauras houve isauras e mestiças e olhares azougados e seios mutilados porque havia cana e o comércio dos ingleses porque houve o ferro e o fogo e a faca a lâmina da faca viva e acesa e o banzo porque houve outrora um rei chamado Ganga Zumba e o imperador Zambi da Troia Negra terra escondida do sabiá perdido Numância reino onde se repartia
e houve amor alimentando luta e as mãos unidas fortes tanto sangue porque se plantou carne e nasceu ouro porque se plantou gente e nasceu seiva de povo e canto porque a infante e santa e bem-amada terra e a semente na encosta verde-sonho braço de bronze ferro aço e coração ternura antiga acalanto lundus calango semba porque houve a nação negra do Quilombo a raça é. Na terra pindorama espinho e casco duro e sobrecarga e mais-valia e senzalas de longa anestesia a raça é. Pingente doente 14 | 15
sofrente carente mas brava mas forte mas filha do norte da morte escrava da música folclore e fazenda de muitos cabrais e festa do povo exotismo ano-novo mulata no mapa pivete na praça e rei que incomoda no olímpico estádio os leões de casaca e cartola e a bola rola frenética histérica o grito unge o mito porque há um rei de coroa abstrata e tênue capa de papel cruel entre sons de violões e zabumbas a socos dos pés a cantiga migalha nas casas de Baco e o suor do sovaco a escorrer sempre mais.
Silêncio, Musa! já não choras mais. A raça dorme o sabiá não canta os dedos repartidos mãos abertas calos perenes sangue arrebatado a vida torta pesado fardo asfáltico ou rural à espera de uma porta a veia frágil o veio fraco, branco. A raça dorme tradição de velhos ancestrais a raça dorme e já não sonha mais o rei de outrora não existe mais e Troia colina sitiada agoniza eterna ao som de velhos carnavais.
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Copyright © 1984 Domício Proença Filho Copyright © 2017 Autêntica Editora
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Cecília Martins Miriam de Carvalho Abões capa
Diogo Droschi diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Filho, Domício Proença, 1936Dionísio esfacelado : (Quilombo dos Palmares) / Domício Proença Filho. -- 2. ed. rev. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. ISBN 978-85-513-0284-2 1. Poesia brasileira I. Título. 17-08015
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Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira 869.1
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