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Jacques, o Sofista

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BARBARA

CASSIN Jacques, o Sofista Lacan, logos e psicanálise

Tradução Yolanda Vilela


OUTROS LIVROS DA FILŌ FILŌ A alma e as formas Ensaios Georg Lukács A aventura da filosofia francesa no século XX Alain Badiou Ciência, um Monstro Lições trentinas Paul K. Feyerabend Em busca do real perdido Alain Badiou Do espírito geométrico e Da arte de persuadir E outros escritos de ciência, política e fé Blaise Pascal A ideologia e a utopia Paul Ricœur O primado da percepção e suas consequências filosóficas Maurice Merleau-Ponty Relatar a si mesmo Crítica da violência ética Judith Butler A teoria dos incorporais no estoicismo antigo Émile Bréhier

A potência do pensamento Ensaios e conferências Giorgio Agamben

Princípios da filosofia cartesiana e Pensamentos metafísicos Espinosa

O tempo que resta Um comentário à Carta aos Romanos Giorgio Agamben

A unidade do corpo e da mente Afetos, ações e paixões em Espinosa Chantal Jaquet

FILŌBATAILLE O erotismo Georges Bataille O culpado Seguido de A aleluia Georges Bataille A experiência interior Seguida de Método de meditação e Postscriptum 1953 Georges Bataille A literatura e o mal Georges Bataille A parte maldita Precedida de A noção de dispêndio Georges Bataille Teoria da religião Seguida de Esquema de uma história das religiões Georges Bataille

FILŌESTÉTICA O belo autônomo Textos clássicos de estética Rodrigo Duarte (Org.) O descredenciamento filosófico da arte Arthur C. Danto Do sublime ao trágico Friedrich Schiller Íon Platão Pensar a imagem Emmanuel Alloa (Org.) FILŌMARGENS O amor impiedoso (ou: Sobre a crença) Slavoj Žižek

A sabedoria trágica Sobre o bom uso de Nietzsche Michel Onfray

Sobre Nietzsche: vontade de chance Georges Bataille

Se Parmênides O tratado anônimo De Melisso Xenophane Gorgia Barbara Cassin

FILŌBENJAMIN

Interrogando o real Slavoj Žižek

O anjo da história Walter Benjamin

Introdução a Foucault Edgardo Castro

A união da alma e do corpo em Malebranche, Biran e Bergson Maurice Merleau-Ponty

Baudelaire e a modernidade Walter Benjamin

Introdução a Jacques Lacan Vladimir Safatle

Imagens de pensamento Sobre o haxixe e outras drogas Walter Benjamin

Kaf ka Por uma literatura menor Gilles Deleuze Félix Guattari

Origem do drama trágico alemão Walter Benjamin

Lacan, o escrito, a imagem Jacques Aubert, François Cheng, Jean-Claude Milner, François Regnault, Gérard Wajcman

A vida psíquica do poder Teorias da sujeição Judith Butler FILŌAGAMBEN Bartleby, ou da contingência Giorgio Agamben seguido de Bartleby, o escrevente Herman Melville A comunidade que vem Giorgio Agamben

Rua de mão única Infância berlinense: 1900 Walter Benjamin Walter Benjamin Uma biografia Bernd Witte

Estilo e verdade em Jacques Lacan Gilson Iannini

O sofrimento de Deus Inversões do Apocalipse Boris Gunjevic Slavoj Žižek

Estética e sociologia da arte Walter Benjamin

Psicanálise sem Édipo? Uma antropologia clínica da histeria em Freud e Lacan Philippe Van Haute Tomas Geyskens

Ideia da prosa Giorgio Agamben

FILŌESPINOSA

ANTIFILŌ

Introdução a Giorgio Agamben Uma arqueologia da potência Edgardo Castro

Breve tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar Espinosa

A Razão Pascal Quignard

Gosto Giorgio Agamben O homem sem conteúdo Giorgio Agamben

Meios sem fim Notas sobre a política Giorgio Agamben Nudez Giorgio Agamben

Espinosa subversivo e outros escritos Antonio Negri


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BARBARA

CASSIN Jacques, o Sofista Lacan, logos e psicanálise

T R A D U Ç Ã O Yolanda Vilela R E V I S Ã O D A T R A D U Ç Ã O E D O S T E R M O S G R E G O S Cláudio Oliveira


Copyright © 2012 Editions EPEL Copyright © 2017 Autêntica Editora Título original: Jacques Le Sophiste: Lacan, logos et psychanalyse Publicado por meio de acordo com Agence litteraire Pierre Astier & Associés. Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. coordenador da coleção filô

editora responsável

Gilson Iannini

Rejane Dias

conselho editorial Gilson Iannini (UFMG); Barbara Cassin (Paris); Carla Rodrigues (UFRJ); Cláudio Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUCRio); Ernani Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); João Carlos Salles (UFBA); Monique David-Ménard (Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind (UFF); Rogério Lopes (UFMG); Rodrigo Duarte (UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP)

editora assistente

Cecília Martins revisão

Aline Sobreira projeto gráfico

Diogo Droschi capa

Alberto Bittencourt (sobre foto de Giancarlo BOTTI/ Gamma-Rapho/Getty Images) diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cassin, Barbara Jacques, o sofista : Lacan, logos e psicanálise / Barbara Cassin ; tradução Yolanda Vilela ; revisão da tradução Cláudio Oliveira. -1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Filô) Título original: Jacques le Sophiste : Lacan, logos et psychanalyse. ISBN 978-85-513-0280-4 1. Lacan, Jacques, 1901-1981 - Crítica e interpretação 2. Psicanálise 3. Sofismos I. Título. II. Série. 17-07043

CDD-150.195

Índices para catálogo sistemático: 1. Lacan, Jacques : Psicanálise 150.195

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312. Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.grupoautentica.com.br

Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975


Não sei como proceder, por que não dizê-lo, com a verdade – assim como com a mulher. Eu disse que tanto uma quanto a outra, ao menos para o homem, era a mesma coisa. Jacques Lacan. Mais, ainda Trente-six fesses font dix-huit culs [Trinta e seis nádegas fazem dezoito bundas] Jeanne Bréchon, dita “Tomère”


Nota da tradutora Em Jacques, o Sofista, a maioria das citações foi traduzida livremente a partir das versões francesas utilizadas pela autora. Sempre que possível, foram indicadas as correspondências com versões brasileiras disponíveis das obras referidas. Quanto às citações de textos de J. Lacan, foram utilizadas as edições da Jorge Zahar e da revista Opção lacaniana. Sempre que necessário, foram realizadas ligeiras modificações nas traduções referidas. No caso de citações de S. Freud, foram indicadas, apenas para fins de cotejo, as edições brasileiras traduzidas diretamente do original alemão disponíveis, mesmo quando a tradução foi realizada a partir da versão francesa utilizada pela autora. Especialmente no livro sobre os chistes, acentuadas diferenças entre as versões brasileiras e a versão francesa justificam a estratégia. As citações de textos e termos gregos foram revisadas e cotejadas com os originais por Cláudio Oliveira. Yolanda Vilela


Prólogo “Que gentileza me reconhecer”

– Alô, Lacan? – Certamente não.

Vocês se lembram do que dizia Lacan, sobre agalma, na “Proposição de 9 de outubro de 1967”? “Como todos os casos particulares que compõem o milagre grego, esse só nos apresenta fechada a caixa de Pandora. Aberta, ela é a psicanálise, da qual Alcibíades não precisava.”1 À guisa de prólogo, eu gostaria de apresentar uma caixa de Pandora fechada, a Grécia de longe, tal como ela chega aos filólogos-filósofos, esses centauros mancos à la Nietzsche. Ela, ou melhor, seus textos, sobretudo os seus textos pré-socráticos, entre os quais se encontram os textos dos sofistas, chegam-nos por fragmentos, através do que chamamos “doxografia”, e caberá a vocês abri-la, mesmo que as fechaduras faltem ainda mais que as chaves. Essa questão da relação entre transmissão da Antiguidade, via escolas e textos, e transmissão da psicanálise foi-me colocada LACAN, J. Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’école. In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 251. [Ed. bras.: LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 256.]

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outrora por Ezequiel de Olaso, um amigo argentino, hoje falecido, muito próximo de Borges. Respondi-lhe inicialmente com uma anedota – toda a doxografia, como iremos ver, é repleta de anedotas. Contei-lhe em que circunstâncias Lacan me pedira para lhe falar da doxografia; isso deve ter sido por volta de 1975. Gloria telefonou-me num domingo de manhã, eu estava em minha casa de campo. Desci do cavalo completamente ofegante, correndo em direção ao telefone (nós tínhamos naquela época mais de 20 cavalos em nossa casa de guarda florestal, para treiná-los para serem profissionais). Gloria, a secretária em geral do grande médico em geral – um tipo de universal análogo àquele das maçãs que Chirac comia, exergo dos Universais de Alain de Libera: “Eu gosto das maçãs em geral”. Acontece que meu tio também era um grande médico, residente, aliás, ao mesmo tempo que Lacan e com Lacan (toda a sala de plantão, exasperada, havia, teria, dizem – phêsin –, feito Lacan comer uma placenta ao molho, bem preparada). “Não desligue, o doutor vai falar com a senhora.” “Alô”, diz o doutor, e eu: “Olá! Como vai você?” “Que gentileza me reconhecer. Jacques Lacan.” Jacques Lacan, que eu jamais encontrara, e não Jacques Caroli. Essa história é para assinalar sob qual signo misfit começou minha relação com Lacan e como se tocaram suavemente, de início, doxografia e psicanálise. Supus, certamente, que algum analisando tivesse falado de mim sobre um divã coisas piores do que aquelas que se diz na cama, e do efeito produzido quando eu cobrava aulas particulares desses analistas supostos saber e que queriam aprender, verdadeiramente loucos de desejo de saber, tanto filó-sofos como sofó-filos, amantes do saber e sábios no amor. Líamos, então, no texto, não somente o Fedro, de Platão, mas toda a fonte que mesmo Lacan, assim como Freud, não tinha em estoque, começando pela Teogonia, de Hesíodo, texto a partir do qual, 10

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do incesto à emasculação do filho pelo pai, com Gaia, a Terra, protegendo seus filhos em suas entranhas para que Urano, o Céu, não os devorasse, e Cronos, o filho deles, castrando o pai, cujo esperma, ao tocar a água, criou Afrodite, até que seu filho Zeus o castrasse por sua vez, qualquer Édipo ganhava uma força muito mais crua. Era o momento em que Lacan agitava nós borromeanos em seu consultório, um momento muito particular, um momento tardio em que ele procurava não tanto fazer escola, o que ele já tinha feito havia muito tempo, mas o que fazer com a sua escola, o que ele não cessou de buscar até a sua dissolução e para além dela. Fui regular e pontualmente à Rue de Lille, digamos, uma manhã a cada 15 dias durante longos meses (se me esqueci das datas e das horas, lembro-me das roupas que eu tinha comprado para ir encontrá-lo). Uma manhã, sentado de costas em sua mesa de trabalho, manipulando seus nós, ele me disse: a senhora vá falar com Gloria. De olhos abertos em direção às suas costas respondi: “Enfim, o senhor vai me pagar?”. Ele se voltou, ilegível e com os olhos opacos ou turvos atrás das lentes dos óculos, e proferiu: “A senhora é mesmo Stéphanie Gilot?”. Fui falar com Gloria, ninguém pagou ninguém. Eu disse ou apenas pensei alto o bastante para que isso não pudesse não ser ouvido: é o retorno ao ponto de partida, acabou-se porque isso acaba como começou, por um erro quanto à pessoa. Que gentileza me reconhecer, Jacques Lacan/A senhora é mesmo Stéphanie Gilot, um duplo malentendido cheio de ardor, que me coloca em meu lugar, para começar, e que me deixa, para terminar, a oportunidade e o cuidado de concluir. Ele deixa tudo mais leve. O erro-de-ida havia liberado a possibilidade imprevisível de me encontrar PRÓLOGO: “QUE GENTILEZA ME RECONHECER”

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com ele e me ter encontrado catapultada a uma posiçãomestre destituída logo de entrada; após um ano de angústia crescente em que um canto da minha cabeça não cessava de afiar e voltar para ele o que eu podia ter a dizer a partir da minha filologia-filosofia de menos de 30 anos, tanto mais duramente rigorosa quanto frágil, o erro-de-volta operava o “tibum” de um final com toda a plumagem do kairos. Era, então, verdade: que ele não escutava, que ele esperava entender, que ele não entendia nada dos meus textos escolhidos nem de minhas demonstrações e hipóteses. Ou pior. Mas que estranha maníaca era eu, portanto, em grego no texto. É ao escrever isso hoje que penso, com efeito: 1. Que isso não deixou de determinar minha relação com a psicanálise. Não vale a pena procurar um psicanalista, os adoráveis mal-entendidos ordinários são cheios de eficácia.2 2. Que isso não deixou de determinar minha relação com a ciência dos helenistas. A exposição de doutrinas e achados, o conhecimento é – tanto pior para os peers, os que desprezam –, antes de tudo, um discurso. Lacan tinha, portanto, curiosidade em aprender com as primeiras grandes transmissões como fazer passar, através de sua escola, a si mesmo e a psicanálise. Inútil assinalar que, em francês, “fazer passar” quer dizer também abortar – fazer passar uma criança. Como se a série de dispositivos teóricos e práticos que ele havia criado, todas as suas mêkhanai (maquinações, máquinas e mecanismos), os Escritos, os seminários, os matemas, a escola, o passe, os cartéis, o cardo não bastassem. Ele buscava uma caixa de Pandora como a “‘Não sabemos nem mesmo se o inconsciente tem um ser próprio’, escreve Lacan”, escreve J.-A. Miller (MILLER, J.-A. Vie de Lacan. La Cause Freudienne, n. 79, 2011, p. 320), “e ele chega a dizer que quanto mais ele é interpretado, mais ele é”. Estaria eu querendo dizer que meu inconsciente “é” o bastante assim? [Ed. bras.: MILLER, J.-A. Vida de Lacan: escrita para a opinião esclarecida. São Paulo: Lituraterra, 2011.]

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doxografia. Lembro a conclusão do Congrès sur la Transmission, de junho de 1979: [...] minha proposição, aquela que instaura o que se chama o passe, no qual confio em alguma coisa que se chamaria transmissão, caso houvesse uma transmissão da psicanálise. Tal como a concebo agora, a psicanálise é intransmissível. Isso é muito desagradável. É bem desagradável que cada psicanalista seja forçado – pois é preciso que ele seja forçado a isso – a reinventar a psicanálise.

Eis, portanto, o momento em que Lacan precisava que lhe falassem da doxografia. O que se segue é grosso modo o que eu lhe contei e que, sem dúvida, com toda razão, o adormeceu. É por isso que vocês podem, se preferirem, passar diretamente para a segunda parte.

PRÓLOGO: “QUE GENTILEZA ME RECONHECER”

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